
Vá direto ao ponto!
Na segurança do paciente, às vezes uma única etapa separa um quase erro de um evento adverso. Por isso, para entender o que aconteceu, não basta perguntar “houve erro?”. É preciso saber se o incidente chegou ao paciente e se produziu dano. Essa sequência ajuda a classificar corretamente a ocorrência e direcionar a investigação.
Incidente é o termo mais amplo
Incidente é o evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou que resultou, em dano desnecessário ao paciente. Portanto, ele funciona como uma categoria mais abrangente dentro da segurança do paciente.
Um incidente pode ser interrompido antes de atingir o paciente, chegar ao paciente sem provocar dano ou resultar efetivamente em dano. É justamente o que acontece depois que ajuda a definir a classificação.
Quase erro: o paciente nem chegou a ser atingido
O near miss, ou quase erro, acontece quando o incidente não chega ao paciente. Uma barreira de segurança, uma conferência da equipe ou até a percepção de uma falha no processo interrompe a situação antes que ela alcance a pessoa assistida.
Imagine uma medicação preparada para o paciente errado que é identificada durante a conferência antes da administração. A troca não chegou ao paciente, mas a ocorrência mostra que existiu uma falha potencialmente perigosa no processo e que uma barreira conseguiu interrompê-la. A OMS utiliza justamente esse princípio para diferenciar o near miss de outros incidentes.
Na prática da enfermagem, é nesse momento que uma conferência aparentemente simples pode mudar completamente o desfecho. Um medicamento pode estar pronto, o paciente pode estar identificado no leito e tudo parecer encaminhado, até que a conferência ativa revele que aquela prescrição pertencia ao paciente do leito ao lado. Como a administração não aconteceu, estamos diante de um quase erro, e não de um evento adverso.
Incidente sem dano é diferente
Existe ainda uma situação que costuma gerar confusão: o incidente chega ao paciente, mas não causa dano identificável.
Por exemplo, uma medicação é administrada em horário diferente do previsto, chega ao paciente e, após avaliação, não produz dano. Nesse caso, o evento não deve ser chamado de near miss porque o paciente foi atingido pelo incidente. A classificação é incidente sem dano.
Essa diferença é pequena na descrição, mas importante na análise. No near miss, a ocorrência é interrompida antes de alcançar o paciente; no incidente sem dano, ela alcança o paciente, porém não resulta em dano discernível.
Quando passa a ser evento adverso?
O evento adverso é o incidente que resulta em dano ao paciente durante a assistência. O dano pode envolver lesão, sofrimento, alteração funcional ou outras consequências relacionadas ao cuidado, conforme a classificação utilizada para segurança do paciente.
Um exemplo seria administrar uma medicação incorreta e o paciente apresentar uma reação prejudicial decorrente dessa administração. Nesse caso, o incidente alcançou o paciente e houve dano, portanto estamos diante de um evento adverso.
Outro cenário bastante concreto ocorre durante uma transfusão: se a identificação incorreta for percebida antes de iniciar a transfusão, trata-se de near miss; se o sangue chegar ao paciente, mas não houver dano identificável, é incidente sem dano; se houver dano relacionado ao incidente, passa a ser um evento com dano. A OMS utiliza justamente situações de transfusão para demonstrar essa diferença.
A pergunta que resolve a classificação
Quando houver dúvida, pense nesta sequência:
O incidente chegou ao paciente?
Se não chegou, pode ser um near miss.
Se chegou, mas não causou dano, é incidente sem dano.
Se chegou e causou dano, é um evento adverso.
O termo incidente continua sendo a denominação mais abrangente para eventos ou circunstâncias que poderiam ter causado ou causaram dano desnecessário.
O que fazer depois da ocorrência
A classificação não deve ser o ponto final. Depois de garantir a segurança do paciente, a equipe deve comunicar e registrar o ocorrido conforme o fluxo institucional, fornecendo informações objetivas sobre o que aconteceu, em qual etapa ocorreu, como foi identificado e quais barreiras estavam envolvidas.
A finalidade da notificação é permitir aprendizado e melhoria dos processos, e não simplesmente encontrar um profissional para responsabilizar. A Anvisa destaca que a comunicação de incidentes contribui para a adoção de medidas corretivas e para evitar a repetição de danos.
É comum, por exemplo, que uma ocorrência inicialmente pareça apenas um erro individual e, ao analisar o processo, apareçam outros fatores: nomes semelhantes, armazenamento inadequado, interrupções durante o preparo, comunicação incompleta ou identificação pouco clara. É aí que a investigação deixa de olhar apenas para o momento do erro e começa a enxergar as condições que permitiram que ele acontecesse.
Cuidados de enfermagem
Na prática, a enfermagem deve interromper imediatamente a situação de risco, avaliar o paciente quando o incidente tiver chegado até ele, comunicar a equipe responsável e realizar o registro conforme o protocolo institucional.
Na documentação, priorize informações objetivas: o que aconteceu, quando ocorreu, quem identificou, se o paciente foi atingido, quais consequências foram observadas e quais medidas foram tomadas. Evite omitir um quase erro apenas porque “nada aconteceu”; justamente o fato de o paciente não ter sofrido dano pode indicar que uma barreira funcionou e merece ser analisada.
Para não esquecer
Incidente: evento ou circunstância que poderia causar ou causou dano. Near miss: não chegou ao paciente. Incidente sem dano: chegou ao paciente, mas não causou dano identificável. Evento adverso: chegou ao paciente e resultou em dano.
A diferença entre eles está principalmente em onde o incidente parou e qual foi o resultado para o paciente. Entender essa sequência torna a notificação mais precisa e ajuda a equipe de enfermagem a transformar uma ocorrência em oportunidade de prevenção.
Evento Adverso, Incidente e Quase Erro
- Incidente é o evento que poderia causar ou causou dano
- Near miss não chega ao paciente
- Incidente sem dano chega ao paciente mas não causa dano
- Evento adverso chega ao paciente e resulta em dano
Referências:
- BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Documento de referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Anvisa, 2014. Disponível em: Anvisa – Documento de referência do PNSP.
- BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. O que são eventos adversos? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Eventos Adversos.
- BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Segurança do paciente. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa – Segurança do Paciente.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety incident reporting and learning systems: technical report. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety Incident Reporting and Learning Systems.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety.
Conector Escalonado Enteral: Indicações de Uso e Importância na Segurança do Paciente
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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