Indicações e contraindicações do uso de antibióticos: quando utilizar, quando evitar e os principais cuidados na enfermagem

Os antibióticos revolucionaram a medicina moderna e estão entre os medicamentos mais importantes já descobertos. Antes de sua existência, infecções que hoje são facilmente tratadas frequentemente levavam à morte. Atualmente, esses medicamentos salvam milhões de vidas todos os anos, permitindo a realização de cirurgias complexas, transplantes de órgãos, tratamentos oncológicos e o cuidado seguro de pacientes graves.

Entretanto, apesar de sua enorme importância, os antibióticos também estão entre os medicamentos mais utilizados de forma inadequada. Seu uso sem necessidade, em doses incorretas ou por tempo insuficiente contribui diretamente para um dos maiores desafios da saúde mundial: a resistência bacteriana.

Por esse motivo, conhecer as indicações, contraindicações, limitações e cuidados relacionados ao uso dos antibióticos é essencial para estudantes e profissionais da saúde, especialmente para a equipe de enfermagem, que acompanha todo o processo de administração, monitorização e orientação ao paciente.

Aqui você aprenderá quando os antibióticos realmente são indicados, em quais situações não devem ser utilizados, como eles atuam no organismo, seus principais efeitos adversos e quais cuidados de enfermagem garantem uma administração segura.

O que são antibióticos?

Os antibióticos são medicamentos desenvolvidos para combater infecções causadas por bactérias. Eles atuam eliminando as bactérias (efeito bactericida) ou impedindo seu crescimento e multiplicação (efeito bacteriostático), permitindo que o sistema imunológico consiga controlar a infecção.

É importante destacar que antibióticos não combatem vírus, fungos ou parasitas, salvo algumas exceções específicas relacionadas a medicamentos com múltiplas ações.

Como surgiram os antibióticos?

A história dos antibióticos começou em 1928, quando o médico e microbiologista escocês Alexander Fleming observou que um fungo do gênero Penicillium era capaz de impedir o crescimento de bactérias em uma placa de cultura. Essa descoberta levou ao desenvolvimento da penicilina, considerada o primeiro antibiótico da história.

Desde então, centenas de antibióticos foram desenvolvidos, permitindo tratar infecções cada vez mais complexas.

Como os antibióticos funcionam?

Cada antibiótico possui um mecanismo de ação específico. Alguns destroem a parede celular da bactéria. Outros impedem a produção de proteínas essenciais para sua sobrevivência.

Há ainda medicamentos que interferem na síntese do DNA bacteriano ou bloqueiam seu metabolismo. Essa especificidade explica por que nem todo antibiótico serve para tratar qualquer infecção.

Quais são os principais tipos de antibióticos?

Os antibióticos podem ser classificados conforme sua estrutura química e mecanismo de ação.

Entre os grupos mais utilizados estão:

  • Penicilinas
  • Cefalosporinas
  • Carbapenêmicos
  • Monobactâmicos
  • Macrolídeos
  • Aminoglicosídeos
  • Quinolonas (fluoroquinolonas)
  • Tetraciclinas
  • Sulfonamidas
  • Glicopeptídeos
  • Oxazolidinonas
  • Lincosamidas
  • Nitroimidazóis
  • Polimixinas

Cada grupo possui espectro de ação, indicações, contraindicações e efeitos adversos próprios.

Quando os antibióticos são indicados?

Os antibióticos devem ser utilizados somente quando existe suspeita clínica ou confirmação de infecção bacteriana.

As principais indicações incluem:

Pneumonia bacteriana

Uma das indicações mais frequentes. Dependendo da gravidade, o tratamento pode ser realizado por via oral ou endovenosa.

Infecção urinária bacteriana

Principalmente quando há sintomas como:

  • dor ao urinar;
  • aumento da frequência urinária;
  • febre;
  • dor lombar.

Meningite bacteriana

Representa uma emergência médica. O tratamento deve ser iniciado rapidamente.

Sepse

Pacientes com sepse devem receber antibióticos o mais precocemente possível, preferencialmente na primeira hora após o reconhecimento da condição.

Infecções de pele

Como:

  • celulite;
  • erisipela;
  • abscessos (associados à drenagem quando indicada).

Osteomielite

Infecção do tecido ósseo que frequentemente necessita de tratamento prolongado.

Endocardite infecciosa

Infecção grave das válvulas cardíacas.  Geralmente requer antibioticoterapia intravenosa por várias semanas.

Infecções odontológicas bacterianas

Quando existe disseminação da infecção ou comprometimento sistêmico.

Algumas infecções sexualmente transmissíveis

Como:

  • sífilis;
  • gonorreia;
  • clamídia.

Profilaxia cirúrgica

Em determinadas cirurgias, antibióticos são administrados antes da incisão para reduzir o risco de infecção do sítio cirúrgico.

Vale destacar que a profilaxia cirúrgica possui tempo e indicação específicos, não devendo ser prolongada sem justificativa clínica.

Quando os antibióticos NÃO são indicados?

Essa é uma das dúvidas mais importantes. Antibióticos não devem ser utilizados para doenças causadas por vírus.

Entre elas:

  • gripe;
  • resfriado comum;
  • COVID-19 (sem infecção bacteriana associada);
  • dengue;
  • chikungunya;
  • zika;
  • sarampo;
  • rubéola;
  • caxumba;
  • catapora.

Também não são indicados para aliviar sintomas como febre, dor de garganta ou tosse quando a causa é viral. Nessas situações, o tratamento costuma ser apenas sintomático.

Existem contraindicações para o uso de antibióticos?

Sim. Embora muitas vezes sejam indispensáveis, existem situações em que determinados antibióticos não devem ser utilizados. As contraindicações variam conforme o medicamento. Entre as principais estão:

Hipersensibilidade conhecida

É a contraindicação mais importante. Pacientes com histórico de alergia grave a determinado antibiótico não devem recebê-lo novamente, salvo em situações muito específicas e sob supervisão especializada.

Gravidez

Alguns antibióticos apresentam risco fetal.

Exemplos:

  • tetraciclinas;
  • algumas quinolonas.

Outros são considerados seguros quando indicados.

Amamentação

Nem todos os antibióticos são compatíveis com o aleitamento. A decisão depende do medicamento utilizado.

Insuficiência renal

Diversos antibióticos necessitam de ajuste de dose. Sem esse ajuste pode ocorrer toxicidade.

Insuficiência hepática

Alguns medicamentos apresentam metabolismo hepático importante e exigem cautela.

Miastenia gravis

Certos antibióticos, como alguns aminoglicosídeos e fluoroquinolonas, podem agravar a fraqueza muscular.

Crianças

Alguns grupos possuem restrições conforme a idade.

Por exemplo:

  • tetraciclinas podem causar alterações na formação dentária;
  • fluoroquinolonas possuem indicações bastante específicas na população pediátrica.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns?

Os efeitos adversos variam conforme o medicamento.

Os mais frequentes incluem:

  • náuseas;
  • vômitos;
  • diarreia;
  • dor abdominal;
  • alterações do paladar;
  • candidíase oral;
  • candidíase vaginal.

Reações adversas graves

Embora menos frequentes, podem ocorrer:

Essas situações exigem atendimento imediato.

O que é resistência bacteriana?

A resistência bacteriana ocorre quando as bactérias desenvolvem mecanismos que tornam os antibióticos ineficazes.

Isso acontece principalmente devido ao uso inadequado desses medicamentos.

Entre as principais causas estão:

  • automedicação;
  • interrupção precoce do tratamento;
  • uso para infecções virais;
  • doses incorretas;
  • uso indiscriminado na agropecuária.

A Organização Mundial da Saúde considera a resistência bacteriana uma das maiores ameaças atuais à saúde pública.

Por que é importante completar o tratamento?

Mesmo que os sintomas desapareçam rapidamente, algumas bactérias podem permanecer vivas.

Interromper o tratamento antes do tempo favorece:

  • recaídas;
  • resistência bacteriana;
  • infecções mais difíceis de tratar.

Entretanto, é importante ressaltar que atualmente alguns tratamentos possuem duração menor do que antigamente, pois estudos demonstraram que esquemas mais curtos são suficientes para determinadas infecções. O tempo correto deve sempre seguir a prescrição médica e os protocolos clínicos.

Antibióticos podem ser usados como prevenção?

Sim, mas apenas em situações específicas.

Entre elas:

  • profilaxia cirúrgica;
  • algumas mordeduras de animais;
  • prevenção de endocardite em pacientes de alto risco submetidos a determinados procedimentos;
  • profilaxia pós-exposição em algumas doenças infecciosas.

O uso preventivo indiscriminado não é recomendado.

Cuidados de enfermagem na administração de antibióticos

A equipe de enfermagem desempenha um papel fundamental para garantir a segurança e a eficácia da antibioticoterapia.

Antes da administração, é importante:

  • confirmar os “certos” da administração de medicamentos;
  • verificar histórico de alergias, especialmente a penicilinas, cefalosporinas e outros antimicrobianos;
  • conferir dose, diluição, tempo de infusão e compatibilidade quando administrado por via intravenosa;
  • observar função renal e hepática quando indicado;
  • avaliar cultura e antibiograma disponíveis, conforme prescrição médica.

Durante a administração, o profissional deve:

  • respeitar o tempo de infusão recomendado;
  • monitorar sinais de reação alérgica;
  • observar o acesso venoso para identificar sinais de infiltração ou flebite;
  • monitorar sinais vitais quando necessário.

Após a administração:

  • registrar o medicamento administrado;
  • acompanhar a resposta clínica;
  • monitorar possíveis efeitos adversos;
  • orientar o paciente sobre a importância de completar o tratamento conforme prescrição.

Curiosidades sobre os antibióticos

A penicilina foi responsável por reduzir drasticamente a mortalidade por infecções bacterianas durante a Segunda Guerra Mundial. Nem toda febre significa necessidade de antibiótico.

Existem bactérias naturalmente resistentes a determinados medicamentos. O antibiograma é um exame laboratorial que identifica quais antibióticos são eficazes contra determinada bactéria.

Os programas de Antimicrobial Stewardship (Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos) têm como objetivo promover o uso racional de antibióticos, reduzindo a resistência bacteriana e melhorando os resultados clínicos.

Os antibióticos transformaram a medicina e continuam sendo essenciais no tratamento de inúmeras infecções bacterianas. No entanto, seu uso deve ser criterioso, baseado em avaliação clínica, exames complementares quando necessários e protocolos atualizados.

Para a enfermagem, compreender as indicações, contraindicações, mecanismos de ação e principais cuidados relacionados à antibioticoterapia é indispensável para oferecer uma assistência segura e de qualidade. Além da administração correta, a orientação ao paciente e a vigilância de reações adversas são etapas fundamentais para garantir o sucesso do tratamento e contribuir para o combate à resistência bacteriana.

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Resistência Antimicrobiana em Serviços de Saúde. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br.
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA (SBI). Diretrizes para o uso de antibióticos. São Paulo: SBI, 2024. Disponível em: https://infectologia.org.br/.
  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa
  5. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Antimicrobial resistance. Genebra: WHO. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/antimicrobial-resistance
  6. KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 16. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  7. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.
  8. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

EXPERIÊNCIA E ÁREAS DE CONHECIMENTO
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Conteúdo produzido com base em conhecimento, experiência profissional e educação em enfermagem.