
A passagem de uma sonda nasogástrica ou nasoenteral pode parecer um procedimento simples para quem já está acostumado com a rotina hospitalar. Mas existe um momento particularmente importante — e que não deveria ser tratado como mera formalidade: confirmar onde a ponta da sonda realmente está antes de administrar dieta, água ou medicamento.
Esse cuidado é fundamental porque uma sonda introduzida pela narina pode, inadvertidamente, seguir para o trato respiratório. Em determinadas situações, o paciente pode não apresentar sinais muito evidentes de que isso aconteceu. Se a dieta for administrada através de uma sonda mal posicionada, o resultado pode ser uma aspiração pulmonar grave, pneumonia, pneumotórax e outras complicações potencialmente fatais. O próprio Cofen classifica a sondagem oro/nasoenteral como procedimento invasivo e destaca o risco de complicações graves, especialmente em pacientes críticos.
É por isso que alguns métodos que durante muito tempo foram ensinados nas escolas de Enfermagem — como “colocar ar e auscultar a barriga” ou colocar a ponta da sonda dentro de um copo com água — precisam ser revistos.
E aqui está o ponto mais importante deste artigo:
Ouvir um “borbulhar” no epigástrio não comprova que a sonda está no estômago.
Para a sonda nasoenteral (SNE) inserida às cegas, especialmente quando se pretende uma localização pós-pilórica, a radiografia é considerada o método de referência/padrão-ouro para confirmar o posicionamento antes da utilização, conforme diretrizes e documentos brasileiros.
Mas existe uma nuance importante: em alguns protocolos internacionais para sonda nasogástrica, a avaliação do pH do aspirado gástrico é utilizada como método inicial à beira-leito, com radiografia indicada quando o pH não confirma a posição ou não há aspirado. Portanto, não devemos simplesmente dizer que “pH nunca serve”. O método recomendado depende do tipo de sonda, objetivo da terapia e protocolo institucional.
Vamos entender isso de maneira prática.
Por que é tão importante confirmar a posição da sonda?
Imagine a seguinte situação:
Um paciente precisa receber dieta enteral. A sonda é introduzida pela narina e aparentemente está bem fixada.
O profissional injeta ar e escuta um ruído no abdome.
Parece tudo certo.
Mas existe um problema: o som produzido pela entrada de ar não consegue garantir que a extremidade distal da sonda esteja dentro do estômago.
A sonda pode estar no esôfago, no estômago ou até mesmo no trato respiratório e ainda produzir um som que seja interpretado equivocadamente como “ruído gástrico”.
O Cofen, por meio da Resolução nº 619/2019, destaca que a sondagem oro/nasoenteral pode apresentar complicações como inserção em brônquios, pneumonia aspirativa, pneumotórax e lesões de estruturas do trato digestivo. A mesma resolução estabelece que cabe ao enfermeiro realizar os testes para confirmação do trajeto e, no caso da sondagem nasoenteral, solicitar o exame radiológico para confirmação da localização.
Portanto, a confirmação não é uma etapa burocrática.
É uma barreira de segurança do paciente.
Primeiro: precisamos diferenciar SNG de SNE
Essa distinção é importante porque os termos muitas vezes são utilizados como se fossem sinônimos.
Sonda nasogástrica
A SNG é introduzida pela narina e tem como objetivo chegar ao estômago. Pode ser utilizada para alimentação, administração de medicamentos, drenagem gástrica, descompressão, lavagem e outras finalidades, dependendo do tipo de sonda e indicação clínica.
Sonda nasoenteral
A SNE é introduzida pela narina e busca uma localização além do estômago, geralmente no duodeno ou jejuno, dependendo da finalidade e do dispositivo utilizado. Isso muda completamente a discussão sobre confirmação. Uma coisa é demonstrar que existe conteúdo gástrico. Outra é demonstrar que a ponta da sonda está realmente pós-pilórica.
Por isso, não basta encontrar um método que indique “parece estar no estômago” quando o objetivo é uma localização intestinal.
O padrão-ouro: radiografia
Para a SNE recém-passada, a radiografia é considerada o padrão de referência para confirmar o posicionamento. A Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional afirma que a radiografia é o padrão de referência porque permite visualizar a sonda em relação às estruturas anatômicas. Estudos brasileiros e protocolos publicados na literatura também classificam o raio-X como padrão-ouro para a confirmação da SNE.
Isso acontece porque o exame não tenta simplesmente “adivinhar” onde a sonda está por meio de sinais indiretos. Ele permite visualizar o trajeto da sonda e a localização de sua extremidade.
Como funciona essa confirmação?
Depois da passagem da SNE, o paciente deve ser encaminhado para o exame de imagem conforme o protocolo do serviço. A imagem deve permitir avaliar o trajeto da sonda e sua extremidade distal. O exame precisa ser adequadamente interpretado e documentado antes de a sonda ser liberada para utilização, de acordo com o fluxo institucional.
Um protocolo brasileiro publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem, por exemplo, estabelece a solicitação de radiografia para conferência da SNE e orienta aguardar a confirmação antes da liberação para dieta ou medicamento.
“Mas se a radiografia é o padrão-ouro, por que ainda fazem ausculta?”
Porque a ausculta foi, durante muitos anos, ensinada como um método prático de confirmação.
A técnica tradicional era mais ou menos assim:
- conectar uma seringa à sonda;
- injetar ar;
- colocar o estetoscópio sobre a região epigástrica;
- ouvir um “borbulhamento”;
- concluir que a sonda estava no estômago.
O problema é que o som não demonstra a localização anatômica da ponta da sonda.
A própria documentação técnica do Coren-AL ressalta que a ausculta epigástrica após a introdução de ar não é um método confiável: ela não consegue diferenciar adequadamente uma sonda no estômago de uma sonda no esôfago ou em estruturas respiratórias.
Uma pesquisa brasileira também encontrou baixa concordância entre a ausculta epigástrica e a radiografia e concluiu que a ausculta não deveria ser utilizada como método de confirmação isolado.
Então a ausculta está proibida?
É preciso ter cuidado com essa afirmação. Não é correto transformar a discussão em:
“Ausculta é proibida.”
O problema é outro: a ausculta não deve ser considerada um método confiável para confirmar sozinha o posicionamento da SNE. Ela pode fazer parte da avaliação clínica geral, mas não deve ser usada como justificativa isolada para liberar a dieta quando a confirmação radiológica é necessária.
Esse detalhe é muito importante para o estudante de Enfermagem.
O famoso “teste do copo com água”
Outro método que muitos estudantes aprenderam é colocar a extremidade da sonda em um recipiente com água e observar se aparecem bolhas. A lógica ensinada era:
“Se borbulhar, está no pulmão.”
Mas isso também não é seguro. O Coren-AL descreve limitações desse método e destaca inclusive o risco de aspiração de água caso a sonda esteja localizada no trato respiratório.
Portanto: não coloque a ponta da sonda em um copo com água para decidir se pode iniciar a dieta. Esse método não substitui uma confirmação adequada.
E observar a cor do aspirado?
Também não é suficiente sozinho. Pode-se tentar aspirar conteúdo pela sonda e observar suas características. O problema é que:
- nem sempre é possível obter aspirado;
- o aspecto pode variar;
- secreções gástricas e respiratórias podem ser confundidas;
- sangue, dieta, medicamentos e outras condições podem modificar a aparência.
O parecer técnico do Coren-AL destaca justamente essa limitação: a avaliação visual do aspirado pode apresentar dificuldade para diferenciar secreções de diferentes origens.
Portanto:
“parece conteúdo gástrico” não é sinônimo de “tenho certeza da posição”.
E o pH do aspirado?
Aqui temos uma diferença importante em relação aos métodos antigos. A mensuração do pH do aspirado gástrico possui utilidade e é recomendada em alguns protocolos, principalmente para confirmação de sondas nasogástricas.
Por exemplo, uma diretriz do NHS recomenda pH do aspirado como uma das duas formas aceitas para confirmação inicial de uma sonda nasogástrica fina, sendo a radiografia a outra opção. Quando não há aspirado ou o pH não confirma a localização, recomenda-se radiografia. Portanto, não devemos ensinar ao aluno:
“pH não serve.”
O mais correto é:
O pH pode ser útil, mas sua utilização depende do tipo de sonda e do protocolo; ele não deve ser tratado como substituto universal da radiografia para confirmar uma SNE pós-pilórica.
Por que o pH pode apresentar limitações?
Porque o pH gástrico não é absolutamente constante.
Ele pode ser influenciado por:
- alimentação;
- medicamentos que reduzem a acidez gástrica;
- antiácidos;
- inibidores da bomba de prótons;
- bloqueadores H2;
- determinadas condições clínicas.
O parecer técnico do Coren-AL também chama atenção para essa limitação. Além disso, não conseguir aspirar conteúdo não significa automaticamente que a sonda está no lugar errado, mas também não permite assumir que está certa. É justamente por isso que protocolos precisam estabelecer o que fazer quando o aspirado não é obtido.
E a medida externa da sonda?
Essa é uma ferramenta extremamente útil. Depois de confirmar a posição inicial, deve-se registrar a marca ou comprimento externo da sonda junto à narina.
Por exemplo:
“SNE posicionada, marca externa em 55 cm.”
Depois, nas avaliações subsequentes, verifica-se se essa medida permanece semelhante àquela registrada. Se antes estava em 55 cm e agora está em 48 cm, alguma coisa mudou.
Pode ter ocorrido deslocamento. Mas existe uma ressalva importante: a medida externa não confirma sozinha a localização interna.
Ela serve principalmente para detectar uma possível mudança em relação à posição previamente documentada. Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda verificar a medida externa da SNE antes da administração de dieta ou medicamento e reavaliar radiologicamente se ocorrer tração acidental significativa.
“Se a sonda não saiu, posso confiar na medida externa?”
Não necessariamente. Uma sonda pode sofrer deslocamento interno sem que a mudança externa seja imediatamente evidente. Por isso, a medida externa é uma barreira complementar de segurança, não uma substituta universal da confirmação inicial.
A lógica é:
posição inicialmente confirmada + fixação adequada + monitoramento da marca externa + avaliação clínica + reavaliação quando houver suspeita de deslocamento.
E se o paciente tossiu muito ou vomitou?
Essa situação merece atenção.
Episódios de:
- vômitos;
- tosse intensa;
- engasgos;
- manipulação da sonda;
- tração acidental;
- desconexão;
- mudança da marca externa;
- piora respiratória inesperada;
podem levantar suspeita de deslocamento. Nessas situações, não se deve simplesmente assumir que a sonda continua posicionada porque “estava certa antes”. Protocolos internacionais recomendam nova avaliação quando há suspeita de deslocamento ou eventos clínicos que possam alterar a posição.
Um detalhe muito importante: “a sonda estava certa ontem”
Essa frase pode ser perigosa. Uma sonda corretamente posicionada às 8 horas da manhã não necessariamente estará na mesma posição às 20 horas. Por isso, a segurança não termina depois do primeiro raio-X. A equipe precisa continuar observando:
- fixação;
- comprimento externo;
- integridade do sistema;
- sinais respiratórios;
- tolerância à dieta;
- eventuais episódios de vômito ou tosse;
- qualquer alteração que sugira deslocamento.
Quando NÃO iniciar a dieta?
Essa é uma das mensagens mais importantes para o estudante. Não inicie a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Se a confirmação necessária ainda não foi realizada, se o resultado não está disponível, se existe divergência entre a posição registrada e a observada ou se houve suspeita de deslocamento, a conduta segura é interromper a administração e comunicar o enfermeiro/médico conforme o protocolo institucional.
- Não tente “resolver a dúvida” apenas colocando ar e auscultando.
- Não utilize o copo com água como confirmação.
- Não confie somente na aparência do aspirado.
- Não diga: “Deve estar no lugar.”
Quando estamos falando de uma via que pode levar diretamente ao trato respiratório, “deve estar” não é confirmação.
O que fazer antes de liberar a dieta?
Uma forma prática de pensar é utilizar uma sequência de segurança.
- Confirme a identificação do paciente
Antes de qualquer procedimento, confirme corretamente o paciente de acordo com o protocolo institucional. A identificação correta é uma das estratégias básicas de segurança do paciente estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
- Verifique qual é a sonda
Identifique:
- SNG?
- SNE?
- Gastrostomia?
- Jejunostomia?
O método de confirmação pode variar conforme o dispositivo e o objetivo.
- Confira a documentação
Verifique se existe registro da passagem e da confirmação da posição.
- Confira a marca externa
Compare com a medida registrada após a confirmação inicial.
- Procure sinais de deslocamento
Observe fixação, comprimento externo, desconexões, tração, vômitos e alterações respiratórias.
- Confirme se a sonda está liberada para uso
Não basta a sonda estar presente.
É necessário que esteja confirmada e liberada conforme o protocolo institucional.
- Só então administre a dieta
A dieta deve ser iniciada somente depois que os critérios de segurança forem atendidos.
E a cabeceira do paciente?
Mesmo com a sonda corretamente posicionada, existe outro cuidado importante: o posicionamento do paciente durante a dieta.
Em geral, a cabeceira deve permanecer elevada, conforme prescrição e protocolo institucional, frequentemente em torno de 30° a 45°, especialmente durante a administração da nutrição enteral e por período posterior conforme orientação do serviço.
Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda cabeceira elevada a pelo menos 30° durante a infusão. Isso é importante porque a prevenção da aspiração não depende de uma única medida.
É um conjunto de barreiras.
Quais métodos antigos não devem ser usados sozinhos?
Podemos resumir assim:
| Método | Pode ajudar? | Deve ser usado sozinho para liberar dieta? |
| Radiografia | Sim | É o método de referência para SNE recém-passada |
| pH do aspirado | Sim, em situações/protocolos específicos | Não universalmente |
| Avaliação do aspirado | Pode fornecer informações | Não |
| Ausculta após injetar ar | Não é confiável para confirmar posição | Não |
| Borbulhamento no copo com água | Não é confiável | Não |
| Apenas observar a marca externa | Ajuda no monitoramento | Não |
| Sintomas clínicos isolados | Podem levantar suspeita | Não |
| Ultrassom à beira-leito | Promissor em mãos treinadas e contextos específicos | Depende de protocolo/competência; não substitui automaticamente o padrão de referência |
E a ultrassonografia?
A ultrassonografia à beira-leito é uma área interessante e vem sendo estudada como alternativa para avaliação do posicionamento de sondas. Ela apresenta vantagens como ausência de radiação e possibilidade de realização à beira-leito.
Entretanto, isso não significa que qualquer profissional possa simplesmente pegar um aparelho de ultrassom e “confirmar a sonda”. É necessária capacitação, equipamento adequado e protocolo.
Estudos brasileiros apontam que a ultrassonografia pode ser uma alternativa em determinadas situações, mas ainda existem limitações relacionadas à acurácia e à disponibilidade de profissionais treinados.
Portanto, atualmente, para o estudante: ultrassom não deve ser tratado automaticamente como substituto do raio-X para todas as situações.
E se o paciente estiver em UTI?
Na UTI, a atenção deve ser ainda maior. Pacientes críticos podem apresentar:
- alteração do nível de consciência;
- sedação;
- intubação;
- traqueostomia;
- ausência de reflexos protetores;
- ventilação mecânica;
- alterações anatômicas;
- maior risco de aspiração.
O próprio Cofen destaca que pacientes neurológicos, inconscientes, idosos e traqueostomizados apresentam maior risco de mau posicionamento. Além disso, o paciente pode não conseguir comunicar que está sentindo dor, tosse ou desconforto durante a passagem.
Por isso, não espere que o paciente apresente sinais dramáticos para desconfiar de uma posição inadequada.
Uma experiência prática que vale para o estágio
Uma das situações que mais confundem estudantes é quando alguém da equipe diz: “Pode passar a dieta, eu já escutei.”
Nesse momento, o estudante precisa entender que a prática do setor não substitui o protocolo institucional nem a evidência científica. Se você está no estágio e encontra uma situação assim, não é necessário confrontar ninguém.
Pergunte:
“A posição já foi confirmada e liberada no prontuário?”
É uma pergunta simples, profissional e voltada para a segurança.
Se houver dúvida:
“Vou confirmar com o enfermeiro antes de iniciar a dieta.”
Essa postura demonstra responsabilidade, não insegurança.
O papel do técnico e do enfermeiro
A Resolução Cofen nº 619/2019 estabelece as competências da equipe de Enfermagem relacionadas à sondagem oro/nasoenteral.
Segundo a norma, a inserção da SNG/SOG e SNE é privativa do enfermeiro, enquanto técnicos e auxiliares podem auxiliar no procedimento e executar cuidados de manutenção e monitoramento conforme suas atribuições, prescrição e supervisão.
Ao enfermeiro compete, entre outras responsabilidades previstas na resolução:
- estabelecer o acesso;
- realizar os testes para confirmação do trajeto;
- solicitar exame radiológico para confirmação da SNE;
- garantir a manutenção do acesso;
- prescrever cuidados;
- registrar as ocorrências e dados relacionados ao procedimento.
Isso não significa que o técnico de enfermagem seja um mero “executor”. Na manutenção da terapia enteral, a observação do paciente e a comunicação de qualquer alteração são fundamentais. Se o técnico percebe que a sonda estava marcada em determinado ponto e agora está diferente, por exemplo, essa informação precisa ser comunicada.
O que fazer se houver suspeita de mau posicionamento?
A primeira regra é simples: não administrar a dieta até esclarecer a situação.
Depois:
- interromper a administração, se já estiver ocorrendo;
- manter o paciente em posição segura;
- comunicar imediatamente o enfermeiro;
- avaliar sinais respiratórios e condições clínicas;
- conferir a marca externa e a fixação;
- seguir o protocolo institucional para confirmação;
- documentar a ocorrência conforme rotina do serviço.
Se houver sinais como: dispneia, tosse intensa, dessaturação, cianose, desconforto respiratório ou alteração súbita do estado clínico, a situação deve ser tratada com prioridade.
Por que administrar dieta em uma sonda pulmonar é tão perigoso?
Porque a dieta enteral não foi feita para entrar nas vias respiratórias. Se a sonda estiver em uma estrutura respiratória e a dieta for administrada, pode ocorrer aspiração pulmonar, com consequências que variam de irritação e inflamação até pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória.
A Resolução Cofen nº 619/2019 cita especificamente a possibilidade de inserção em brônquios e desenvolvimento de pneumonia aspirativa e infecção broncopulmonar. É por isso que o momento da confirmação da posição merece tanta atenção.
“Mas eu sempre aprendi que era só auscultar”
Essa talvez seja uma das frases mais importantes deste tema. Na Enfermagem, existem procedimentos que foram ensinados durante muitos anos e que continuam sendo repetidos simplesmente porque:
“sempre foi feito assim.”
Mas a prática profissional precisa acompanhar a evolução das evidências. O fato de determinado método ter sido ensinado no curso técnico, na faculdade ou por profissionais experientes não significa automaticamente que ele seja o método mais seguro atualmente.
A ausculta epigástrica é um excelente exemplo, e ela pode parecer convincente porque produz um som. O problema é que um som não é uma imagem anatômica, e essa diferença é fundamental.
Resumo para guardar para a prova
Se você estiver estudando para uma prova de Enfermagem e aparecer a pergunta:
“Qual é o padrão-ouro para confirmar o posicionamento da sonda nasoenteral?”
A resposta esperada, no contexto brasileiro tradicional e das diretrizes citadas, é:
Radiografia.
Se aparecer:
“Ausculta epigástrica após insuflação de ar confirma o posicionamento?”
A resposta é:
Não. Não é um método confiável para confirmar isoladamente a localização da sonda.
Se aparecer:
“Colocar a ponta da sonda em um copo com água confirma se ela está no pulmão?”
Não. Esse método não é confiável e pode oferecer risco.
Se aparecer:
“O pH do aspirado pode ser utilizado?”
A resposta mais completa é:
Pode ser útil em determinados protocolos, especialmente para SNG, mas possui limitações e não substitui automaticamente a radiografia para confirmação de uma SNE pós-pilórica.
Checklist rápido antes de liberar a dieta
Antes de conectar a dieta, pense:
- Paciente correto?
- Sonda correta?
- Posição inicial confirmada?
- Há registro da confirmação?
- A sonda foi liberada para uso?
- Marca externa está de acordo com o registro?
- Fixação está íntegra?
- Houve vômito, tosse intensa ou tração desde a última confirmação?
- Existe alguma dúvida sobre o posicionamento?
Se a última resposta for sim, pare.
Não iniciar a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Essa é uma frase simples, mas que pode evitar um evento adverso grave. A confirmação do posicionamento da sonda antes da dieta é um daqueles assuntos em que a experiência prática precisa caminhar junto com a atualização científica.
Durante muito tempo, técnicas como auscultar o epigástrio após injetar ar, observar o aspirado ou colocar a extremidade da sonda em um copo com água foram ensinadas como formas de verificar a posição.
Hoje, sabemos que esses métodos apresentam limitações importantes e não devem ser utilizados isoladamente para confirmar uma SNE e liberar sua utilização. Para a SNE recém-inserida, a radiografia permanece o padrão de referência/padrão-ouro na literatura brasileira, pois permite visualizar o trajeto e a localização da sonda.
Ao mesmo tempo, o pH do aspirado tem papel relevante em determinados protocolos, especialmente para SNG, e pode funcionar como ferramenta de avaliação à beira-leito quando utilizado dentro de critérios bem definidos.
O mais importante é não transformar um método auxiliar em uma falsa certeza.
- Auscultar não é visualizar.
- Aspirar não é necessariamente confirmar.
- Ver a marca externa não é comprovar a localização interna.
E, principalmente: se houver dúvida sobre a posição da sonda, a dieta não deve ser iniciada até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional.
Esse é o tipo de cuidado que transforma conhecimento técnico em segurança real para o paciente.
Referências:
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 619, de 4 de novembro de 2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/Nasogástrica e Nasoentérica. Brasília, DF: Cofen, 2019. Disponível em: Resolução Cofen nº 619/2019.
- CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE ALAGOAS (COREN-AL). Parecer Técnico nº 04/2022: posicionamento de sonda nasoenteral e confirmação radiológica. Maceió: Coren-AL, 2022. Disponível em: Parecer Técnico nº 04/2022.
- MACEDO, A. B. T. et al. Elaboração e validação de protocolo para administração segura de nutrição enteral em pacientes hospitalizados. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre. Disponível em: Artigo na Revista Gaúcha de Enfermagem.
- BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. São Paulo: BRASPEN. Disponível em: Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional.
- RIGOBELLO, M. C. G. Acurácia e custo de métodos utilizados por enfermeiros na confirmação do posicionamento de sondas nasoenterais recém-inseridas às cegas à beira leito. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. Disponível em: Repositório da Universidade de São Paulo.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Protocolos de Segurança do Paciente – Ministério da Saúde.
- NHS AYRSHIRE & ARRAN. Insertion and care of fine bore nasogastric tubes for enteral feeding and medication in adults. Clinical Guideline G081. Disponível em: NHS – Nasogastric tube position confirmation guideline.
- BISCHOFF, S. C. et al. ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical Nutrition, v. 41, p. 468–488, 2022. Disponível em: ESPEN Practical Guidelines.
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de prática segura na administração de medicamentos, sangue e tecidos: prevenção de erros na administração de dietas enterais. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer Cofen nº 003/2021: Atuação da equipe de enfermagem na passagem e confirmação de sondas enterais e gástricas. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/.
-
SILVA, M. R.; SOUZA, A. C. Segurança do paciente em terapia nutricional enteral: evidências atuais sobre a confirmação do posicionamento de sondas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 77, n. 2, p. 112-118, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/.











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