Ruídos Hidroaéreos: Saiba Interpretar

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Conteúdo Atualizado! Revisado e atualizado em 06/09/2026.

Na avaliação abdominal, ouvir um “barulho” não é suficiente para dizer que o intestino está funcionando bem. O verdadeiro valor dos ruídos hidroaéreos (RHA) está em relacionar o que se escuta com aquilo que o paciente apresenta.

O que são os ruídos hidroaéreos?

Os RHA, também chamados de ruídos intestinais ou peristálticos, são sons produzidos pela movimentação de gases, líquidos e conteúdo intestinal através do trato gastrointestinal. Podem ser percebidos como estalos, cliques, borbulhamentos ou sons mais prolongados, com frequência e intensidade variáveis.

Eles refletem a atividade motora do intestino, mas não funcionam como um “medidor” preciso do peristaltismo. Um paciente pode apresentar sons audíveis mesmo com motilidade intestinal comprometida, e a presença de RHA não confirma que o trânsito intestinal esteja normal.

Como realizar a ausculta

No exame abdominal, a sequência recomendada começa pela inspeção, seguida da ausculta e só depois da percussão e palpação. A manipulação do abdome pode modificar a atividade intestinal e interferir no que será auscultado.

Com o paciente confortavelmente em decúbito dorsal, utiliza-se o diafragma do estetoscópio com pressão suave. Tradicionalmente, inicia-se pelo quadrante inferior direito e segue-se pelos demais quadrantes. Atualmente, porém, não há necessidade de transformar a ausculta em uma contagem rígida de “5, 10 ou 35 ruídos por minuto”, porque a atividade intestinal varia consideravelmente.

RHA normais, aumentados ou diminuídos

Os sons podem ser descritos conforme presença, frequência aproximada e características, evitando classificações excessivamente rígidas.

Os chamados ruídos hiperativos podem ocorrer quando há aumento da atividade intestinal, como em alguns quadros de diarreia e, especialmente, em fases de determinadas obstruções mecânicas. Sons mais agudos ou “tilintantes” podem aparecer em obstruções, mas esse achado possui baixa precisão diagnóstica quando considerado isoladamente.

Já os ruídos hipoativos ou ausentes podem aparecer no íleo, após determinadas cirurgias, em processos inflamatórios e em outras situações que reduzem a motilidade. A ausência verdadeira de sons, entretanto, não deve ser declarada rapidamente apenas porque o estetoscópio ficou alguns segundos sobre o abdome. Protocolos de ensino recomendam um período prolongado de ausculta quando os sons não são identificados.

Um ponto importante para provas e para a prática: não existe um número universal de RHA por minuto que, sozinho, defina normalidade ou doença. A classificação tradicional em “hipoativo, normoativo e hiperativo” pode ser usada na documentação conforme protocolo institucional, mas deve ser interpretada com cautela.

Quando o achado realmente chama atenção

O contexto é o que muda a importância do achado.

Paciente com distensão abdominal, dor progressiva, vômitos e dificuldade para eliminar gases ou fezes merece avaliação cuidadosa, independentemente de haver ruídos aumentados ou diminuídos. Na suspeita de obstrução intestinal, por exemplo, a ausculta pode acrescentar informação, mas não deve determinar sozinha a conduta.

Imagine um paciente no pós-operatório abdominal que passa a apresentar distensão, náuseas, vômitos e ausência de eliminação de gases. Encontrar poucos ruídos hidroaéreos é relevante, mas o dado ganha muito mais peso quando aparece junto dessas alterações clínicas. Nesse cenário, a enfermagem deve comunicar a mudança e acompanhar a evolução, em vez de registrar apenas “RHA hipoativos”.

Da mesma forma, um paciente com cólica intensa e distensão pode apresentar ruídos agudos e frequentes. Isso pode ocorrer em uma obstrução, mas não permite concluir o diagnóstico apenas pelo estetoscópio. A avaliação precisa avançar para o conjunto de sinais e sintomas e, quando indicado, para exames complementares. Estudos mostram baixa sensibilidade e baixa concordância entre profissionais na interpretação dos sons intestinais.

RHA e íleo paralítico

No íleo paralítico, há redução importante da motilidade intestinal, podendo ocorrer distensão, náuseas, vômitos e redução ou ausência dos ruídos. O quadro é especialmente relevante no período pós-operatório, em pacientes críticos e em situações associadas a alterações metabólicas ou uso de medicamentos que diminuem a motilidade.

Mas há uma armadilha importante: o retorno dos ruídos não significa necessariamente que o íleo tenha resolvido. A evolução deve considerar também dor, distensão, eliminação de gases e fezes, tolerância alimentar, vômitos e o estado clínico geral.

O que a enfermagem deve registrar

Na prática, uma anotação útil é mais informativa do que simplesmente escrever “RHA +++/IV”.

Registre a presença ou ausência dos sons, sua característica geral quando relevante e, principalmente, associe o achado aos demais elementos da avaliação: distensão abdominal, dor, náuseas, vômitos, evacuação, eliminação de flatos, aceitação da dieta e alterações dos sinais vitais.

Quando houver mudança importante do padrão abdominal, piora da dor, distensão progressiva, vômitos persistentes, sinais de irritação peritoneal ou alteração hemodinâmica, a prioridade é comunicar e investigar a causa, não repetir a ausculta indefinidamente.

Cuidados de enfermagem

A ausculta abdominal deve ser realizada com técnica adequada e integrada à avaliação física completa. Antes de palpar ou percutir, observe o abdome e procure distensão, cicatrizes, abaulamentos e movimentos visíveis.

Na presença de alterações dos RHA, acompanhe a tendência e o quadro clínico. Observe especialmente dor abdominal, aumento do perímetro abdominal, vômitos, eliminação de gases e fezes e mudanças nos sinais vitais.

Evite interpretar RHA isoladamente como diagnóstico de obstrução ou íleo. A literatura mostra que a precisão da ausculta é limitada e que decisões clínicas importantes não devem depender apenas desse achado.

! Atenção na Prova Para guardar para a prova

RHA são sons produzidos pela movimentação de gases e líquidos no trato gastrointestinal.

A ausculta faz parte do exame abdominal e deve preceder palpação e percussão.

RHA aumentados podem aparecer em algumas obstruções e na diarreia; RHA diminuídos ou ausentes podem ocorrer no íleo, mas nenhum desses achados, isoladamente, confirma o diagnóstico.

E talvez essa seja a informação mais importante: não ouvir ruídos não significa automaticamente intestino parado, assim como ouvir ruídos não garante trânsito intestinal normal. O exame físico precisa ser interpretado em conjunto com a história, os sintomas e a evolução do paciente.

Resumo para salvar

Ruídos Hidroaéreos

  • RHA são produzidos pelo movimento de gases e líquidos no intestino
  • A ausculta deve ocorrer antes da palpação e percussão
  • RHA isoladamente não confirmam obstrução ou íleo
  • Sempre relacione os sons aos demais achados clínicos

Referências:

  1. TAN, Laura; et al. Abdomen – Auscultation. In: Introduction to Health Assessment for the Nursing Professional. Toronto: Toronto Metropolitan University, 2024. Disponível em: Toronto Metropolitan University – Abdominal Auscultation.
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  4. GU, Yuqi; LIM, Hyun Ja; MOSER, Michael A. J. How useful are bowel sounds in assessing the abdomen? Digestive Surgery, v. 27, n. 5, p. 422-426, 2010. DOI: 10.1159/000319372. Disponível em: PubMed – How useful are bowel sounds?.
  5. KALIL, A. C. et al. Gastrointestinal function in intensive care patients: terminology, definitions and management. Intensive Care Medicine, 2012. Disponível em: Springer – ESICM recommendations. 
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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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