Doença de Parkinson: Compreensão clínica, evolução e cuidados de enfermagem

A Doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica e progressiva que afeta milhões de pessoas no mundo. Embora seja mais comum em idosos, também pode acometer adultos mais jovens, trazendo impactos importantes na mobilidade, na autonomia e na qualidade de vida. Para a enfermagem, compreender o Parkinson vai muito além de reconhecer o tremor: envolve entender sua fisiopatologia, evolução, tratamento e, principalmente, o cuidado integral ao paciente.

Neste artigo, abordaremos a Doença de Parkinson de forma clara e detalhada, com foco na prática da enfermagem e no cuidado humanizado.

O que é a Doença de Parkinson?

A Doença de Parkinson é um distúrbio neurodegenerativo que afeta principalmente o sistema nervoso central, caracterizado pela perda progressiva de neurônios produtores de dopamina na substância negra do cérebro.

A dopamina é um neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos voluntários. À medida que sua produção diminui, o cérebro passa a ter dificuldade em coordenar movimentos suaves e precisos, resultando nos sinais e sintomas clássicos da doença.

Trata-se de uma doença crônica, sem cura até o momento, mas com tratamento capaz de controlar sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida.

Fisiopatologia da Doença de Parkinson

Na Doença de Parkinson ocorre a degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra pars compacta. Essa perda leva a um desequilíbrio entre dopamina e acetilcolina nos gânglios da base, estruturas responsáveis pelo controle motor.

Além disso, há acúmulo anormal de proteínas no interior dos neurônios, formando os chamados corpos de Lewy, considerados um dos marcadores patológicos da doença.

Esse processo neurodegenerativo é lento e progressivo, o que explica a evolução gradual dos sintomas ao longo dos anos.

Principais causas e fatores de risco

A causa exata da Doença de Parkinson ainda não é totalmente conhecida. Acredita-se que seja resultado da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Entre os principais fatores associados estão o envelhecimento, histórico familiar da doença, exposição a pesticidas e toxinas ambientais, além de fatores genéticos específicos em alguns casos. O sexo masculino também apresenta maior incidência quando comparado ao feminino.

Sinais e sintomas da Doença de Parkinson

Os sintomas do Parkinson são classificados em motores e não motores, sendo estes últimos muitas vezes subestimados, mas extremamente relevantes para a enfermagem.

Sintomas motores

Os sintomas motores clássicos incluem o tremor de repouso, geralmente iniciado de forma unilateral, a rigidez muscular, a bradicinesia (lentidão dos movimentos) e a instabilidade postural, que aumenta o risco de quedas.

Com a progressão da doença, o paciente pode apresentar marcha arrastada, passos curtos, postura curvada e diminuição do balanço dos braços ao caminhar.

Sintomas não motores

Os sintomas não motores podem surgir precocemente e incluem alterações do sono, constipação intestinal, depressão, ansiedade, alterações cognitivas, distúrbios autonômicos (como hipotensão ortostática), alterações urinárias e disfagia.

Esses sintomas impactam profundamente a qualidade de vida e exigem atenção constante da equipe de enfermagem.

Diagnóstico da Doença de Parkinson

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história do paciente e no exame neurológico. Não existe um exame laboratorial específico que confirme a doença.

Exames de imagem, como a ressonância magnética, são utilizados principalmente para excluir outras patologias neurológicas. A boa resposta à levodopa também auxilia na confirmação diagnóstica.

Tratamento da Doença de Parkinson

O tratamento é sintomático e individualizado, tendo como principal objetivo melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida do paciente.

O medicamento mais utilizado é a levodopa, que atua como precursor da dopamina. Outros fármacos incluem agonistas dopaminérgicos, inibidores da MAO-B e inibidores da COMT.

Em casos selecionados, pode-se indicar tratamento cirúrgico, como a estimulação cerebral profunda. Além disso, terapias não farmacológicas, como fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, são fundamentais.

Cuidados de enfermagem ao paciente com Doença de Parkinson

A enfermagem tem papel central no cuidado ao paciente com Parkinson, acompanhando desde o diagnóstico até as fases mais avançadas da doença.

Segurança e Mobilidade

A prevenção de quedas é a nossa prioridade número um. Devemos orientar a família a retirar tapetes, melhorar a iluminação da casa e, se necessário, instalar barras de apoio. No ambiente hospitalar, o uso de calçados fechados e antiderrapantes é obrigatório. Incentivar a deambulação com passos largos e o levantamento dos pés do chão ajuda a combater a “marcha festinante” (passos curtos e rápidos).

É essencial realizar avaliação contínua da mobilidade, risco de quedas e capacidade funcional, implementando medidas de segurança no ambiente hospitalar e domiciliar.

Gestão da Farmacoterapia e o Fenômeno On-Off

A Levodopa é o padrão-ouro no tratamento. O maior cuidado de enfermagem aqui é o rigor com o horário. O paciente com Parkinson vive o fenômeno “on-off”: quando a medicação está fazendo efeito (on), ele se movimenta bem; quando o nível sanguíneo cai (off), ele pode “congelar” subitamente. O atraso de apenas 15 minutos na medicação pode significar horas de imobilidade para o paciente. Além disso, devemos orientar que a medicação não seja tomada junto com refeições ricas em proteínas, pois elas competem com a absorção da Levodopa no intestino.

O aprazamento correto das medicações merece atenção especial, pois atrasos ou omissões podem levar à piora importante dos sintomas motores. A enfermagem deve observar efeitos adversos, como discinesias, náuseas, hipotensão postural e alterações cognitivas.

Cuidados com a Nutrição e Eliminações

Devido à disfagia, a dieta deve ter sua consistência avaliada (pastosa, se necessário). O enfermeiro deve observar sinais de tosse durante a alimentação. Quanto à constipação, o incentivo à ingestão hídrica e dietas ricas em fibras deve ser constante. É importante também monitorar a função urinária, já que a urgência miccional é comum, aumentando o risco de quedas em idas apressadas ao banheiro durante a noite.

O cuidado com a deglutição é fundamental, principalmente em fases avançadas, devido ao risco de aspiração. Orientar sobre consistência alimentar adequada e postura durante as refeições é uma intervenção importante.

A enfermagem também atua no apoio emocional, tanto ao paciente quanto à família, auxiliando no enfrentamento de uma doença crônica e progressiva.

Educação em saúde, incentivo à adesão ao tratamento e orientação sobre autocuidado fazem parte do cuidado integral.

Impacto da Doença de Parkinson na vida do paciente

Com a progressão da doença, o paciente pode apresentar perda gradual da autonomia, necessitando de ajuda para atividades básicas. Esse processo pode gerar frustração, ansiedade e isolamento social.

A atuação da enfermagem, com olhar humanizado e empático, contribui significativamente para preservar a dignidade, a autonomia possível e a qualidade de vida do paciente.

A Doença de Parkinson é uma condição complexa, que exige conhecimento técnico e sensibilidade no cuidado. Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender seus mecanismos, sintomas e tratamento é essencial para oferecer uma assistência segura, eficaz e humanizada.

Mais do que controlar sintomas, o cuidado ao paciente com Parkinson envolve acolher, orientar e acompanhar cada fase da doença com respeito e empatia.

Referências:

  1. ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA. Consenso sobre o Tratamento da Doença de Parkinson. Disponível em: https://www.abneuro.org.br
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Doença de Parkinson. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-pcdt
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br
  6. SMELTZER, S. C. et al. Enfermagem médico-cirúrgica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. Disponível em: https://www.grupogen.com.br
  7. BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Parkinson: protocolo clínico e diretrizes terapêuticas. Brasília, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  8. UPTODATE. Parkinson disease: clinical features and management. Disponível em: https://www.uptodate.com

Vírus Sincicial Respiratório (VSR): o que o estudante de enfermagem precisa saber

O Vírus Sincicial Respiratório, conhecido pela sigla VSR, é um dos principais agentes causadores de infecções respiratórias, especialmente em lactentes e crianças pequenas, mas que também pode provocar quadros graves em idosos, imunossuprimidos e pacientes com comorbidades. Na prática assistencial, principalmente em períodos sazonais, o VSR é responsável por grande parte das internações por bronquiolite e pneumonia.

Compreender o funcionamento do vírus, sua transmissão, manifestações clínicas e os cuidados de enfermagem é essencial para uma assistência segura, eficaz e baseada em evidências.

O que é o Vírus Sincicial Respiratório?

O VSR é um vírus de RNA pertencente à família Paramyxoviridae, gênero Orthopneumovirus. Ele tem tropismo pelo trato respiratório, principalmente pelas vias aéreas inferiores, onde causa inflamação, edema e aumento da produção de muco.

A Fisiopatologia: O Porquê do Nome “Sincicial”

O nome do vírus não é por acaso. O termo “sincicial” refere-se à capacidade que o vírus tem de fazer com que as células infectadas das vias respiratórias se fundam, formando grandes massas celulares multinucleadas chamadas sincícios.

Quando o VSR entra no organismo, ele ataca as células epiteliais que revestem as vias aéreas. A resposta inflamatória é intensa: ocorre edema (inchaço) da mucosa, aumento absurdo na produção de muco e necrose das células epiteliais. Em adultos, isso se traduz em uma coriza chata. Mas em bebês, cujos bronquíolos são minúsculos, esse “combo” de inchaço e catarro obstrui a passagem do ar, levando ao quadro clássico de bronquiolite. O ar entra, mas tem dificuldade para sair, o que gera o aprisionamento de ar nos alvéolos e o esforço respiratório visível.

Epidemiologia e sazonalidade

O VSR é altamente prevalente em todo o mundo. A maioria das crianças é infectada pelo menos uma vez até os dois anos de idade. No Brasil, a circulação do vírus é mais intensa nos meses de outono e inverno, coincidindo com o aumento de síndromes respiratórias.

Em ambientes hospitalares, o VSR merece atenção especial devido à sua alta transmissibilidade, sendo causa frequente de surtos em enfermarias pediátricas e UTIs neonatais.

Como ocorre a transmissão do VSR?

A transmissão acontece principalmente por contato direto com secreções respiratórias. O vírus pode ser transmitido por gotículas eliminadas ao tossir, espirrar ou falar, além do contato com superfícies contaminadas.

Um ponto importante para a enfermagem é que o VSR pode sobreviver por algumas horas em superfícies como grades de berço, bancadas, estetoscópios e mãos não higienizadas, o que reforça a importância das medidas de controle de infecção.

Fisiopatologia: o que acontece no organismo

Após a entrada pelas vias aéreas superiores, o VSR pode progredir para os bronquíolos, causando inflamação intensa. O edema da mucosa, associado ao acúmulo de secreções, leva à obstrução das vias aéreas pequenas, dificultando a passagem de ar.

Em lactentes, que já possuem vias aéreas naturalmente estreitas, esse processo pode evoluir rapidamente para desconforto respiratório importante, hipoxemia e insuficiência respiratória.

Manifestações clínicas

Os sinais e sintomas variam conforme a idade e as condições clínicas do paciente.

Em crianças maiores e adultos, o VSR pode se manifestar como um quadro leve, semelhante a um resfriado comum, com coriza, tosse, febre baixa e mal-estar.

Já em lactentes, especialmente menores de seis meses, os sintomas costumam ser mais graves. É comum observar taquipneia, tiragem intercostal, batimento de asa de nariz, gemência, sibilância, dificuldade para mamar e episódios de apneia. Nesses casos, o diagnóstico de bronquiolite viral aguda é frequente.

Em idosos e pacientes com doenças crônicas cardíacas ou pulmonares, o VSR pode desencadear exacerbações de doenças de base e pneumonia viral.

Diagnóstico

O diagnóstico do VSR é geralmente clínico, baseado na história e no exame físico. Em ambiente hospitalar, especialmente em casos graves ou surtos, podem ser utilizados testes laboratoriais, como a detecção do antígeno viral ou RT-PCR em amostras de secreção respiratória.

Para a enfermagem, o reconhecimento precoce dos sinais de gravidade é mais importante do que a confirmação laboratorial imediata.

Sinais de Alerta: Quando o Resfriado Vira Emergência

Na maioria dos adultos e crianças maiores, o VSR se manifesta como uma síndrome gripal leve. Contudo, em lactentes, especialmente os menores de seis meses, precisamos estar atentos aos sinais de gravidade que indicam a evolução para bronquiolite ou pneumonia:

  • Taquipneia: O aumento da frequência respiratória é um dos primeiros sinais de que o bebê está compensando a dificuldade de troca gasosa.
  • Tiragem Intercostal e Retração Subcostal: O uso da musculatura acessória mostra que o esforço para respirar está exaustivo.
  • Batimento de Asa de Nariz: Um sinal clássico de desconforto respiratório em pediatria.
  • Cianose e Letargia: Sinais tardios e gravíssimos de hipóxia (baixa oxigenação).
  • Sibilância: O famoso “chiado no peito”, audível muitas vezes sem estetoscópio devido ao estreitamento dos bronquíolos.

Tratamento

O tratamento do VSR é predominantemente suporte clínico, pois não há, na maioria dos casos, terapia antiviral específica indicada.

As principais medidas incluem oxigenoterapia quando há hipoxemia, manutenção da hidratação, controle da febre e aspiração de vias aéreas superiores quando necessário. Em casos graves, pode ser necessário suporte ventilatório não invasivo ou invasivo.

O uso rotineiro de antibióticos não é indicado, exceto quando há suspeita ou confirmação de infecção bacteriana associada.

Cuidados de enfermagem no VSR

A assistência de enfermagem no manejo do VSR é fundamentalmente de suporte e vigilância. Como não existe um tratamento antiviral específico amplamente utilizado para todos os casos, o foco é manter o paciente estável enquanto o vírus cumpre seu ciclo.

Monitorização e Oxigenoterapia

O controle rigoroso da saturação de oxigênio SpO₂ através da oximetria de pulso é constante. Se a saturação cair abaixo dos níveis recomendados (geralmente 90-92% dependendo do protocolo local), a administração de oxigênio umidificado via cateter nasal ou máscara é iniciada. Em casos mais graves, a enfermagem auxilia na instalação da Ventilação Não Invasiva (VNI) ou do Cateter Nasal de Alto Fluxo, que ajuda a manter os bronquíolos abertos com pressão positiva.

Higiene Nasal e Permeabilidade das Vias Aéreas

Bebês são respiradores nasais preferenciais. Um nariz entupido por muco espesso pode causar desconforto respiratório severo e dificuldade de amamentação. O cuidado de enfermagem aqui é a lavagem nasal frequente com soro fisiológico e a aspiração das secreções, se necessário, especialmente antes das mamadas e do sono.

Hidratação e Nutrição

A taquipneia aumenta a perda de água pela respiração (perda insensível). Além disso, o bebê cansado não consegue sugar o leite. Devemos monitorar o balanço hídrico, observar o turgor da pele e a diurese. Se o esforço respiratório for muito grande, a enfermagem deve atentar para a necessidade de suspender a via oral e iniciar hidratação venosa ou gavagem (sonda) para evitar a aspiração de leite para os pulmões.

Controle de Infecção e Isolamento

O VSR é extremamente contagioso e sobrevive por horas em superfícies e mãos. O isolamento de contato (e às vezes por gotículas, dependendo do protocolo da instituição) é obrigatório. A higienização das mãos antes e após tocar o paciente ou o ambiente é a medida de ouro para evitar o surto hospitalar.

Prevenção: O Papel do Palivizumabe

Para grupos de altíssimo risco, como prematuros extremos e crianças com cardiopatias congênitas, existe o Palivizumabe. Não é uma vacina no sentido tradicional, mas sim um anticorpo monoclonal pronto que oferece uma “imunização passiva”. Ele é administrado em doses mensais durante os meses de maior circulação do vírus (sazonalidade). O enfermeiro tem papel fundamental na busca ativa dessas crianças e na administração correta da medicação.

Recentemente, novas vacinas para gestantes e idosos foram aprovadas, o que promete mudar o cenário epidemiológico nos próximos anos, protegendo os bebês através da transferência de anticorpos via placenta.

Outras medidas preventivas incluem ações simples e eficazes, como higienização frequente das mãos, limpeza de superfícies, evitar aglomerações e contato com pessoas sintomáticas, especialmente em períodos sazonais.

Em grupos específicos de alto risco, como prematuros extremos e crianças com cardiopatias ou doenças pulmonares crônicas, pode ser indicada a imunoprofilaxia com anticorpos monoclonais, conforme protocolos clínicos.

O Vírus Sincicial Respiratório é um agente de grande impacto na prática da enfermagem, principalmente nas áreas pediátrica, neonatal e de terapia intensiva. Embora muitas vezes subestimado, o VSR pode evoluir rapidamente para quadros graves, exigindo atenção, vigilância clínica e cuidados baseados em evidências.

Para o estudante de enfermagem, compreender o VSR vai além da teoria: significa estar preparado para reconhecer sinais precoces de gravidade, atuar na prevenção da transmissão e oferecer uma assistência segura e humanizada ao paciente e à família.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Diretrizes sobre o Vírus Sincicial Respiratório. Disponível em: https://www.sbp.com.br.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Vigilância Epidemiológica da Influenza e outros Vírus Respiratórios. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. BENTLEY, M. C. et al. Nursing care of the infant with respiratory syncytial virus. Nursing Standard, v. 35, n. 4, 2020. Disponível em: https://journals.rcni.com/nursing-standard
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Bronquiolite viral aguda: diagnóstico e manejo clínico. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Respiratory syncytial virus (RSV). Geneva: WHO, 2023. Disponível em:
    https://www.who.int 
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Documento científico: Vírus sincicial respiratório. São Paulo, 2021. Disponível em:
    https://www.sbp.com.br
  7. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br

Cuidados de enfermagem com pacientes hipotérmicos

A hipotermia é uma condição frequentemente subestimada fora dos cenários de trauma extremo ou exposição a climas gélidos, mas, na realidade da enfermagem, ela é uma visitante comum em centros cirúrgicos, unidades de terapia intensiva e prontos-socorros. Definida tecnicamente como a queda da temperatura central do corpo para níveis abaixo de 35°C, a hipotermia exige do profissional de enfermagem um olhar atento e uma intervenção rápida, porém cautelosa.

Para o estudante de enfermagem, é fundamental compreender que o corpo humano funciona como um motor térmico refinado. Quando essa temperatura cai, o metabolismo desacelera, o coração torna-se irritável e a cascata de coagulação é prejudicada. O nosso papel vai muito além de apenas “cobrir o paciente”; trata-se de gerenciar a recuperação térmica de forma a evitar complicações fatais.

O Que Define a Hipotermia Clínica?

A gravidade da hipotermia é classificada de acordo com a temperatura central, e cada estágio exige uma abordagem diferente. Na hipotermia leve (entre 32°C e 35°C), o paciente ainda está consciente, mas apresenta tremores intensos — a tentativa do corpo de gerar calor através da atividade muscular.

Já na hipotermia moderada (28°C a 32°C), os tremores costumam parar, o que é um sinal alarmante de que o corpo esgotou suas reservas de energia. Aqui, o nível de consciência começa a oscilar e o risco de arritmias aumenta significativamente. Abaixo de 28°C, entramos na hipotermia grave, um estado de quase morte aparente, onde a rigidez muscular e a bradicardia extrema podem mascarar os sinais vitais.

A Fisiologia do Resfriamento e a Perda de Calor

Para cuidar bem, precisamos entender como o paciente está perdendo calor. Existem quatro mecanismos principais que a enfermagem deve neutralizar: radiação (perda para o ambiente), condução (contato direto com superfícies frias), convecção (correntes de ar) e evaporação (suor ou roupas molhadas).

No ambiente hospitalar, a condução ocorre frequentemente quando o paciente é colocado em macas geladas sem proteção, ou quando recebe fluidos intravenosos em temperatura ambiente. A radiação é o principal motivo pelo qual pacientes cirúrgicos perdem calor, já que as salas de operação são mantidas frias e o corpo fica exposto.

Manifestações clínicas

Os sinais e sintomas da hipotermia variam conforme a gravidade do quadro. Em fases iniciais, o paciente pode apresentar tremores intensos, pele fria, palidez, taquicardia e confusão leve.

Com a progressão, surgem bradicardia, hipotensão, diminuição da frequência respiratória, rigidez muscular e rebaixamento do nível de consciência. Em casos graves, o paciente pode evoluir para coma, fibrilação ventricular e parada cardiorrespiratória.

A enfermagem deve estar atenta, pois sinais vitais podem estar falsamente baixos, exigindo avaliação cuidadosa.

Avaliação de enfermagem no paciente hipotérmico

A avaliação começa pela aferição correta da temperatura corporal, preferencialmente por métodos centrais, como esofágico, timpânico ou retal, quando disponíveis.

Além da temperatura, é fundamental avaliar sinais vitais, nível de consciência, perfusão periférica, presença de tremores, condições da pele e histórico clínico. A identificação da causa da hipotermia direciona as condutas e o plano de cuidados.

Cuidados de enfermagem no manejo da hipotermia

O principal objetivo do cuidado de enfermagem é restabelecer a temperatura corporal de forma segura e progressiva, evitando complicações.

Reaquecimento Passivo e Proteção

Em casos leves, o foco é impedir que o paciente perca mais calor. O primeiro passo é remover roupas úmidas e garantir que o paciente esteja em um ambiente aquecido e protegido de correntes de ar. O uso de mantas aluminizadas e cobertores de algodão aquecidos é a base dessa etapa. É vital isolar o paciente de superfícies frias, utilizando lençóis térmicos ou camadas extras de proteção entre a pele e o colchão.

Reaquecimento Ativo Externo e Interno

Para casos moderados a graves, precisamos fornecer calor de fora para dentro. Mantas térmicas de ar forçado são as ferramentas de ouro na enfermagem hospitalar. No entanto, em situações críticas, o cuidado se torna mais invasivo. A administração de fluidos intravenosos aquecidos a aproximadamente 39°C a 40°C é essencial para aquecer o núcleo corporal. A enfermagem deve monitorar rigorosamente a temperatura desses fluidos para evitar queimaduras internas ou hemólise.

Cuidados respiratórios e circulatórios

Pacientes hipotérmicos podem apresentar respiração lenta e superficial. A enfermagem deve garantir vias aéreas pérvias, administrar oxigênio aquecido e umidificado quando indicado e monitorar sinais de insuficiência respiratória.

No sistema cardiovascular, a monitorização da pressão arterial, frequência cardíaca e perfusão periférica é fundamental. A hipotermia pode mascarar sinais clássicos de choque, exigindo avaliação clínica criteriosa.

Monitorização e Vigilância Constante

O cuidado de enfermagem não termina quando o termômetro sobe para 36°C. A monitorização contínua é a nossa maior aliada.

  • Temperatura Central: Sempre que possível, utilize termômetros esofágicos ou cateteres vesicais com sensor de temperatura, que são muito mais precisos que a temperatura axilar em estados críticos.
  • Eletrocardiograma (ECG): O coração hipotérmico apresenta alterações clássicas, como a Onda de Osborne (uma deflexão após o complexo QRS). O enfermeiro deve estar atento ao surgimento de bradicardias ou batimentos ectópicos.
  • Balanço Hídrico e Glicemia: Pacientes hipotérmicos frequentemente sofrem de “diurese pelo frio” e podem estar desidratados. Além disso, o tremor consome muita glicose, sendo necessário monitorar os níveis glicêmicos para evitar hipoglicemia.

Administração de medicamentos e particularidades

Na hipotermia, o metabolismo dos medicamentos está reduzido. Isso significa que fármacos podem ter ação prolongada ou imprevisível. A enfermagem deve estar atenta a prescrições, intervalos e respostas clínicas, comunicando qualquer alteração à equipe médica.

Alguns medicamentos podem ter eficácia reduzida em temperaturas muito baixas, o que reforça a importância do reaquecimento adequado.

Aspectos éticos e segurança do paciente

A hipotermia é considerada um evento adverso evitável em muitos contextos hospitalares. A enfermagem deve atuar de forma preventiva, seguindo protocolos institucionais e promovendo uma assistência segura.

O registro adequado das intervenções e da evolução do paciente é essencial para garantir continuidade do cuidado e respaldo ético-profissional.

Os cuidados de enfermagem com pacientes hipotérmicos exigem atenção, conhecimento técnico e sensibilidade clínica. A identificação precoce, o reaquecimento adequado e a monitorização contínua são fundamentais para evitar complicações graves e desfechos fatais.

Para o estudante de enfermagem, compreender a hipotermia é entender que pequenas intervenções, quando realizadas no momento certo, podem salvar vidas.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Básico de Vida. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de atendimento às urgências e emergências. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br
  6. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Hypothermia. Geneva, 2021. Disponível em: https://www.who.int

O Peso da Responsabilidade: Quando o Erro de Enfermagem se Torna Fatal

Escolher a enfermagem é aceitar uma das missões mais nobres e, ao mesmo tempo, mais pesadas que existem. No dia a dia de um hospital, somos nós que passamos as 24 horas ao lado do paciente. Essa proximidade nos coloca em uma posição privilegiada para salvar vidas, mas também nos deixa na linha de frente de possíveis falhas.

Quando falamos em erros de enfermagem que podem levar à morte, não estamos buscando culpados para punir, mas sim caminhos para entender como o sistema falha e como podemos nos proteger — e proteger quem cuidamos.

Para um estudante, o medo de errar é constante. A verdade é que o ambiente de saúde é complexo e, muitas vezes, caótico. Um erro fatal raramente acontece por um único motivo; ele é quase sempre o desfecho de uma sucessão de pequenas falhas. Entender esses mecanismos é o primeiro passo para uma prática segura e consciente.

O objetivo deste texto não é apontar culpados, mas compreender os principais erros, as causas que os favorecem e o que pode ser feito para evitá-los, especialmente na formação do estudante de enfermagem.

O que são erros assistenciais na enfermagem?

Erros assistenciais são ações ou omissões que fogem das boas práticas, dos protocolos e da ética profissional, resultando ou podendo resultar em dano ao paciente. Eles podem ocorrer mesmo em ambientes organizados e com profissionais experientes, principalmente quando fatores humanos e institucionais se somam.

Nem todo erro leva à morte, mas alguns têm potencial de desencadear eventos graves como insuficiência respiratória, choque, sepse e parada cardiorrespiratória.

Principais erros da enfermagem associados ao risco de morte

Erros na administração de medicamentos

A administração de medicamentos é uma das atividades mais críticas da enfermagem. Falhas nesse processo estão entre as principais causas de eventos adversos graves.

Erros como dose incorreta, medicamento errado, via errada, diluição inadequada ou administração em velocidade incompatível podem causar intoxicações, reações adversas severas, depressão respiratória, arritmias e colapso cardiovascular.

A não conferência da prescrição, a pressa e a rotina automatizada são fatores frequentemente associados a esse tipo de erro.

Falhas na vigilância clínica e monitorização

Um dos papéis centrais da enfermagem é observar continuamente o paciente. Quando sinais de deterioração clínica não são reconhecidos ou são subestimados, o paciente pode evoluir rapidamente para óbito.

Alterações discretas nos sinais vitais, redução do nível de consciência, queda de saturação ou mudança no padrão respiratório muitas vezes antecedem eventos graves. A demora em comunicar a equipe médica ou iniciar intervenções básicas pode ser decisiva.

Omissão de cuidados fundamentais

Cuidados básicos, quando negligenciados, podem gerar consequências graves. A ausência de mudança de decúbito favorece lesões por pressão, que podem evoluir para infecção e sepse. A falta de cuidados com vias aéreas pode levar à broncoaspiração e insuficiência respiratória. A higiene inadequada aumenta o risco de infecções relacionadas à assistência à saúde.

Esses erros geralmente não acontecem por desconhecimento, mas por sobrecarga de trabalho, falta de pessoal e desvalorização dos cuidados básicos.

Erros em procedimentos técnicos

A realização de procedimentos sem domínio técnico, sem supervisão ou fora da competência profissional é um fator de risco importante.

Punções mal executadas, manejo inadequado de dispositivos invasivos, falhas na técnica asséptica e uso incorreto de sondas e cateteres podem resultar em sangramentos, infecções graves, pneumotórax, sepse e óbito.

Para o estudante de enfermagem, reconhecer limites e buscar apoio é uma atitude de segurança, não de fragilidade.

Falhas na comunicação entre a equipe

A comunicação deficiente é uma das principais causas de eventos adversos fatais nos serviços de saúde. Informações incompletas na passagem de plantão, registros inadequados e falta de comunicação sobre alterações clínicas importantes comprometem a continuidade do cuidado.

A enfermagem, por acompanhar o paciente de forma contínua, tem papel essencial na transmissão clara e objetiva dessas informações.

Negligência, imprudência e abandono de plantão

O abandono de plantão e a negligência configuram infrações éticas e legais. A ausência do profissional ou a assistência realizada com desatenção, uso excessivo de celular e desinteresse colocam o paciente em risco direto.

Essas situações comprometem a administração de medicamentos, a vigilância clínica e a resposta a emergências, podendo resultar em morte evitável.

Principais causas que favorecem os erros na enfermagem

Os erros raramente estão ligados a um único fator. Na maioria das vezes, eles são consequência de um conjunto de causas.

Para entender por que um erro acontece, usamos muito na segurança do paciente o Modelo de James Reason, ou Modelo do Queijo Suíço. Imagine que cada barreira de segurança no hospital (o protocolo, a conferência do médico, a checagem do enfermeiro) é uma fatia de queijo. Todas têm furos (falhas potenciais). O acidente ocorre quando os furos de todas as fatias se alinham perfeitamente, permitindo que o erro chegue ao paciente.

As causas principais que geram esses “furos” são conhecidas:

  • Sobrecarga e Fadiga: Equipe de enfermagem com excesso de pacientes e jornadas duplas têm sua capacidade cognitiva reduzida. O cérebro cansado “pula” etapas automáticas de segurança.
  • Comunicação Ineficaz: Passagens de plantão apressadas, prescrições verbais mal interpretadas e a falta de uso de ferramentas como o SBAR geram lacunas de informação fatais.
  • Cultura Punitiva: Quando o hospital pune severamente quem erra, os profissionais escondem os “quase erros”. Sem discutir o erro, o sistema nunca aprende a evitá-lo.
  • Falta de Educação Continuada: Protocolos mudam. Um profissional que não se atualiza pode estar aplicando técnicas ultrapassadas que hoje são consideradas inseguras.

O que pode ser feito para evitar esses incidentes?

A boa notícia é que a segurança do paciente evoluiu muito. Hoje, sabemos que confiar apenas na memória humana é um erro. Para evitar incidentes, precisamos de barreiras sistêmicas.

A implementação da dupla checagem para medicamentos de alto risco é uma das medidas mais eficazes. Ter um segundo colega conferindo a dose e a ampola antes da aplicação cria uma barreira física ao erro. Além disso, o uso da tecnologia, como a checagem por código de barras à beira do leito, garante que o remédio certo está indo para o paciente certo.

Outro ponto fundamental é o fortalecimento da Cultura de Segurança. Isso significa que a equipe deve se sentir segura para relatar riscos sem medo de retaliação. Se percebemos que um rótulo de soro está confuso, devemos relatar isso como um “incidente sem dano” para que a farmácia altere o padrão antes que alguém se confunda e o dano ocorra.

Cuidados de Enfermagem para a Prática Segura

Para você, que está no campo de estágio ou prestes a se formar, algumas condutas devem ser inegociáveis:

  1. Vigilância Ativa: Não seja um “anotador de sinais vitais”. Seja um analista. Se os dados mudaram em relação ao último controle, investigue o porquê.
  2. Rigor com os “Certos“: Nunca pule as etapas de conferência de medicação. Identificação do paciente, dose, via e hora devem ser checadas verbalmente com o próprio paciente sempre que possível.
  3. Comunicação Assertiva: Ao receber uma ordem verbal em emergências, repita a ordem em voz alta para confirmar se entendeu corretamente antes de executar.
  4. Conheça seus Dispositivos: Antes de infundir qualquer coisa, confirme a procedência do cateter. Dietas nunca devem estar próximas de acessos venosos sem uma identificação visual clara e distinta.

Os erros da enfermagem que podem levar o paciente à morte não são resultado apenas de falhas individuais, mas de um sistema que muitas vezes sobrecarrega e fragiliza o profissional.

Compreender esses erros, reconhecer suas causas e investir em prevenção é essencial para formar profissionais mais seguros, conscientes e preparados. Para o estudante de enfermagem, esse conhecimento é um passo fundamental para uma prática ética, humana e baseada na segurança do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Assistência Segura: Uma Reflexão Teórica Aplicada à Prática. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-1-assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Resolução Cofen nº 564/2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-5642017_59145.html
  3. REASON, James. Human error: models and management. BMJ, v. 320, n. 7237, p. 768-770, 2000. Disponível em: https://www.bmj.com/content/320/7237/768. Acesso em: 27 dez. 2025.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP). Brasília, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety: global action plan 2021–2030. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int
  6. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com

O que faz um Enfermeiro Estomaterapeuta?

O enfermeiro estomaterapeuta é um profissional especializado, com formação específica para o cuidado de pacientes que apresentam estomias, feridas complexas e incontinências. Sua atuação é essencial para promover a reabilitação, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida das pessoas que necessitam de cuidados contínuos nessas áreas.

Formação e Especialização

Para atuar como estomaterapeuta, o enfermeiro precisa concluir a graduação em enfermagem e realizar uma especialização reconhecida pela Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST). A formação aborda conhecimentos teóricos e práticos, englobando anatomia, fisiologia, técnicas de curativos, escolha de dispositivos e abordagem humanizada ao paciente.

O Que É Estomaterapia? A Ciência do Cuidado Especializado

A Estomaterapia é uma especialidade da enfermagem que se dedica à assistência de pacientes com três principais tipos de condições:

  1. Estomas: Aberturas cirúrgicas que conectam um órgão oco (como intestino ou bexiga) à pele, permitindo a saída de fezes, urina ou gases.
  2. Feridas: Lesões de pele agudas ou crônicas, como úlceras de pressão, úlceras de perna e feridas cirúrgicas complexas.
  3. Incontinências: Perda involuntária de urina ou fezes.

O enfermeiro estomaterapeuta, portanto, é um especialista nessas três áreas. Ele não apenas cuida do problema em si, mas também capacita o paciente e sua família a conviver com a condição, buscando sempre a reabilitação, a autonomia e a qualidade de vida.

O Que Faz um Enfermeiro Estomaterapeuta na Prática?

A atuação do estomaterapeuta é abrangente e vai muito além de uma simples troca de curativo. Seu trabalho se estende por diferentes fases do tratamento do paciente.

No Cuidado com Estomas

A criação de um estoma é um procedimento que muda a vida de uma pessoa. O estomaterapeuta é o principal profissional que acompanha o paciente nessa jornada, atuando no pré, trans e pós-operatório:

  • Pré-operatório: Avaliar o paciente, orientar sobre o que esperar e, mais importante, marcar o local ideal para a cirurgia do estoma. Uma marcação precisa evita problemas futuros e facilita a adaptação do paciente.
  • Pós-operatório: Ensinar o paciente a cuidar do estoma e da pele ao redor, a escolher e usar os equipamentos coletores (bolsas de colostomia, ileostomia ou urostomia), a lidar com possíveis complicações e a retomar suas atividades diárias.
  • Acompanhamento a Longo Prazo: O estomaterapeuta continua sendo um ponto de referência para o paciente, oferecendo suporte, ajustando equipamentos e resolvendo problemas que possam surgir ao longo da vida.

No Cuidado com Feridas

A expertise do estomaterapeuta em feridas crônicas é um diferencial enorme. O trabalho envolve:

  • Avaliação da Ferida: Fazer uma avaliação completa, identificando o tipo, tamanho, profundidade, exsudato e tipo de tecido, para um diagnóstico preciso e um plano de tratamento adequado.
  • Escolha da Cobertura Ideal: Eleger o curativo mais adequado para cada tipo e estágio da ferida, o que otimiza a cicatrização e reduz o tempo de tratamento. Ele domina o uso de curativos avançados, como alginatos, hidrocolóides, hidrogéis e curativos com prata, entre outros.
  • Prevenção: Atuar na prevenção de úlceras por pressão e outras lesões de pele, educando a equipe de enfermagem sobre o reposicionamento do paciente, o uso de superfícies de alívio de pressão e a importância da hidratação da pele.

No Cuidado com Incontinências

A incontinência urinária e fecal é um problema que afeta a autoestima e a vida social do paciente. O estomaterapeuta trabalha para minimizar o impacto dessa condição:

  • Avaliação e Diagnóstico: Identificar o tipo e a causa da incontinência para traçar um plano de tratamento.
  • Estratégias de Manejo: Ensinar o paciente a usar produtos de proteção (fraldas, absorventes), cateteres urinários e coletores, e orientar sobre a reabilitação do assoalho pélvico.
  • Educação: Ajudar o paciente a lidar com os aspectos emocionais e sociais da incontinência, melhorando sua qualidade de vida.

Por que a Estomaterapia é uma Carreira de Destaque?

A Estomaterapia é uma área de grande impacto porque transforma a vida dos pacientes. O estomaterapeuta não apenas trata um problema físico, mas também devolve a dignidade, a autonomia e a capacidade de viver plenamente a pessoas que, muitas vezes, enfrentam estigmas e desafios enormes.

É uma especialidade que exige conhecimento técnico apurado, mas também uma grande dose de empatia, paciência e habilidade para se comunicar e educar.

Para um estudante de enfermagem, conhecer essa área é abrir a mente para um mundo de possibilidades, onde o cuidado se torna uma verdadeira arte de reabilitação e humanização.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). O que é estomaterapia. Disponível em: http://sobest.org.br/o-que-e-estomaterapia/.
  2. ERDMANN, A. L. et al. O papel do enfermeiro na prevenção e tratamento das úlceras de pressão. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 45, n. 4, p. 1007-1014, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt.
  3. COLOMÉ, J. S.; MARIN, S. M.; GOMES, G. C. Atuação do enfermeiro estomaterapeuta: um olhar para a prática profissional. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, supl. 6, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/XYZ. Acesso em: 10 ago. 2025.

Escarotomia: O que é?

E aí, pessoal da enfermagem! Hoje a gente vai mergulhar em um procedimento cirúrgico que, apesar de parecer simples, faz uma diferença enorme na vida de pacientes com queimaduras graves: a escarotomia.

Já se depararam com essa situação ou ouviram falar? Se a resposta for não, ou se querem refinar o conhecimento, chega mais que vou desenrolar esse tema de um jeito bem prático e com o olhar atento que a enfermagem sempre tem.

Entendendo a “Armadura” da Queimadura Grave

Pensa numa queimadura daquelas bem profundas, que não pega só a camada superficial da pele, mas atinge tecidos mais internos. Em alguns casos, essa lesão evolui formando uma crosta espessa e rígida, tipo uma “armadura” sobre a área queimada. Essa crosta é a escara.

O problema é que essa escara, por ser tão dura e inflexível, começa a exercer uma pressão enorme sobre os tecidos subjacentes. É como se a pele queimada virasse uma roupa apertada demais, dificultando a circulação sanguínea.

Em queimaduras que circundam um membro inteiro (braço, perna) ou até o tronco, essa compressão pode ser tão severa que compromete a chegada de sangue, oxigênio e nutrientes, além de poder afetar nervos e a respiração.

É nesse cenário que a escarotomia se torna essencial. O procedimento consiste em realizar incisões cirúrgicas através dessa escara para aliviar a pressão. Imagina que são pequenos “cortes de alívio” que permitem que os tecidos se expandam e a circulação seja restabelecida.

O “Porquê” da Escarotomia: Mais que Alívio, Preservação

A indicação principal da escarotomia é justamente essa: descomprimir a área afetada para restaurar o fluxo sanguíneo. Essa restauração é crucial para evitar complicações graves, como:

  • Síndrome compartimental: Sabe quando a pressão dentro de um grupo muscular aumenta a níveis perigosos? Isso pode levar a danos musculares e nervosos irreversíveis. A escara circunferencial é um fator de risco importante para essa síndrome.
  • Comprometimento vascular: A pressão da escara pode esmagar os vasos sanguíneos, impedindo a chegada de sangue oxigenado aos tecidos. A isquemia (falta de oxigênio) prolongada pode levar à necrose (morte do tecido) e, em casos extremos, à necessidade de amputação.
  • Restrição respiratória: Em queimaduras que circundam o tórax, a escara pode impedir a expansão completa da caixa torácica durante a respiração, dificultando a ventilação e a oxigenação do paciente.

Percebem a seriedade da coisa? A escarotomia não é só para o paciente se sentir mais confortável, mas sim para prevenir danos sérios e preservar a vida e a função dos membros.

A Enfermagem em Ação: Antes, Durante e Depois da Escarotomia

A gente, como profissionais de enfermagem, tem um papel vital em todas as etapas desse processo.

Antes do Procedimento:

  • Avaliação Cirúrgica: Nossa avaliação constante é a chave. Precisamos estar atentos aos sinais que indicam a necessidade de uma escarotomia: dor intensa e desproporcional à lesão, palidez ou cianose (pele azulada) da extremidade distal à queimadura, diminuição ou ausência de pulsos periféricos, alteração da sensibilidade (formigamento, dormência) e dificuldade para movimentar os dedos.
  • Comunicação Imediata: Qualquer alteração nesses sinais precisa ser comunicada imediatamente à equipe médica. O tempo é crucial nesses casos.
  • Preparo do Paciente: Explicar o procedimento ao paciente e à família de forma clara e tranquilizadora (dentro do possível, considerando o estado emocional de todos). Preparar a área para o procedimento conforme a orientação médica, geralmente com limpeza e tricotomia (remoção de pelos) se necessário. Garantir que o paciente esteja o mais confortável possível antes do procedimento.
  • Monitorização Constante: Acompanhar de perto os sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória) e a oximetria de pulso.

Durante o Procedimento:

  • Auxílio ao Médico: Preparar todo o material necessário para o procedimento (bisturi, pinças hemostáticas, solução antisséptica, gazes, etc.) e auxiliar o médico durante a realização das incisões. Manter a área limpa e organizada.
  • Monitorização Contínua: Seguir monitorando os sinais vitais e observar a resposta do paciente ao procedimento, como o possível alívio da pressão e a melhora da perfusão periférica.
  • Suporte Emocional: Oferecer apoio emocional ao paciente, que pode estar apreensivo ou sentir dor durante o procedimento, mesmo sob analgesia.

Após o Procedimento:

  • Cuidados com as Incisões: Realizar os curativos conforme a prescrição médica, utilizando técnica asséptica para prevenir infecções. Observar atentamente os sinais de infecção nas áreas das incisões (vermelhidão, calor, edema, secreção purulenta, odor). Documentar as características do curativo e da ferida.
  • Avaliação da Perfuração: Continuar monitorando rigorosamente os pulsos distais, a coloração e a temperatura da pele, a sensibilidade e a motricidade da área afetada. Comparar com o membro contralateral, se houver. Qualquer sinal de piora deve ser comunicado imediatamente.
  • Controle da Dor: Administrar a medicação analgésica prescrita e avaliar a eficácia do tratamento, registrando a intensidade da dor em escalas adequadas. Oferecer medidas não farmacológicas para alívio da dor, como posicionamento adequado e distração.
  • Prevenção de Complicações: Manter o membro elevado (se for o caso) para auxiliar na redução do edema. Incentivar a movimentação dos dedos e do membro (quando possível e indicado pela equipe médica) para melhorar a circulação e prevenir trombose venosa profunda.
  • Educação do Paciente e Família: Orientar o paciente e a família sobre os cuidados com os curativos, os sinais de alerta de infecção, a importância de seguir as orientações médicas para a recuperação e os retornos para acompanhamento.

Cuidando com Atenção: Pontos Chave da Enfermagem na Escarotomia

Para reforçar, nossos cuidados de enfermagem na escarotomia se concentram em:

  • Reconhecimento precoce da necessidade do procedimento através de uma avaliação clínica detalhada e contínua.
  • Comunicação assertiva com a equipe médica sobre qualquer alteração observada.
  • Assistência qualificada e segura durante a realização do procedimento.
  • Monitorização constante e atenta da perfusão periférica e dos sinais vitais no pós-operatório.
  • Prevenção de infecções nas áreas das incisões cirúrgicas.
  • Manejo eficaz da dor do paciente.
  • Orientação e suporte ao paciente e seus familiares.

Lembrem-se que a escarotomia é um procedimento que pode mudar drasticamente o prognóstico de um paciente com queimaduras graves. Nosso olhar clínico e nossos cuidados dedicados são essenciais para garantir que essa intervenção seja realizada no momento certo e que a recuperação ocorra da melhor forma possível.

Referências:

  1. SILVA, M. A.; PEREIRA, A. B. Tratamento de queimaduras: guia prático para enfermagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  2. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth’s textbook of medical-surgical nursing. 14. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2018.
  3. Sociedade Brasileira de Queimaduras: https://sbqueimaduras.org.br/
  4. Revista Brasileira de Queimaduras: http://www.rbqueimaduras.com.br/