
Vá direto ao ponto!
Na hipoglicemia grave, o relógio importa tanto quanto o valor do HGT. Uma glicemia abaixo de 70 mg/dL merece atenção, mas o quadro é classificado como nível 3 quando existe alteração física ou mental que exige ajuda de outra pessoa para a recuperação, independentemente do valor exato da glicemia. Confusão, sonolência intensa, convulsão, perda de consciência e incapacidade de ingerir carboidrato pela boca são sinais de emergência.
Primeiro passo: reconhecer e avaliar
Diante de suspeita, verifique a glicemia capilar imediatamente, avalie nível de consciência, respiração e sinais vitais e acione o protocolo institucional. Se o resultado aparecer como “LO” ou não for compatível com o quadro clínico, repita a medição conforme o protocolo, sem atrasar o atendimento de uma pessoa claramente sintomática.
Se o paciente estiver consciente, colaborativo e conseguir engolir com segurança, a conduta inicial é glicose ou carboidrato de absorção rápida por via oral. A SBD recomenda 15–30 g de glicose para hipoglicemias hospitalares níveis 1 e 2, com nova avaliação da glicemia após 15 minutos e repetição do tratamento quando necessário.
Agora muda tudo se houver rebaixamento de consciência. Não ofereça água, açúcar, suco ou qualquer alimento pela boca a uma pessoa inconsciente, convulsionando ou sem capacidade segura de deglutir, porque existe risco de aspiração. Nessa situação, a SBD recomenda correção por via endovenosa; se não houver acesso venoso, pode-se utilizar glucagon 1 mg por via intramuscular ou subcutânea.
Glicose intravenosa: atenção à concentração
Nos casos graves, a glicose intravenosa deve ser administrada conforme o protocolo institucional e com atenção rigorosa ao acesso venoso. A Diretriz SBD 2026 recomenda, em acesso periférico, soluções de glicose a 25–50%, totalizando aproximadamente 10–30 g, em administração lenta, com nova avaliação da glicemia a cada 15 minutos até a correção. Uma solução de glicose 50% contém 5 g de glicose a cada 10 mL.
Esse é um daqueles momentos em que a rotina da enfermagem precisa ser muito precisa: antes de administrar glicose hipertônica, confirme a permeabilidade do acesso e observe o local durante a infusão. Extravasamento pode provocar lesão tecidual importante, além de flebite, isquemia e outras complicações.
Em uma situação de plantão, por exemplo, o paciente pode apresentar sudorese intensa, alteração do comportamento e depois evoluir rapidamente para sonolência. Enquanto uma pessoa da equipe confirma a glicemia, outra já pode providenciar acesso venoso e material para a correção, evitando que todos esperem uma única etapa terminar para começar a próxima. Essa organização é especialmente importante quando há alteração do nível de consciência.
Sem acesso venoso? Pense no glucagon
Quando a hipoglicemia é grave e não existe acesso venoso disponível, o glucagon 1 mg IM ou SC é uma alternativa recomendada pela SBD. Ao mesmo tempo, a equipe deve continuar tentando obter acesso venoso e monitorar a resposta clínica e glicêmica.
Depois da correção inicial, não basta olhar apenas para o número que apareceu no glicosímetro. É necessário verificar se houve recuperação do estado de consciência e investigar por que a hipoglicemia aconteceu. Insulina administrada em horário inadequado, redução da ingestão alimentar, vômitos, interrupção de dieta enteral, alteração da infusão de glicose e alguns medicamentos estão entre os fatores que podem favorecer novos episódios hospitalares.
É comum, na prática hospitalar, a hipoglicemia aparecer depois de uma mudança aparentemente pequena, como uma dieta que foi interrompida enquanto a insulinoterapia permaneceu programada. Por isso, depois de estabilizar o paciente, revisar o que aconteceu nas horas anteriores pode ser tão importante quanto corrigir a glicemia naquele momento.
Reavalie, documente e previna a recorrência
A glicemia deve ser reavaliada após o tratamento e a correção repetida quando o valor continua baixo, seguindo o protocolo institucional. Quando o paciente estiver consciente e puder se alimentar com segurança, a oferta de alimentação adequada ajuda a reduzir o risco de nova queda, especialmente quando ainda existe efeito de insulina ou de outros medicamentos hipoglicemiantes.
Todo episódio deve ser registrado, incluindo valor da glicemia, sinais apresentados, horário, intervenção realizada, resposta ao tratamento e possíveis fatores desencadeantes. A ocorrência de hipoglicemia nível 2 ou 3 também deve levar à revisão do plano terapêutico para reduzir o risco de recorrência.
Cuidados de enfermagem
Na assistência, alguns pontos merecem atenção especial: reconhecer rapidamente a alteração neurológica, confirmar a glicemia sem atrasar o atendimento, manter acesso venoso seguro quando indicado, nunca oferecer alimentos ou líquidos a pacientes sem deglutição segura, monitorar a resposta após a correção e observar cuidadosamente o local durante a administração de glicose hipertônica.
Também é importante identificar o possível motivo do episódio: horário e dose de insulina, aceitação da dieta, jejum, vômitos, interrupção de dieta enteral, alteração de infusão de glicose ou uso de medicamentos associados à hipoglicemia. A prevenção começa justamente nessa investigação.
O que guardar para a prática
- HGT baixo + paciente consciente e com deglutição segura: glicose/carboidrato de absorção rápida e reavaliação.
- HGT baixo + alteração do nível de consciência ou impossibilidade de via oral: correção por via endovenosa conforme protocolo institucional.
- Hipoglicemia grave sem acesso venoso: considerar glucagon 1 mg IM ou SC, conforme protocolo, enquanto se busca acesso.
- Paciente inconsciente: nada por via oral.
- Após corrigir: repetir a glicemia, avaliar recuperação clínica, investigar a causa, documentar e prevenir nova ocorrência.
O protocolo exato de diluição, concentração e apresentação da glicose deve sempre seguir a padronização do serviço e a prescrição/protocolo vigente, porque as apresentações disponíveis e as rotinas institucionais podem variar.
Hipoglicemia Grave: Protocolo Passo a Passo
- Reconheça a hipoglicemia e avalie o nível de consciência
- Não ofereça nada por via oral se houver risco de aspiração
- Use glicose EV ou glucagon conforme a situação e protocolo institucional
- Reavalie a glicemia e investigue a causa para evitar recorrência
Referências:
- AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE. 6. Glycemic Goals, Hypoglycemia, and Hyperglycemic Crises: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care, v. 49, Supplement 1, p. S132-S149, 2026. DOI: 10.2337/dc26-S006. Diabetes Care – ADA
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Hiperglicemia hospitalar no paciente não crítico – Diretriz SBD 2026. São Paulo: SBD. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes
- BRASIL. Ministério da Saúde. Hipoglicemia – Unidade Hospitalar. Linhas de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde – Linhas de Cuidado
- BRASIL. Ministério da Saúde. Hipoglicemia – SAMU. Linhas de Cuidado. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Ministério da Saúde – Hipoglicemia no SAMU
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Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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