Tromboembolismo Pulmonar (TEP): tudo o que você precisa saber sobre essa emergência cardiovascular

Imagine um paciente que operou o joelho há três dias, evoluiu bem no pós-operatório, já caminhava com apoio pelo corredor e tinha alta marcada para o dia seguinte. De repente, sem aviso, ele refere falta de ar súbita, fica taquicárdico e a saturação começa a cair. Não houve febre, não houve piora gradual — foi de “bem” para “grave” em poucos minutos.

Esse tipo de cena é mais comum do que parece, e é exatamente por isso que o tromboembolismo pulmonar (TEP) é considerado uma das emergências cardiovasculares mais traiçoeiras da prática clínica: ele raramente avisa, e costuma atingir justamente quando a equipe já está de guarda baixa, acreditando que o pior já passou.

O TEP é uma das principais causas de morte evitável em pacientes hospitalizados, e ocorre quando um trombo (coágulo sanguíneo), geralmente originado nas veias profundas dos membros inferiores, desprende-se e percorre a corrente sanguínea até obstruir uma ou mais artérias pulmonares.

Essa obstrução impede que parte do pulmão receba fluxo sanguíneo adequado para realizar as trocas gasosas, provocando diminuição da oxigenação, sobrecarga do coração e, nos casos mais graves, choque e morte.

O reconhecimento precoce é fundamental, pois o tratamento instituído rapidamente reduz significativamente a mortalidade. Por isso, estudantes e profissionais de enfermagem devem conhecer os fatores de risco, os sinais clínicos e os cuidados necessários diante dessa condição.

Aqui você aprenderá o que é o tromboembolismo pulmonar, como ele acontece, quais são seus principais sintomas, formas de diagnóstico, tratamento, complicações e os cuidados de enfermagem mais importantes.

O que é o Tromboembolismo Pulmonar (TEP)?

O tromboembolismo pulmonar é a obstrução parcial ou total de uma artéria pulmonar ou de seus ramos por um êmbolo, geralmente um trombo sanguíneo.

Na maioria dos casos, esse coágulo se forma nas veias profundas das pernas ou da pelve, caracterizando uma Trombose Venosa Profunda (TVP). Quando esse trombo se desprende, ele passa pela circulação venosa, atravessa o coração direito e alcança a circulação pulmonar, onde pode ficar preso devido ao estreitamento progressivo das artérias pulmonares.

Em aproximadamente 90% dos casos, o TEP é consequência direta de uma trombose venosa profunda.

O que é um trombo? E um êmbolo?

Embora os termos sejam frequentemente utilizados como sinônimos, eles possuem significados diferentes.

  • Trombo é o coágulo formado dentro de um vaso sanguíneo.
  • Êmbolo é qualquer material que circula pela corrente sanguínea e pode obstruir um vaso.

No TEP, o êmbolo normalmente é um trombo desprendido, sendo chamado de tromboêmbolo.

Como acontece o Tromboembolismo Pulmonar?

Imagine uma pessoa que permaneceu vários dias acamada após uma cirurgia. Durante esse período, o sangue circula mais lentamente pelas pernas. Essa lentidão favorece a formação de coágulos nas veias profundas. Em determinado momento, parte desse trombo pode se desprender.

A corrente sanguínea leva esse fragmento até:

Veias das pernas → Veia cava inferior → Átrio direito → Ventrículo direito → Artéria pulmonar.

Ao atingir vasos pulmonares menores, o trombo fica impactado, interrompendo o fluxo sanguíneo.

A consequência é dupla:

  • parte do pulmão continua recebendo ar, mas deixa de receber sangue;
  • o ventrículo direito precisa fazer muito mais força para bombear sangue contra essa obstrução.

Nos casos graves, essa sobrecarga pode provocar insuficiência ventricular direita aguda e choque.

A tríade de Virchow

A formação dos trombos está relacionada à chamada Tríade de Virchow, descrita pelo patologista Rudolf Virchow no século XIX.

Ela envolve três fatores principais:

Estase venosa

É a diminuição da velocidade do fluxo sanguíneo.

Pode ocorrer em:

  • repouso prolongado;
  • internações;
  • viagens longas;
  • imobilização por fraturas;
  • pós-operatório.

Lesão da parede do vaso

Pode acontecer por:

  • cirurgias;
  • traumas;
  • cateteres venosos;
  • inflamações.

Hipercoagulabilidade

O sangue torna-se mais propenso à formação de coágulos.

Pode ocorrer em:

  • câncer;
  • gravidez;
  • puerpério;
  • uso de anticoncepcionais hormonais;
  • trombofilias;
  • obesidade;
  • tabagismo;
  • síndrome nefrótica.

Esses três fatores aumentam significativamente o risco de trombose e, consequentemente, de TEP.

Quais são os principais fatores de risco?

Diversas situações favorecem o desenvolvimento do tromboembolismo pulmonar.

Entre elas:

  • idade acima de 60 anos;
  • trombose venosa profunda prévia;
  • histórico anterior de TEP;
  • cirurgia ortopédica;
  • cirurgia de grande porte;
  • internação prolongada;
  • permanência em UTI;
  • imobilização;
  • fraturas;
  • câncer;
  • obesidade;
  • gestação;
  • puerpério;
  • uso de anticoncepcionais;
  • terapia hormonal;
  • tabagismo;
  • insuficiência cardíaca;
  • acidente vascular cerebral;
  • COVID-19 grave;
  • doenças inflamatórias;
  • trombofilias hereditárias.

Cai em Concurso Tipos de Tromboembolismo Pulmonar

O TEP pode ser classificado conforme sua gravidade.

TEP maciço (alto risco)

É o mais grave.

Caracteriza-se por:

  • hipotensão persistente;
  • choque;
  • parada cardiorrespiratória;
  • importante disfunção do ventrículo direito.

Necessita tratamento imediato.

TEP submaciço (risco intermediário)

O paciente permanece com pressão arterial normal. Entretanto, apresenta sinais de sofrimento cardíaco, como:

  • aumento do ventrículo direito;
  • elevação de troponina;
  • BNP elevado.

Existe risco de piora clínica.

TEP de baixo risco

Não apresenta instabilidade hemodinâmica nem disfunção ventricular significativa.

O prognóstico costuma ser melhor.

Quais são os sintomas?

Os sintomas variam conforme o tamanho do trombo e a quantidade de vasos obstruídos.

Os mais frequentes são:

  • falta de ar súbita;
  • dor torácica, geralmente pior à inspiração;
  • taquipneia;
  • taquicardia;
  • ansiedade intensa;
  • sensação de morte iminente;
  • tosse;
  • hemoptise;
  • sudorese fria;
  • tontura;
  • síncope.

Em casos graves podem ocorrer:

  • hipotensão;
  • choque;
  • cianose;
  • parada cardiorrespiratória.

Sinais encontrados no exame físico

O profissional pode observar:

  • taquicardia;
  • aumento da frequência respiratória;
  • queda da saturação;
  • extremidades frias;
  • distensão jugular;
  • hipotensão;
  • sinais de trombose na perna, como edema unilateral, dor e aumento da temperatura local.

O Tromboembolismo Pulmonar sempre causa dor?

Não. Alguns pacientes apresentam apenas falta de ar. Outros desenvolvem somente taquicardia ou dessaturação inexplicada.

Isso torna o diagnóstico desafiador.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico combina avaliação clínica, probabilidade pré-teste, exames laboratoriais e exames de imagem.

Escalas de probabilidade clínica

As mais utilizadas são:

  • Escore de Wells;
  • Escore de Genebra Revisado.

Essas ferramentas ajudam a estimar a probabilidade de TEP e orientam a investigação.

Dímero-D

É um exame laboratorial que detecta produtos da degradação da fibrina. Quando o resultado é normal em pacientes de baixa probabilidade clínica, o TEP torna-se pouco provável.

Entretanto, um Dímero-D elevado não confirma o diagnóstico, pois pode aumentar em diversas situações, como infecções, câncer, gestação e pós-operatório.

Angiotomografia pulmonar

É considerada o principal exame para confirmação diagnóstica. Permite visualizar diretamente os trombos nas artérias pulmonares.

Angiografia pulmonar

Durante muitos anos foi considerada o padrão-ouro. Hoje é reservada para situações específicas.

Ecocardiograma

Avalia sinais de sobrecarga do ventrículo direito. É muito útil em pacientes instáveis.

Ultrassom Doppler venoso

Procura identificar trombose venosa profunda nos membros inferiores.

Gasometria arterial

Pode demonstrar:

  • hipoxemia;
  • hipocapnia;
  • alcalose respiratória.

Entretanto, uma gasometria normal não exclui TEP.

Como é tratado?

O tratamento depende da gravidade:

Anticoagulantes

São a base do tratamento. Os mais utilizados incluem:

  • heparina não fracionada;
  • heparina de baixo peso molecular;
  • fondaparinux;
  • rivaroxabana;
  • apixabana;
  • edoxabana;
  • dabigatrana;
  • varfarina.

Os anticoagulantes impedem que novos trombos se formem e permitem que o organismo dissolva gradualmente o coágulo existente.

Trombólise

Indicada principalmente no TEP maciço com instabilidade hemodinâmica.

Os principais medicamentos utilizados são:

  • alteplase;
  • tenecteplase (em situações específicas).

Seu objetivo é dissolver rapidamente o trombo.

Embolectomia

Pode ser realizada por cirurgia ou cateter. É indicada quando a trombólise é contraindicada ou não apresenta sucesso.

Filtro de veia cava

Utilizado em pacientes com contraindicação absoluta ao uso de anticoagulantes ou em casos selecionados de recorrência de embolia pulmonar apesar da anticoagulação adequada.

Possíveis complicações

As principais complicações incluem:

  • insuficiência respiratória;
  • choque obstrutivo;
  • insuficiência ventricular direita;
  • hipertensão pulmonar tromboembólica crônica;
  • recorrência do TEP;
  • morte súbita.

Como prevenir?

A prevenção é extremamente importante. As medidas incluem:

  • Mobilização precoce após cirurgias.
  • Deambulação sempre que possível.
  • Uso de meias de compressão graduada quando indicadas.
  • Compressão pneumática intermitente.
  • Profilaxia farmacológica com anticoagulantes em pacientes de risco.
  • Hidratação adequada.
  • Evitar longos períodos sentado sem movimentar as pernas.

Você sabia?

O tromboembolismo pulmonar é considerado uma das principais causas evitáveis de morte hospitalar. Nem todo paciente com trombose venosa profunda desenvolve TEP, mas toda suspeita de TVP deve ser investigada rapidamente devido ao risco de embolização.

Em muitos casos, o primeiro sinal de uma trombose silenciosa pode ser justamente um episódio de embolia pulmonar. A falta de ar súbita acompanhada de dor torácica em pacientes internados ou no pós-operatório sempre deve levantar suspeita de TEP. A tromboprofilaxia hospitalar adequada reduz significativamente a incidência de tromboembolismo venoso e salva milhares de vidas todos os anos.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem desempenha papel fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento do tromboembolismo pulmonar. Entre os principais cuidados estão:

  • Realizar avaliação clínica frequente, monitorando sinais de dispneia, dor torácica, taquicardia, hipotensão e alteração do nível de consciência.
  • Monitorar continuamente sinais vitais, saturação periférica de oxigênio e frequência respiratória.
  • Administrar oxigenoterapia conforme prescrição e observar a resposta clínica do paciente.
  • Manter acesso venoso pérvio para administração rápida de medicamentos e fluidos quando necessário.
  • Administrar anticoagulantes rigorosamente conforme prescrição médica, observando dose, horário e possíveis sinais de sangramento.
  • Monitorar exames laboratoriais relacionados à anticoagulação, como TTPa, TP/INR e hemograma, conforme o anticoagulante utilizado.
  • Observar sinais de complicações hemorrágicas, incluindo hematomas extensos, epistaxe, hematúria, melena, gengivorragia e queda da pressão arterial.
  • Estimular mobilização precoce sempre que clinicamente possível e conforme orientação da equipe multiprofissional.
  • Orientar o paciente sobre a importância da adesão ao tratamento anticoagulante, do comparecimento às consultas de acompanhamento e da identificação precoce de sinais de sangramento.
  • Realizar medidas preventivas para trombose venosa profunda, como utilização correta de meias compressivas ou dispositivos de compressão pneumática quando prescritos.
  • Manter vigilância contínua em pacientes instáveis, comunicando imediatamente qualquer piora clínica.

O tromboembolismo pulmonar é uma emergência médica potencialmente fatal, mas que pode ser prevenida em grande parte dos casos com medidas simples e eficazes de tromboprofilaxia. O reconhecimento precoce dos fatores de risco, dos sinais clínicos e das alterações hemodinâmicas permite diagnóstico e tratamento rápidos, reduzindo significativamente a mortalidade.

A equipe de enfermagem possui papel essencial em todas as etapas do cuidado, desde a prevenção da trombose venosa profunda até o monitoramento intensivo dos pacientes diagnosticados com TEP. Uma assistência baseada em evidências, aliada à educação em saúde e ao acompanhamento rigoroso, contribui diretamente para melhores desfechos clínicos e maior segurança do paciente.

Resumo para salvar

TEP: o paciente que ia bem e piorou em minutos

  • 90% dos casos de TEP vêm de uma trombose venosa profunda (TVP)
  • Sinais de alerta: falta de ar súbita, dor torácica à inspiração e taquicardia
  • Diagnóstico combina Escore de Wells, Dímero-D e Angiotomografia pulmonar
  • Anticoagulantes são a base do tratamento; casos graves podem exigir trombólise

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para tromboembolismo pulmonar. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes brasileiras de embolia pulmonar. Rio de Janeiro: SBC, 2022. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Tromboembolismo Venoso. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Embolia Pulmonar e Tromboembolismo Venoso. São Paulo: SBC. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br
  6. KONSTANTINIDES, S. V. et al. 2024 ESC Guidelines for the management of acute pulmonary embolism. European Society of Cardiology. Disponível em: https://www.escardio.org
  7. AMERICAN COLLEGE OF CHEST PHYSICIANS (CHEST). Antithrombotic Therapy for VTE Disease: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Disponível em: https://journal.chestnet.org
  8. BRAUNWALD, E. Braunwald’s Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine. 12. ed. Philadelphia: Elsevier, 2022.
  9. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

EXPERIÊNCIA E ÁREAS DE CONHECIMENTO
UTI Adulto Enfermagem Intensiva Paciente Crítico Educação em Enfermagem
Conteúdo produzido com base em conhecimento, experiência profissional e educação em enfermagem.