Os tipos de Bordas de Feridas

Quando falamos em avaliação de feridas, muitos focam apenas no tamanho, na profundidade ou na presença de exsudato. Porém, um detalhe que pode revelar muito sobre a evolução do processo cicatricial é a observação das bordas da ferida. As bordas indicam se o processo de cicatrização está ocorrendo de forma adequada ou se há fatores que dificultam a reparação tecidual.

Para a prática da enfermagem, compreender as características dessas bordas é essencial, já que esse olhar clínico orienta a escolha da conduta e dos cuidados. Vamos conhecer melhor os principais tipos: bordas justapostas, epíbole, maceradas, com hiperqueratose e descolamento.

Bordas justapostas

As bordas justapostas são aquelas em que as margens da ferida se encontram lado a lado, bem definidas, sem retrações ou elevações. É o que se espera em um processo de cicatrização saudável.

Esse aspecto sugere que há boa perfusão sanguínea, ausência de infecção e um processo adequado de regeneração tecidual.

Cuidados de enfermagem:

  • Manter a ferida limpa e protegida.
  • Escolher curativos que preservem o ambiente úmido ideal.
  • Avaliar periodicamente para garantir que não surjam complicações.

Bordas em epíbole

O termo epíbole se refere a bordas enroladas ou encurvadas para dentro. Esse fenômeno geralmente ocorre quando a epitelização (formação de novas células de pele) não avança corretamente, interrompendo o fechamento da ferida.

Feridas com bordas em epíbole tendem a se tornar feridas crônicas, de difícil cicatrização.

Cuidados de enfermagem:

  • Retirar tecidos inviáveis, se necessário, com orientação da equipe multiprofissional.
  • Utilizar curativos que estimulem a granulação e a epitelização.
  • Monitorar sinais de estagnação do processo cicatricial.

Bordas maceradas

A maceração ocorre quando as bordas da ferida ficam esbranquiçadas e frágeis devido ao excesso de umidade. Isso pode acontecer por uso inadequado de coberturas ou pelo contato constante com exsudato.

Bordas maceradas aumentam o risco de alargamento da ferida e atraso da cicatrização.

Cuidados de enfermagem:

  • Avaliar a quantidade de exsudato e ajustar o tipo de curativo.
  • Proteger a pele perilesional com barreiras protetoras.
  • Reduzir o excesso de umidade, mantendo o equilíbrio da hidratação.

Bordas com hiperqueratose

A hiperqueratose é caracterizada pelo espessamento da borda da ferida, geralmente endurecida e de coloração amarelada ou esbranquiçada. Esse processo pode dificultar a cicatrização, pois impede que as células epiteliais avancem sobre a lesão.

É comum em feridas crônicas, como úlceras de pressão ou de pé diabético.

Cuidados de enfermagem:

  • Orientar avaliação médica para possível desbridamento.
  • Manter curativos que auxiliem na remoção do excesso de tecido queratinizado.
  • Reforçar cuidados com hidratação da pele adjacente.

Bordas em descolamento

As bordas em descolamento aparecem quando há separação entre o leito da ferida e a pele adjacente. Esse tipo de borda é preocupante, pois pode indicar presença de infecção, necrose ou má perfusão tecidual.

Além de aumentar o risco de complicações, o descolamento prejudica a cicatrização e pode evoluir para feridas mais profundas.

Cuidados de enfermagem:

  • Investigar sinais de infecção (odor, exsudato purulento, eritema).
  • Utilizar curativos que favoreçam a aproximação das bordas.
  • Garantir avaliação multiprofissional em casos persistentes.

Mais cuidados de Enfermagem

A nossa responsabilidade vai além de apenas observar as bordas. A partir do nosso olhar, podemos planejar o cuidado e garantir que a cicatrização avance.

  1. Avaliação: A cada troca de curativo, é nosso papel inspecionar a ferida e classificar suas bordas. Documentar a aparência e o tipo de borda é crucial para o acompanhamento.
  2. Identificação e Comunicação: Identificar se a borda está “estacionada” (epíbole, hiperqueratose) ou com problemas (macerada, descolamento). Comunicar a equipe multidisciplinar (médico, estomaterapeuta) sobre as nossas descobertas para que o plano de tratamento possa ser ajustado.
  3. Escolha do Curativo: A escolha do curativo depende do tipo de borda.
    • Bordas Maceradas: Usar curativos que absorvam o excesso de exsudato (alginato, espumas) e proteger a pele ao redor com barreiras cutâneas.
    • Bordas Epíbole ou Hiperqueratose: É preciso debridar (remover) o tecido que impede a cicatrização, seja com um debridamento mecânico, autolítico ou cirúrgico.
    • Bordas com Descolamento: O tratamento envolve preencher o “bolso” com curativos que estimulem a cicatrização de dentro para fora.
  4. Educação ao Paciente: Orientar o paciente e a família sobre a importância do cuidado e de como as bordas da ferida podem indicar progresso ou estagnação.

As bordas de uma ferida são uma linguagem silenciosa que, se compreendida, nos dá o poder de intervir de forma precisa e eficaz. O nosso conhecimento e nossa atenção aos detalhes são a chave para a melhora do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Manual de Terapia Nutricional em Unidade de Terapia Intensiva. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_terapia_nutricional_uti.pdf
  2. FERREIRA, A. M. et al. Avaliação de feridas: aspectos essenciais para a prática clínica. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, p. 1-8, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/cRLTN8FJtD9LpJ6fG7HvF7y/. 
  3. CARVILLE, K. Wound Care Manual. 6. ed. Osborne Park: Silver Chain Foundation, 2017.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo para prevenção de úlcera por pressão. Brasília: MS, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_prevencao_ulcera_pressao.pdf

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