
Vá direto ao ponto!
Em um dreno de tórax, poucos centímetros de água fazem uma diferença enorme. O detalhe que mais confunde na prática não é o volume do frasco, e sim entender que o selo d’água funciona pela altura da coluna líquida, criando uma barreira unidirecional que permite a saída de ar do espaço pleural sem facilitar seu retorno.
Como funciona o selo d’água
O selo d’água faz parte do sistema fechado de drenagem torácica. Ele funciona como uma válvula: o ar pode sair do espaço pleural pelo dreno, enquanto a coluna líquida dificulta sua entrada novamente.
Nos sistemas atuais, a câmara de selo costuma ser preenchida até a marca de 2 cm de água, ou conforme especificação do fabricante. Alguns sistemas e protocolos podem trabalhar com valores dentro de uma faixa próxima, por isso não se deve transformar um determinado volume em regra universal. O que importa é atingir a marca indicada no dispositivo.
Por isso, dizer que “o selo d’água precisa de 300 mL ou 500 mL” pode levar ao erro. O volume necessário depende do desenho e da capacidade do sistema. Em um dispositivo moderno, por exemplo, uma pequena quantidade de água pode ser suficiente para alcançar os 2 cm indicados pelo fabricante.
Oscilação e borbulhamento: dois sinais que merecem atenção
A oscilação, também chamada de tidaling, corresponde à movimentação do nível líquido relacionada à respiração e pode indicar que existe comunicação entre o espaço pleural e o sistema de drenagem. Sua ausência, entretanto, precisa ser interpretada junto ao quadro clínico: pode ocorrer após a reexpansão pulmonar ou quando há obstrução, acotovelamento ou outro problema no sistema.
Já o borbulhamento contínuo no selo d’água pode indicar fuga de ar. Nesse caso, é importante avaliar conexões, extensão, inserção do dreno e o próprio paciente, em vez de simplesmente considerar o borbulhamento como funcionamento normal.
Em uma situação comum de assistência, o paciente pode estar estável e, durante a troca de posição no leito, o nível do selo deixar de oscilar. Antes de concluir que o pulmão reexpandiu, a equipe precisa olhar toda a extensão: uma alça dependente, um acotovelamento sob o paciente ou uma conexão parcialmente desconectada também podem alterar o funcionamento do sistema.
O sistema precisa ficar abaixo do tórax
O frasco coletor deve permanecer abaixo do local de inserção do dreno, em posição vertical e estável. Isso favorece a drenagem por gravidade e reduz o risco de refluxo do conteúdo em direção ao tórax.
A extensão também deve permanecer livre de dobras, compressões e alças dependentes. O sistema não deve ser levantado acima do tórax durante a assistência ou mobilização sem avaliação adequada do circuito e das orientações específicas do dispositivo.
Outro ponto importante: não se deve clampear rotineiramente um dreno que esteja borbulhando, pois isso pode favorecer acúmulo de ar no espaço pleural. O clampeamento deve ocorrer apenas em situações específicas e conforme indicação e protocolo especializado.
E a troca do selo d’água?
A recomendação antiga de trocar o selo automaticamente a cada 12 ou 24 horas não deve ser tratada como regra universal. Sistemas fechados modernos possuem instruções próprias de manutenção, e a troca deve seguir o fabricante e o protocolo institucional, especialmente quando houver contaminação, perda da integridade do sistema, mau funcionamento ou necessidade de substituição.
A literatura recente mostra variação entre protocolos quanto à manutenção, clampeamento e outras intervenções. Por isso, o profissional deve conhecer o modelo de drenagem utilizado na instituição, em vez de aplicar uma quantidade ou intervalo fixo para todos os sistemas.
Na rotina, uma situação que merece atenção é quando o frasco começa a acumular grande quantidade de líquido e a equipe continua observando apenas o nível do coletor. O volume, a velocidade de drenagem e o aspecto do conteúdo precisam ser registrados e relacionados ao estado clínico, principalmente quando há sangue, piora respiratória, dor ou alteração hemodinâmica.
Cuidados de enfermagem
A assistência deve incluir a avaliação do paciente e do sistema como um conjunto. Verifique padrão respiratório, saturação, frequência cardíaca, dor, expansibilidade torácica e sinais de desconforto, além da fixação do dreno e das condições do curativo.
No sistema, confira se o frasco está vertical e abaixo do tórax, se o selo está no nível recomendado pelo fabricante, se a extensão está pérvia e sem acotovelamentos, o volume e aspecto da drenagem e a presença de oscilação ou borbulhamento. Registre as alterações e comunique rapidamente mudanças relevantes no débito ou na condição respiratória do paciente.
Também é importante evitar procedimentos não prescritos ou não previstos pelo protocolo institucional, como ordenha vigorosa do dreno ou clampeamento indiscriminado. A revisão de escopo publicada em 2024 encontrou diferenças entre as recomendações disponíveis para essas práticas, reforçando a necessidade de protocolos padronizados e baseados em evidências.
O que realmente vale lembrar
O selo d’água não é definido por “300 mL” ou “500 mL”. A referência principal é a altura da coluna líquida indicada no sistema, frequentemente 2 cm nos dispositivos atuais.
Para a enfermagem, o mais importante é reconhecer que o funcionamento adequado depende de um circuito íntegro, sistema abaixo do tórax, selo no nível correto, extensão sem obstrução e avaliação contínua do paciente, do débito, da oscilação e das possíveis fugas de ar.
Selo d’água do dreno de tórax
- O selo funciona pela altura da coluna líquida
- A marca de 2 cm é comum nos sistemas atuais
- O sistema deve permanecer abaixo do tórax
- Oscilação e borbulhamento precisam ser avaliados
Referências:
- AZAMBUJA, Marina Ilha de; CASTRO JUNIOR, Miguel Angelo Martins de. Drenagem torácica. Vittalle – Revista de Ciências da Saúde, v. 33, n. 1, p. 147-158, 2021. DOI: 10.14295/vittalle.v33i1.11619. Acessar artigo completo
- ASciak, Rachelle et al. British Thoracic Society Clinical Statement on pleural procedures. Thorax, v. 78, Suppl. 3, p. s43-s68, 2023. DOI: 10.1136/thorax-2022-219371. Acessar diretriz BTS
- SILVA, Elisiane Goveia da et al. Cuidados de enfermagem ao paciente adulto com drenagem torácica: uma revisão de escopo. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 58, e20240017, 2024. DOI: 10.1590/1980-220X-REEUSP-2024-0017pt. Acessar artigo na SciELO
- ROBERTS, Mark E. et al. British Thoracic Society Guideline for pleural disease. Thorax, v. 78, Suppl. 3, p. s1-s42, 2023. DOI: 10.1136/thorax-2022-219784. Acessar diretriz BTS sobre doença pleural
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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