Torsades de Pointes Como Reconhecer e Agir

torsades de pointes

Na prática da UTI, uma das pistas mais importantes para reconhecer a torsades de pointes pode estar no ECG feito antes da arritmia aparecer. Um QTc prolongado, especialmente associado a bradicardia e alterações eletrolíticas, sinaliza um terreno favorável para uma taquicardia ventricular polimórfica potencialmente grave. O risco aumenta de forma importante quando o QTc ultrapassa 500 ms.

O que é torsades de pointes?

A torsades de pointes é uma taquicardia ventricular polimórfica associada ao prolongamento do intervalo QT. No eletrocardiograma, os complexos QRS parecem mudar progressivamente de amplitude e eixo, criando a aparência de que estão “girando” ao redor da linha de base.

A arritmia pode terminar espontaneamente, mas também pode recorrer ou evoluir para fibrilação ventricular e parada cardíaca. Por isso, reconhecer o padrão rapidamente é fundamental.

O QT prolongado é a pista

A torsades geralmente aparece em um cenário de repolarização ventricular prolongada. Entre os fatores associados estão medicamentos que prolongam o QT, hipocalemia, hipomagnesemia, bradicardia e algumas condições congênitas do intervalo QT.

Na UTI, o risco pode aumentar quando vários fatores aparecem juntos. Um paciente recebendo medicamentos potencialmente prolongadores do QT, com potássio reduzido e frequência cardíaca baixa, por exemplo, merece atenção especial ao monitor cardíaco e aos exames laboratoriais.

Como reconhecer no monitor

O traçado costuma apresentar uma taquicardia ventricular de complexos largos, rápidos e polimórficos, com alteração progressiva da amplitude e do eixo dos QRS. Um detalhe importante é procurar o contexto imediatamente anterior à arritmia: QT prolongado, pausa ou bradicardia podem estar presentes.

Nem toda taquicardia ventricular polimórfica é torsades. Quando não existe prolongamento do QT, outras causas, especialmente isquemia miocárdica aguda, devem ser consideradas e a abordagem pode ser diferente.

Durante um plantão, é possível que o primeiro sinal seja justamente uma alteração repentina no monitor, seguida de perda de consciência. Nessa situação, não vale esperar “ver se passa”: a equipe precisa avaliar imediatamente pulso, consciência e estabilidade hemodinâmica, enquanto o atendimento da arritmia é iniciado.

O que fazer na emergência

Se a torsades estiver sustentada e houver instabilidade hemodinâmica ou ausência de pulso, a prioridade é choque elétrico não sincronizado, conforme o algoritmo de parada ou taquicardia ventricular aplicável. A diretriz AHA 2025 recomenda choque imediato para taquicardia ventricular polimórfica sustentada.

Quando existe torsades associada a QT prolongado, o sulfato de magnésio intravenoso pode ser utilizado para reduzir recorrências. A correção das alterações eletrolíticas, especialmente da hipocalemia, também é fundamental. Em situações recorrentes relacionadas à bradicardia ou às pausas, medidas para aumentar a frequência cardíaca, como estimulação cardíaca temporária, podem ser necessárias sob avaliação especializada.

Um ponto que costuma gerar confusão é administrar magnésio e considerar o caso resolvido. Mesmo quando a arritmia termina, o paciente continua vulnerável se o QT permanecer prolongado e a causa não for corrigida. Por isso, a investigação do medicamento envolvido, dos eletrólitos e da frequência cardíaca continua depois da reversão do episódio.

Procure o que prolongou o QT

Se houver suspeita de torsades adquirida, a equipe deve revisar medicamentos e outras condições que possam estar prolongando o QT. A retirada do agente desencadeante, quando clinicamente possível, faz parte do tratamento da causa.

Antiarrítmicos que prolongam ainda mais o QT devem ser evitados nesse contexto, porque podem agravar o mecanismo da arritmia. A abordagem deve ser individualizada de acordo com a causa, estabilidade do paciente e protocolo médico/institucional.

Outro cenário típico na assistência é o paciente que apresenta QT prolongado depois da introdução de um novo medicamento e, na mesma avaliação, aparece com potássio baixo. É justamente essa combinação que deve chamar atenção: revisar a prescrição, conferir os eletrólitos e comunicar rapidamente alterações relevantes pode evitar que uma alteração eletrocardiográfica evolua para uma arritmia grave.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve manter monitorização cardíaca contínua, observar alterações do ritmo, acompanhar QT/QTc quando indicado e comunicar imediatamente episódios de taquicardia ventricular, síncope, instabilidade ou alteração importante do traçado.

Também é essencial acompanhar potássio e magnésio, observar frequência cardíaca, conferir medicamentos que possam prolongar o QT e manter acesso venoso adequado em pacientes de risco. Se houver deterioração clínica, a equipe deve reconhecer rapidamente a instabilidade e iniciar o atendimento de emergência conforme protocolo institucional.

Na administração de sulfato de magnésio, confira apresentação, diluição, dose, via e velocidade prescritas, além da função renal e dos parâmetros clínicos pertinentes. A administração deve seguir protocolo institucional e prescrição, especialmente porque concentrações e apresentações podem variar.

Para guardar de vez

⚠ Pegadinha de Prova

QT prolongado + TV polimórfica = pense em torsades de pointes.

Paciente instável ou sem pulso = choque não sincronizado conforme protocolo de emergência.

Torsades associada a QT longo = magnésio IV e correção das causas, especialmente alterações eletrolíticas.

Recorrência com bradicardia ou pausas = pode ser necessário aumentar a frequência cardíaca com estratégia especializada.

A torsades de pointes não deve ser confundida com qualquer taquicardia ventricular polimórfica. O detalhe que muda o raciocínio é o QT prolongado. Reconhecer esse contexto no monitor, investigar os fatores desencadeantes e agir rapidamente pode ser decisivo para evitar evolução para fibrilação ventricular e parada cardíaca.

Resumo para salvar

Torsades de Pointes: Reconheça e Aja Rápido

  • Reconheça a TV polimórfica associada ao QT prolongado
  • Identifique medicamentos e alterações eletrolíticas que aumentam o risco
  • Use magnésio e corrija as causas conforme protocolo
  • Em instabilidade ou parada, realize choque não sincronizado conforme protocolo

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, supl. 2, p. S538-S577, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001376. Disponível em: AHA – Advanced Life Support 2025.
  2. MITCHELL, L. Brent. Torsades de Pointes Ventricular Tachycardia. Merck Manual Professional Edition. 2024. Disponível em: Merck Manual – Torsades de Pointes.
  3. Zipes, D. P. et al. ACC/AHA/ESC 2006 Guidelines for Management of Patients With Ventricular Arrhythmias and the Prevention of Sudden Cardiac Death. European Heart Journal, 2006. Disponível em: ESC – Ventricular Arrhythmias Guideline. 
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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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