A doença renal crônica (DRC) é uma condição que afeta milhões de pessoas no mundo. Quando os rins falham e perdem sua capacidade de filtrar o sangue e remover toxinas e excesso de líquidos do corpo, a diálise passa a ser fundamental para manter o paciente vivo e com qualidade de vida.
Para os profissionais de enfermagem, entender em detalhes as diferentes modalidades de diálise — hemodiálise, diálise peritoneal e hemodiafiltração — é essencial não só para prestar cuidados adequados, mas também para orientar os pacientes em suas escolhas e lidar com possíveis intercorrências.
Hemodiálise: O “rim artificial” na prática hospitalar
A hemodiálise é a forma mais conhecida de diálise e é amplamente utilizada em hospitais e clínicas especializadas. Nessa modalidade, o sangue do paciente é retirado por um acesso vascular, passa por uma máquina (o dialisador), onde é filtrado, e retorna ao organismo limpo.
Como funciona?
É necessário um acesso vascular, que pode ser uma fístula arteriovenosa, um enxerto ou um cateter venoso central. O tratamento é feito de duas a três vezes por semana, com sessões que duram de 3 a 5 horas.
Principais vantagens
- Remoção eficaz e rápida de toxinas e líquidos, sendo ideal em situações emergenciais, como hipercalemia ou acidose metabólica grave.
- Correção imediata de distúrbios metabólicos.
- Supervisão constante por equipe especializada durante as sessões.
- Rotina estável para os dias fora da diálise.
Limitações e desvantagens
- Dependência da clínica: o paciente precisa comparecer nos dias e horários marcados.
- Restrição hídrica e alimentar rigorosa entre as sessões.
- Efeitos colaterais como fadiga, hipotensão e câimbras durante ou após a diálise.
- Cuidados intensivos com o acesso vascular, que pode sofrer infecções, tromboses ou disfunções.
Cuidados de enfermagem
- Avaliação rigorosa do acesso vascular antes e após a sessão.
- Monitoramento dos sinais vitais e sintomas durante todo o processo.
- Educação em saúde, com foco na dieta, controle de líquidos e importância da adesão ao tratamento.
- Apoio emocional para lidar com as mudanças de rotina e os desafios do tratamento crônico.
Diálise Peritoneal: Autonomia no tratamento domiciliar
A diálise peritoneal é uma alternativa para pacientes que desejam mais autonomia, já que pode ser feita em casa. O diferencial dessa técnica é o uso do peritônio, a membrana que reveste a cavidade abdominal, como filtro natural.
Como funciona?
Um cateter é inserido no abdômen, permitindo a infusão de uma solução de diálise que permanece na cavidade por algumas horas. As impurezas atravessam a membrana peritoneal e se acumulam na solução, que depois é drenada. O processo pode ser manual (CAPD) ou automatizado por máquina (DPA).
Vantagens principais
- Realização em casa, com maior liberdade e independência.
- Menor impacto cardiovascular, por ser um processo mais lento e constante.
- Preservação da função renal residual por mais tempo.
- Menor necessidade de punções e intervenções vasculares.
- Menos restrições alimentares, devido à filtração contínua.
Desvantagens e riscos
- Risco de peritonite, caso não haja higiene adequada.
- Demanda por disciplina e autocuidado, exigindo treinamento do paciente e/ou cuidador.
- Ocupação de espaço em casa com materiais e equipamentos.
- Desconforto abdominal e possível ganho de peso, devido à absorção de glicose da solução.
Cuidados de enfermagem
- Treinamento intensivo do paciente e da família sobre a técnica, higiene, sinais de complicações.
- Avaliação contínua do cateter e do sítio de inserção.
- Supervisão da drenagem e análise do efluente (aspecto e volume).
- Acompanhamento psicológico, para promover a adaptação ao tratamento domiciliar.
Hemodiafiltração: A evolução da hemodiálise
A hemodiafiltração (HDF) é uma técnica mais recente e considerada um avanço no tratamento dialítico. Combina dois mecanismos: difusão, como na hemodiálise, e convecção, que permite a remoção de moléculas maiores.
Como funciona?
Um fluido estéril é infundido no sangue e removido junto com as toxinas. O processo é realizado com equipamentos específicos e exige água ultrapura.
Vantagens clínicas
- Maior eficiência na filtragem, inclusive de toxinas de médio e alto peso molecular.
- Melhora do bem-estar geral: pacientes relatam menos fadiga e mais disposição.
- Menor incidência de hipotensão durante as sessões.
- Potencial para melhor controle de pressão arterial, anemia e doença óssea.
- Maior sobrevida em grupos específicos de pacientes (comorbidades cardiovasculares, crianças, etc.).
Desvantagens
- Custo mais elevado e necessidade de infraestrutura sofisticada.
- Disponibilidade restrita, pois não está acessível em todos os centros.
- Pode requerer anticoagulação (em alguns locais ainda é feita com heparina).
- Necessita de equipe altamente treinada.
Cuidados de enfermagem
- Monitoramento rigoroso da pressão arterial e do balanço hídrico.
- Ajustes e vigilância do circuito da máquina de HDF.
- Prevenção de coagulação e controle do fluxo sanguíneo adequado.
- Educação direcionada, explicando os diferenciais e benefícios da HDF.
Resumo prático: Qual modalidade é “melhor”?
Não existe uma única resposta. A escolha da modalidade de diálise depende de fatores como:
- Condições clínicas do paciente
- Presença de comorbidades
- Apoio familiar e ambiente domiciliar
- Preferência pessoal
- Recursos disponíveis
Como profissionais de enfermagem, devemos estar preparados para atuar em todas essas modalidades com competência técnica, sensibilidade humana e capacidade de adaptação. Conhecer os prós e contras de cada uma delas permite oferecer um cuidado individualizado e centrado no paciente, promovendo não apenas a manutenção da vida, mas a qualidade dessa vida.
Referências:
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA (SBN). Diretrizes Brasileiras de Diálise. São Paulo: SBN, [ano da publicação mais recente]. (Consultar capítulos sobre hemodiálise, diálise peritoneal e hemodiafiltração). Disponível em: http://www.sbn.org.br/.
- PASSOS, N. L. S. et al. Cuidados de enfermagem ao paciente em hemodiálise: uma revisão integrativa. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, Rio de Janeiro, v. 13, p. 1290-1296, 2021. Disponível em: https://www.seer.unirio.br/cuidadofundamental/article/view/9402.
- SILVA, A. S. et al. Percepções e mudanças na qualidade de vida de pacientes submetidos à hemodiálise. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 72, n. 4, p. 953-960, jul./ago. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/qXwS3P9G6J8sQ6yH4hX7gK7/?lang=pt.
- BLUHM, D. I. et al. Cuidados de Enfermagem ao Paciente em Diálise: Uma abordagem prática. São Paulo: Atheneu, 2018.
- PEREIRA, B. J. G.; SINGH, A. K. Chronic kidney disease, dialysis, and transplantation. 3. ed. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2010.
-
KDIGO. Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney International Supplements, [S.l.], v. 2, n. 1, p. 1-138, 2012. Disponível em: https://kdigo.org/guidelines/acute-kidney-injury/.











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