Dupla checagem de medicamentos na enfermagem: segurança que salva vidas

A administração de medicamentos é uma das atividades mais frequentes e, ao mesmo tempo, mais críticas da prática da enfermagem. Um erro nesse processo pode causar danos graves ao paciente, prolongar a internação e, em situações extremas, levar ao óbito. Dentro desse cenário, a dupla checagem de medicamentos surge como uma das estratégias mais importantes para a promoção da segurança do paciente.

Mais do que uma exigência institucional, a dupla checagem é uma barreira de segurança que protege o paciente, o profissional e toda a equipe de saúde.

Para o estudante de enfermagem, a dupla checagem não deve ser vista como uma burocracia ou uma falta de confiança no próprio trabalho. Pelo contrário, ela é uma das barreiras de segurança mais eficazes do sistema de saúde. Trata-se de um processo colaborativo onde dois profissionais qualificados verificam, de forma independente, o preparo e a administração de um medicamento antes que ele chegue ao paciente.

O que é a dupla checagem de medicamentos

A dupla checagem consiste na verificação independente de um medicamento por dois profissionais habilitados, antes da administração ao paciente. Essa verificação envolve a conferência da prescrição, do medicamento preparado e das condições do paciente, com o objetivo de identificar possíveis erros antes que eles cheguem ao leito.

O princípio central da dupla checagem é simples: um segundo olhar reduz significativamente a chance de falhas que podem passar despercebidas por um único profissional, especialmente em ambientes com alta carga de trabalho.

O Que é, de Fato, a Dupla Checagem Independente?

Existe uma diferença crucial entre “pedir para um colega dar uma olhadinha” e realizar uma dupla checagem independente. No método independente, o primeiro profissional prepara o medicamento e o segundo profissional realiza o cálculo e a conferência sem ser influenciado pelo que o primeiro fez.

Se eu digo para você: “Preparei 5 UI de insulina, confere?”, eu já estou induzindo o seu cérebro a ver 5 UI. Na dupla checagem correta, o segundo profissional olha para a prescrição, olha para a seringa e faz o seu próprio julgamento. Esse distanciamento crítico é o que permite identificar erros de cálculo, de diluição ou até mesmo a troca de ampolas visualmente semelhantes (os chamados medicamentos “Look-Alike“).

Por que a dupla checagem é tão importante na enfermagem?

A enfermagem atua diretamente na etapa final do processo medicamentoso, que é a administração. Isso significa que, muitas vezes, é o último ponto possível para interceptar um erro.

Fatores como fadiga, sobrecarga de trabalho, interrupções frequentes, prescrições complexas e semelhança entre nomes de medicamentos aumentam o risco de falhas. A dupla checagem funciona como uma barreira adicional, reduzindo a probabilidade de que esses erros cheguem ao paciente.

Além disso, a prática fortalece a cultura de segurança e estimula o trabalho colaborativo entre os profissionais.

Quando a Dupla Checagem é Obrigatória?

Embora o ideal fosse conferir tudo em dobro, sabemos que a realidade dos hospitais nem sempre permite isso para todas as dipironas administradas. Por isso, a dupla checagem foca nos Medicamentos de Alta Vigilância (MAV), que são aqueles que apresentam um risco potencial de causar danos graves ou óbito em caso de erro.

Os principais grupos que exigem esse rigor incluem as insulinas, os anticoagulantes (como a heparina e a enoxaparina), os quimioterápicos, os opioides e os eletrólitos concentrados, como o cloreto de potássio e o cloreto de sódio a 20%, drogas vasoativas.  Na pediatria e neonatologia, a dupla checagem costuma ser estendida para quase todos os medicamentos, devido à complexidade dos cálculos de dose por peso e à baixa tolerância dos pequenos pacientes a variações de dosagem.

Como funciona a dupla checagem na prática

Para que a dupla checagem seja realmente eficaz, ela precisa ser independente e consciente, e não apenas uma assinatura ou confirmação automática.

Cada profissional deve conferir separadamente a prescrição médica, identificando o paciente correto, o medicamento prescrito, a dose, a via, o horário, a diluição e a velocidade de administração. Também é importante verificar alergias, compatibilidade com outras medicações e condições clínicas do paciente.

Somente após essa verificação criteriosa o medicamento deve ser administrado. Quando há divergências, a administração deve ser suspensa até que a situação seja esclarecida.

A relação da dupla checagem com os “certos” da administração de medicamentos

A dupla checagem está diretamente relacionada aos princípios dos “certos” da administração de medicamentos, como paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa e horário certo. Ao realizar a checagem em conjunto, a enfermagem reforça esses princípios e amplia a segurança do processo.

Mais do que decorar conceitos, a prática diária da dupla checagem transforma esses “certos” em ações reais à beira do leito.

O processo começa na leitura da prescrição médica, passando pela conferência da etiqueta de identificação do paciente e chegando à conferência física do fármaco.

  1. Conferência da Prescrição: Ambos os profissionais devem confirmar o nome do paciente, o medicamento prescrito, a dose, a via de administração e o horário.
  2. Verificação do Cálculo: Especialmente em infusões contínuas ou doses fracionadas, o cálculo deve ser refeito por ambos. Se houver divergência, uma terceira pessoa ou o enfermeiro responsável deve ser consultado.
  3. Identificação do Paciente: Na beira do leito, a dupla confirma a identidade do paciente através da pulseira e perguntando o nome completo (se o paciente estiver consciente), garantindo que o medicamento certo vá para a pessoa certa.
  4. Programação de Bombas de Infusão: Quando o medicamento vai em bomba, a conferência da vazão (mL/h) e do volume total é um momento crítico onde a dupla checagem previne erros de digitação.

Barreiras e Desafios no Cotidiano

Apesar de ser uma prática salvadora, a dupla checagem enfrenta barreiras culturais. Às vezes, o estudante ou o profissional recém-formado sente vergonha de pedir ajuda, temendo parecer inseguro. Em outras situações, profissionais veteranos podem se sentir ofendidos ao serem questionados por um colega mais jovem.

É preciso entender que a segurança do paciente está acima de qualquer hierarquia ou ego. Outro desafio é a interrupção: o processo de dupla checagem deve ocorrer em uma “zona de silêncio” ou, pelo menos, em um momento de foco total. Interromper um colega durante uma checagem é aumentar as chances de que ele pule uma etapa importante.

Cuidados de enfermagem para uma dupla checagem eficaz

A enfermagem deve evitar realizar a dupla checagem de forma apressada ou mecânica. É essencial que o ambiente esteja o mais livre possível de interrupções durante o preparo e a conferência do medicamento.

A comunicação entre os profissionais deve ser clara e objetiva, sem pressupor que “o outro já conferiu”. Cada checagem precisa ser ativa, crítica e responsável.

Outro ponto fundamental é o registro adequado da dupla checagem, conforme protocolo institucional, garantindo rastreabilidade e respaldo legal ao profissional.

Principais falhas que comprometem a dupla checagem

Um dos erros mais comuns é transformar a dupla checagem em um ato simbólico, onde apenas um profissional confere e o outro apenas confirma sem verificar. Essa prática não oferece proteção real ao paciente.

A pressão do tempo, a escassez de profissionais e a cultura de normalização do risco também podem comprometer a efetividade da dupla checagem. Por isso, é fundamental que as instituições apoiem essa prática, oferecendo condições adequadas de trabalho.

Dupla checagem e cultura de segurança do paciente

A dupla checagem não deve ser vista como desconfiança entre colegas, mas como uma estratégia de cuidado compartilhado. Ela fortalece a cultura de segurança, promove aprendizado coletivo e reduz eventos adversos evitáveis.

Quando a equipe compreende que errar é humano, mas que sistemas seguros reduzem falhas, a dupla checagem passa a ser valorizada como aliada e não como obstáculo.

Como futuros enfermeiros, vocês devem ser os guardiões dessa prática. O cuidado de enfermagem na administração de medicamentos envolve a vigilância pós-administração. Após a dupla checagem e a aplicação da droga, é fundamental monitorar o paciente em busca de reações adversas e registrar no prontuário que a checagem foi realizada por dois profissionais (frequentemente assinando ambos no canhoto da prescrição).

A dupla checagem é, em última análise, um ato de cuidado com o colega. Quando eu confiro o que você preparou, estou protegendo o paciente, mas também estou protegendo a sua carreira e o seu registro profissional. É uma rede de proteção mútua que fortalece a cultura de segurança institucional.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/protocolo-de-seguranca-na-prescricao-uso-e-administracao-de-medicamentos.pdf
  2. INSTITUTO PARA PRÁTICAS SEGURAS NO USO DE MEDICAMENTOS (ISMP BRASIL). Dupla checagem independente: uma estratégia para reduzir erros de medicação. Belo Horizonte: ISMP, 2019. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Uso Seguro de Medicamentos: Guia para Profissionais de Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  5. INSTITUTE FOR SAFE MEDICATION PRACTICES. Medication safety best practices. 2023. Disponível em: https://www.ismp.org
  6. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Medication without harm: global patient safety challenge. Geneva: WHO, 2017. Disponível em: https://www.who.int

Cloreto de Sódio 0,9% e 20%: Entenda as Diferenças para uma Prática Segura

O cloreto de sódio é uma das soluções mais utilizadas na prática clínica, presente em praticamente todos os setores hospitalares. Apesar disso, ainda existem muitas dúvidas — e riscos — relacionados ao uso de suas diferentes concentrações, especialmente quando comparamos o cloreto de sódio 0,9% com o cloreto de sódio 20%.

Entender profundamente as diferenças entre essas soluções, suas indicações corretas e os cuidados de enfermagem é essencial para garantir a segurança do paciente e evitar erros de medicação.

O que é o cloreto de sódio?

O cloreto de sódio é um sal composto por sódio e cloro, dois eletrólitos fundamentais para o funcionamento do organismo. O sódio tem papel central no equilíbrio hídrico, na condução de impulsos nervosos, na contração muscular e na manutenção da pressão arterial.

Na prática clínica, o cloreto de sódio é utilizado em diferentes concentrações, cada uma com finalidade específica e riscos próprios.

Cloreto de sódio 0,9%: o soro fisiológico

O Cloreto de Sódio 0,9% é frequentemente chamado de “Soro Fisiológico”, embora o termo seja tecnicamente impreciso, já que sua concentração de sódio e cloro é ligeiramente superior à do plasma humano. Cada 100 ml dessa solução contém 0,9% de cloreto de sódio.

Sua principal característica é ser uma solução isotônica. Isso significa que sua osmolaridade (cerca de 308mOsm/L) é muito próxima à do sangue humano. Na prática, isso quer dizer que, ao ser administrado, ele não provoca grandes deslocamentos de água entre o compartimento intracelular e o extracelular. A água permanece onde é colocada, sendo excelente para expandir o volume intravascular.

As indicações do NaCl 0,9% são amplas: ele é usado para hidratação de curto prazo, reposição de perdas de líquidos (como em vômitos e diarreias), diluição de uma vasta gama de medicamentos, lavagem de cateteres venosos e higienização de feridas ou mucosas. Por ser compatível com o sangue, é a única solução que pode ser administrada simultaneamente com hemoderivados no mesmo acesso venoso.

Também é muito utilizado em situações de desidratação, hipovolemia leve a moderada, pós-operatório e em pacientes que necessitam de expansão do volume intravascular.

Cuidados de enfermagem com o cloreto de sódio 0,9%

Apesar de amplamente utilizado, o cloreto de sódio 0,9% não é isento de riscos. A enfermagem deve monitorar sinais de sobrecarga volêmica, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca, renal ou idosos.

A velocidade de infusão deve ser rigorosamente controlada, assim como a avaliação do balanço hídrico, edema, pressão arterial e ausculta pulmonar. O registro correto da infusão e da resposta do paciente é parte essencial do cuidado.

Cloreto de sódio 20%: solução hipertônica

Aqui entramos em um território muito mais restrito e perigoso. O Cloreto de Sódio 20% é uma solução hipertônica extrema. Se o soro a 0,9% tem 9 mg de sal por mililitro, a ampola de 20% possui impressionantes 200mg na mesma quantidade de líquido.

Sua osmolaridade é altíssima (cerca de 6.844mOsm/L). Se essa solução for administrada pura diretamente na veia de um paciente, ela causará uma desidratação celular súbita e violenta, podendo levar à destruição dos tecidos vasculares, hemorragia cerebral ou desmielinização osmótica. Por esse motivo, o NaCl 20% é classificado mundialmente como um Medicamento de Alta Vigilância (MAV).

As indicações para o uso do 20% são muito específicas. Ele raramente é usado de forma direta, servindo quase sempre como um concentrado para “turbinar” outras soluções. É indicado para a correção de hiponatremias graves (quando os níveis de sódio no sangue estão perigosamente baixos) ou como parte da reposição eletrolítica em nutrição parenteral. Em alguns protocolos de neurointensivismo, soluções hipertônicas são usadas para reduzir o edema cerebral, mas sempre sob rigorosa diluição e controle.

Por que o cloreto de sódio 20% exige tanto cuidado?

Por ser extremamente hipertônico, o cloreto de sódio 20% promove um deslocamento rápido de água do meio intracelular para o extracelular. Esse efeito pode ser terapêutico em casos de edema cerebral, mas também pode causar complicações graves se administrado incorretamente.

A correção rápida ou excessiva do sódio pode levar à síndrome da desmielinização osmótica, uma condição neurológica grave e potencialmente irreversível.

Cuidados de enfermagem com o cloreto de sódio 20%

A administração do cloreto de sódio 20% exige atenção máxima da enfermagem. A conferência da prescrição, da concentração e da via de administração é obrigatória. Geralmente, essa solução deve ser administrada por via venosa central ou em condições muito bem controladas.

Durante a infusão, a enfermagem deve monitorar sinais vitais, estado neurológico, débito urinário e acompanhar rigorosamente os níveis séricos de sódio. Qualquer alteração clínica deve ser comunicada imediatamente à equipe médica.

O preparo, a diluição (quando indicada) e a administração devem seguir protocolos institucionais rígidos.

Diferenças fundamentais entre cloreto de sódio 0,9% e 20%

A principal diferença reside na tonacidade. Enquanto o 0,9% mantém o equilíbrio das células, o 20% atrai água para fora delas. Uma troca acidental entre essas duas apresentações é fatal. Infelizmente, na pressa do plantão, ampolas de água destilada, NaCl 0,9%(em ampolas de 10 ml) e NaCl 20% podem ser visualmente parecidas se não houver um sistema de rotulagem adequado.

Administrar o 20% no lugar do 0,9% causa uma sobrecarga de sódio e cloro súbita, levando a edema agudo de pulmão, insuficiência renal e danos neurológicos irreversíveis. É por isso que muitas instituições adotam etiquetas coloridas (geralmente vermelhas ou laranjas) para identificar as ampolas de 20% e as mantêm armazenadas em locais separados das soluções comuns.

Cuidados de Enfermagem Fundamentais

A segurança na manipulação dessas soluções depende de protocolos rígidos que o estudante de enfermagem deve incorporar desde o primeiro dia de estágio.

A primeira regra de ouro é: nunca administre Cloreto de Sódio 20% em bôlus (direto). Ele deve ser sempre diluído em uma solução de grande volume, conforme prescrição médica e farmacêutica. A velocidade de infusão de soluções que contenham eletrólitos concentrados deve ser controlada rigorosamente, preferencialmente em bomba de infusão, para evitar oscilações bruscas na natremia do paciente.

A dupla checagem é obrigatória. Antes de aspirar a ampola e antes de conectar ao paciente, peça para um colega conferir a concentração e o cálculo. Além disso, a monitorização do local da punção é vital. Por ser uma solução irritante e vesicante quando concentrada, o NaCl  20% tem alto risco de causar flebite e necrose tecidual em caso de extravasamento. Idealmente, soluções muito hipertônicas devem ser administradas via acesso venoso central.

Por fim, observe os sinais clínicos do paciente durante a reposição. Sinais de confusão mental, sede excessiva, edema ou alterações na diurese podem indicar que a reposição de sódio está ocorrendo de forma inadequada ou rápida demais.

A importância da enfermagem na prevenção de erros

A enfermagem ocupa posição central na segurança do uso dessas soluções. A leitura atenta do rótulo, a dupla checagem, o conhecimento das indicações e a monitorização contínua do paciente são práticas indispensáveis.

Educação permanente, protocolos bem definidos e cultura de segurança são fundamentais para evitar eventos adversos relacionados ao uso inadequado de soluções hipertônicas.

O cloreto de sódio 0,9% e o cloreto de sódio 20% são soluções com finalidades completamente diferentes. Enquanto um é amplamente utilizado e relativamente seguro, o outro é um recurso terapêutico potente, porém de alto risco.

Para a enfermagem, compreender essas diferenças não é apenas conhecimento teórico, mas uma responsabilidade direta com a segurança e a vida do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Boletim ISMP Brasil: Uso Seguro de Soluções Eletrolíticas Concentradas. Belo Horizonte: ISMP, 2013. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Uso Seguro de Medicamentos: Guia para Profissionais de Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As bases farmacológicas da terapêutica. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019. Disponível em:https://accessmedicine.mhmedical.com
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de segurança do paciente: práticas seguras no uso de medicamentos. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA. Distúrbios hidroeletrolíticos: abordagem clínica. São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.sbn.org.br
  7. SMELTZER, S. C. et al. Brunner & Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br

Adrenalina 1:1000 e 1:10000: entendendo as diferenças e os cuidados de enfermagem

A adrenalina, também chamada de epinefrina, é um dos medicamentos mais potentes e críticos que manejamos na enfermagem. Ela é a droga de escolha em situações de vida ou morte, como a parada cardiorrespiratória (PCR) e a anafilaxia. No entanto, existe uma confusão comum entre estudantes e até profissionais sobre as diferentes concentrações e proporções, especificamente a diferença entre a adrenalina 1:1.000 e a 1:10.000.

Entender essa distinção não é apenas uma questão de matemática, é uma questão de segurança do paciente. Administrar a concentração errada pela via errada pode ter consequências fatais, como arritmias graves ou crises hipertensivas severas. Por isso, vamos detalhar como cada uma funciona e quando devem ser utilizadas.

O que é a adrenalina e para que ela serve?

A adrenalina é uma catecolamina endógena, ou seja, uma substância naturalmente produzida pelo organismo, com potente ação no sistema cardiovascular e respiratório. Na prática clínica, ela é utilizada por seus efeitos vasoconstritores, broncodilatadores e estimulantes cardíacos.

Ela atua principalmente nos receptores alfa e beta-adrenérgicos, promovendo aumento da frequência cardíaca, da força de contração do coração, elevação da pressão arterial e dilatação dos brônquios.

Por isso, é um medicamento essencial em situações como parada cardiorrespiratória, anafilaxia, choque e broncoespasmo grave.

O que significa adrenalina 1:1000 e 1:10000?

Para facilitar, precisamos transformar essas proporções em miligramas por mililitro (mg/mL). A ampola padrão de adrenalina que encontramos na farmácia hospitalar brasileira é de 1 mL com uma concentração de 1 mg/mL. Essa é a famosa adrenalina 1:1.000.

  • 1:1.000 significa que há 1 grama de adrenalina em 1.000 mililitros de solução. Fazendo a conta, isso resulta em 1 mg por mL.
  • 1:10.000 significa que há 1 grama de adrenalina em 10.000 mililitros de solução. Isso resulta em 0,1 mg por mL.

Ou seja, a solução 1:10.000 é dez vezes mais diluída do que a solução 1:1.000. No ambiente de emergência, essa diluição é fundamental para permitir que a droga seja administrada por via intravenosa com mais segurança e controle.

Adrenalina 1:1000 (A Ampola Pura): quando é utilizada?

Esta é a apresentação que você retira da caixa. Como ela é muito concentrada, sua principal indicação é para casos de anafilaxia (reações alérgicas graves) e crises severas de asma.

Na anafilaxia, a via de administração preferencial é a Intramuscular (IM). O músculo vasto lateral da coxa é o local escolhido por ter uma absorção rápida e segura. Nesse cenário, utilizamos a adrenalina pura (1:1.000), geralmente na dose de 0,3 mg a 0,5 mg (ou seja, 0,3 a 0,5 mL da ampola). É perigosíssimo administrar essa concentração concentrada diretamente na veia, pois a resposta cardiovascular seria violenta demais para um paciente que ainda tem batimentos cardíacos.

Adrenalina 1:10000: quando é utilizada?

Quando estamos diante de uma Parada Cardiorrespiratória (PCR), o protocolo muda. Aqui, precisamos que a droga chegue rápido ao coração através da via Intravenosa (IV) ou Intraóssea (IO). Para que possamos administrar 1 mg de forma segura e espalhar melhor a droga na circulação central, fazemos a diluição.

Para chegar na concentração 1:10.000, aspiramos 1 mL de adrenalina (1 mg) e completamos a seringa com 9 mL de soro fisiológico 0,9%. Agora, temos 10 mL de solução contendo 1 mg de adrenalina. Cada 1 mL dessa mistura contém 0,1 mg da droga. Em uma PCR, administramos os 10 mL inteiros (1 mg) a cada 3 a 5 minutos, conforme o protocolo de Suporte Avançado de Vida (ACLS).

Por que a diferença de concentração é tão importante?

Confundir adrenalina 1:1000 com 1:10000 é um erro de medicação potencialmente fatal. A administração intravenosa acidental da adrenalina 1:1000 pode causar efeitos adversos graves em poucos segundos.

Por isso, é responsabilidade da enfermagem conferir cuidadosamente:

  • A prescrição médica;
  • A concentração do medicamento;
  • A via de administração;
  • A dose prescrita;
  • O contexto clínico do paciente.

A regra dos “nove certos” da administração de medicamentos deve ser rigorosamente aplicada.

Cuidados de enfermagem na administração da adrenalina

O papel da enfermagem na administração da adrenalina é preventivo e de vigilância constante. Como é uma droga irritante e potente, alguns cuidados são inegociáveis:

  1. Dupla Checagem e Verbalização: Em situações de emergência, sempre repita a ordem médica em voz alta. “Vou administrar 1 mg de adrenalina 1:10.000 IV, correto?”. Isso evita que você aplique a droga pura na veia de um paciente que não está em parada.
  2. Via de Administração: Nunca aplique adrenalina 1:1.000 por via intravenosa sem diluição prévia. A via IM deve ser exclusiva para a concentração 1:1.000 em casos de anafilaxia.
  3. Flush e Elevação do Membro: Na PCR, após administrar a adrenalina IV, é fundamental fazer um flush de 20 mL de soro fisiológico e elevar o membro do paciente por alguns segundos para garantir que a droga chegue à circulação central rapidamente.
  4. Monitorização Contínua: Após o uso da adrenalina (especialmente em anafilaxia), o paciente deve estar sob monitorização cardíaca e de pressão arterial. A droga tem uma meia-vida curta, mas pode causar taquicardia e arritmias.
  5. Cuidado com a Fotossensibilidade: A adrenalina é sensível à luz. Ela deve ser mantida na embalagem original ou protegida até o momento do uso. Se a solução apresentar uma cor rosada ou acastanhada, deve ser descartada, pois indica oxidação.

Principais erros relacionados à adrenalina

Os erros mais comuns envolvem confusão entre as concentrações, preparo inadequado da diluição, administração pela via incorreta e falha na monitorização do paciente.

A educação permanente da equipe, o uso de protocolos institucionais e a rotulagem clara dos medicamentos são estratégias essenciais para reduzir esses riscos.

A adrenalina é um medicamento salvador de vidas, mas que exige extremo cuidado no seu manuseio. Entender claramente a diferença entre adrenalina 1:1000 e 1:10000 é um passo fundamental na formação do estudante de enfermagem e na prática profissional segura.

Conhecimento, atenção e responsabilidade são as principais ferramentas da enfermagem para garantir que a adrenalina cumpra seu papel terapêutico sem causar danos ao paciente.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Destaques das Diretrizes de RCP e ACE de 2020 da American Heart Association. Disponível em: https://cpr.heart.org/
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Guia de Boas Práticas: Administração de Medicamentos. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br/
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução COFEN nº 0641/2020: Regulamenta a utilização de dispositivos extraglóticos e outros procedimentos pelo Enfermeiro em situações de urgência e emergência. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de suporte básico e avançado de vida. Brasília, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As bases farmacológicas da terapêutica. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019. Disponível em: https://accessmedicine.mhmedical.com
  6. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com
  7. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretrizes de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados cardiovasculares de emergência. São Paulo, 2021. Disponível em:https://www.cardiol.br