Balanço Hídrico Rigoroso: O Que Estou Esquecendo?

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balanço hídrico

Quando o paciente está com balanço hídrico rigoroso, não basta olhar para a bolsa de soro e para a diurese. O que realmente importa é conseguir reconstruir, ao final do período, quanto entrou, quanto saiu e como o organismo respondeu a essa movimentação.

O que entra também merece atenção

Na entrada, muita gente lembra do soro e esquece o restante. Devem ser considerados, conforme o protocolo institucional, líquidos por via oral, dieta enteral, água administrada pela sonda, soluções utilizadas em medicamentos, hemoderivados e outras infusões que efetivamente representem volume.

Uma cena bastante comum no plantão é a dieta enteral estar corretamente registrada, enquanto os volumes de água administrados pela sonda ficam fora da anotação. Algumas horas depois, o balanço parece negativo, quando parte da entrada simplesmente não foi contabilizada. Protocolos institucionais reforçam justamente a necessidade de registrar as diferentes fontes de entrada e saída de forma rastreável.

E as saídas que costumam passar despercebidas?

A diurese é importante, mas não é a única saída. É preciso observar vômitos, evacuações líquidas quando mensuráveis, drenagens de drenos, débito de sondas, aspirações e outras perdas quantificáveis.

Em uma situação prática de UTI, imagine um paciente com sonda vesical, dreno torácico e sonda nasogástrica. Se a diurese foi anotada corretamente, mas o débito do dreno e o volume aspirado da sonda ficaram para depois, o cálculo final já começa comprometido. O registro deve acompanhar o evento, e não depender exclusivamente da memória no final do plantão.

Outro detalhe importante: existem perdas que não conseguimos medir diretamente, chamadas de perdas insensíveis, relacionadas principalmente à pele, respiração e trato gastrointestinal. Por isso, o balanço registrado não representa necessariamente toda a água que o organismo perdeu.

Balanço positivo ou negativo não é diagnóstico sozinho

A conta é simples:

Balanço hídrico = volume de entradas − volume de saídas

Se entram 2.500 mL e saem 1.800 mL:

2.500 − 1.800 = +700 mL

O resultado é positivo em 700 mL.

Mas o número isolado não deve ser interpretado fora do contexto. O significado de um balanço positivo ou negativo depende do quadro clínico, da função renal, da condição cardíaca, das perdas, das metas terapêuticas e da evolução do paciente. Peso, edema, pressão arterial, frequência cardíaca, ausculta pulmonar, estado mental e débito urinário ajudam a interpretar o resultado.

Um estudo brasileiro com pacientes de UTI ilustra bem por que esse número precisa ser lido em conjunto com o quadro clínico, e não isoladamente: entre pacientes que apresentaram balanço hídrico negativo superior a 1 litro nas 48 horas após a extubação, apenas 12% tiveram falha na extubação — contra 34,2% entre aqueles com balanço negativo menor que 1 litro no mesmo período. O dado não significa que “quanto mais negativo, melhor” em qualquer situação; significa que o mesmo número (balanço negativo) pode ter peso clínico muito diferente dependendo do contexto em que aparece, reforçando por que a interpretação isolada do valor raramente conta a história toda.

Um número merece atenção especial

Em adultos, uma diurese inferior a 0,5 mL/kg/h é um parâmetro utilizado para identificar redução importante do débito urinário, embora a interpretação precise considerar o contexto clínico e os critérios adotados pelo serviço. Em um paciente de 70 kg, por exemplo, isso corresponde a menos de aproximadamente 35 mL/h.

Cuidados de enfermagem

No balanço hídrico rigoroso, a enfermagem precisa:

  • registrar entradas e saídas no momento em que acontecem;
  • conferir os volumes administrados por diferentes vias;
  • mensurar corretamente diurese e demais eliminações quantificáveis;
  • acompanhar débitos de drenos e sondas;
  • realizar a soma parcial e final conforme rotina institucional;
  • observar tendência do balanço, e não somente o resultado de um período;
  • correlacionar o balanço com sinais vitais, edema, ausculta pulmonar, peso e estado clínico;
  • comunicar alterações relevantes e registrar as condutas adotadas.

O peso também pode ser uma informação valiosa. Mudanças rápidas de peso podem acompanhar alterações importantes no volume de líquidos e devem ser avaliadas junto aos demais dados clínicos.

Antes de fechar o balanço, faça esta pergunta

“Eu registrei tudo que entrou e tudo que saiu ou apenas aquilo que era mais fácil de lembrar?”

Essa pergunta evita um dos principais problemas do balanço rigoroso: transformar uma informação clínica importante em uma simples conta de enfermagem.

No final, o objetivo não é apenas chegar a um número positivo ou negativo. É produzir um dado confiável para acompanhar a evolução do paciente e ajudar a equipe a tomar decisões com mais segurança.

Resumo para salvar

Balanço Hídrico Rigoroso

  • Registrar todas as entradas
  • Mensurar corretamente as saídas
  • Acompanhar diurese e tendências
  • Relacionar o balanço ao quadro clínico

Referências

  1. ERNSTMEYER, K.; CHRISTMAN, E. (ed.). Nursing Fundamentals. 2. ed. Eau Claire: Chippewa Valley Technical College, 2024. Disponível em: NCBI Bookshelf. 
  2. SANTOS, Priscila Albrecht dos; RIBAS, Alexandre; QUADROS, Thiele Cabral Coelho; BLATTNER, Clarissa Netto; BONIATTI, Márcio Manozzo. O balanço hídrico pós-extubação se associa com falha da extubação: um estudo de coorte. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2021. DOI: 10.5935/0103-507X.20210057. Disponível em: Balanço Hídrico Pós-Extubação — RBTI.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de cuidado: insuficiência cardíaca no adulto. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: Linha de Cuidado da Insuficiência Cardíaca. 
  4. COFEN. Assistência de enfermagem na realização do balanço hídrico do paciente hospitalizado. Anais do CBCENF. Disponível em: Anais do CBCENF. 
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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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