Diálise Peritoneal (DP): O Que a Enfermagem Precisa Saber

A diálise peritoneal (DP) é uma modalidade de Terapia Renal Substitutiva utilizada principalmente na doença renal crônica avançada. Em vez de retirar o sangue do corpo para filtrá-lo em uma máquina, utiliza-se o peritônio, uma membrana altamente vascularizada que reveste a cavidade abdominal.

Um cateter flexível é implantado no abdome e permite a entrada e a saída do dialisato, solução que permanece temporariamente na cavidade peritoneal. Durante o tempo de permanência, substâncias como ureia e outros produtos do metabolismo passam do sangue para o líquido, enquanto o excesso de água é removido por ultrafiltração. Depois, o líquido é drenado e substituído por uma nova solução.

Como funciona o ciclo?

O tratamento pode ser entendido em três etapas: infusão, permanência e drenagem. Na infusão, o dialisato entra na cavidade abdominal. Durante a permanência, ocorre a troca de solutos e água através do peritônio. Na drenagem, o líquido usado é retirado, levando consigo parte das substâncias que deveriam ser eliminadas.

A concentração de glicose do dialisato influencia a retirada de líquido. Por isso, o volume drenado e o balanço entre o que foi infundido e o que foi drenado são informações importantes para acompanhar a resposta ao tratamento.

DPAC e DPA

As duas modalidades mais conhecidas são:

  • Diálise Peritoneal Ambulatorial Contínua (DPAC): os ciclos são realizados manualmente durante o dia, geralmente por meio de trocas programadas de bolsas.
  • Diálise Peritoneal Automatizada (DPA): uma cicladora realiza automaticamente as trocas, geralmente durante o período noturno. No Brasil, a DPA está contemplada na assistência à terapia renal substitutiva, inclusive com regulamentação específica no âmbito da saúde suplementar.

A escolha da modalidade depende de fatores clínicos, condições da cavidade peritoneal, rotina, capacidade de autocuidado ou necessidade de cuidador, estrutura domiciliar e decisão compartilhada com a equipe.

O ponto crítico: peritonite

Para quem trabalha com DP, líquido drenado turvo é um sinal de alerta. A peritonite é uma das principais complicações relacionadas à terapia e exige avaliação rápida.

Dor abdominal, febre, náuseas, vômitos, mal-estar e alteração do aspecto do efluente também podem ocorrer. A ISPD mantém recomendações específicas para prevenção, diagnóstico e tratamento das infecções relacionadas à diálise peritoneal.

O profissional de enfermagem deve observar o efluente, registrar alterações, avaliar sinais e sintomas e comunicar imediatamente a equipe responsável diante de suspeita de infecção. Antibióticos e outras intervenções devem seguir prescrição e protocolo institucional.

Cateter: atenção desde a saída

O cateter peritoneal é a principal porta de acesso ao tratamento. Por isso, o cuidado com o sítio de saída não deve ser tratado como uma etapa secundária.

Devem ser observados sinais como hiperemia, dor, edema, secreção, sangramento ou alterações na pele ao redor do cateter. A manipulação deve seguir rigorosamente a técnica recomendada pelo serviço, mantendo higiene das mãos, técnica asséptica e treinamento adequado do paciente e/ou cuidador. A ISPD publicou em 2025 uma atualização específica sobre o ensino de pacientes e cuidadores para realização da DP no domicílio.

Cuidados de enfermagem

Na prática, alguns pontos merecem atenção especial:

  • conferir prescrição, solução, concentração, volume e validade do dialisato;
  • realizar higiene das mãos e técnica asséptica durante as conexões e desconexões;
  • observar o sítio de saída do cateter;
  • avaliar cor e aspecto do líquido drenado;
  • registrar volume infundido e drenado e realizar o balanço conforme protocolo;
  • observar dor abdominal, febre, náuseas e alterações do efluente;
  • acompanhar peso, pressão arterial, edema e sinais de sobrecarga ou desidratação;
  • verificar dificuldades de drenagem ou infusão e comunicar alterações;
  • orientar paciente e cuidador quanto à técnica, higiene e sinais de alerta.

O treinamento não termina quando o paciente aprende a conectar as bolsas. A educação contínua e a capacidade de reconhecer complicações fazem parte da segurança da terapia domiciliar.

Duas situações que fazem diferença no plantão

Situação 1 — efluente alterado: durante uma troca, o profissional observa que o líquido que normalmente apresentava aspecto claro passa a sair turvo. Mesmo sem dor intensa naquele momento, a alteração não deve ser ignorada. O achado precisa ser registrado e comunicado rapidamente, porque pode representar peritonite e exigir investigação do efluente.

Situação 2 — drenagem menor que a infusão: o paciente recebe determinado volume de dialisato, mas a drenagem apresenta volume inesperadamente reduzido. Antes de simplesmente repetir a troca, é necessário avaliar o sistema, posicionamento do paciente, possíveis problemas de fluxo e demais causas, além de observar sinais clínicos. Uma alteração isolada do volume drenado pode ser o primeiro indício de um problema que precisa ser investigado.

Diálise peritoneal x hemodiálise

A diferença mais evidente está no método utilizado. Na hemodiálise, o sangue circula por um circuito extracorpóreo e um dialisador. Na diálise peritoneal, o sangue permanece dentro do organismo e as trocas acontecem através do peritônio.

No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece ambas como modalidades de Terapia Renal Substitutiva, juntamente com o transplante renal. A DP apresenta ainda a característica de poder ser realizada diariamente no domicílio, conforme a modalidade prescrita.

O que o profissional de enfermagem não pode esquecer

Na diálise peritoneal, o aspecto do líquido drenado é uma informação clínica. O volume infundido e drenado também conta uma história, assim como o estado do cateter, o peso, a pressão arterial e os sintomas apresentados pelo paciente.

Por isso, uma assistência segura depende menos de simplesmente “trocar uma bolsa” e muito mais de reconhecer alterações precocemente, manter técnica rigorosa e ensinar o paciente a identificar sinais de complicação.

Resumo para salvar

Diálise Peritoneal: O Que a Enfermagem Precisa Saber

  • Utiliza o peritônio como membrana para realizar as trocas de solutos e água
  • Pode ser realizada por DPAC ou DPA, conforme indicação e condições do paciente
  • Efluente turvo, dor abdominal e febre são sinais de alerta para possível peritonite
  • A enfermagem deve priorizar técnica asséptica, avaliação do cateter, efluente, balanço e educação do paciente

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Doenças Renais Crônicas (DRC). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Doenças Renais Crônicas.
  2. INTERNATIONAL SOCIETY FOR PERITONEAL DIALYSIS (ISPD). ISPD Guidelines & Educational Resources. 2026. Disponível em: ISPD – Guidelines. 
  3. CHOW, Josephine S. F. et al. Teaching peritoneal dialysis: a position paper for the International Society for Peritoneal Dialysis. Peritoneal Dialysis International, 2025. Disponível em: ISPD – Teaching Peritoneal Dialysis. 
  4. BRASIL. Agência Nacional de Saúde Suplementar. Resolução Normativa ANS nº 600, de 6 de março de 2024. Disponível em: Resolução Normativa ANS nº 600/2024. 
  5. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC nº 11, de 13 de março de 2014. Dispõe sobre os requisitos de Boas Práticas de Funcionamento para os Serviços de Diálise e dá outras providências. Brasília, DF: Anvisa, 2014. Disponível em: RDC Anvisa nº 11/2014.

O que faz um Enfermeiro Nefrologista?

Se você se encanta pela complexidade do corpo humano e se sente motivado a cuidar de pacientes com necessidades específicas, a nefrologia pode ser uma especialidade da enfermagem que te atraia.

Lidar com a doença renal crônica e suas diversas modalidades de tratamento exige um conhecimento aprofundado e uma visão holística do paciente. E no centro desse cuidado, encontramos o enfermeiro nefrologista, um verdadeiro maestro que coordena a assistência e promove a qualidade de vida daqueles que enfrentam desafios renais.

Quer saber o que esse profissional faz no dia a dia? Então, embarque com a gente nessa jornada pelo universo da enfermagem nefrológica!

Navegando pelo Mundo da Nefrologia: Uma Visão Abrangente

A nefrologia é um campo vasto que abrange desde a prevenção e o diagnóstico precoce das doenças renais até o acompanhamento de pacientes em tratamento conservador, diálise (hemodiálise e diálise peritoneal) e pós-transplante renal. O enfermeiro nefrologista atua em todas essas etapas, sendo um ponto de referência para o paciente, sua família e a equipe multidisciplinar.

Sua expertise vai além da técnica, envolvendo educação, suporte emocional e a coordenação de um plano de cuidados individualizado.

O Enfermeiro Nefrologista em Ação: Um Leque de Responsabilidades

O dia a dia de um enfermeiro em nefrologia é dinâmico e multifacetado, com responsabilidades que abrangem diversas áreas:

  • Avaliação Integral do Paciente: O enfermeiro realiza uma avaliação completa do paciente renal, considerando não apenas os aspectos clínicos da doença, mas também seu histórico de saúde, estilo de vida, necessidades psicossociais, nível de conhecimento sobre a condição e adesão ao tratamento. Essa avaliação é a base para o planejamento do cuidado.
  • Elaboração e Implementação do Plano de Cuidados: Com base na avaliação, o enfermeiro desenvolve um plano de cuidados individualizado, estabelecendo metas, definindo intervenções de enfermagem e monitorando a resposta do paciente ao tratamento. Esse plano abrange desde os cuidados diretos até a educação para o autocuidado.
  • Gerenciamento do Acesso Vascular: Para pacientes em hemodiálise, o acesso vascular (fístula arteriovenosa, cateter) é a “linha de vida”. O enfermeiro é responsável por avaliar a funcionalidade desse acesso, realizar curativos complexos, orientar a equipe técnica e o paciente sobre os cuidados específicos e identificar precocemente sinais de complicações como infecção ou trombose.
  • Coordenação da Sessão de Hemodiálise: O enfermeiro supervisiona todo o processo da hemodiálise, desde a preparação do material e do equipamento até o acompanhamento do paciente durante a sessão e os cuidados pós-diálise. Ele monitora os sinais vitais, identifica e intervém em possíveis intercorrências (hipotensão, hipertensão, cãibras, etc.) e garante a segurança do paciente durante o procedimento.
  • Manejo da Diálise Peritoneal: Para pacientes que realizam diálise peritoneal, o enfermeiro é responsável por educar o paciente e a família sobre a técnica, auxiliar nos primeiros procedimentos, monitorar a ocorrência de complicações (peritonite, vazamentos), ajustar o plano de tratamento em conjunto com o médico e oferecer suporte contínuo.
  • Administração de Medicamentos: O enfermeiro administra medicamentos por diversas vias, incluindo a via intravenosa durante a hemodiálise, e precisa ter um conhecimento aprofundado sobre as medicações utilizadas em nefrologia, suas doses, efeitos colaterais e interações.
  • Educação para o Autocuidado: Um dos pilares do cuidado em nefrologia é capacitar o paciente a gerenciar sua condição de forma autônoma. O enfermeiro desenvolve programas de educação individual e em grupo, abordando temas como dieta renal, controle de líquidos, uso correto de medicamentos, cuidados com o acesso vascular ou cateter peritoneal, reconhecimento de sinais de alerta e importância da adesão ao tratamento.
  • Suporte Emocional e Psicológico: Lidar com a doença renal crônica e a dependência de tratamentos como a diálise pode gerar ansiedade, medo e depressão. O enfermeiro oferece suporte emocional ao paciente e sua família, utilizando habilidades de comunicação terapêutica, promovendo a resiliência e, quando necessário, encaminhando para outros profissionais da saúde mental.
  • Atuação na Equipe Multidisciplinar: O enfermeiro integra a equipe multidisciplinar, que inclui médicos nefrologistas, técnicos de enfermagem, nutricionistas, assistentes sociais, psicólogos e outros profissionais. Ele participa de discussões de caso, colabora na definição do plano de tratamento e atua como um elo entre os diferentes membros da equipe.
  • Gestão e Liderança: Em algumas instituições, o enfermeiro nefrologista também pode exercer funções de gestão, coordenando equipes, elaborando protocolos, participando de programas de qualidade e desenvolvendo pesquisas na área.

O Cuidado de Enfermagem na Essência da Nefrologia

O cuidado de enfermagem em nefrologia é pautado em princípios como a individualidade do paciente, a promoção da autonomia, o respeito à dignidade e a busca pela melhor qualidade de vida possível. Algumas áreas de cuidado se destacam:

  • Manejo do Volume Hídrico: O enfermeiro monitora rigorosamente o balanço hídrico, o peso do paciente, a pressão arterial e os sinais de sobrecarga ou depleção de volume, ajustando as intervenções conforme necessário (restrição hídrica, administração de diuréticos, ajuste do ultrafiltração na diálise).
  • Controle dos Eletrólitos: Alterações nos níveis de eletrólitos como potássio, fósforo e cálcio são comuns em pacientes renais e podem ter consequências graves. O enfermeiro monitora os resultados dos exames laboratoriais, administra medicações para corrigir essas alterações e orienta o paciente sobre a dieta.
  • Prevenção e Manejo da Anemia: A anemia é uma complicação frequente da doença renal crônica. O enfermeiro monitora os níveis de hemoglobina, administra eritropoetina conforme prescrição e orienta o paciente sobre a importância da adesão ao tratamento.
  • Prevenção e Cuidado da Doença Ósseo-Mineral: As alterações no metabolismo do cálcio e do fósforo podem levar a problemas ósseos. O enfermeiro administra medicações específicas, monitora os exames e orienta o paciente sobre a dieta e a importância da atividade física.
  • Prevenção de Infecções: Pacientes renais, especialmente aqueles em diálise, têm maior risco de infecções. O enfermeiro implementa medidas rigorosas de controle de infecção, principalmente no manejo do acesso vascular e do cateter peritoneal, e educa o paciente sobre sinais de alerta.
  • Promoção do Bem-Estar e da Qualidade de Vida: O enfermeiro busca estratégias para minimizar o impacto da doença renal na vida do paciente, incentivando a participação em atividades sociais, o apoio familiar e a busca por recursos que melhorem seu bem-estar físico e emocional.

Uma Carreira Dedicada ao Cuidado Renal

A enfermagem em nefrologia é uma área desafiadora, mas extremamente gratificante. O enfermeiro tem a oportunidade de construir um relacionamento de longo prazo com seus pacientes, acompanhando sua jornada e fazendo uma diferença real em suas vidas.

Se você busca uma especialidade que combine conhecimento técnico, habilidades de comunicação, empatia e a capacidade de coordenar um cuidado complexo, a nefrologia pode ser o seu caminho na enfermagem.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM NEFROLOGIA (SOBEN). Diretrizes para a Prática Clínica em Enfermagem em Nefrologia. [S. l.]: SOBEN, [ano da publicação mais recente]. (Consultar capítulos sobre as atividades do enfermeiro). Disponível em: https://www.soben.org.br/. 
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA (SBN). Diretrizes Clínicas. [S. l.]: SBN,  Disponível em: https://sbn.org.br/. 
  3. NANDA INTERNATIONAL. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA-I: Definições e Classificação 2021-2023. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.