
Vá direto ao ponto!
- 1. Comece pelo traçado
- 2. Frequência cardíaca
- 3. Ritmo: procure a onda P
- 4. Intervalo PR e complexo QRS
- 5. Eixo elétrico sem complicar
- 6. Agora olhe para ST e onda T
- 7. QT também merece atenção
- 8. Não confie cegamente no laudo automático
- 9. Quando o ECG precisa chamar atenção
- 10. Um jeito simples de memorizar
- 11. Cuidados de enfermagem
Interpretar um ECG não começa pela tentativa de descobrir “qual é a doença”. Começa verificando se o traçado está tecnicamente adequado e seguindo sempre a mesma sequência. Isso reduz o risco de pular justamente uma alteração importante.
Comece pelo traçado
Antes de olhar para as ondas, confira a qualidade do exame. Observe calibração, posicionamento dos eletrodos e presença de artefatos. Um V1 ou V2 colocado fora da posição correta, por exemplo, pode modificar a aparência do traçado e levar a interpretações equivocadas.
A análise sistemática recomendada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia inclui qualidade técnica, ritmo e frequência, onda P, intervalo PR, eixo elétrico, complexo QRS, repolarização ventricular e intervalos QT e onda U.
Frequência cardíaca
Depois, estime a frequência ventricular. Em um ritmo regular, podem ser utilizados métodos baseados nos quadrados do papel milimetrado; quando o ritmo é irregular, a contagem deve considerar um intervalo de tempo conhecido.
Mais importante do que decorar uma única fórmula é saber se a frequência está compatível com o contexto clínico e se existe uma alteração evidente de ritmo.
Ritmo: procure a onda P
Pergunte primeiro: existe onda P? Ela tem aspecto semelhante entre os batimentos? Está relacionada ao QRS? O intervalo PR permanece organizado?
No ritmo sinusal, a ativação atrial apresenta relação organizada com os complexos ventriculares. Já a ausência de ondas P sinusais pode aparecer em diferentes arritmias, como fibrilação atrial, flutter atrial ou ritmos juncionais, cada um com características próprias.
Na prática, um monitor pode mostrar uma frequência de 140 bpm e a primeira reação ser chamar de “taquicardia”. Antes disso, vale olhar o traçado: uma frequência elevada com ondas P organizadas não deve ser interpretada da mesma maneira que uma taquiarritmia irregular sem ondas P claramente identificáveis.
Intervalo PR e complexo QRS
O intervalo PR ajuda a avaliar a condução entre átrios e ventrículos. Observe sua duração e, principalmente, se existe relação constante entre P e QRS.
Em seguida, analise o QRS: duração, amplitude e morfologia. Um QRS alargado pode ter diferentes explicações, como bloqueios de ramo, ritmo ventricular, condução aberrante ou pré-excitação. Por isso, não é seguro associar um único achado a uma única doença sem analisar o restante do ECG.
Eixo elétrico sem complicar
O eixo pode ser avaliado principalmente pelas derivações do plano frontal. Para quem está começando, é mais útil entender se a orientação elétrica está dentro do esperado ou se existe desvio significativo, relacionando esse achado aos demais elementos do traçado.
A idade, o biotipo e outras características individuais também podem influenciar a interpretação do eixo, portanto um desvio isolado não deve ser transformado automaticamente em diagnóstico.
Agora olhe para ST e onda T
É nessa etapa que o ECG ganha grande importância nas situações de suspeita de isquemia. Observe o segmento ST e a onda T, sempre considerando as derivações envolvidas e a distribuição das alterações.
Em uma suspeita de síndrome coronariana aguda, um ECG inicial sem alterações diagnósticas não exclui o problema. As alterações podem ser dinâmicas, e ECGs seriados podem ser necessários quando os sintomas persistem ou o quadro clínico muda. A diretriz ACC/AHA de 2025 recomenda aquisição e interpretação do ECG em até 10 minutos do primeiro contato nos casos de suspeita de síndrome coronariana aguda.
Esse detalhe muda a prática: diante de dor torácica persistente, não é adequado olhar um ECG inicial normal e encerrar a avaliação apenas por causa dele.
QT também merece atenção
O intervalo QT representa a duração da atividade elétrica ventricular relacionada à despolarização e repolarização. Como ele varia com a frequência cardíaca, a avaliação do QT corrigido, o QTc, é particularmente importante.
Medicamentos, distúrbios eletrolíticos e diferentes condições clínicas podem interferir na repolarização. Por isso, diante de um QT prolongado, o achado deve ser relacionado ao quadro do paciente e às medicações em uso, em vez de ser tratado como uma alteração isolada.
Não confie cegamente no laudo automático
O aparelho pode fornecer uma interpretação automática e ela é útil como ferramenta auxiliar, mas não substitui a avaliação clínica e eletrocardiográfica adequada. A própria diretriz da SBC reconhece a melhora dos sistemas automatizados, mantendo-os como recurso auxiliar.
Isso é especialmente importante na enfermagem: o profissional pode identificar uma alteração no monitor ou no ECG e comunicar rapidamente a equipe, mas não deve transformar a interpretação automática do equipamento em diagnóstico definitivo.
Quando o ECG precisa chamar atenção
Alguns achados exigem resposta rápida quando associados ao quadro clínico, como alterações sugestivas de isquemia, taquiarritmias importantes, bradiarritmias com repercussão, bloqueios avançados, alterações significativas da condução ou mudanças novas em relação a ECG anterior.
Na síndrome coronariana aguda, por exemplo, elevação ou depressão do ST, inversões de onda T e outros padrões precisam ser interpretados considerando as derivações envolvidas e o contexto clínico. Em determinadas situações, derivações adicionais direitas ou posteriores podem ser necessárias.
Outro exemplo aparece na fibrilação atrial: a confirmação deve ser feita por registro eletrocardiográfico, e não apenas pela irregularidade percebida no pulso ou por dispositivos que utilizam fotopletismografia.
Um jeito simples de memorizar
Para estudar, use sempre uma sequência fixa:
Qualidade → frequência → ritmo → P → PR → QRS → eixo → ST/T → QT → comparação com ECG anterior.
A vantagem é que você não depende de “bater o olho” para reconhecer uma alteração. Você cria um roteiro que pode ser repetido em praticamente todo ECG de 12 derivações.
Cuidados de enfermagem
O cuidado começa antes mesmo da interpretação: confirme identificação do paciente, prepare a pele quando necessário, posicione corretamente os eletrodos, mantenha o paciente confortável e reduza movimentos e interferências durante o registro.
Após o exame, observe alterações relevantes e mudanças em relação a registros anteriores, comunique imediatamente achados associados à instabilidade clínica e registre o procedimento e as intercorrências conforme o protocolo institucional. A qualidade técnica do traçado é parte fundamental da análise do ECG.
Se o paciente apresenta dor torácica, sudorese, dispneia ou alteração do estado clínico enquanto o ECG está sendo realizado, o traçado deixa de ser apenas um exame para “estudar depois”: ele passa a fazer parte de uma avaliação que precisa ser rápida e integrada ao quadro clínico.
Como Interpretar o ECG na Prática
- Confira a qualidade e o posicionamento dos eletrodos
- Analise frequência ritmo P PR QRS eixo ST T e QT
- Não confie isoladamente no laudo automático
- Compare o ECG com o quadro clínico e exames anteriores
Referências:
- SAMESIMA, Nelson et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 119, n. 4, p. 638-680, 2022. Diretriz completa da SBC
- RAO, Sunil et al. 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI Guideline for the Management of Patients With Acute Coronary Syndromes. Circulation, 2025. Diretriz de Síndromes Coronarianas Agudas 2025
- EUROPEAN SOCIETY OF CARDIOLOGY. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation. European Heart Journal, 2024. Diretriz ESC de Fibrilação Atrial 2024
- VOGLER, J.; BREITHARDT, G.; ECKARDT, L. Bradiarritmias y bloqueos de la conducción. Revista Española de Cardiología, v. 65, n. 7, p. 656-667, 2012.
- GOLDBERGER, Ary L.; GOLDBERGER, Zachary D.; SCHVILKIN, Alexei. Clinical Electrocardiography: A Simplified Approach. 7. ed. Philadelphia: Mosby Elsevier, 2006.
- CASTELLANO, C.; PÉREZ DE JUAN, M. A.; ATTIE, F. Electrocardiografía Clínica. 2. ed. Madrid: Elsevier España, 2004.
- BRIGNOLE, M. et al. 2013 ESC Guidelines on cardiac pacing and cardiac resynchronization therapy. European Heart Journal, 2013.
Que Medicamento é Esse?: Prometazina
Faltou algum tema ou procedimento?
Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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