
🔄
Conteúdo Atualizado!
Revisado e atualizado em 10/09/2026.
Na sala cirúrgica, conhecer o nome de uma pinça é apenas o começo. O verdadeiro domínio da instrumentação cirúrgica está em antecipar o próximo tempo operatório, manter o campo organizado e, principalmente, não perder de vista a segurança do paciente.
A instrumentação cirúrgica é uma atividade de enfermagem, mas não é ato privativo da enfermagem. Quando realizada por profissional de enfermagem, a Resolução Cofen nº 214/1998 estabelece sua subordinação ao enfermeiro responsável técnico pela unidade. Na prática, o instrumentador precisa dominar os instrumentais, os tempos cirúrgicos, os princípios de técnica asséptica e a dinâmica do procedimento.
Os quatro tempos cirúrgicos
Os tempos cirúrgicos ajudam a organizar a sequência do procedimento e também orientam a escolha e a disposição dos instrumentais.
Diérese é a separação dos tecidos para permitir o acesso à região operatória. Pode envolver incisão, punção, divulsão, dilatação, curetagem e outras técnicas, conforme o procedimento.
Hemostasia reúne as manobras destinadas a prevenir ou controlar o sangramento, utilizando recursos como compressão, pinçamento, ligadura, eletrocirurgia e agentes hemostáticos.
Exérese corresponde à intervenção propriamente dita, incluindo a exploração e a retirada de tecido ou órgão quando essa for a finalidade do procedimento.
Síntese é a aproximação dos tecidos ao final da intervenção, geralmente por meio de suturas, com o objetivo de restabelecer a continuidade tecidual.
Durante uma cirurgia abdominal, por exemplo, a mudança rápida de uma tesoura de dissecção para uma pinça hemostática e, posteriormente, para o porta-agulha acompanha exatamente essa evolução dos tempos cirúrgicos. É por isso que a mesa organizada não é apenas uma questão de estética: ela reduz atrasos e facilita a resposta da equipe.
Principais instrumentais cirúrgicos
Os instrumentos podem ser agrupados conforme sua finalidade. Entre os mais conhecidos estão os de diérese, hemostasia, síntese, preensão e afastamento.
Nos instrumentos de diérese aparecem bisturis e tesouras, como a Metzenbaum e a Mayo, escolhidas conforme o tecido e a finalidade. Na hemostasia são comuns pinças como Kelly, Crile e Halsted. Para síntese, destacam-se os porta-agulhas, como Hegar e Mathieu. Já as pinças anatômicas, dente de rato, Allis e outras são utilizadas para diferentes formas de preensão, enquanto afastadores como Farabeuf e Volkmann auxiliam na exposição do campo.
A indicação exata de cada instrumento depende da especialidade, do procedimento e da preferência técnica da equipe. Por isso, decorar nomes sem compreender sua função costuma ser menos útil do que relacionar instrumental + finalidade + tempo cirúrgico.
O trabalho do instrumentador
Antes da incisão, o instrumentador participa da preparação da mesa, confere os materiais necessários, organiza os instrumentos de acordo com a sequência esperada e mantém atenção permanente à técnica asséptica.
Durante o procedimento, acompanha o ritmo do cirurgião, entrega os instrumentos de maneira segura, antecipa necessidades previsíveis e comunica a falta ou necessidade de materiais complementares. A comunicação precisa ser objetiva, porque uma solicitação mal compreendida dentro de um campo operatório pode interromper o fluxo do procedimento.
Em uma situação comum de sala, o cirurgião solicita uma pinça específica enquanto o procedimento já está avançando para a hemostasia. O instrumentador que conhece a sequência e a disposição da mesa consegue localizar o instrumento imediatamente, sem precisar interromper a dinâmica para procurar entre vários materiais.
Ao final, a conferência dos instrumentos, compressas e materiais perfurocortantes é parte essencial da segurança. A Lista de Verificação de Cirurgia Segura da OMS inclui essa conferência antes da saída do paciente da sala operatória.
Instrumentação e segurança do paciente
A instrumentação está diretamente relacionada à cirurgia segura. Identificação correta do paciente, procedimento e sítio cirúrgico, comunicação da equipe, conferência de materiais e contagem de instrumentos, compressas e perfurocortantes formam barreiras contra eventos evitáveis.
A RDC Anvisa nº 36/2013 estabelece ações para segurança do paciente nos serviços de saúde e inclui a segurança cirúrgica entre os processos que devem integrar a gestão de riscos.
Por isso, a contagem não deve ser encarada como uma simples tarefa burocrática. Se houver discrepância, a equipe deve interromper o fechamento conforme o protocolo institucional e realizar a investigação necessária antes da conclusão do procedimento.
Do centro cirúrgico para o CME
Terminada a cirurgia, o trabalho com o instrumental não termina. Os produtos reutilizáveis precisam seguir o fluxo estabelecido para processamento, respeitando as etapas de pré-limpeza quando aplicável, transporte, limpeza, inspeção, preparo, esterilização ou desinfecção conforme a classificação e as características do produto, armazenamento e distribuição.
A RDC Anvisa nº 15/2012 determina que cada etapa do processamento de instrumentais cirúrgicos siga POP baseado em evidências científicas atualizadas e na regulamentação pertinente, além de estabelecer requisitos de rastreabilidade e controle do processamento.
Esse cuidado é especialmente importante quando um instrumental apresenta sujidade residual, dano ou alteração de funcionamento. Ele não deve simplesmente retornar à mesa porque “parece limpo”; precisa passar pela avaliação e pelo fluxo definido pelo CME.
Cuidados de enfermagem
Na instrumentação cirúrgica, alguns cuidados são indispensáveis:
- conferir materiais, integridade das embalagens e funcionamento dos instrumentos antes do procedimento;
- manter técnica asséptica e preservar a esterilidade do campo;
- organizar a mesa de acordo com o procedimento e os tempos cirúrgicos;
- acompanhar e registrar as contagens conforme protocolo institucional;
- comunicar imediatamente qualquer divergência, quebra ou perda de instrumental;
- encaminhar os materiais reutilizáveis ao fluxo correto de processamento no CME;
- participar da comunicação e da Lista de Verificação de Cirurgia Segura.
O objetivo não é apenas entregar o instrumento certo no momento certo. É manter um processo previsível, seguro e rastreável durante toda a cirurgia.
Para memorizar para a prova
!
Atenção na Prova
Diérese → abre ou separa.
Hemostasia → controla o sangramento.
Exérese → realiza a retirada/intervenção.
Síntese → aproxima e fecha os tecidos.
Essa sequência continua sendo uma das formas mais rápidas de organizar o raciocínio sobre instrumentação cirúrgica e costuma aparecer em avaliações de enfermagem.
- Conheça os quatro tempos cirúrgicos
- Associe os instrumentais às suas funções
- A contagem de materiais é uma barreira de segurança
- O instrumental reutilizável deve seguir o fluxo do CME
Referências:
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 15, de 15 de março de 2012. Dispõe sobre requisitos de boas práticas para o processamento de produtos para saúde. Brasília, DF: Anvisa, 2012. RDC Anvisa nº 15/2012
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde. Brasília, DF: Anvisa, 2013. RDC Anvisa nº 36/2013
- BRASIL. Ministério da Saúde; ANVISA; FIOCRUZ. Protocolo para cirurgia segura. Brasília, DF, 2013. Protocolo para Cirurgia Segura
- COFEN. Resolução Cofen nº 214/1998. Dispõe sobre a Instrumentação Cirúrgica. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Enfermagem, 1998. Resolução Cofen nº 214/1998
- OLIVEIRA, Rita de Cássia Burgos de; TURRINI, Ruth Natalia Teresa. Tempos cirúrgicos, eletrocirurgia e laser. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, 2007. Repositório USP – Tempos cirúrgicos
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO Surgical Safety Checklist. Geneva: WHO. WHO – Surgical Safety Checklist
Você precisa fazer login para comentar.