ECG com Artefato: Como Diferenciar

ecg com artefato

Um traçado assustador no monitor não significa, automaticamente, que o coração entrou em uma arritmia grave. Antes de chamar a equipe para tratar o ritmo mostrado na tela, existe uma pergunta simples que pode evitar uma conduta desnecessária: o paciente está apresentando o que o monitor está mostrando?

Antes de chamar a equipe para tratar o ritmo mostrado na tela, vale revisar nosso guia de Como Interpretar o ECG na Prática — a sequência fixa de leitura ajuda a identificar rápido quando algo não faz sentido fisiologicamente.

O paciente ajuda a confirmar o traçado

Artefatos podem aparecer por movimento, tremores musculares, interferência elétrica, mau contato dos eletrodos ou problemas nos cabos. No monitor, isso pode produzir oscilações que se confundem com taquiarritmias, fibrilação ventricular ou outras alterações do ritmo. Por isso, o traçado precisa ser interpretado junto com o estado clínico e, quando necessário, confirmado em um ECG de 12 derivações. A American Heart Association recomenda avaliar o paciente e confirmar o ritmo diante de alterações suspeitas no monitor.

Uma situação bastante comum na UTI é o monitor começar a mostrar um traçado extremamente irregular enquanto o paciente está consciente, conversando e sem qualquer alteração compatível. Ao olhar para o leito, percebe-se que ele está tremendo ou movimentando o braço onde existe um eletrodo. Corrigir o posicionamento e verificar o contato dos eletrodos pode fazer o “ritmo” desaparecer imediatamente.

O traçado precisa fazer sentido

Um dos sinais de alerta para artefato é a ausência de correspondência entre o monitor e o pulso ou a condição clínica. Se o monitor sugere uma frequência cardíaca extremamente elevada, por exemplo, é importante conferir pulso, pressão arterial, perfusão e sintomas. O oxímetro também pode ajudar na comparação, embora cada parâmetro tenha suas limitações.

Em outro cenário típico de plantão, o monitor apresenta uma sequência de ondas que parece uma taquiarritmia. A equipe verifica o paciente e encontra pulso palpável, pressão preservada e frequência periférica muito diferente daquela exibida na tela. A checagem dos eletrodos e a obtenção de um novo traçado ajudam a esclarecer que o problema estava na captação do sinal, e não necessariamente no ritmo cardíaco. Artefatos eletrocardiográficos são conhecidos por simular arritmias e podem levar a interpretações e intervenções inadequadas quando não são reconhecidos.

Quando o artefato merece atenção

Nem todo traçado irregular deve ser descartado como artefato. Se a alteração persiste após corrigir os eletrodos e reduzir movimentos, especialmente quando existe alteração clínica correspondente, o ritmo deve ser investigado como uma possível arritmia verdadeira.

Também vale observar se existe atividade elétrica organizada em alguma derivação enquanto outra apresenta um padrão muito diferente. Comparar o monitor com o pulso e, quando indicado, realizar ECG de 12 derivações são medidas simples que aumentam a segurança da avaliação.

Algumas arritmias específicas têm padrões característicos que ajudam a diferenciá-las de artefato — por exemplo, o S1Q3T3 tem um significado clínico muito específico e não deve ser confundido com ruído de captação. Da mesma forma, uma Torsades de Pointes tem características visuais próprias que a distinguem de uma simples interferência no traçado.

Cuidados de enfermagem

Diante de uma alteração inesperada no monitor, primeiro avalie o paciente: nível de consciência, pulso, pressão arterial, perfusão, saturação e sintomas. Depois, confira eletrodos, cabos, conexões e possíveis fontes de interferência.

Se o traçado continuar alterado ou houver qualquer repercussão clínica, comunique a equipe e obtenha o registro eletrocardiográfico indicado pelo protocolo. Não é seguro simplesmente assumir que todo traçado estranho é “artefato”, assim como não é adequado tratar uma alteração do monitor sem confirmar se ela corresponde ao estado clínico do paciente.

O monitor é uma ferramenta de vigilância. A avaliação do paciente continua sendo parte essencial da interpretação do que aparece na tela.

Resumo para salvar

ECG com Artefato

  • Avalie o paciente antes de interpretar o monitor
  • Confira eletrodos cabos e conexões
  • Compare o ritmo com pulso e sinais vitais
  • Confirme alterações persistentes com ECG quando indicado

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Arrhythmia. Dallas: American Heart Association. Disponível em: American Heart Association.
  2. EUROPEAN RESUSCITATION COUNCIL. European Resuscitation Council Guidelines 2021: Adult advanced life support. Resuscitation, 2021. Disponível em: Resuscitation Journal. 
  3. SOVARI, Ali A. et al. Electrocardiographic artifacts in clinical practice: A logical approach to recognition and prevention. World Journal of Cardiology, v. 18, n. 3, p. 116299, 2026. Disponível em: Electrocardiographic Artifacts in Clinical Practice.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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