
Vá direto ao ponto!
Na UTI, nem todo paciente com delirium está gritando, tentando arrancar o tubo ou ficando agressivo. Alguns ficam quietos demais, sonolentos e aparentemente “tranquilos”. É justamente esse delirium hipoativo que pode passar despercebido, por isso a avaliação regular é mais importante do que esperar uma mudança comportamental evidente. As diretrizes PADIS recomendam que pacientes críticos sejam avaliados regularmente com uma ferramenta validada.
Comece pelo nível de consciência
Antes de aplicar uma escala de delirium, avalie o nível de sedação e consciência. Na prática, a RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale) é frequentemente utilizada para determinar o grau de agitação ou sedação e verificar se o paciente pode ser avaliado adequadamente.
Se o paciente estiver profundamente sedado ou em coma, a avaliação pelo CAM-ICU pode não ser aplicável naquele momento. Quando estiver suficientemente desperto, entra a investigação específica do delirium.
CAM-ICU: o passo a passo
O CAM-ICU avalia quatro características principais:
- Início agudo ou curso flutuante: houve mudança recente do estado mental ou oscilação durante o dia?
- Desatenção: o paciente consegue manter e direcionar a atenção adequadamente?
- Alteração do nível de consciência: existe um nível de consciência diferente de alerta, conforme a avaliação clínica?
- Pensamento desorganizado: o paciente apresenta respostas incoerentes ou dificuldade importante para organizar o pensamento?
Para caracterizar delirium pelo CAM-ICU, é necessário haver início agudo ou curso flutuante + desatenção, associado a alteração do nível de consciência ou pensamento desorganizado. A aplicação costuma levar apenas alguns minutos quando a equipe está treinada.
Um detalhe que faz diferença no plantão é não interpretar apenas a agitação como sinal de delirium. Já aconteceu de um paciente intubado permanecer praticamente imóvel durante horas, mas, ao conversar com ele e testar a atenção, ficar evidente que não conseguia acompanhar comandos simples e apresentava flutuação importante do estado mental. Esse tipo de alteração pode ser perdido quando a equipe olha somente para o comportamento motor.
Encontrou delirium? Agora procure a causa
Identificar o delirium é apenas uma parte do protocolo. Depois do resultado positivo, é necessário investigar fatores potencialmente reversíveis, como dor, hipóxia, infecção, alterações metabólicas, distúrbios hidroeletrolíticos, retenção urinária, constipação, privação de sono, abstinência e exposição a medicamentos associados ao risco de delirium.
O uso de benzodiazepínicos é um dos fatores modificáveis associados ao delirium em pacientes críticos, e as diretrizes recomendam estratégias que reduzam fatores de risco modificáveis, melhorem o sono, favoreçam mobilidade e mantenham audição e visão quando possível.
Menos sedação quando for seguro
O objetivo não é simplesmente deixar o paciente “bem sedado”. Sempre que clinicamente possível, a equipe deve buscar uma sedação compatível com a condição do paciente, evitando exposição desnecessária a sedativos.
Na atualização PADIS de 2025, a SCCM sugere dexmedetomidina em vez de propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em adultos sob ventilação mecânica. A mesma atualização não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratar delirium na UTI.
Na rotina, isso pode aparecer em uma situação simples: durante a passagem de plantão, o paciente que estava acordado e interagindo passa a apresentar agitação após uma noite praticamente sem dormir. Antes de concluir que “precisa de mais sedação”, vale revisar dor, ambiente, oxigenação, retenção urinária, medicamentos e orientação temporal. Muitas vezes, a primeira intervenção é corrigir o fator desencadeante, e não simplesmente aumentar o sedativo.
O cuidado não termina no CAM-ICU
O manejo do delirium envolve medidas não farmacológicas em conjunto. Reorientar o paciente, manter relógio e calendário visíveis, favorecer contato com familiares quando apropriado, reduzir ruído e luminosidade durante a noite, preservar o ciclo sono-vigília, utilizar óculos e aparelhos auditivos quando disponíveis e estimular mobilização segura fazem parte de uma abordagem multimodal.
O bundle ABCDEF da SCCM organiza essas ações dentro de uma estratégia que inclui avaliação e manejo da dor, testes de despertar e respiração espontânea quando indicados, escolha adequada de analgesia e sedação, avaliação do delirium, mobilização precoce e participação da família.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem tem papel central porque acompanha continuamente mudanças pequenas que podem não aparecer em uma avaliação isolada. Registre o nível de consciência e sedação, aplique o instrumento institucional de delirium conforme treinamento, observe flutuações ao longo do turno e comunique alterações relevantes.
Também vale revisar dor, sono, oxigenação, dispositivos, eliminação, hidratação, medicamentos e ambiente. Evite estímulos desnecessários durante a noite, mantenha comunicação clara e reoriente o paciente sempre que necessário.
Um protocolo simples para guardar: avaliar sedação → aplicar ferramenta validada quando possível → identificar delirium → procurar causas reversíveis → revisar sedação e medicamentos → favorecer sono, orientação e mobilidade → reavaliar regularmente.
O delirium na UTI não é apenas uma alteração comportamental. É uma condição dinâmica, que pode oscilar ao longo do mesmo turno. Por isso, uma avaliação negativa pela manhã não significa que o paciente permanecerá sem delirium à tarde.
Protocolo de Delirium na UTI
- Avalie sedação e nível de consciência antes do CAM-ICU
- Identifique início agudo, desatenção e alterações cognitivas
- Procure causas reversíveis e revise medicamentos e sedação
- Favoreça sono, orientação, mobilidade e reavaliação contínua
Referências:
- DEVLIN, John W. et al. Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 46, n. 9, p. e825-e873, 2018. DOI: 10.1097/CCM.0000000000003299. SCCM – PADIS Guidelines
- LEWIS, Kimberley et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. SCCM – Focused Update PADIS 2025
- SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. ICU Liberation Bundle (A-F). Mount Prospect: SCCM. SCCM – ICU Liberation Bundle
- SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Diretrizes PADIS: tradução oficial em português. Mount Prospect: SCCM. Diretrizes PADIS em português
FAST HUGS BID: uma abordagem sistematizada para o cuidado diário do paciente crítico
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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