Os tipos de Pulso Arterial

A avaliação do pulso arterial é uma das práticas clínicas mais antigas e fundamentais na enfermagem. Ela fornece dados essenciais sobre o sistema cardiovascular, como frequência cardíaca, ritmo, amplitude e regularidade. Observar o pulso é muito mais do que apenas “contar batimentos”: é entender o que está por trás de cada pulsação.

Nesta publicação, vamos explorar os diferentes tipos de pulso arterial, seus significados clínicos e a importância do olhar atento da enfermagem durante o exame físico.

O Que É o Pulso Arterial?

Pense no coração como uma bomba potente. A cada contração (sístole), ele ejeta sangue para a aorta e, em seguida, para as grandes artérias. Essa ejeção de sangue gera uma onda de pressão que se propaga rapidamente pelas paredes elásticas das artérias. É essa onda que nós percebemos como o pulso.

Ao avaliar o pulso, não estamos apenas contando as batidas. Estamos avaliando diversas características:

  • Frequência: Quantas batidas por minuto.
  • Ritmo: Se as batidas são regulares ou irregulares.
  • Amplitude/Força: A intensidade da onda de pulso (forte, fraco).
  • Tensão/Elasticidade: A rigidez da parede arterial.
  • Simetria: Se o pulso é igual nos dois lados do corpo (ex: pulsos radiais).

Agora, vamos aos tipos de pulso que nos dão pistas diagnósticas valiosas:

Pulso Normal (Normosfígmico): O Equilíbrio Saudável

Este é o pulso que esperamos encontrar em uma pessoa saudável.

  • Características:
    • Frequência: Entre 60 e 100 batimentos por minuto (bpm) em repouso.
    • Ritmo: Regular, com intervalos iguais entre as batidas.
    • Amplitude: Moderada, fácil de palpar, nem muito forte nem muito fraca.
    • Tensão: Moderada, a artéria é elástica e não oferece resistência excessiva.
    • Simetria: Presente e igual em ambos os lados.
  • Significado: Indica um bom funcionamento cardiovascular, com débito cardíaco adequado e artérias elásticas.

Bradicardia e Taquicardia: As Variações de Frequência

Estas não são exatamente “tipos” de pulso em termos de qualidade da onda, mas sim variações na sua frequência que são cruciais para a avaliação.

  • Bradicardia:
    • Características: Frequência de pulso inferior a 60 bpm.
    • Significado: Pode ser normal em atletas bem condicionados ou durante o sono profundo. Pode ser causada por medicamentos (betabloqueadores), hipotireoidismo, doenças cardíacas (bloqueios atrioventriculares) ou outras condições.
  • Taquicardia:
    • Características: Frequência de pulso superior a 100 bpm.
    • Significado: Pode ser uma resposta fisiológica ao exercício, estresse, ansiedade, febre, dor, desidratação. Pode ser patológica em arritmias, choque, anemia, hipertireoidismo.

Pulso Filiforme (ou Fino/Débil): O Quase Ausente

Este pulso é um sinal de alerta e exige atenção imediata.

  • Características: Muito difícil de palpar, fraco, mal perceptível, como um “fio”. Geralmente é rápido (taquicárdico).
  • Significado: Indica um débito cardíaco muito baixo, ou seja, o coração não está bombeando sangue suficiente para os tecidos. É um sinal clássico de choque (hipovolêmico, cardiogênico, séptico), desidratação grave, hemorragia intensa ou insuficiência cardíaca grave.

Pulso Forte ou Cheio (Magnus): O Batimento Robusto

É o oposto do pulso filiforme.

  • Características: Amplitude aumentada, muito fácil de palpar e sentir, como uma onda “cheia”.
  • Significado: Pode ser encontrado em situações de aumento do débito cardíaco (exercício, ansiedade, febre) ou em condições como hipertireoidismo, insuficiência aórtica (onde há regurgitação de sangue para o ventrículo, aumentando o volume de ejeção) ou hipertensão arterial sistêmica (especialmente com alta pressão de pulso).

Pulso Arrítmico: A Dança Desordenada

Aqui, a questão é o ritmo.

  • Características: Os intervalos entre as batidas não são regulares. Podem ser irregularmente irregulares (sem padrão) ou regularmente irregulares (com um padrão repetitivo de irregularidade).
  • Significado: Indica a presença de arritmias cardíacas, como fibrilação atrial (irregularmente irregular, muito comum), extrassístoles (batidas extras isoladas) ou bloqueios cardíacos. Cada tipo de arritmia tem um significado clínico diferente, e a identificação do pulso arrítmico é o primeiro passo para a investigação.

Pulso Alternante (Pulso de Broadbent): O Forte e Fraco

É um pulso com variações na sua amplitude, intercalando batimentos fortes com batimentos fracos, em um ritmo regular.

  • Características: Batidas regulares, mas uma é forte e a próxima é fraca, e assim por diante.
  • Significado: É um sinal de disfunção ventricular esquerda grave, ou seja, o lado esquerdo do coração está com dificuldade para bombear o sangue de forma consistente. Geralmente indica insuficiência cardíaca avançada.

Pulso Dicrótico: A Dupla Ondulação

Este pulso é caracterizado por duas ondas distintas em cada batimento cardíaco, sendo a segunda onda (dicrótica) mais fraca.

  • Características: Ao palpar, parece que há duas “pancadas” para cada batida do coração.
  • Significado: Geralmente indica condições com baixo débito cardíaco e alta resistência periférica, como febre tifoide grave ou choque cardiogênico ou hipovolêmico (embora seja menos comum de ser identificado clinicamente e mais por exames).

Pulso em Martelo d’Água (ou Pulso de Corrigan): O Impulso Súbito

Também conhecido como pulso colapsante.

  • Características: Uma onda de pulso muito forte e rápida que sobe e desce abruptamente, como um jato d’água que atinge a mão e recua rapidamente. É mais fácil de sentir na artéria radial com o braço elevado.
  • Significado: É um achado clássico de insuficiência aórtica grave, onde a válvula aórtica não fecha completamente, permitindo que o sangue volte para o coração após cada sístole. Também pode ser visto em hipertiroidismo, anemia grave, ou ducto arterioso patente.

Pulso Paradoxal: O Que Engana na Inspiração

Este é um tipo de pulso em que a amplitude diminui significativamente durante a inspiração profunda e aumenta na expiração. Paradoxal porque, fisiologicamente, a inspiração aumenta o retorno venoso e deveria manter ou aumentar a amplitude do pulso.

  • Características: A diferença na pressão sistólica entre a expiração e a inspiração é superior a 10 mmHg. Isso pode ser difícil de sentir apenas palpando, mas pode ser detectado ao aferir a pressão arterial e observar a diminuição dos sons de Korotkoff durante a inspiração.
  • Significado: É um sinal de condições que limitam a expansão do coração durante a inspiração. As causas mais comuns são: tamponamento cardíaco (acúmulo de líquido ao redor do coração que o comprime), pericardite constritiva e asma/DPOC grave (devido às grandes variações de pressão intratorácica).

Cuidados de Enfermagem

A avaliação do pulso não é um ato mecânico; é uma arte que exige prática e sensibilidade. Nossos cuidados envolvem:

  1. Técnica Adequada: Usar a polpa dos dedos (indicador, médio e anelar), não o polegar. Aplicar pressão suficiente para sentir o pulso, mas não ocluir a artéria.
  2. Locais de Palpação: Conhecer os diferentes locais (radial, carotídeo, femoral, pedioso, poplíteo, braquial) e saber qual é o mais adequado para cada situação. O pulso carotídeo é o mais indicado em situações de emergência, como na parada cardiorrespiratória.
  3. Avaliação Completa: Não apenas contar a frequência, mas avaliar o ritmo, a amplitude e a tensão. Sempre comparar os pulsos periféricos dos dois lados do corpo (simetria).
  4. Integração com Outros Dados: Correlacionar as características do pulso com outros sinais vitais (pressão arterial, frequência respiratória, saturação de oxigênio) e com o quadro clínico geral do paciente.
  5. Comunicação Efetiva: Registrar os achados de forma clara e comunicar imediatamente qualquer alteração significativa ao médico.
  6. Intervenção Rápida: Um pulso filiforme, por exemplo, exige intervenção imediata para investigar e tratar a causa do choque.

Dominar a avaliação do pulso arterial é uma das competências mais valiosas para profissional de enfermagem. É uma forma simples, não invasiva e rápida de obter informações cruciais sobre o estado cardiovascular do paciente, permitindo-nos agir com precisão e, muitas vezes, fazer a diferença entre a vida e a morte.

Referências:

  1. JARVIS, C. Bates Propedêutica de Enfermagem. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. (Consultar capítulo sobre Exame Físico do Sistema Cardiovascular).
  2. PORTO, C. C. Semiologia Médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. (Consultar capítulo sobre Exame do Sistema Cardiovascular).
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Cardiologia. (Disponível em publicações da SBC ou em seus periódicos, como os Arquivos Brasileiros de Cardiologia, para aprofundar em arritmias e insuficiência cardíaca). Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/.
  4. BARROS, A. L. B. L. Exame físico: avaliação diagnóstica de enfermagem no adulto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.
  6. MANUAL MERCK. Pulso arterial: avaliação clínica. Disponível em: https://www.msdmanuals.com
  7. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br
Notícias da Enfermagem

Cofen Lança Anna: Inteligência Artificial para Modernizar Atendimento à Enfermagem

Brasília, 1º de julho de 2025 – O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) acaba de dar um passo importante rumo à modernização do atendimento aos profissionais da Enfermagem brasileira com o lançamento da Anna, uma Inteligência Artificial (IA) projetada para otimizar a interação com a categoria. A Anna, desenvolvida para ser um recurso dinâmico e […]

Retirada de Pontos pela Enfermagem

A retirada de pontos, também chamada de remoção de sutura, é um procedimento simples, mas que requer técnica, atenção e responsabilidade por parte da equipe de enfermagem. Após a realização de uma sutura, seja por procedimento cirúrgico ou por fechamento de feridas traumáticas, chega o momento de avaliar a cicatrização e decidir pelo momento ideal de retirada desses fios.

Nesta publicação, vamos explicar de forma clara como esse procedimento é realizado, quando ele deve ser feito, os principais cuidados de enfermagem e as orientações ao paciente.

Por que os pontos são usados?

A sutura é uma técnica que visa unir bordas de uma ferida ou incisão cirúrgica, facilitando a cicatrização por aproximação dos tecidos. O uso de fios de sutura (não absorvíveis) ou grampos permite estabilizar a pele e estruturas mais profundas durante o processo inflamatório e regenerativo.

Quando a ferida já passou pelas fases iniciais da cicatrização e a epiderme está reconstituída, os pontos se tornam desnecessários e sua permanência pode aumentar o risco de infecção ou provocar marcas mais evidentes na pele.

Quando os pontos devem ser retirados?

A decisão de quando remover os pontos não é arbitrária. Depende de vários fatores:

  • Local da Ferida: Áreas com mais movimento (como joelhos e cotovelos) ou mais tensão (como as costas) geralmente precisam de mais tempo para cicatrização e, consequentemente, os pontos ficam por mais tempo.
  • Tipo de Ferida: Incisões cirúrgicas limpas cicatrizam mais rápido do que feridas com bordas irregulares ou mais profundas.
  • Idade e Saúde do Paciente: Pessoas mais jovens e saudáveis tendem a cicatrizar mais rapidamente. Pacientes com diabetes, desnutrição, imunidade baixa ou que usam certos medicamentos (como corticoides) podem ter uma cicatrização mais lenta e os pontos podem precisar ficar por mais tempo.
  • Tensão na Ferida: Se a ferida está sob muita tensão, os pontos podem ficar por mais tempo para evitar que ela se abra.
  • Material do Ponto: Alguns pontos são absorvíveis (caem sozinhos ou são absorvidos pelo corpo), outros são não absorvíveis (precisam ser retirados). Estamos falando aqui dos pontos não absorvíveis.

Em geral, os pontos podem ser retirados entre 7 a 15 dias após a sua colocação. Feridas no rosto, por exemplo, podem ter os pontos retirados em 5 a 7 dias para evitar cicatrizes. Já em áreas de maior movimento, como o joelho, pode-se esperar 14 dias ou mais. A equipe médica sempre deixará uma prescrição ou orientação sobre o tempo ideal.

Quem pode retirar os pontos?

De acordo com a legislação brasileira, o enfermeiro pode realizar a remoção de pontos desde que seja respaldado por prescrição médica ou protocolo institucional, além de possuir conhecimento técnico sobre o procedimento.

Técnicos e auxiliares de enfermagem também podem ser responsáveis pela execução do procedimento, sob supervisão do enfermeiro, desde que o protocolo da instituição permita e a conduta esteja prescrita.

Etapas do procedimento: como retirar os pontos corretamente

A retirada de pontos deve ser feita com técnica asséptica, material esterilizado e muita atenção para evitar complicações, como abertura da ferida ou dor ao paciente.

Passo a passo geral:

  1. Higienização das mãos e paramentação com luvas de procedimento.
  2. Avaliação da ferida: verificar se há sinais de infecção, deiscência (abertura da sutura), vermelhidão ou dor.
  3. Reunião do material necessário, como:
    • Pinça anatômica estéril
    • Tesoura de ponta curva ou removedor de sutura
    • Gaze estéril
    • Antisséptico (geralmente clorexidina aquosa ou PVPI)
  4. Antissepsia do local da ferida com gaze embebida em antisséptico.
  5. Retirada do ponto, cortando o fio próximo à pele e puxando cuidadosamente a outra extremidade com a pinça. Isso evita arrastar a parte externa do fio por dentro da ferida.
  6. Contagem e registro do número de pontos removidos.
  7. Curativo, se necessário, com gaze estéril e micropore.
  8. Orientações ao paciente sobre sinais de alerta e cuidados domiciliares.

Cuidados de enfermagem antes, durante e após a retirada dos pontos

O procedimento em si é rápido, mas o cuidado da enfermagem vai muito além da técnica. É preciso uma avaliação contínua do processo de cicatrização e orientação ao paciente.

Antes da remoção:

  • Verificar a prescrição médica e o prazo adequado
  • Explicar o procedimento ao paciente, promovendo segurança
  • Avaliar se o local apresenta sinais de infecção (pus, dor, rubor, calor)

Durante a remoção:

  • Utilizar técnica asséptica rigorosa
  • Manter o conforto do paciente durante o procedimento
  • Ter atenção para não causar trauma à pele ou sangramentos

Após a remoção:

  • Observar se os bordos permanecem unidos
  • Registrar o procedimento no prontuário
  • Orientar o paciente sobre cuidados com o local da sutura, como:
    • Evitar exposição ao sol por algumas semanas
    • Manter a região limpa e seca
    • Observar sinais de abertura da ferida ou infecção

Quando não remover os pontos?

Existem situações em que a retirada dos pontos deve ser adiada, como:

  • Presença de infecção local
  • Bordos da ferida não aproximados
  • Secreção purulenta ou sangramento persistente
  • Dor intensa à palpação
  • Febre sem causa aparente

Nesses casos, a equipe deve reavaliar com o médico e registrar no prontuário os motivos da não realização do procedimento.

A remoção de pontos, apesar de ser considerada um procedimento simples, envolve responsabilidade, conhecimento técnico e atenção aos detalhes. O profissional de enfermagem tem um papel essencial, tanto na avaliação da ferida quanto no cuidado com o paciente antes, durante e após o procedimento.

Para o estudante de enfermagem, aprender a realizar esse procedimento com segurança é mais do que dominar uma técnica — é compreender o processo de cicatrização, respeitar o tempo do corpo e garantir um cuidado humanizado.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf. Acesso em: 17 jun. 2025.
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre cuidado com feridas e suturas).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
  4. BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução nº 564/2017. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Disponível em:
    https://www.portalcofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html
  5. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.

Notícias da Enfermagem

Cofen Aprova Isenção de Taxa para Renovação de Carteira Profissional de Enfermagem

Brasília, 7 de junho de 2025 – Uma excelente notícia para os profissionais de Enfermagem do Brasil! O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) aprovou a Resolução nº 777/2025, que traz uma atualização significativa nas regras administrativas para o registro da categoria: a isenção da taxa de emissão da carteira profissional para renovação. A medida, que […]

Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)

Imagine os seus pulmões como uma rede complexa de vias aéreas, responsáveis por levar o oxigênio essencial para o seu corpo e eliminar o dióxido de carbono. Na DPOC, essa rede enfrenta um obstáculo crescente.

A doença se caracteriza por uma limitação persistente do fluxo de ar nos pulmões, tornando a respiração cada vez mais difícil. Essa obstrução não é totalmente reversível e geralmente piora com o tempo.

A DPOC, na verdade, engloba principalmente duas condições que frequentemente coexistem: a bronquite crônica, marcada pela inflamação dos brônquios e produção excessiva de muco, e o enfisema pulmonar, caracterizado pela destruição dos pequenos sacos de ar nos pulmões (alvéolos) e pela perda da elasticidade pulmonar.

Essa combinação de fatores leva ao aprisionamento de ar nos pulmões (hiperinsuflação), dificultando a expiração completa e comprometendo a troca gasosa vital.

As Raízes do Problema: Desvendando as Causas da DPOC

A principal causa da DPOC é a exposição prolongada a substâncias irritantes que agridem os pulmões. O grande vilão nessa história é, sem dúvida, o tabagismo. A fumaça do cigarro, com suas inúmeras toxinas, desencadeia uma inflamação crônica nas vias aéreas e nos alvéolos, levando aos danos estruturais característicos da doença.

No entanto, o cigarro não é o único culpado. A exposição a poluentes ambientais e ocupacionais, como poeiras industriais, produtos químicos e fumos, também pode contribuir significativamente para o desenvolvimento da DPOC, especialmente em indivíduos não fumantes. A inalação passiva da fumaça do cigarro, embora em menor grau, também representa um risco.

Outros fatores podem aumentar a suscetibilidade à DPOC, como infecções respiratórias recorrentes na infância, que podem prejudicar o desenvolvimento pulmonar, e uma predisposição genética, sendo a deficiência de alfa-1 antitripsina o exemplo mais conhecido.

A asma de longa data não tratada e o próprio processo de envelhecimento, que naturalmente causa uma perda gradual da função pulmonar, também podem contribuir. Além disso, fatores como baixo peso ao nascer e nível socioeconômico baixo, que pode estar associado a maior exposição a poluentes e menor acesso à saúde, também são considerados.

Os Sinais de Alerta: Reconhecendo as Características da DPOC

A DPOC pode se manifestar de diversas formas, e os sintomas podem variar em intensidade dependendo do estágio da doença. É fundamental estarmos atentos aos sinais que podem indicar a presença dessa condição:

  • Falta de Ar (Dispneia): Este é um dos sintomas mais comuns e angustiantes. Inicialmente, pode ocorrer apenas durante o esforço físico, mas com a progressão da doença, a falta de ar pode surgir mesmo em repouso, limitando severamente as atividades diárias.
  • Tosse Crônica: Uma tosse persistente, que pode ser seca ou acompanhada de secreção, é um sintoma frequente. Muitas vezes, o paciente pode atribuir essa tosse ao “cigarro” ou a “alergias”, retardando a busca por ajuda médica.
  • Produção Crônica de Muco (Expectoração): A tosse geralmente vem acompanhada da produção de escarro, que pode variar em cor e quantidade. Essa secreção é resultado da inflamação e da hipersecreção nas vias aéreas.
  • Chiado no Peito (Sibilos): Um som sibilante ou chiado durante a respiração, especialmente ao expirar, pode ocorrer devido ao estreitamento das vias aéreas.
  • Aperto no Peito: Alguns pacientes descrevem uma sensação de aperto ou peso no peito, que pode estar relacionada à dificuldade em respirar.
  • Fadiga: A dificuldade em obter oxigênio suficiente e o esforço extra para respirar podem levar a uma sensação de cansaço constante e diminuição da tolerância ao exercício.
  • Perda de Peso Involuntária: Em estágios mais avançados, alguns pacientes podem perder peso sem intenção, devido ao aumento do gasto energético para respirar e à diminuição do apetite.
  • Exacerbações: Períodos de piora súbita e intensa dos sintomas (aumento da falta de ar, tosse e produção de muco) são comuns na DPOC e podem exigir tratamento médico imediato, incluindo antibióticos ou corticosteroides.
  • Tórax em Barril: Em casos de enfisema avançado, a hiperinsuflação pulmonar crônica pode levar a uma alteração na forma do tórax, que assume um formato mais arredondado, semelhante a um barril.

O Cuidado de Enfermagem: Nosso Papel Essencial no Manejo da DPOC

Para nós, profissionais de enfermagem, o cuidado ao paciente com DPOC vai muito além do alívio dos sintomas agudos. Nosso papel é fundamental para melhorar a qualidade de vida, prevenir complicações e educar o paciente e seus familiares sobre o manejo da doença. Nossas ações incluem:

  • Avaliação Abrangente: Realizar uma anamnese detalhada, investigando o histórico do paciente, fatores de risco, sintomas, impacto da doença nas atividades diárias e qualidade de vida. Avaliar os sinais vitais, ausculta pulmonar e padrão respiratório.
  • Educação para a Saúde: Informar o paciente sobre a natureza da DPOC, suas causas, os mecanismos da doença e a importância da adesão ao tratamento. Reforçar a necessidade de cessação do tabagismo, caso aplicável, oferecendo apoio e recursos para auxiliar nesse processo.
  • Administração de Medicamentos: Garantir a administração correta dos medicamentos prescritos, como broncodilatadores (de curta e longa ação), corticosteroides inalatórios e orais, e outros fármacos. Orientar o paciente sobre a técnica correta de utilização dos dispositivos inalatórios (bombinhas e espaçadores) e a importância da regularidade do uso.
  • Oxigenoterapia: Administrar oxigênio suplementar conforme a prescrição médica, monitorando a saturação de oxigênio e ajustando o fluxo quando necessário. Educar o paciente e seus familiares sobre o uso correto e seguro do oxigênio domiciliar, se indicado.
  • Reabilitação Pulmonar: Encorajar e orientar o paciente a participar de programas de reabilitação pulmonar, que incluem exercícios respiratórios, treinamento físico, orientações nutricionais e suporte psicossocial. Esses programas são cruciais para melhorar a tolerância ao exercício, reduzir a falta de ar e melhorar a qualidade de vida.
  • Manejo das Exacerbações: Reconhecer precocemente os sinais de exacerbação e orientar o paciente sobre quando e como procurar ajuda médica. Seguir as prescrições médicas durante as exacerbações, administrando medicamentos, oxigênio e oferecendo suporte respiratório, se necessário.
  • Suporte Respiratório Não Invasivo (VNI): Em casos de exacerbação grave, auxiliar na implementação e monitorização da ventilação não invasiva, conforme a indicação médica.
  • Promoção da Nutrição Adequada: Avaliar o estado nutricional do paciente e oferecer orientações sobre uma dieta equilibrada e rica em nutrientes. Em casos de perda de peso, pode ser necessário o acompanhamento de um nutricionista.
  • Suporte Emocional: Oferecer apoio emocional e escuta ativa ao paciente e seus familiares, que podem enfrentar ansiedade, depressão e isolamento social devido à doença.
  • Prevenção de Infecções: Orientar sobre a importância da vacinação contra a gripe e pneumonia, além de medidas de higiene para prevenir infecções respiratórias.
  • Monitorização Contínua: Avaliar regularmente os sintomas, a função pulmonar (através de espirometria e oximetria), a capacidade de realizar atividades diárias e a resposta ao tratamento.

Nosso cuidado humanizado e a nossa expertise são fundamentais para ajudar os pacientes com DPOC a viverem da melhor forma possível, apesar dos desafios impostos pela doença.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA. Diretrizes para o Manejo da DPOC – 2017. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 43, n. 1, p. 1-46, 2017. Disponível em: https://jornaldepneumologia.com.br/detalhe_artigo.asp?id=3346.
  2. GLOBAL INITIATIVE FOR CHRONIC OBSTRUCTIVE LUNG DISEASE (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of Chronic Obstructive Pulmonary Disease (2023 Report). [S. l.]: GOLD, 2023. Disponível em: https://goldcopd.org/2023-gold-report-2/.
  3. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth’s textbook of medical-surgical nursing. 14. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2018.
Notícias da Enfermagem

Ministério da Saúde e Cofen Lançam Programa “Enfermagem por um Brasil Saudável” para Combater Doenças

Brasília, 30 de maio de 2025 – Uma nova e promissora iniciativa para fortalecer a saúde pública no Brasil foi lançada: o programa “Enfermagem por um Brasil Saudável“. Fruto de uma parceria estratégica entre o Ministério da Saúde (MS) e o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), a ação visa engajar enfermeiros na eliminação de doenças […]

Notícias da Enfermagem

Enfermagem Deve Acolher Adolescentes Desacompanhados, Reafirma Cofen

Brasília, 22 de maio de 2025 – Profissionais de Enfermagem têm o dever de acolher e atender adolescentes que buscam assistência em unidades de saúde, mesmo quando desacompanhados. Essa é a principal diretriz de uma Nota de Esclarecimento emitida pela Câmara Técnica de Enfermagem em Atenção à Saúde do Adolescente, Adulto e Idoso do Conselho […]

Notícias da Enfermagem

Cofen Reafirma Compromisso da Enfermagem com a Amamentação e Combate à Publicidade de Substitutos do Leite Materno

Brasília, 20 de maio de 2025 – Em uma sessão solene na Câmara dos Deputados em comemoração ao Dia Mundial da Proteção à Amamentação, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) reforçou seu compromisso com a promoção do aleitamento materno no Brasil. Representado por Ivone Amazonas, o Cofen destacou a importância fundamental do aleitamento para a […]

Escarotomia: O que é?

E aí, pessoal da enfermagem! Hoje a gente vai mergulhar em um procedimento cirúrgico que, apesar de parecer simples, faz uma diferença enorme na vida de pacientes com queimaduras graves: a escarotomia.

Já se depararam com essa situação ou ouviram falar? Se a resposta for não, ou se querem refinar o conhecimento, chega mais que vou desenrolar esse tema de um jeito bem prático e com o olhar atento que a enfermagem sempre tem.

Entendendo a “Armadura” da Queimadura Grave

Pensa numa queimadura daquelas bem profundas, que não pega só a camada superficial da pele, mas atinge tecidos mais internos. Em alguns casos, essa lesão evolui formando uma crosta espessa e rígida, tipo uma “armadura” sobre a área queimada. Essa crosta é a escara.

O problema é que essa escara, por ser tão dura e inflexível, começa a exercer uma pressão enorme sobre os tecidos subjacentes. É como se a pele queimada virasse uma roupa apertada demais, dificultando a circulação sanguínea.

Em queimaduras que circundam um membro inteiro (braço, perna) ou até o tronco, essa compressão pode ser tão severa que compromete a chegada de sangue, oxigênio e nutrientes, além de poder afetar nervos e a respiração.

É nesse cenário que a escarotomia se torna essencial. O procedimento consiste em realizar incisões cirúrgicas através dessa escara para aliviar a pressão. Imagina que são pequenos “cortes de alívio” que permitem que os tecidos se expandam e a circulação seja restabelecida.

O “Porquê” da Escarotomia: Mais que Alívio, Preservação

A indicação principal da escarotomia é justamente essa: descomprimir a área afetada para restaurar o fluxo sanguíneo. Essa restauração é crucial para evitar complicações graves, como:

  • Síndrome compartimental: Sabe quando a pressão dentro de um grupo muscular aumenta a níveis perigosos? Isso pode levar a danos musculares e nervosos irreversíveis. A escara circunferencial é um fator de risco importante para essa síndrome.
  • Comprometimento vascular: A pressão da escara pode esmagar os vasos sanguíneos, impedindo a chegada de sangue oxigenado aos tecidos. A isquemia (falta de oxigênio) prolongada pode levar à necrose (morte do tecido) e, em casos extremos, à necessidade de amputação.
  • Restrição respiratória: Em queimaduras que circundam o tórax, a escara pode impedir a expansão completa da caixa torácica durante a respiração, dificultando a ventilação e a oxigenação do paciente.

Percebem a seriedade da coisa? A escarotomia não é só para o paciente se sentir mais confortável, mas sim para prevenir danos sérios e preservar a vida e a função dos membros.

A Enfermagem em Ação: Antes, Durante e Depois da Escarotomia

A gente, como profissionais de enfermagem, tem um papel vital em todas as etapas desse processo.

Antes do Procedimento:

  • Avaliação Cirúrgica: Nossa avaliação constante é a chave. Precisamos estar atentos aos sinais que indicam a necessidade de uma escarotomia: dor intensa e desproporcional à lesão, palidez ou cianose (pele azulada) da extremidade distal à queimadura, diminuição ou ausência de pulsos periféricos, alteração da sensibilidade (formigamento, dormência) e dificuldade para movimentar os dedos.
  • Comunicação Imediata: Qualquer alteração nesses sinais precisa ser comunicada imediatamente à equipe médica. O tempo é crucial nesses casos.
  • Preparo do Paciente: Explicar o procedimento ao paciente e à família de forma clara e tranquilizadora (dentro do possível, considerando o estado emocional de todos). Preparar a área para o procedimento conforme a orientação médica, geralmente com limpeza e tricotomia (remoção de pelos) se necessário. Garantir que o paciente esteja o mais confortável possível antes do procedimento.
  • Monitorização Constante: Acompanhar de perto os sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória) e a oximetria de pulso.

Durante o Procedimento:

  • Auxílio ao Médico: Preparar todo o material necessário para o procedimento (bisturi, pinças hemostáticas, solução antisséptica, gazes, etc.) e auxiliar o médico durante a realização das incisões. Manter a área limpa e organizada.
  • Monitorização Contínua: Seguir monitorando os sinais vitais e observar a resposta do paciente ao procedimento, como o possível alívio da pressão e a melhora da perfusão periférica.
  • Suporte Emocional: Oferecer apoio emocional ao paciente, que pode estar apreensivo ou sentir dor durante o procedimento, mesmo sob analgesia.

Após o Procedimento:

  • Cuidados com as Incisões: Realizar os curativos conforme a prescrição médica, utilizando técnica asséptica para prevenir infecções. Observar atentamente os sinais de infecção nas áreas das incisões (vermelhidão, calor, edema, secreção purulenta, odor). Documentar as características do curativo e da ferida.
  • Avaliação da Perfuração: Continuar monitorando rigorosamente os pulsos distais, a coloração e a temperatura da pele, a sensibilidade e a motricidade da área afetada. Comparar com o membro contralateral, se houver. Qualquer sinal de piora deve ser comunicado imediatamente.
  • Controle da Dor: Administrar a medicação analgésica prescrita e avaliar a eficácia do tratamento, registrando a intensidade da dor em escalas adequadas. Oferecer medidas não farmacológicas para alívio da dor, como posicionamento adequado e distração.
  • Prevenção de Complicações: Manter o membro elevado (se for o caso) para auxiliar na redução do edema. Incentivar a movimentação dos dedos e do membro (quando possível e indicado pela equipe médica) para melhorar a circulação e prevenir trombose venosa profunda.
  • Educação do Paciente e Família: Orientar o paciente e a família sobre os cuidados com os curativos, os sinais de alerta de infecção, a importância de seguir as orientações médicas para a recuperação e os retornos para acompanhamento.

Cuidando com Atenção: Pontos Chave da Enfermagem na Escarotomia

Para reforçar, nossos cuidados de enfermagem na escarotomia se concentram em:

  • Reconhecimento precoce da necessidade do procedimento através de uma avaliação clínica detalhada e contínua.
  • Comunicação assertiva com a equipe médica sobre qualquer alteração observada.
  • Assistência qualificada e segura durante a realização do procedimento.
  • Monitorização constante e atenta da perfusão periférica e dos sinais vitais no pós-operatório.
  • Prevenção de infecções nas áreas das incisões cirúrgicas.
  • Manejo eficaz da dor do paciente.
  • Orientação e suporte ao paciente e seus familiares.

Lembrem-se que a escarotomia é um procedimento que pode mudar drasticamente o prognóstico de um paciente com queimaduras graves. Nosso olhar clínico e nossos cuidados dedicados são essenciais para garantir que essa intervenção seja realizada no momento certo e que a recuperação ocorra da melhor forma possível.

Referências:

  1. SILVA, M. A.; PEREIRA, A. B. Tratamento de queimaduras: guia prático para enfermagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  2. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth’s textbook of medical-surgical nursing. 14. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2018.
  3. Sociedade Brasileira de Queimaduras: https://sbqueimaduras.org.br/
  4. Revista Brasileira de Queimaduras: http://www.rbqueimaduras.com.br/