
Vá direto ao ponto!
- 1. O que é anotação de enfermagem?
- 1.1. Anotação de enfermagem não é simplesmente “contar o plantão”
- 1.2. Por que a anotação de enfermagem é tão importante?
- 1.3. O que uma boa anotação precisa ter?
- 1.3.1. Data e horário
- 1.3.2. Identificação do paciente
- 1.3.3. Condição do paciente
- 1.3.4. Registre fatos, não interpretações vagas
- 1.4. “Paciente está bem” é uma anotação suficiente?
- 1.5. Como registrar sinais vitais?
- 1.6. Como registrar administração de medicamentos?
- 1.7. Como registrar uma intercorrência?
- 1.8. Nunca escreva uma anotação para proteger alguém
- 1.9. Uma situação muito comum na prática
- 1.10. Experiência prática: quando uma anotação aparentemente simples faz diferença
- 1.11. Como registrar procedimentos?
- 1.12. Exemplo de anotação de acesso venoso periférico
- 1.13. Exemplo de anotação de sonda nasoenteral
- 1.14. Exemplo de paciente com dor
- 1.15. A resposta do paciente é uma parte que muita gente esquece
- 1.16. Como registrar recusa de cuidado?
- 1.17. Como registrar quando o paciente não aceita alimentação?
- 1.18. Como registrar eliminações?
- 1.19. Evite termos vagos
- 1.20. Não use julgamento ou rótulos
- 1.21. Não registre algo que você não observou
- 1.22. Como corrigir um erro na anotação?
- 1.23. E no prontuário eletrônico?
- 1.24. Nunca compartilhe login e senha
- 1.25. Cuidado com informações do paciente fora do prontuário
- 1.26. Anotação de enfermagem na UTI
- 1.27. Experiência prática: o registro precisa acompanhar a mudança do paciente
- 1.28. Cuidados de enfermagem para uma anotação segura
- 1.28.1. Observe o paciente
- 1.28.2. Registre no momento adequado
- 1.28.3. Seja objetivo
- 1.28.4. Seja completo quando houver intercorrência
- 1.28.5. Registre a resposta
- 1.28.6. Comunique alterações
- 1.28.7. Registrar e comunicar são coisas diferentes.
- 1.28.8. Uma regra prática: “Observe, faça, reavalie e registre”
- 1.29. ! Atenção na Prova Exemplo completo de anotação de um plantão
- 1.30. ⚠ Pegadinha de Prova Anotação de enfermagem x evolução de enfermagem
- 1.30.1. A anotação pode ter valor legal?
- 1.31. O que mais costuma cair em provas?
- 1.32. Uma anotação boa não precisa ser enorme
- 1.33. Anotar é documentar o cuidado
Uma anotação mal feita pode esconder um cuidado que realmente aconteceu
Existe uma situação bastante comum na enfermagem: o procedimento foi realizado, o medicamento foi administrado, o paciente foi reposicionado, uma intercorrência foi percebida e comunicada… mas, quando alguém olha o prontuário, quase nada disso aparece de forma clara.
E aqui está um dos problemas mais importantes da anotação de enfermagem.
Aquilo que foi feito, mas não foi adequadamente registrado, pode deixar de ser demonstrado no prontuário.
Isso não significa que o registro de enfermagem tenha como objetivo “proteger o profissional” acima de tudo. O objetivo principal é documentar o cuidado prestado, permitir a continuidade da assistência e comunicar à equipe o que aconteceu com o paciente. O próprio Cofen destaca que os registros são essenciais ao processo do cuidar, à comunicação entre profissionais, à avaliação da qualidade da assistência e também podem ter implicações éticas e judiciais.
Por isso, aprender a fazer uma boa anotação não é apenas aprender a escrever bonito.
É aprender a transformar aquilo que você observou e fez durante o plantão em uma informação clínica clara, objetiva, cronológica e útil para quem continuará cuidando daquele paciente.
E essa diferença é enorme.
O que é anotação de enfermagem?
A anotação de enfermagem é o registro das informações relacionadas ao paciente e dos cuidados realizados pela equipe de enfermagem, de acordo com as atribuições profissionais, o processo de trabalho e as normas institucionais.
Na prática, ela funciona como uma espécie de “memória escrita” da assistência. O paciente pode mudar de setor, trocar de plantão, receber outro profissional, ser transferido para outra unidade ou apresentar uma intercorrência horas depois. O registro permite que essas informações não dependam exclusivamente da memória de quem estava presente.
O Cofen ressalta que os registros devem contribuir para a continuidade e a qualidade da assistência.
Por isso, uma boa anotação precisa responder, sempre que aplicável:
- O que aconteceu?
- Quando aconteceu?
- O que foi observado?
- O que foi feito?
- Qual foi a resposta do paciente?
- Quem foi comunicado?
- Qual foi a conduta adotada após a comunicação?
Nem toda anotação precisa responder todas essas perguntas ao mesmo tempo. Mas, quando existe uma alteração ou intercorrência, esse raciocínio ajuda muito.
Anotação de enfermagem não é simplesmente “contar o plantão”
Esse é um erro comum entre estudantes. Uma anotação não deve ser escrita como se fosse uma história:
“Paciente passou bem durante o plantão, ficou tranquilo, recebeu medicação e depois dormiu.”
O problema é que essa frase praticamente não oferece informação clínica suficiente.
O que significa “passou bem”? Quais sinais vitais? Estava consciente? Aceitou alimentação? Apresentou dor? Eliminou? Recebeu quais cuidados? Houve alguma intercorrência?
A anotação precisa ser objetiva e clinicamente útil.
Uma alternativa mais adequada seria:
“08h00 – Paciente em leito, consciente, orientado, comunicativo, em ar ambiente, sem sinais aparentes de desconforto respiratório. Aceitou dieta por via oral, aproximadamente 80% da refeição. Refere ausência de dor no momento. Realizada higiene corporal e mudança de decúbito, mantendo pele íntegra. Segue sob cuidados de enfermagem.”
Perceba a diferença. Não ficou necessariamente mais “bonita”. Ficou mais informativa.
Por que a anotação de enfermagem é tão importante?
Imagine uma unidade de terapia intensiva durante uma troca de plantão. O paciente está intubado, recebendo drogas vasoativas, com acesso venoso central, sonda enteral e monitorização contínua. Durante o plantão anterior, houve uma alteração importante da pressão arterial. A equipe ajustou uma infusão conforme prescrição, realizou medidas de suporte e comunicou o enfermeiro.
Se isso não estiver adequadamente registrado, o profissional que assume o próximo plantão terá de reconstruir a história por meio de informações fragmentadas. Agora imagine o contrário.
O registro informa horário, alteração observada, intervenção realizada, resposta apresentada e comunicação à equipe. A diferença na segurança do cuidado é enorme. O Cofen destaca justamente essa função dos registros: favorecer a comunicação entre os profissionais e garantir a continuidade da assistência.
O que uma boa anotação precisa ter?
Não existe uma única frase mágica que sirva para todos os pacientes. Mas alguns princípios são fundamentais.
Data e horário
O registro precisa permitir identificar quando aquela informação ocorreu. Isso é particularmente importante em situações como:
- administração de medicamentos;
- alterações de sinais vitais;
- intercorrências;
- procedimentos;
- mudança do estado clínico;
- transferência;
- comunicação com outros profissionais.
Uma informação sem horário perde parte de seu valor.
Compare:
“Paciente apresentou hipotensão.”
com:
14h20 – PA 86/52 mmHg, paciente referindo tontura e apresentando palidez cutânea. Enfermeiro comunicado imediatamente.
A segunda anotação permite compreender melhor a sequência dos acontecimentos.
Identificação do paciente
O registro deve estar associado corretamente ao paciente. Em sistemas eletrônicos, isso normalmente ocorre por meio da identificação vinculada ao prontuário. Em registros físicos, devem ser observadas rigorosamente as normas da instituição. Um erro de identificação pode transformar um registro correto em um registro perigoso.
Condição do paciente
A anotação deve registrar informações relevantes sobre o estado do paciente. Dependendo da situação, podem ser incluídos:
- nível de consciência;
- orientação;
- comunicação;
- mobilidade;
- padrão respiratório;
- oxigenoterapia;
- presença de dor;
- estado da pele;
- alimentação;
- hidratação;
- eliminações;
- dispositivos;
- comportamento;
- alterações clínicas.
Mas existe uma diferença importante entre registrar tudo e registrar o que é relevante. Uma anotação enorme não é necessariamente uma anotação boa.
Registre fatos, não interpretações vagas
Esse talvez seja um dos maiores “pulos do gato” para quem está começando. Evite escrever:
“Paciente está mal.”
Mas registre o que você realmente observou:
Paciente sonolento, responde ao chamado verbal, apresenta FR 28 irpm, SpO₂ 89% em ar ambiente, uso de musculatura acessória e queixa de dispneia. Enfermeiro comunicado.
Agora existe informação clínica. Outro exemplo:
Evite:
“Paciente muito agitado.”
Prefira:
Paciente inquieto, retirando repetidamente o lençol e tentando levantar-se do leito, verbalizando desejo de ir para casa. Mantém-se desorientado em tempo e espaço. Enfermeiro comunicado.
A segunda forma permite que outro profissional compreenda exatamente o que foi observado.
“Paciente está bem” é uma anotação suficiente?
Na maioria das situações, não. “Bem” é uma expressão subjetiva, o que significa estar bem para você pode ser diferente do que significa para outro profissional. Uma anotação mais útil descreve sinais observáveis.
Por exemplo:
Paciente consciente, orientado, comunicativo, eupneico em ar ambiente, afebril, sem queixas álgicas no momento, aceitando dieta por via oral e sem intercorrências durante o período.
Agora o leitor consegue compreender o que você quis dizer com “está bem”.
Como registrar sinais vitais?
Os sinais vitais devem ser registrados com seus respectivos valores e unidades, conforme o sistema ou protocolo institucional.
Por exemplo:
“10h00 – PA 118/72 mmHg, FC 82 bpm, FR 18 irpm, SpO₂ 97% em ar ambiente, T 36,5 °C.”
Se houver alteração, é importante registrar também a resposta da equipe. Exemplo:
“16h10 – PA 84/50 mmHg, FC 112 bpm, paciente consciente, referindo tontura. Enfermeiro comunicado imediatamente; paciente mantido em leito e realizada nova aferição conforme orientação, apresentando PA 96/60 mmHg às 16h20.”
Essa sequência é muito mais útil do que simplesmente escrever:
“Paciente apresentou pressão baixa.”
Como registrar administração de medicamentos?
A administração do medicamento deve ser registrada conforme o sistema institucional e as normas vigentes, incluindo as informações necessárias para garantir rastreabilidade. Não basta escrever:
“Medicação administrada.”
Qual medicação? Qual horário? Qual via? Houve alguma intercorrência? O paciente apresentou reação?
Em registros relacionados à administração de medicamentos, a documentação precisa permitir compreender o que efetivamente foi realizado. O Cofen destaca a importância da rastreabilidade dos cuidados e dos registros no prontuário.
Exemplo:
“08h00 – Administrado medicamento prescrito por via intravenosa, conforme prescrição médica e protocolo institucional, sem intercorrências durante a administração. Paciente mantido em observação.”
Quando houver reação:
“14h00 – Após administração do medicamento prescrito, paciente apresentou prurido e eritema em tronco. Medicação suspensa conforme orientação/protocolo institucional e enfermeiro comunicado imediatamente. Paciente mantido sob monitorização.”
O registro precisa refletir o que realmente aconteceu.
Como registrar uma intercorrência?
Uma intercorrência merece ainda mais atenção. Uma estrutura simples pode ajudar:
O que aconteceu → quando → sinais apresentados → providências → comunicação → resposta.
Imagine um paciente que apresentou queda. Uma anotação inadequada seria:
“Paciente caiu. Médico avisado.”
Muito pouco. Uma anotação mais completa poderia ser:
“18h35 – Paciente encontrado sentado no chão ao lado do leito, após tentativa de levantar-se sem auxílio. Consciente, orientado, referindo dor em região de quadril direito, sem sangramento aparente. Sinais vitais aferidos: PA 126/78 mmHg, FC 88 bpm, SpO₂ 96% em ar ambiente. Enfermeiro comunicado imediatamente; paciente não foi mobilizado até avaliação. Equipe médica acionada conforme protocolo institucional. Mantido em observação.”
Observe que o registro não tenta “culpar” ninguém. Ele documenta os fatos.
Nunca escreva uma anotação para proteger alguém
Essa orientação é muito importante: O registro não deve ser utilizado para construir uma narrativa favorável ao profissional ou para esconder uma falha. O prontuário deve refletir a assistência real.
Se algo não foi realizado, não registre como se tivesse sido. Se houve uma intercorrência, ela deve ser comunicada e registrada de acordo com os fatos. A função do prontuário é documentar o cuidado e permitir sua rastreabilidade; o Cofen destaca inclusive sua relevância para questões éticas, legais, auditoria, ensino e avaliação da qualidade assistencial.
Uma situação muito comum na prática
Em plantões movimentados, existe uma tendência de deixar a anotação para o final. É compreensível.
Na UTI, por exemplo, podem acontecer simultaneamente uma admissão, uma intercorrência hemodinâmica, transporte para exame, troca de acesso, administração de medicamentos e atendimento a outro paciente. O problema é que, quando chega o final do plantão, algumas informações podem ser esquecidas.
Na rotina de assistência intensiva, uma prática que ajuda muito é registrar os eventos relevantes o mais próximo possível do momento em que acontecem, em vez de tentar reconstruir seis ou oito horas de assistência de uma só vez.
Isso melhora a precisão do registro e reduz o risco de omissões. A documentação em tempo oportuno é também destacada nas recomendações do Cofen para registros de enfermagem.
Experiência prática: quando uma anotação aparentemente simples faz diferença
Em uma rotina de UTI, já é possível perceber como uma pequena informação pode mudar a interpretação do plantão seguinte. Imagine um paciente que apresenta queda progressiva da saturação.
Se alguém registra apenas: “Paciente apresentou dessaturação.” quem assume o próximo turno sabe que houve uma alteração, mas não sabe praticamente nada além disso.
Agora imagine:
“03h15 – SpO₂ 88%, paciente em ventilação mecânica, com aumento de secreção traqueal e necessidade de aspiração. Realizada aspiração conforme protocolo, com retirada de secreção em quantidade moderada. Após procedimento, SpO₂ 94%. Enfermeiro ciente.”
Essa anotação conta uma história clínica muito mais útil. Quem assume o plantão consegue perceber que houve uma alteração, que havia aumento de secreções, que uma intervenção foi realizada e que houve resposta. É exatamente esse tipo de registro que transforma a anotação em ferramenta de continuidade do cuidado.
Como registrar procedimentos?
Ao registrar um procedimento, procure demonstrar: o procedimento realizado, o local quando relevante, condições observadas, intercorrências e resposta do paciente.
Por exemplo, em um curativo:
“09h30 – Realizado curativo em lesão localizada em região sacral, conforme protocolo institucional. Lesão com aproximadamente 3 cm de diâmetro, leito com tecido de granulação, sem presença de secreção purulenta e sem odor. Pele adjacente íntegra. Cobertura aplicada conforme prescrição. Paciente tolerou procedimento sem intercorrências.”
Isso é muito mais útil do que: “Curativo realizado.”
O segundo registro prova pouco sobre o que realmente aconteceu.
Exemplo de anotação de acesso venoso periférico
“11h20 – Realizada punção venosa periférica em membro superior esquerdo, em veia cefálica, com cateter nº 20G, conforme técnica institucional. Apresentou refluxo sanguíneo e fluxo adequado após instalação. Fixado e identificado conforme protocolo. Paciente tolerou o procedimento sem intercorrências.”
Novamente, o objetivo não é escrever um texto enorme É fornecer as informações relevantes.
Exemplo de anotação de sonda nasoenteral
“07h40 – Sonda nasoenteral mantida conforme avaliação e protocolo institucional, fixação íntegra, sem sinais aparentes de deslocamento externo. Dieta administrada conforme prescrição e velocidade programada. Paciente sem náuseas ou vômitos durante o período.”
Em situações que exigem confirmação de posicionamento, o registro deve seguir rigorosamente o protocolo institucional e a prescrição, sem presumir que um método é suficiente quando não estiver indicado.
Exemplo de paciente com dor
Evite: “Paciente com muita dor.” Prefira:
“15h10 – Paciente refere dor em região abdominal, intensidade 8/10, segundo escala numérica, com início há aproximadamente 30 minutos. Apresenta expressão facial de desconforto. Enfermeiro comunicado e analgesia administrada conforme prescrição. Reavaliado às 16h00, referindo dor 3/10.”
Aqui existe algo muito importante: a resposta ao cuidado. Não basta registrar que a intervenção foi realizada. Sempre que possível, registre o resultado.
A resposta do paciente é uma parte que muita gente esquece
Esse é um detalhe que diferencia uma anotação comum de um registro realmente útil, Imagine:
“Realizada mudança de decúbito.”
Está correto como informação básica. Mas podemos ter:
“14h00 – Realizada mudança de decúbito para posição lateral direita, com auxílio da equipe, utilizando medidas de proteção da pele. Paciente tolerou procedimento, sem queixas álgicas no momento.”
Ou:
“14h00 – Realizada mudança de decúbito; paciente apresentou dor durante mobilização, intensidade 6/10. Enfermeiro comunicado e medidas de conforto adotadas.”
A segunda situação é muito diferente. O procedimento foi o mesmo, mas a resposta do paciente mudou completamente o significado clínico do cuidado.
Como registrar recusa de cuidado?
O paciente pode recusar um procedimento, medicamento, alimentação, higiene ou outro cuidado. Isso também precisa ser registrado de maneira objetiva.
Evite: “Paciente teimoso, não quis tomar banho.” Esse registro contém julgamento.
Prefira:
“09h00 – Ofertado banho no leito, porém paciente recusou o cuidado neste momento, referindo cansaço. Enfermeiro comunicado. Reofertado cuidado posteriormente, conforme avaliação.”
A diferença está no respeito, O prontuário não é lugar para julgamento moral do paciente.
Como registrar quando o paciente não aceita alimentação?
Exemplo:
“12h30 – Paciente recusou aproximadamente 90% da dieta oferecida, referindo náusea. Ingeriu apenas pequena quantidade de líquidos. Enfermeiro comunicado. Mantido em observação e realizada nova avaliação conforme orientação.”
Isso é muito diferente de: “Paciente não quis comer.” A segunda frase não explica o contexto.
Como registrar eliminações?
Sempre que relevante para a condição clínica, registre de maneira objetiva. Por exemplo:
“10h40 – Evacuação em fralda, fezes de consistência pastosa, coloração castanha, sem presença aparente de sangue. Realizada higiene íntima e troca de fralda.”
Ou:
“06h30 – Diurese espontânea, aproximadamente 350 mL, coloração amarelo-clara, sem alterações aparentes.”
Em pacientes críticos, a mensuração adequada do débito urinário pode ser especialmente importante.
Evite termos vagos
Algumas expressões aparecem com frequência nos prontuários, mas podem transmitir pouca informação:
- “Paciente bem.”
- “Sem alterações.”
- “Passou bem.”
- “Estável.”
- “Normal.”
- “Tudo certo.”
- “Sem intercorrências.”
Essas frases não são necessariamente proibidas em todos os contextos, mas, isoladamente, são pobres em informação. Se você escrever “sem intercorrências”, tente entender: sem quais intercorrências?
Se for importante para a assistência, descreva. Por exemplo:
“Durante o período, paciente permaneceu consciente, orientado, hemodinamicamente estável, sem queixas álgicas, sem episódios de vômitos e sem alterações respiratórias observadas.”
Agora “sem intercorrências” ganhou significado.
Não use julgamento ou rótulos
Evite expressões como:
- “Paciente preguiçoso.”
- “Paciente difícil.”
- “Paciente nervoso.”
- “Paciente exagerado.”
- “Paciente teimoso.”
- “Família problemática.”
Essas expressões não descrevem comportamento de forma objetiva. Se o paciente está agitado, descreva o comportamento.
“Paciente apresenta inquietação, eleva o tom de voz e tenta retirar acesso venoso periférico repetidamente.”
Isso é uma informação, “Paciente difícil” é apenas um julgamento.
Não registre algo que você não observou
Se você não viu o procedimento, não presuma que ele aconteceu. Se outro profissional realizou determinado cuidado e você precisa registrar algo relacionado à assistência, o registro deve corresponder ao que efetivamente foi observado ou realizado por você, respeitando as normas da instituição e a responsabilidade profissional.
A rastreabilidade é fundamental. O Cofen reforça que o registro deve documentar as ações profissionais e informações necessárias à continuidade da assistência.
Como corrigir um erro na anotação?
Nunca utilize recursos que apaguem ou escondam a informação registrada de forma inadequada. Em registro físico, a correção deve seguir a norma institucional e os princípios de integridade documental. Em prontuário eletrônico, devem ser utilizadas as ferramentas próprias do sistema para correção, preservando a rastreabilidade.
É importante não simplesmente apagar uma informação para substituí-la por outra como se o registro anterior nunca tivesse existido, o prontuário é um documento.
A forma de corrigir deve respeitar as normas institucionais e profissionais.
E no prontuário eletrônico?
A realidade mudou, muitos profissionais atualmente fazem praticamente todos os registros em sistemas informatizados.
A Resolução Cofen nº 754/2024 normatiza o uso do prontuário eletrônico e de plataformas digitais no âmbito da Enfermagem. A norma estabelece que é dever dos profissionais registrar no prontuário e em outros documentos próprios da área as informações inerentes ao processo de cuidar e ao gerenciamento dos processos de trabalho necessárias à continuidade e qualidade da assistência.
Isso significa que trocar papel por computador não diminui a responsabilidade, pelo contrário.
No sistema eletrônico, é fundamental utilizar login e senha individuais e intransferíveis e preservar o sigilo das informações do paciente. A Resolução também relaciona os registros às normas do Processo de Enfermagem e à proteção das informações de saúde.
Nunca compartilhe login e senha
Esse cuidado parece óbvio, mas merece ser reforçado, se o registro é realizado com seu acesso, ele fica associado à sua identidade profissional. Portanto, não é adequado emprestar login, senha ou deixar o sistema aberto para que outra pessoa registre em seu nome.
Além da segurança da informação, existe a questão da rastreabilidade. A Resolução Cofen nº 754/2024 determina que, quando aplicável, o acesso ao prontuário eletrônico utilize credenciais individuais e intransferíveis.
Cuidado com informações do paciente fora do prontuário
Uma anotação de enfermagem contém informações de saúde, que são dados sensíveis, não se deve fotografar prontuário, compartilhar tela, enviar informações em grupos pessoais ou comentar dados identificáveis de pacientes em redes sociais.
Mesmo que o nome não apareça, outros detalhes podem permitir identificação. A proteção do sigilo faz parte da responsabilidade profissional e também está relacionada à legislação de proteção de dados.
Anotação de enfermagem na UTI
Na UTI, o volume de informações é muito maior.
O paciente pode possuir:
- ventilação mecânica;
- cateter venoso central;
- acesso arterial;
- sondas;
- drenos;
- infusões contínuas;
- drogas vasoativas;
- monitorização invasiva;
- dispositivos de suporte renal;
- curativos complexos.
A anotação precisa acompanhar a complexidade do paciente, mas isso não significa escrever páginas e páginas sem organização. O ideal é registrar informações relevantes, objetivas e cronológicas.
Experiência prática: o registro precisa acompanhar a mudança do paciente
Na assistência intensiva, existe uma diferença enorme entre registrar: “Paciente em ventilação mecânica, estável.” e registrar:
“07h00 – Paciente em ventilação mecânica, modo conforme parâmetros prescritos, mantendo SpO₂ 96%. Sedado, sem resposta a estímulo verbal no momento. Secreção traqueal em pequena quantidade durante aspiração, sem intercorrências. Acessos e dispositivos mantidos pérvios e fixados.”
A segunda anotação não é simplesmente mais longa. Ela é mais útil porque mostra o estado do paciente naquele momento. E isso é particularmente importante na UTI, onde o quadro pode mudar em questão de minutos.
Cuidados de enfermagem para uma anotação segura
Uma boa anotação começa antes de você sentar para escrever:
- Durante o cuidado, observe.
- Durante o procedimento, observe.
- Depois do procedimento, observe novamente.
- Depois, registre.
Essa sequência parece simples, mas faz muita diferença.
Observe o paciente
Não registre apenas o que foi prescrito, e sim registre o que você encontrou.
Registre no momento adequado
Evite depender exclusivamente da memória no final do plantão.
Seja objetivo
Retire opiniões e mantenha fatos observáveis.
Seja completo quando houver intercorrência
Quanto mais importante a ocorrência, maior a necessidade de contextualização.
Registre a resposta
Sempre que possível, demonstre o resultado da intervenção.
Comunique alterações
Anotar uma alteração não substitui comunicar uma situação que exige intervenção imediata.
Registrar e comunicar são coisas diferentes.
Se um paciente apresenta uma alteração grave, primeiro deve ser adotada a conduta necessária e feita a comunicação pertinente; o registro documenta o ocorrido e as providências tomadas.
Uma regra prática: “Observe, faça, reavalie e registre”
Para quem está começando na enfermagem, uma sequência simples pode ajudar:
- Observe: como o paciente está?
- Faça: qual cuidado ou intervenção foi realizado?
- Reavalie: o paciente respondeu como?
- Registre: o que aconteceu, o que foi feito e qual foi a resposta?
Essa lógica evita anotações automáticas e estimula o raciocínio clínico.
! Atenção na Prova Exemplo completo de anotação de um plantão
Veja um exemplo fictício, apenas para fins educacionais:
“07h00 – Paciente em leito, consciente, orientado, comunicativo, em ar ambiente, SpO₂ 97%, sem sinais aparentes de desconforto respiratório. Refere dor abdominal 4/10. Acesso venoso periférico em membro superior direito, pérvio, sem sinais aparentes de flebite. Aceitou aproximadamente 70% da dieta oferecida. Diurese espontânea em volume não mensurado. Realizada higiene corporal e mudança de decúbito.
10h15 – Paciente refere aumento da dor abdominal para 7/10, associado a náusea. Enfermeiro comunicado. Medicação administrada conforme prescrição. Mantido em observação.
11h00 – Reavaliado após intervenção, referindo dor 3/10 e melhora da náusea. Sem episódios de vômitos.
13h30 – Paciente aceitou aproximadamente 80% da dieta do almoço. Mantém-se consciente e orientado, sem novas queixas.
18h50 – Paciente permanece em leito, hemodinamicamente estável, sem novas intercorrências observadas durante o período. Segue aos cuidados da equipe de enfermagem.”
Perceba que não é necessário transformar cada horário em um relatório gigantesco. O segredo é registrar as mudanças importantes e os cuidados relevantes.
⚠ Pegadinha de Prova Anotação de enfermagem x evolução de enfermagem
Esses termos não devem ser tratados como sinônimos automaticamente, de maneira simplificada, a anotação está muito relacionada ao registro objetivo das ações realizadas, observações e ocorrências do cuidado de enfermagem.
A evolução de enfermagem, por sua vez, possui caráter próprio dentro do Processo de Enfermagem e envolve análise da resposta do paciente aos cuidados, conforme as atribuições profissionais. A Resolução Cofen nº 736/2024 regulamenta a implementação do Processo de Enfermagem e estabelece a organização das etapas e responsabilidades profissionais.
Por isso, é importante que estudantes aprendam a diferenciar os conceitos e também conheçam o protocolo adotado pela instituição onde realizam estágio ou trabalham.
A anotação pode ter valor legal?
Sim. O registro de enfermagem integra a documentação da assistência prestada e pode ser utilizado para demonstrar a sequência dos cuidados realizados. O próprio Cofen destaca que os registros possuem importância ética e legal, além de contribuírem para auditoria, ensino, pesquisa e avaliação da qualidade da assistência.
Mas existe uma forma errada de entender isso, não devemos registrar pensando apenas: “Vou escrever para me defender.”
O pensamento correto é: “Vou registrar de maneira fiel porque o prontuário precisa mostrar o cuidado que foi prestado.” Quando a assistência é bem registrada, o benefício é para o paciente, para a equipe e também para o profissional.
O que mais costuma cair em provas?
Para estudantes de enfermagem, alguns princípios aparecem com frequência. A anotação deve ser:
! Atenção na Prova clara, objetiva, precisa, cronológica, legível quando manuscrita, sem rasuras inadequadas, baseada em fatos e compatível com o cuidado efetivamente realizado.
Também é importante lembrar:
- não registrar algo que não foi realizado;
- não omitir intercorrências relevantes;
- não utilizar termos pejorativos;
- preservar o sigilo;
- registrar identificação profissional conforme as regras institucionais;
- realizar o registro em tempo oportuno;
- registrar a resposta do paciente quando pertinente.
O Guia de Recomendações do Cofen foi desenvolvido justamente para orientar a prática dos registros de enfermagem e reforçar sua importância para a qualidade da assistência.
Uma anotação boa não precisa ser enorme
Essa talvez seja uma das melhores conclusões para quem está aprendendo.
- Uma anotação de dez linhas pode ser ruim.
- Uma anotação de três linhas pode ser excelente.
- O tamanho não determina a qualidade.
O que determina é a capacidade de transmitir informação relevante, verdadeira, objetiva e útil para a continuidade do cuidado.
A pergunta que vale a pena fazer antes de finalizar é:
“Se outro profissional assumir este paciente agora, minha anotação ajudará essa pessoa a entender o que aconteceu?” Se a resposta for sim, você provavelmente está no caminho certo, anotar não é simplesmente escrever.
Anotar é documentar o cuidado
É transformar observações, procedimentos, respostas e intercorrências em informações que possam ser compreendidas por outro profissional.
Uma boa anotação não precisa utilizar palavras difíceis, frases excessivamente formais ou termos complicados. Ela precisa ser clara, objetiva e fiel ao que realmente aconteceu.
Na prática, principalmente em ambientes de maior complexidade como pronto-socorro e UTI, o prontuário acompanha a evolução do paciente quase como uma linha do tempo. Uma pressão que caiu, uma saturação que piorou, uma medicação administrada, uma reação apresentada, uma intervenção realizada e uma resposta observada podem parecer informações isoladas; quando registradas corretamente, porém, elas ajudam a formar a história clínica do paciente.
E existe uma diferença importante entre “eu fiz” e “está documentado que eu fiz”.
O registro não substitui o cuidado. Mas ele faz parte do cuidado.
Por isso, para estudantes e profissionais de enfermagem, aprender a fazer uma boa anotação não é uma tarefa burocrática. É uma competência profissional diretamente relacionada à segurança do paciente, à comunicação da equipe, à continuidade da assistência e à qualidade do trabalho de enfermagem.
No fim do plantão, uma boa anotação deveria permitir que outro profissional consiga olhar para o prontuário e compreender, com clareza, como o paciente estava, o que aconteceu, o que foi feito e como ele respondeu.
Esse é o verdadeiro propósito do registro.
Anotação de Enfermagem: 4 regras para registrar o cuidado com segurança
Referências:
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília, DF: Cofen, 2023. Disponível em: Cofen – Recomendações para Registros de Enfermagem.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília, DF: Cofen, 2023. Disponível em: Guia de Registros de Enfermagem – PDF.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 514, de 5 de maio de 2016. Aprova o Guia de Recomendações para os registros de enfermagem no prontuário do paciente e outros documentos de enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2016. Disponível em: Resolução Cofen nº 514/2016.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todo contexto socioambiental onde ocorre o cuidado de enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Resolução Cofen nº 736/2024.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 754, de 16 de maio de 2024. Normatiza o uso do prontuário eletrônico e plataformas digitais no âmbito da Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Resolução Cofen nº 754/2024.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer nº 14/2024/COFEN/CAMTEC/CTLNENF. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Parecer Cofen nº 14/2024.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html.
- POTTER, Patricia A. et al. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.











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