RCP em Gestantes: Diretriz da AHA de 2020

Para muitos profissionais de saúde, o atendimento a uma gestante em parada cardiorrespiratória (PCR) pode gerar um nível extra de apreensão.

A complexidade de ter duas vidas em jogo e as particularidades fisiológicas da gestação podem tornar a situação ainda mais desafiadora.

Pensando nisso, a American Heart Association (AHA), na sua atualização de 2020 para as diretrizes de atendimento de PCR, dedicou um fluxograma específico para esse grupo especial de mulheres, trazendo mais clareza e direcionamento para um momento tão crítico. Vamos desvendar esse guia e entender seus pontos chave?

Prioridade Máxima: A Mãe em Primeiro Lugar (Com Impacto Direto no Bebê)

Ao analisarmos o novo fluxograma da AHA, uma mensagem central se destaca: a prioridade absoluta no atendimento da PCR em gestantes é a realização de manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) eficazes e de alta qualidade para a mãe.

Essa priorização pode parecer óbvia, mas é fundamental reforçar que a sobrevivência do feto está intrinsecamente ligada à estabilidade da mãe. Se não conseguirmos manter um bom fluxo de oxigênio e perfusão para a gestante, as chances de sobrevida do bebê são drasticamente reduzidas. Portanto, o foco inicial e principal é garantir a vida da mãe.

As Peculiaridades da Gestação: Detalhes que Fazem a Diferença no Atendimento

Para que o atendimento à gestante em PCR seja bem-sucedido, é crucial lembrar de algumas particularidades fisiológicas e anatômicas da gravidez que podem influenciar a abordagem:

  • Equipe Multidisciplinar Fortalecida: Durante o atendimento de uma PCR em gestante, a colaboração de diversos especialistas é fundamental. A presença do socorrista (primeiro a chegar), do obstetra (com expertise nas particularidades da gestação), do neonatologista (preparado para o atendimento ao recém-nascido, caso ocorra o parto) e, se possível, de um intensivista (para o manejo da paciente crítica) pode otimizar significativamente os resultados. Cada especialista traz um conhecimento específico que contribui para um atendimento mais completo e eficaz.
  • Alívio da Compressão Aortocava: Um Posicionamento Estratégico: Uma das manobras específicas para a gestante em PCR é o deslocamento do útero para a esquerda. O útero gravídico pode comprimir a veia cava inferior e a aorta, dificultando o retorno venoso e a perfusão materna (e, consequentemente, fetal). Esse deslocamento, conhecido como dextrorrotação uterina, pode ser conseguido facilmente com a inserção de uma “cunha” sob o quadril direito da paciente. Essa cunha pode ser improvisada com um frasco de soro de 1000 ml, compressão manual ou rolos feitos com lençóis, elevando o quadril em cerca de 30 graus. Essa manobra simples pode melhorar significativamente a eficácia das compressões torácicas.
  • Cesárea Perimortem: Uma Decisão Rápida em Cenários Específicos: Em situações onde a RCP na mãe não está sendo eficaz, e dependendo dos recursos humanos e materiais disponíveis, a realização de um parto por cesárea perimortem pode ser considerada. O objetivo principal dessa intervenção emergencial é melhorar a sobrevida materna (ao aliviar a compressão aortocava e melhorar a ventilação) e/ou fetal. A AHA 2020 sugere que, em alguns casos, essa cesárea pode ser considerada dentro dos primeiros 5 minutos de PCR para otimizar os resultados perinatais e maternos. É importante ressaltar que essa é uma decisão complexa, tomada por especialistas, e visa melhorar as condições para a RCP materna e, potencialmente, o prognóstico fetal.
  • Via Aérea Desafiadora: Atenção à Intubação: A via aérea na gestante geralmente apresenta desafios para a intubação endotraqueal devido a alterações fisiológicas como o aumento do volume sanguíneo e a congestão das vias aéreas. Por isso, é crucial selecionar o profissional mais experiente e capacitado para realizar esse procedimento. A AHA preconiza a intubação endotraqueal ou a utilização de uma via aérea avançada supraglótica o mais rápido possível. A confirmação do sucesso da intubação deve ser feita através da análise da onda na capnografia ou capnometria, garantindo a correta ventilação da paciente. Uma vez confirmada a via aérea avançada, a recomendação é oferecer uma respiração a cada 6 segundos (10 respirações por minuto) com compressões torácicas contínuas.

Após a Tempestade: Investigando as Causas da PCR

Após o atendimento inicial, a estabilização da paciente e a garantia de uma via aérea definitiva, o foco se volta para a identificação da causa da parada cardiorrespiratória. Para auxiliar nesse processo diagnóstico, a AHA 2020 e outras diretrizes utilizam o mnemônico ABCDEFGH, adaptado para o contexto obstétrico:

  • A – Anestesia: Investigar complicações relacionadas a procedimentos anestésicos.
  • B – Bleeding (Sangramento): Considerar sangramentos que podem levar à parada por hipóxia ou anemia aguda.
  • C – Cardiovascular: Avaliar a presença de doenças cardiovasculares prévias ou arritmias.
  • D – Drogas: Checar o uso de medicações prévias que possam ter contribuído para a PCR.
  • E – Embolia: Investigar a possibilidade de embolia pulmonar ou amniótica.
  • F – Febre: Considerar a febre como um possível fator desencadeante.
  • G – Generalidades: Avaliar causas não obstétricas de PCR, lembrando dos “H”s e “T”s.
  • H – Hipertensão: Investigar desordens hipertensivas e suas complicações (eclampsia, síndrome HELLP).

Relembrando os “H”s e “T”s (causas reversíveis de PCR):

  • Hipovolemia
  • Hipóxia
  • Hidrogênio (acidose metabólica)
  • Hipocalemia / Hipercalemia
  • Hipotermia
  • Tensão torácica (pneumotórax hipertensivo)
  • Tamponamento cardíaco
  • Toxinas (overdose de drogas, envenenamento)
  • Trombose pulmonar
  • Trombose coronariana

Seguir esse fluxograma e essa sistematização do atendimento à gestante em PCR oferece uma estrutura clara e organizada para a equipe de saúde. Ao priorizar a mãe, lembrar das particularidades da gestação e buscar ativamente as causas reversíveis da parada, aumentamos significativamente a chance de sucesso no resgate materno e oferecemos uma maior possibilidade de sobrevida ao feto.

Para nós, futuros enfermeiros, conhecer e compreender essas diretrizes é fundamental para estarmos preparados para atuar de forma eficaz em situações tão delicadas e desafiadoras.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Highlights of the 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas, TX: AHA, 2020. (Consultar seção específica sobre PCR em gestantes). Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/full/10.1161/CIRCULATIONAHA.120.022734.
  2. LAVERY, K. E.; FRIEDMAN, J. M.; SHARMA, P. P.; et al. Cardiac Arrest in Pregnancy. Obstetrics & Gynecology, v. 131, n. 5, p. 861-871, 2018. Disponível em: https://journals.lww.com/greenjournal/fulltext/201805000/Cardiac_Arrest_in_Pregnancy.20.aspx.
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Destaques das Diretrizes da AHA 2020 para RCP e ACE. [S. l.]: AHA, 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/-/media/cpr-files/cpr-guidelines-files/highlights/hghlghts_2020eccguidelines_portuguese.pdf

Escarotomia: O que é?

E aí, pessoal da enfermagem! Hoje a gente vai mergulhar em um procedimento cirúrgico que, apesar de parecer simples, faz uma diferença enorme na vida de pacientes com queimaduras graves: a escarotomia.

Já se depararam com essa situação ou ouviram falar? Se a resposta for não, ou se querem refinar o conhecimento, chega mais que vou desenrolar esse tema de um jeito bem prático e com o olhar atento que a enfermagem sempre tem.

Entendendo a “Armadura” da Queimadura Grave

Pensa numa queimadura daquelas bem profundas, que não pega só a camada superficial da pele, mas atinge tecidos mais internos. Em alguns casos, essa lesão evolui formando uma crosta espessa e rígida, tipo uma “armadura” sobre a área queimada. Essa crosta é a escara.

O problema é que essa escara, por ser tão dura e inflexível, começa a exercer uma pressão enorme sobre os tecidos subjacentes. É como se a pele queimada virasse uma roupa apertada demais, dificultando a circulação sanguínea.

Em queimaduras que circundam um membro inteiro (braço, perna) ou até o tronco, essa compressão pode ser tão severa que compromete a chegada de sangue, oxigênio e nutrientes, além de poder afetar nervos e a respiração.

É nesse cenário que a escarotomia se torna essencial. O procedimento consiste em realizar incisões cirúrgicas através dessa escara para aliviar a pressão. Imagina que são pequenos “cortes de alívio” que permitem que os tecidos se expandam e a circulação seja restabelecida.

O “Porquê” da Escarotomia: Mais que Alívio, Preservação

A indicação principal da escarotomia é justamente essa: descomprimir a área afetada para restaurar o fluxo sanguíneo. Essa restauração é crucial para evitar complicações graves, como:

  • Síndrome compartimental: Sabe quando a pressão dentro de um grupo muscular aumenta a níveis perigosos? Isso pode levar a danos musculares e nervosos irreversíveis. A escara circunferencial é um fator de risco importante para essa síndrome.
  • Comprometimento vascular: A pressão da escara pode esmagar os vasos sanguíneos, impedindo a chegada de sangue oxigenado aos tecidos. A isquemia (falta de oxigênio) prolongada pode levar à necrose (morte do tecido) e, em casos extremos, à necessidade de amputação.
  • Restrição respiratória: Em queimaduras que circundam o tórax, a escara pode impedir a expansão completa da caixa torácica durante a respiração, dificultando a ventilação e a oxigenação do paciente.

Percebem a seriedade da coisa? A escarotomia não é só para o paciente se sentir mais confortável, mas sim para prevenir danos sérios e preservar a vida e a função dos membros.

A Enfermagem em Ação: Antes, Durante e Depois da Escarotomia

A gente, como profissionais de enfermagem, tem um papel vital em todas as etapas desse processo.

Antes do Procedimento:

  • Avaliação Cirúrgica: Nossa avaliação constante é a chave. Precisamos estar atentos aos sinais que indicam a necessidade de uma escarotomia: dor intensa e desproporcional à lesão, palidez ou cianose (pele azulada) da extremidade distal à queimadura, diminuição ou ausência de pulsos periféricos, alteração da sensibilidade (formigamento, dormência) e dificuldade para movimentar os dedos.
  • Comunicação Imediata: Qualquer alteração nesses sinais precisa ser comunicada imediatamente à equipe médica. O tempo é crucial nesses casos.
  • Preparo do Paciente: Explicar o procedimento ao paciente e à família de forma clara e tranquilizadora (dentro do possível, considerando o estado emocional de todos). Preparar a área para o procedimento conforme a orientação médica, geralmente com limpeza e tricotomia (remoção de pelos) se necessário. Garantir que o paciente esteja o mais confortável possível antes do procedimento.
  • Monitorização Constante: Acompanhar de perto os sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória) e a oximetria de pulso.

Durante o Procedimento:

  • Auxílio ao Médico: Preparar todo o material necessário para o procedimento (bisturi, pinças hemostáticas, solução antisséptica, gazes, etc.) e auxiliar o médico durante a realização das incisões. Manter a área limpa e organizada.
  • Monitorização Contínua: Seguir monitorando os sinais vitais e observar a resposta do paciente ao procedimento, como o possível alívio da pressão e a melhora da perfusão periférica.
  • Suporte Emocional: Oferecer apoio emocional ao paciente, que pode estar apreensivo ou sentir dor durante o procedimento, mesmo sob analgesia.

Após o Procedimento:

  • Cuidados com as Incisões: Realizar os curativos conforme a prescrição médica, utilizando técnica asséptica para prevenir infecções. Observar atentamente os sinais de infecção nas áreas das incisões (vermelhidão, calor, edema, secreção purulenta, odor). Documentar as características do curativo e da ferida.
  • Avaliação da Perfuração: Continuar monitorando rigorosamente os pulsos distais, a coloração e a temperatura da pele, a sensibilidade e a motricidade da área afetada. Comparar com o membro contralateral, se houver. Qualquer sinal de piora deve ser comunicado imediatamente.
  • Controle da Dor: Administrar a medicação analgésica prescrita e avaliar a eficácia do tratamento, registrando a intensidade da dor em escalas adequadas. Oferecer medidas não farmacológicas para alívio da dor, como posicionamento adequado e distração.
  • Prevenção de Complicações: Manter o membro elevado (se for o caso) para auxiliar na redução do edema. Incentivar a movimentação dos dedos e do membro (quando possível e indicado pela equipe médica) para melhorar a circulação e prevenir trombose venosa profunda.
  • Educação do Paciente e Família: Orientar o paciente e a família sobre os cuidados com os curativos, os sinais de alerta de infecção, a importância de seguir as orientações médicas para a recuperação e os retornos para acompanhamento.

Cuidando com Atenção: Pontos Chave da Enfermagem na Escarotomia

Para reforçar, nossos cuidados de enfermagem na escarotomia se concentram em:

  • Reconhecimento precoce da necessidade do procedimento através de uma avaliação clínica detalhada e contínua.
  • Comunicação assertiva com a equipe médica sobre qualquer alteração observada.
  • Assistência qualificada e segura durante a realização do procedimento.
  • Monitorização constante e atenta da perfusão periférica e dos sinais vitais no pós-operatório.
  • Prevenção de infecções nas áreas das incisões cirúrgicas.
  • Manejo eficaz da dor do paciente.
  • Orientação e suporte ao paciente e seus familiares.

Lembrem-se que a escarotomia é um procedimento que pode mudar drasticamente o prognóstico de um paciente com queimaduras graves. Nosso olhar clínico e nossos cuidados dedicados são essenciais para garantir que essa intervenção seja realizada no momento certo e que a recuperação ocorra da melhor forma possível.

Referências:

  1. SILVA, M. A.; PEREIRA, A. B. Tratamento de queimaduras: guia prático para enfermagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  2. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth’s textbook of medical-surgical nursing. 14. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2018.
  3. Sociedade Brasileira de Queimaduras: https://sbqueimaduras.org.br/
  4. Revista Brasileira de Queimaduras: http://www.rbqueimaduras.com.br/

Emergências Pediátricas

Para quem escolhe a enfermagem pediátrica, o cuidado com os pequenos é uma arte delicada e, por vezes, desafiadora.

E em pediatria, algumas situações acendem um sinal de alerta máximo: as emergências pediátricas.

Nesses momentos, cada segundo conta e a nossa capacidade de reconhecer os sinais precocemente e agir de forma rápida e eficaz pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte. Se você está trilhando esse caminho, prepare-se para conhecer algumas dessas patologias que exigem uma resposta imediata e os cuidados de enfermagem cruciais em cada cenário.

Quando o Tempo Urge: A Gravidade das Emergências Pediátricas

As crianças, com sua fisiologia e capacidade de comunicação ainda em desenvolvimento, podem apresentar quadros clínicos graves de forma rápida e, por vezes, silenciosa. A deterioração pode ser súbita e a janela de intervenção, estreita.

Por isso, o olhar atento, a avaliação criteriosa e o conhecimento das principais emergências pediátricas são ferramentas indispensáveis para nós, futuros profissionais de enfermagem. Reconhecer os sinais de perigo e priorizar o atendimento adequado são os primeiros passos para garantir o melhor desfecho para nossos pequenos pacientes.

Dificuldade para Respirar: O Sufoco que Não Espera

A insuficiência respiratória aguda é uma das emergências pediátricas mais comuns e graves. As vias aéreas menores e a menor reserva fisiológica tornam as crianças mais vulneráveis a quadros que comprometem a oxigenação e a ventilação. Diversas condições podem levar a essa emergência:

  • Crise de Asma Grave: A obstrução das vias aéreas por broncoespasmo, inflamação e hipersecreção de muco causa dificuldade respiratória intensa, com chiado no peito, tosse persistente, uso da musculatura acessória (batimento de asa de nariz, retração intercostal e supraesternal) e cianose (coloração azulada da pele e mucosas). Nossos cuidados aqui incluem: manter a criança em posição confortável (geralmente sentada ou semi-sentada), administrar oxigênio suplementar conforme prescrição médica, monitorizar continuamente a frequência respiratória, a frequência cardíaca e a saturação de oxigênio, auxiliar na administração de broncodilatadores de curta ação (como salbutamol) por via inalatória e estar preparado para auxiliar em procedimentos mais invasivos, como intubação orotraqueal, se necessário.
  • Bronquiolite Grave: Principalmente em lactentes, a infecção viral dos bronquiolos causa inflamação e obstrução das pequenas vias aéreas, levando a taquipneia (respiração rápida), sibilância, tosse, irritabilidade, dificuldade para se alimentar e, em casos graves, apneia (parada respiratória). Os cuidados de enfermagem envolvem: monitorizar os sinais vitais e a saturação de oxigênio, manter a criança em posição elevada, oferecer pequenas quantidades de líquidos por via oral se tolerado, aspirar secreções nasais para facilitar a respiração e administrar oxigênio suplementar conforme prescrito. Em casos graves, pode ser necessária ventilação não invasiva ou invasiva.
  • Pneumonia Grave: A infecção do parênquima pulmonar pode levar à insuficiência respiratória, especialmente em crianças pequenas. Os sinais incluem febre alta, tosse, taquipneia, batimento de asa de nariz, retração torácica e, em casos graves, cianose e gemido expiratório. Nossos cuidados incluem: monitorizar os sinais vitais e a saturação de oxigênio, administrar oxigênio suplementar, manter a criança em posição confortável, auxiliar na administração de antibióticos conforme prescrito e incentivar a hidratação.
  • Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE): A aspiração de pequenos objetos é um risco em crianças, especialmente as menores. A obstrução pode ser parcial (com tosse eficaz) ou total (com incapacidade de tossir, falar ou respirar, cianose e perda de consciência). Nossa ação imediata é crucial: em caso de obstrução total em lactentes, realizar a manobra de Heimlich adaptada (compressões torácicas e golpes nas costas); em crianças maiores, realizar a manobra de Heimlich abdominal. Estar preparado para auxiliar em laringoscopia e remoção do corpo estranho, se necessário.

O Coração em Perigo: Emergências Cardiovasculares Pediátricas

Embora menos comuns que as respiratórias, as emergências cardiovasculares em pediatria exigem reconhecimento e intervenção rápidos:

  • Choque Séptico: A infecção grave pode levar a uma resposta inflamatória sistêmica intensa, resultando em disfunção orgânica e choque. Os sinais incluem febre (ou hipotermia), taquicardia, taquipneia, pele fria e pegajosa, livedo reticular (manchas na pele), oligúria (diminuição da produção de urina) e alteração do estado mental. Nossos cuidados são: monitorizar continuamente os sinais vitais (incluindo pressão arterial invasiva, se instalada), garantir acesso venoso rápido para administração de fluidos e medicamentos vasoativos conforme prescrição médica, administrar antibióticos de amplo espectro o mais rápido possível, monitorizar o débito urinário e a perfusão periférica e oferecer suporte ventilatório, se necessário.
  • Choque Hipovolêmico: A perda significativa de volume sanguíneo (por desidratação grave, hemorragia) leva à diminuição da perfusão tecidual. Os sinais incluem taquicardia, extremidades frias, pulsos periféricos filiformes, enchimento capilar lento, oligúria e alteração do estado mental. Nossos cuidados envolvem: garantir acesso venoso rápido para reposição volêmica agressiva conforme prescrição médica, monitorizar os sinais vitais e a perfusão periférica e identificar e tratar a causa da perda de volume.

A Mente em Crise: Emergências Neurológicas na Infância

As emergências neurológicas em pediatria podem ter diversas causas e exigem avaliação e intervenção rápidas:

  • Crise Convulsiva Aguda: Uma convulsão prolongada (geralmente > 5 minutos) ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas (estado de mal epiléptico) é uma emergência. Nossos cuidados incluem: proteger a criança de lesões, manter as vias aéreas permeáveis (lateralizar a cabeça, se necessário), monitorizar os sinais vitais e a saturação de oxigênio, administrar benzodiazepínicos por via intravenosa conforme prescrição médica e estar preparado para auxiliar em intubação orotraqueal se a convulsão não cessar ou houver comprometimento respiratório.
  • Meningite/Encefalite: A infecção do sistema nervoso central pode levar a um quadro grave com febre, cefaleia intensa, rigidez de nuca, fotofobia, irritabilidade, letargia, convulsões e alteração do estado mental. Nossos cuidados envolvem: monitorizar os sinais vitais e o estado neurológico, manter a criança em ambiente calmo e com pouca luz, administrar antibióticos e antivirais conforme prescrição médica e estar atento a sinais de aumento da pressão intracraniana.

O Abdome Agudo: Dor que Clama por Atenção

O abdome agudo em pediatria pode ter diversas causas (apendicite, invaginação intestinal, volvo intestinal, etc.) e, em alguns casos, evoluir para sepse e choque se não tratado rapidamente.

A dor abdominal intensa e persistente, associada a outros sinais como vômitos, distensão abdominal, febre e irritabilidade, exige avaliação cirúrgica urgente.

Nossos cuidados incluem: manter a criança em jejum, monitorizar os sinais vitais, avaliar a intensidade e as características da dor, observar o abdome e preparar a criança para exames complementares e possível intervenção cirúrgica.

A Pele que Queima: Grandes Queimaduras em Crianças

As grandes queimaduras em crianças são emergências devido ao risco de choque hipovolêmico, perda de calor, infecção e comprometimento das vias aéreas (em queimaduras faciais ou por inalação de fumaça).

Nossos cuidados iniciais incluem: interromper o processo de queimadura, avaliar a extensão e a profundidade da queimadura, garantir a permeabilidade das vias aéreas, administrar oxigênio suplementar, iniciar reposição volêmica intravenosa conforme protocolo, monitorizar os sinais vitais e a diurese e manter a criança aquecida.

A Importância da Sistematização do Cuidado e da Comunicação

Em todas essas emergências pediátricas, a organização do cuidado é fundamental. A avaliação rápida e sistemática (utilizando, por exemplo, a abordagem ABCDE – Vias Aéreas, Respiração, Circulação, Incapacidade Neurológica e Exposição), a priorização das intervenções e a comunicação eficaz com a equipe médica são cruciais para otimizar o atendimento.

A nossa capacidade de trabalhar em equipe, de manter a calma sob pressão e de executar os cuidados de enfermagem de forma precisa e oportuna pode salvar vidas.

Lembrem-se, futuros profissionais de enfermagem, que a pediatria é uma área que exige estudo constante e atualização. Estar familiarizado com as principais emergências, seus sinais e sintomas e os cuidados de enfermagem específicos é um passo essencial para oferecer o melhor cuidado possível aos nossos pequenos pacientes em momentos críticos.

Referências:

  1. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (AAP). Pediatric Advanced Life Support (PALS) Provider Manual. [S. l.]: AAP
  2. NELSON, W. E.; BEHRMAN, R. E.; KLIEGMAN, R. M.; JENSON, H. B. Nelson Textbook of Pediatrics. [Edição mais recente]. Philadelphia: Elsevier. 
  3. WONG, D. L.; HOCKENBERRY, M. J.; LOWE, J. R.; PERRY, S. E.; DALLAS, C.; WILSON, D. Wong’s Nursing Care of Infants and Children.  St. Louis: Mosby Elsevier.

Protocolo de Dor Torácica

A dor torácica é um dos sintomas mais comuns e preocupantes na prática clínica, podendo indicar desde condições benignas até emergências graves, como infarto agudo do miocárdio.

Para auxiliar os profissionais de saúde no manejo adequado desses casos, o Ministério da Saúde desenvolveu um Protocolo de Manejo da Dor Torácica, disponível no portal Linhas de Cuidado.

Nesta publicação, vamos explorar as principais diretrizes desse protocolo e os cuidados de enfermagem essenciais para garantir um atendimento seguro e eficaz.

O Que é o Protocolo de Manejo da Dor Torácica?

O protocolo do Ministério da Saúde é um guia prático que orienta os profissionais de saúde no atendimento inicial de pacientes com dor torácica, desde a avaliação inicial até a tomada de decisões clínicas.

Ele visa identificar rapidamente as causas mais graves e encaminhar o paciente para o tratamento adequado.

Principais Causas de Dor Torácica

A dor torácica pode ter diversas origens, incluindo:

  1. Causas Cardíacas: Infarto agudo do miocárdio, angina, pericardite.
  2. Causas Pulmonares: Embolia pulmonar, pneumotórax, pneumonia.
  3. Causas Gastrointestinais: Refluxo gastroesofágico, esofagite.
  4. Causas Musculoesqueléticas: Costocondrite, lesões musculares.
  5. Causas Psicogênicas: Ansiedade, ataques de pânico.

Etapas do Protocolo de Manejo da Dor Torácica

  1. Avaliação Inicial

O primeiro passo é realizar uma avaliação rápida e sistemática para identificar sinais de gravidade.

  • Sinais de Alerta:
    • Dor intensa e prolongada (> 20 minutos).
    • Sudorese, náuseas, falta de ar.
    • História de doença cardíaca ou fatores de risco (hipertensão, diabetes, tabagismo).
  1. Anamnese e Exame Físico
  • Anamnese: Investigar características da dor (localização, intensidade, irradiação, fatores de melhora/piora) e sintomas associados.
  • Exame Físico: Avaliar sinais vitais (pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio) e ausculta cardíaca e pulmonar.
  1. Exames Complementares
  • Eletrocardiograma (ECG): Para identificar sinais de isquemia ou infarto.
  • Biomarcadores Cardíacos: Como troponina, para confirmar lesão miocárdica.
  • Raio-X de Tórax: Para avaliar causas pulmonares.
  1. Classificação de Risco

O protocolo classifica os pacientes em três categorias de risco:

  • Alto Risco: Sinais de infarto ou embolia pulmonar. Encaminhamento imediato para emergência.
  • Risco Intermediário: Sintomas sugestivos, mas sem confirmação. Monitoramento e investigação adicional.
  • Baixo Risco: Sintomas atípicos e sem sinais de gravidade. Conduta ambulatorial.
  1. Conduta e Encaminhamento
  • Alto Risco: Encaminhamento imediato para unidade de emergência.
  • Risco Intermediário: Monitoramento e exames complementares.
  • Baixo Risco: Orientação e acompanhamento ambulatorial.

Cuidados de Enfermagem no Manejo da Dor Torácica

A equipe de enfermagem desempenha um papel crucial no atendimento de pacientes com dor torácica. Aqui estão os principais cuidados:

  1. Acolhimento e Estabilização
  • Acolha o paciente com empatia e tranquilidade.
  • Monitore sinais vitais e forneça oxigênio suplementar, se necessário.
  1. Administração de Medicamentos
  • Nitratos: Para alívio da dor em casos de angina.
  • Analgésicos: Como dipirona ou morfina, para dor intensa.
  • AAS (Ácido Acetilsalicílico): Em casos suspeitos de infarto, conforme prescrição médica.
  1. Preparação para Exames
  • Auxilie na realização do ECG e coleta de exames laboratoriais.
  • Prepare o paciente para raio-X de tórax ou outros exames complementares.
  1. Monitoramento Contínuo
  • Observe sinais de piora, como aumento da dor, sudorese ou alterações nos sinais vitais.
  • Documente todas as intervenções e respostas do paciente.
  1. Educação do Paciente
  • Explique os procedimentos e a importância do tratamento.
  • Oriente sobre sinais de alerta e quando retornar ao serviço de saúde.

Dicas para a Equipe de Enfermagem

  1. Mantenha a Calma: Um atendimento tranquilo e organizado transmite segurança ao paciente.
  2. Trabalhe em Equipe: Colabore com médicos e outros profissionais para garantir um atendimento integrado.
  3. Atualize-se: Conheça os protocolos mais recentes e participe de treinamentos.

Referências:

  1. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo de Manejo da Dor Torácica. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/dor-toracica/unidade-de-atencao-primaria/manejo-inicial/.
  2. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Avaliação e Conduta – Dor torácica. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/dor-toracica/unidade-hospitalar/avaliacao-conduta/
  3. Protocolo de dor Torácica do Hospital Albert Einstein

Protocolo de Sepse: Pacote de 1 hora

A sepse é uma condição grave e potencialmente fatal, caracterizada por uma resposta desregulada do organismo a uma infecção.

Para reduzir a mortalidade e melhorar os desfechos dos pacientes, a Campanha Sobrevivendo à Sepse (Surviving Sepsis Campaign – SSC) lançou o “Pacote de 1 Hora”, um conjunto de intervenções que devem ser realizadas dentro da primeira hora após o diagnóstico.

Nesta publicação, vamos explorar o que é o Pacote de 1 Hora, suas diretrizes e a importância da equipe de enfermagem nesse processo.

O Que é o Pacote de 1 Hora?

O Pacote de 1 Hora é um protocolo baseado em evidências que orienta os profissionais de saúde a realizar intervenções críticas dentro da primeira hora após a identificação da sepse. Essas intervenções visam estabilizar o paciente, controlar a infecção e prevenir complicações.

A Campanha Sobrevivendo à Sepse 2018 reforçou a importância desse pacote, destacando que a rapidez no tratamento é um dos fatores mais importantes para reduzir a mortalidade por sepse.

Diretrizes do Pacote de 1 Hora

O Pacote de 1 Hora consiste em cinco etapas essenciais, conhecidas como “Bundle de 1 Hora”. Vamos detalhar cada uma delas:

  1. Medir o Nível de Lactato
  • Objetivo: Avaliar a presença de hipoperfusão tecidual, um marcador de gravidade na sepse.
  • Ação: Coletar lactato arterial ou venoso.
  • Meta: Lactato ≥ 2 mmol/L indica maior gravidade e necessidade de intervenção urgente.
  1. Coletar Hemoculturas Antes de Antibióticos
  • Objetivo: Identificar o microrganismo causador da infecção.
  • Ação: Coletar pelo menos duas amostras de hemocultura de locais diferentes, antes da administração de antibióticos.
  1. Administrar Antibióticos de Amplo Espectro
  • Objetivo: Iniciar o tratamento precoce da infecção.
  • Ação: Administrar antibióticos de amplo espectro dentro da primeira hora após o diagnóstico.
  • Meta: Reduzir a carga bacteriana e controlar a disseminação da infecção.
  1. Reposição Volêmica Rápida
  • Objetivo: Restaurar a perfusão tecidual e a pressão arterial.
  • Ação: Administrar 30 mL/kg de cristaloide (soro fisiológico ou Ringer lactato) em até 1 hora.
  • Cuidado: Monitorar sinais de sobrecarga hídrica, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca.
  1. Administrar Vasopressores (Se Necessário)
  • Objetivo: Manter a pressão arterial em níveis adequados.
  • Ação: Se a pressão arterial permanecer baixa após a reposição volêmica, iniciar vasopressores (ex.: noradrenalina).
  • Meta: Manter a pressão arterial média (PAM) ≥ 65 mmHg.

Papel da Enfermagem no Pacote de 1 Hora

A equipe de enfermagem é fundamental para a implementação eficaz do Pacote de 1 Hora. Aqui estão os principais cuidados e responsabilidades:

  1. Reconhecimento Precoce
  • Identificar sinais de alerta de sepse, como febre, taquicardia, hipotensão e alteração do estado mental.
  1. Coleta de Lactato e Hemoculturas
  • Realizar a coleta de forma rápida e precisa, seguindo protocolos de assepsia.
  1. Administração de Antibióticos
  • Preparar e administrar os antibióticos dentro do prazo de 1 hora, conforme prescrição médica.
  1. Reposição Volêmica
  • Monitorar o paciente durante a infusão de fluidos, observando sinais de melhora ou complicações.
  1. Monitoramento Contínuo
  • Acompanhar sinais vitais, lactato e resposta ao tratamento.
  • Documentar todas as intervenções e evolução do paciente.
  1. Educação e Suporte
  • Explicar o tratamento para o paciente e familiares, oferecendo suporte emocional.

Desafios e Dicas para a Equipe de Enfermagem

  1. Trabalho em Equipe: A sepse exige uma abordagem multidisciplinar. Comunique-se de forma clara e eficiente com médicos, farmacêuticos e outros profissionais.
  2. Treinamento Contínuo: Participe de treinamentos e simulações para aprimorar suas habilidades no manejo da sepse.
  3. Organização: Mantenha os materiais e medicamentos necessários prontos para uso, garantindo agilidade no atendimento.

O Pacote de 1 Hora é uma estratégia comprovada para reduzir a mortalidade por sepse, mas seu sucesso depende da rapidez e precisão da equipe de saúde. Para enfermeiros, esse protocolo representa uma oportunidade de salvar vidas, demonstrando a importância do seu papel no cuidado ao paciente crítico.

Referência:

  1. Surviving Sepsis Campaign (SSC). Bundle de 1 Hora. 2018. Disponível em: https://www.sccm.org/SurvivingSepsisCampaign/Home.

Choque Refratário

O choque refratário é uma condição médica grave caracterizada pela persistência do choque, mesmo após a administração de terapias convencionais, como fluidos intravenosos e vasopressores. Isso significa que o corpo não responde adequadamente às medidas tomadas para restaurar a pressão arterial e o fluxo sanguíneo para os órgãos vitais.

Causas e Fisiopatologia

As causas do choque refratário são diversas e complexas, mas geralmente envolvem:

  • Sepse grave: A infecção generalizada é uma causa comum, desencadeando uma resposta inflamatória sistêmica que pode levar à disfunção de múltiplos órgãos.
  • Trauma: Grandes traumas podem causar perda significativa de sangue e lesões em órgãos vitais, dificultando a manutenção da pressão arterial.
  • Queimaduras extensas: Queimaduras graves levam à perda de fluidos e proteínas, causando choque hipovolêmico e desequilíbrios eletrolíticos.
  • Insuficiência cardíaca aguda: A incapacidade do coração de bombear sangue adequadamente pode levar ao choque cardiogênico.
  • Embolia pulmonar maciça: Um coágulo sanguíneo que obstrui uma grande artéria pulmonar pode causar choque obstrutivo.

Fisiopatologia

A fisiopatologia do choque refratário é multifatorial e envolve:

  • Vasodilatação excessiva: A liberação de mediadores inflamatórios causa vasodilatação, levando à diminuição da pressão arterial.
  • Aumento da permeabilidade vascular: Os vasos sanguíneos se tornam mais permeáveis, permitindo que líquidos vazem para os tecidos, piorando o choque.
  • Disfunção microcirculatória: A microcirculação é prejudicada, comprometendo a entrega de oxigênio aos tecidos.
  • Disfunção mitocondrial: As mitocôndrias, as “usinas de energia” das células, são danificadas, levando à falência multiorgânica.

Consequências

O choque refratário é uma condição potencialmente fatal e, se não for tratado adequadamente, pode levar à falência de múltiplos órgãos e à morte.

Tratamento

O tratamento do choque refratário é complexo e exige uma abordagem multidisciplinar. As medidas terapêuticas incluem:

  • Suporte hemodinâmico: Uso de vasopressores para aumentar a pressão arterial e drogas inotrópicas para aumentar a força de contração do coração.
  • Corrigir a causa subjacente: Identificar e tratar a causa do choque, como o controle da infecção ou a remoção de um coágulo sanguíneo.
  • Modulação da resposta inflamatória: Utilização de medicamentos para reduzir a inflamação sistêmica.
  • Terapias adjuvantes: Oxigenoterapia, ventilação mecânica, diálise e outras terapias de suporte.

Prognóstico

O prognóstico do choque refratário é reservado, com alta mortalidade. A sobrevida depende da causa subjacente, da gravidade da doença e da rapidez e eficácia do tratamento.

Prevenção

A prevenção do choque refratário envolve a identificação precoce e o tratamento agressivo de condições que podem levar ao choque, como a sepse, o trauma e a insuficiência cardíaca.

Referências:

  1. Wendy J Pomerantz, MD, MS, Scott L Weiss, MD. Systemic inflammatory response syndrome (SIRS) and sepsis in children: Definitions, epidemiology, clinical manifestations, and diagnosis. Disponível em: < https://bit.ly/3lFYLWq >.
  2. AZEVEDO, Luciano César Pontes de; TANIGUCHI, Leandro Utino; LADEIRA, José Paulo; MARTINS, Herlon Saraiva; VELASCO, Irineu Tadeu. Medicina intensiva: abordagem prática. [S.l: s.n.], 2018.

Máscara RCP Pocket Mask

A máscara Pocket Mask é um dispositivo utilizado durante a reanimação cardiopulmonar (RCP) para auxiliar na ventilação do paciente.  Ela possui uma válvula unidirecional que permite a passagem do ar do socorrista para o paciente, evitando o contato direto entre eles.

Como usar?

    • O socorrista deve adaptar a máscara sobre a boca e vias aéreas da vítima.
    • Coloque sua boca com firmeza sobre a máscara.
    • Encha o peito de ar e sopre para dentro da máscara, observando a elevação do tórax.
    • Tenha o cuidado de deixar que o ar saia do tórax da vítima antes de proceder a outra ventilação.

Cuidados durante o uso

    • Verifique se a máscara está limpa e em boas condições antes de usá-la.
    • Mantenha a máscara firmemente contra o rosto da vítima para garantir uma vedação adequada.
    • Utilize vias respiratórias adjuvantes, como cânulas nasofaríngeas ou orofaríngeas, para manter a via respiratória pérvia durante a ventilação com a Pocket Mask.

Lembre-se de que a RCP é uma sequência organizada de ações, e o uso correto da Pocket Mask pode fazer a diferença na sobrevivência da vítima.

Seja diligente e siga as diretrizes adequadas para obter os melhores resultados.

Referências:

  1. UFRRJ
  2. Como aplicar ventilação com bolsa-válvula-máscara (ambu) – Medicina de cuidados críticos – Manuais MSD edição para profissionais (msdmanuals.com)
  3. MÁSCARA POCKET MASK – BIVIMED

Trauma Facial e seus tipos

O trauma facial é qualquer lesão que afeta a face, podendo envolver a pele, músculos, ossos, nervos e até mesmo os dentes. Ele pode variar desde um simples arranhão até fraturas complexas que afetam múltiplas estruturas.

As causas mais comuns de trauma facial incluem:

  • Acidentes de trânsito: Colisões veiculares são uma das principais causas de traumas faciais.
  • Quedas: Principalmente em crianças e idosos.
  • Agressões físicas: Brigas, acidentes de trabalho e esportes de contato podem causar traumas faciais.
  • Acidentes domésticos: Quedas, objetos pontiagudos e queimaduras podem lesionar a face.

Os Tipos de Trauma Facial

Por tipo de trauma

  • Trauma contuso: Causado por um impacto direto, como um soco, um acidente de carro ou uma queda. Pode resultar em hematomas, contusões, fraturas e lacerações.
  • Trauma penetrante: Causado por um objeto que penetra a pele, como uma faca, um pedaço de vidro ou um projétil de arma de fogo. Pode resultar em lacerações profundas, fraturas, danos aos tecidos moles e órgãos internos.
  • Trauma crânio-encefálico (TCE): Envolve danos ao crânio e ao cérebro. Pode ser classificado em leve, moderado ou grave, dependendo da severidade dos sintomas.
  • Trauma térmico: Causado por queimaduras ou exposição a temperaturas extremas. Pode resultar em danos à pele, tecidos moles e ossos.

Por região afetada

  • Trauma orbitário: Envolve o olho e a órbita. Pode resultar em hematoma periorbital (olho roxo), fraturas orbitais, perda da visão e outros problemas oculares.
  • Trauma maxilofacial: Envolve a maxila, mandíbula, dentes e outros ossos da face. Pode resultar em fraturas, perda de dentes, deformidades faciais e problemas de mastigação.
  • Trauma nasal: Envolve o nariz. Pode resultar em fraturas nasais, hematomas, deformidades nasais e problemas respiratórios.
  • Trauma do ouvido: Envolve o ouvido externo, médio e interno. Pode resultar em perda de audição, zumbido, desequilíbrio e outras complicações.
  • Trauma da pele: Envolve a pele da face. Pode resultar em cortes, lacerações, abrasões, hematomas e queimaduras.

Por gravidade

  • Trauma leve: Envolve lesões superficiais e sem complicações graves.
  • Trauma moderado: Envolve lesões mais graves, mas sem risco de vida.
  • Trauma grave: Envolve lesões que colocam a vida em risco, como fraturas múltiplas, danos aos tecidos moles, perda de sangue e comprometimento de órgãos vitais.

Consequências do Trauma Facial

As consequências do trauma facial variam de acordo com a gravidade da lesão e podem incluir:

  • Dor: A dor é um sintoma comum após um trauma facial.
  • Inchaço: O inchaço é uma resposta inflamatória normal do corpo à lesão.
  • Hemorragia: Sangramento nasal ou oral pode ocorrer.
  • Deformidades: As fraturas podem causar deformidades faciais.
  • Problemas de visão: As fraturas orbitais podem afetar a visão.
  • Dificuldade para respirar: As fraturas nasais e maxilares podem obstruir as vias aéreas.
  • Alterações na fala: As fraturas de mandíbula podem afetar a fala.
  • Infecções: As feridas abertas estão sujeitas à infecção.

Tratamento

O tratamento do trauma facial depende do tipo e da gravidade da lesão e pode incluir:

  • Limpeza e sutura da ferida: Para lacerações e avulsões.
  • Redução e fixação de fraturas: Utilizando técnicas cirúrgicas.
  • Antibióticos: Para prevenir infecções.
  • Analgésicos: Para controlar a dor.
  • Cirurgia reconstrutiva: Para corrigir deformidades e restaurar a função.

Cuidados de Enfermagem

Avaliação Inicial

  • Via aérea: Avaliar a permeabilidade das vias aéreas, buscando sinais de obstrução, como dificuldade para respirar, ruídos respiratórios anormais ou cianose.
  • Respiração: Observar a frequência respiratória, o padrão respiratório e a saturação de oxigênio.
  • Circulação: Verificar os sinais vitais (pressão arterial, frequência cardíaca), presença de sangramento ativo e perfusão periférica.
  • Neurologia: Avaliar o nível de consciência, pupilas, força muscular e sensibilidade facial.
  • Lesões: Inspecionar cuidadosamente a face, identificando lacerações, fraturas, hematomas e outras lesões.

Cuidados Diretos

  • Controle do sangramento: Aplicar compressas frias e realizar pressão direta sobre o local do sangramento, se necessário.
  • Limpeza e curativos: Limpar as feridas com soluções antissépticas e aplicar curativos estéreis.
  • Monitorização: Monitorar os sinais vitais, o nível de dor e a presença de complicações, como infecção ou edema.
  • Administração de medicamentos: Administrar analgésicos, antibióticos e outros medicamentos conforme prescrição médica.
  • Orientação: Orientar o paciente sobre os cuidados pós-operatórios e a importância de seguir as recomendações médicas.

Cuidados Pós-Operatórios

  • Controle da dor: Administrar analgésicos conforme prescrição médica e utilizar técnicas não farmacológicas para aliviar a dor, como compressas frias e massagem.
  • Monitorização da ferida: Observar a ferida cirúrgica quanto a sinais de infecção, como vermelhidão, inchaço, calor e secreção purulenta.
  • Higiene oral: Orientar o paciente sobre a importância da higiene oral adequada para prevenir infecções.
  • Dieta: Recomendar uma dieta líquida ou pastosa nos primeiros dias após a cirurgia e, gradualmente, introduzir alimentos mais sólidos conforme a tolerância do paciente.
  • Repouso: Encorajar o repouso e evitar atividades físicas intensas.

Complicações Potenciais e Monitoramento

  • Infecção: Monitorar sinais de infecção, como febre, vermelhidão, inchaço e drenagem purulenta.
  • Hematoma: Observar o aparecimento de hematomas e comunicar ao médico caso haja aumento significativo.
  • Deiscência da ferida: Verificar se há abertura da ferida cirúrgica.
  • Alterações sensoriais: Avaliar a presença de alterações na sensibilidade facial.
  • Dificuldade respiratória: Monitorar a frequência respiratória e a saturação de oxigênio, especialmente em casos de fraturas nasais ou maxilares.

Papel da Enfermagem

O enfermeiro desempenha um papel fundamental na assistência ao paciente com trauma facial. Além dos cuidados diretos, o enfermeiro também deve:

  • Estabelecer um bom relacionamento com o paciente e a família.
  • Oferecer suporte emocional.
  • Promover a autonomia do paciente.
  • Educar o paciente e a família sobre a importância do tratamento e dos cuidados pós-operatórios.
  • Comunicar-se de forma clara e objetiva com a equipe multidisciplinar.

Referências:

  1. UnaSUS
  2. Medway
  3. Silva, J. J. de L., Lima, A. A. A. S., Melo, I. F. S., Maia, R. C. L., & Pinheiro Filho, T. R. de C.. (2011). Trauma facial: análise de 194 casos. Revista Brasileira De Cirurgia Plástica, 26(1), 37–41. https://doi.org/10.1590/S1983-51752011000100009

Carrinho de Emergência Pediátrico

Um carrinho de emergência pediátrico é especialmente equipado para atender às necessidades únicas de crianças e adolescentes em situações de emergência. Ele contém uma variedade de materiais e medicamentos que permitem ao profissional de saúde estabilizar o paciente e iniciar o tratamento de forma rápida e eficiente.

O que deve conter?

A composição exata de um carrinho de emergência pediátrico pode variar entre instituições, mas geralmente inclui os seguintes itens:

Medicamentos e diluentes   Quantidade 
Adenosina 6mg/2ml 03 ampolas
Água destilada 10ml 10 ampolas
Amiodarona, cloridrato 150mg/3mL 02 ampolas
Atropina, sulfato 0,25mg/1mL 05 ampolas
Bicabornato de Sódio 8,4% 250mL 04 frascos
Dexametasona, fosfato 4mg/ml 02 ampolas
Diazepan 10mg/2mL 04 ampolas
Dobutamina, cloridrato 250mg/20mL 02 ampolas
Dopamina, cloridrato 50mg/10mL 02 ampolas
Epinefrina 1mg/mL (Adrenalina) 10 ampolas
Fenitoína sódica 5% 250mg/5mL 02 ampolas
Fenobarbital sódico 200mg/2ml 02 ampolas
Fentanila, citrato 0,05mg/mL 20mL 04 frascos
Furosemida 20mg/2ml 03 ampolas
Flumazenil 0,5mg/5mL 02 ampolas
Glicose Hipertônica 25% 10mL 05 ampolas
Glicose Hipertônica 50% 10mL 05 ampolas
Gluconato de Cálcio 10% 0,5mEq/mL 10mL 02 ampolas
Hidrocortisona, succinato 100mg 02 frascos
Hidrocortisona, succinato 500mg 02 frascos
Lidocaína, cloridrato 2% sem vaso 20mg/mL 20mL 01 frasco
Lidocaína, cloridrato 2% sem vaso 20mg/mL 5mL 02 ampolas
Metilpredinisolona, succinato Sódico 125mg 02 frascos
Metilpredinisolona, succinato Sódico 500mg 01 frasco
Midazolan, cloridrato 15mg/3mL 03 ampolas
Naloxona, cloridrato 0,4mg/mL 02 ampolas
Nitroprusseto de sódio 25mg/2mL 01 ampola
Norepinefrina, hemitartarato 8mg/4mL (Noradrenalina) 02 ampolas
Prometazina, cloridrato 50mg/2mL 02 ampolas
Soro Fisiológico 0,9% 10 ml 10 frascos
Succinilcolina, cloridrato 500mg 01 frasco
Tiopental sódico 1000mg 01 frasco
          
Circulação Quantidade 
Cateter intravenoso periférico flexível (abocath®) n° 24 / 22 04 unidades cada
Cateter intravenoso periférico flexível (abocath®) n° 20 /18 / 16 / 14 02 unidades cada
Cateter intravenoso periférico rígido (Scalp) n° 19 / 21 / 25 / 27 02 unidades cada
Agulha hipodérmica descartável 13X4,5 02 unidades
Agulha hipodérmica descartável 25×7 03 unidades
Agulha hipodérmica descartável 25×8 03 unidades
Agulha hipodérmica descartável 40×12 ou 30×10 03 unidades
Equipo Macrogotas 02 unidades
Equipo Parenteral 02 unidades
Equipo Fotossensível 02 unidades
Multivias ou Torneira de 3 vias (three ways) 03 unidades
Seringa 3 mL / 5 mL / 10 mL / 20 mL / 60 mL 02 unidades cada
Eletrodo descartável infantil 01 pacote
Gel condutor 01 unidade
Vias Aéreas Quantidade
Luva estéril 6,0/ 6,5 / 7,0 / 7,5 / 8,0 / 8,5 01 par cada
Cânula Endotraqueal nº 4,0 / 4,5 sem cuff 03 unidades cada
Cânula Endotraqueal nº 5,0 / 5,5 / 6,0 / 6,5 / 7,0 com cuff 03 unidades cada
Cateter de aspiração nº 8 / 10 / 12 01 unidade cada
Guia pequeno para cânula traqueal 01 unidades
Guia grande para cânula traqueal 01 unidades
Cânula orofaríngea (Guedel)  nº 1 / 2 / 3 / 4 01 unidade cada
Máscara de reanimação nº 01 / 02 / 03 01 unidade cada
Reanimador manual (AMBU) 500 mL e 1000 mL 01 unidade cada
Cateter Oxigênio Tipo Óculos 01 unidade
Umidificador 01 unidade
Máscara de nebulização contínua 01 unidade
Materiais Complementares Quantidade 
Cateter uretral Levine  nº 8 / 10 / 12 / 14 01 unidade cada
Cateter vesical de demora nº/ 8 / 10 / 12 / 14 01 unidade cada
Coletor de urina sistema fechado 02 unidades
Coletor de urina sistema aberto 02 unidades
Cateter gástrico nº 8 / 10 / 12 / 14 / 16 01 unidade cada
Borracha de silicone 03 unidades
Soluções Quantidade 
Soro fisiológico 0,9% 250 mL 01 frasco
Soro fisiológico 0,9% 500 mL 01 frasco
Soro glicosado 10% 500 mL 01 frasco
Soro glicosado 5% 250 mL 01 frasco
Água destilada 500 mL 01 frasco
Bicarbonato de sódio 250 mL 01 frasco
Solução Ringer Lactato 500 mL 01 frasco

 

É importante ressaltar que o conteúdo do carrinho de emergência pediátrico deve ser verificado regularmente para garantir que todos os materiais estejam disponíveis, em condições adequadas de uso e com validade dentro do prazo.

Referências:

  1. EBSERH
  2. Cmos DRAKE

Tórax Instável

O tórax instável é uma condição grave que ocorre quando há múltiplas fraturas em pelo menos três arcos costais adjacentes, resultando na separação de um segmento da parede torácica do restante da caixa torácica.

Essa condição é um marcador de lesão pulmonar subjacente e pode ser observada clinicamente pelo movimento paradoxal do segmento instável durante a respiração.

Diagnóstico do Tórax Instável

O diagnóstico do tórax instável é clínico. Idealmente, observamos o movimento paradoxal do segmento instável durante a respiração.

No entanto, em alguns casos, a dor ou outras lesões podem dificultar a visualização desse movimento. A radiografia de tórax pode ajudar a confirmar as fraturas ósseas e geralmente mostra contusão pulmonar subjacente. Vale ressaltar que a radiografia não exibe ruptura de cartilagem.

Cuidados de Enfermagem para o Tórax Instável

  1. Cuidados de Suporte:
    • Administração de oxigênio umidificado aos pacientes com tórax instável.
    • Analgésicos podem melhorar a ventilação, reduzindo a dor durante a respiração. Em alguns casos, a ventilação pode precisar de suporte mecânico.
    • Monitoramento cuidadoso da volemia, pois a lesão pode resultar tanto de hipovolemia (por hipoperfusão pulmonar) quanto de hipervolemia (por edema pulmonar).
  2. Reparo Cirúrgico:
    • Em pacientes selecionados com tórax instável, a fixação cirúrgica dos arcos costais pode ser considerada. Isso reduz o risco de pneumonia, o tempo de internação, a duração da ventilação mecânica e a mortalidade.
  3. Fisioterapia Respiratória:
    • A fisioterapia é crucial para evitar complicações respiratórias. Ela ajuda a manter a expansão pulmonar, melhorando a ventilação e prevenindo complicações como atelectasia e pneumonia.
  4. Monitoramento Hidroeletrolítico:
    • É importante ter cuidado com a reposição hidroeletrolítica dos pacientes para evitar congestão e piora da troca respiratória.

Em resumo, o tratamento do tórax instável envolve uma abordagem multidisciplinar, com foco na estabilização, alívio da dor, suporte respiratório adequado e monitoramento rigoroso. A enfermagem desempenha um papel fundamental na avaliação contínua e na implementação desses cuidados para garantir o melhor resultado possível para o paciente.

Referências:

  1. MSD Manuals
  2. Medway
  3. ABCMED, 2017. Tórax instável – conceito, causas, características clínicas, diagnóstico, tratamento e possíveis complicações.