Guia de compatibilidade de medicamentos em Y: como avaliar a infusão simultânea de medicamentos intravenosos

Vá direto ao ponto!

A administração de medicamentos por via intravenosa faz parte da rotina de muitos setores da Enfermagem, principalmente em pronto-socorro, unidades de internação, centro cirúrgico, pediatria e, de maneira muito intensa, nas UTIs.

Na prática, porém, existe uma situação que costuma gerar bastante dúvida: o que fazer quando dois medicamentos precisam ser administrados ao mesmo tempo, mas o paciente possui apenas um acesso venoso disponível?

É nesse contexto que aparece o chamado conector em Y, também conhecido como Y-site, utilizado para permitir que duas soluções intravenosas sejam administradas por um mesmo acesso em determinados cenários, ou quando é administrado dois medicamentos simultaneamente pela mesma dânula no acesso.

Mas existe um detalhe fundamental: dois medicamentos poderem ser administrados pela mesma via não significa que eles sejam compatíveis entre si.

A compatibilidade precisa ser verificada antes da infusão simultânea.

Uma mistura inadequada pode provocar precipitação, turvação, alteração de cor, formação de partículas, degradação do medicamento ou outras alterações que podem comprometer a segurança e a eficácia do tratamento. E, em alguns casos, a incompatibilidade pode não ser visualmente evidente.

Por isso, este guia foi elaborado pensando principalmente em estudantes e profissionais de Enfermagem que precisam compreender o raciocínio por trás da compatibilidade em Y, sem transformar uma tabela de medicamentos em uma “lista para decorar”.

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ATENÇÃO! Importante: os exemplos apresentados neste artigo são didáticos e não substituem a consulta à bula específica do produto, ao protocolo institucional, ao farmacêutico clínico ou a uma fonte especializada de compatibilidade IV. A compatibilidade pode mudar conforme concentração, diluente, formulação, temperatura, fabricante e condições de administração.

O que é compatibilidade de medicamentos em Y?

A expressão compatibilidade em Y refere-se à possibilidade de dois medicamentos ou soluções intravenosas entrarem em contato no ponto de conexão de um sistema em Y durante a administração simultânea, sem apresentar incompatibilidade clinicamente relevante nas condições estudadas.

Imagine duas linhas:

Medicamento A →

    Y → acesso venoso → paciente

Medicamento B →

Os dois medicamentos percorrem seus respectivos equipos e se encontram próximo ao paciente, no conector em Y. Nesse pequeno trecho, ocorre a mistura das soluções. É justamente nesse ponto que uma eventual incompatibilidade pode acontecer.

Compatibilidade não é a mesma coisa que interação medicamentosa

Esse é um conceito muito importante para quem está estudando. Quando falamos em compatibilidade física ou química em Y, estamos perguntando se os medicamentos podem entrar em contato na linha intravenosa sem ocorrer uma alteração indesejada nas condições avaliadas. Já uma interação farmacológica diz respeito ao efeito de um medicamento sobre outro dentro do organismo.

São situações diferentes. Por exemplo, dois medicamentos podem ser fisicamente compatíveis no equipo e ainda assim apresentar uma interação farmacológica no paciente. Da mesma maneira, dois medicamentos podem não apresentar uma interação farmacológica relevante, mas serem fisicamente incompatíveis quando entram em contato dentro do equipo.

As fontes especializadas de compatibilidade, como o ASHP Injectable Drug Information, deixam claro que as tabelas de compatibilidade são voltadas principalmente à estabilidade e compatibilidade dos medicamentos parenterais e não substituem referências farmacoterapêuticas para interações medicamentosas.

Por que dois medicamentos podem ser incompatíveis?

Existem várias razões. Os medicamentos possuem características físico-químicas próprias, como:

  • pH;
  • concentração;
  • solubilidade;
  • osmolaridade;
  • composição química;
  • tipo de diluente;
  • excipientes;
  • temperatura;
  • tempo de contato.

Quando duas soluções entram em contato, essas características podem provocar alterações. Uma das manifestações mais conhecidas é a precipitação.

O que é precipitação?

Precipitação acontece quando uma substância que estava dissolvida deixa de permanecer solúvel na solução e forma partículas ou um precipitado. Visualmente, pode aparecer como:

  • partículas;
  • cristais;
  • aspecto leitoso;
  • turvação;
  • depósito;
  • alteração da transparência;
  • mudança de cor.

Um exemplo clássico estudado na literatura é a incompatibilidade que pode ocorrer entre determinadas concentrações de vancomicina e piperacilina/tazobactam durante administração em Y. Estudos demonstraram que a incompatibilidade pode aparecer como precipitado branco e que os resultados variam conforme concentração e diluente.

Isso mostra uma coisa essencial: não basta saber o nome dos dois medicamentos. É necessário saber como eles estão preparados.

Compatibilidade depende da concentração

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes deste artigo. Não é seguro dizer simplesmente:

“Vancomicina é compatível com piperacilina/tazobactam.”

Essa afirmação é incompleta. A pergunta correta seria:

Qual vancomicina, em qual concentração, diluente, formulação e condição de administração, está sendo comparada com qual concentração e preparação de piperacilina/tazobactam?

A literatura demonstra exatamente esse problema.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou suporte para administração simultânea em Y de piperacilina/tazobactam 33,75 mg/mL em solução fisiológica 0,9% com vancomicina 4–8 mg/mL em solução fisiológica 0,9%, mas ressalta que concentrações, diluentes, condições de armazenamento ou preparações diferentes devem ser consideradas incompatíveis quando não houver evidência específica de compatibilidade.

Portanto:

medicamento + concentração + diluente + formulação + condição = informação necessária.

O diluente também importa

Outro erro comum é pensar:

“Se os dois medicamentos são compatíveis, posso misturá-los independentemente do diluente.”

Não. O resultado pode mudar conforme a solução utilizada. Os estudos com vancomicina e piperacilina/tazobactam demonstram claramente essa influência. Em determinadas concentrações, combinações foram consideradas compatíveis em solução de cloreto de sódio 0,9%, enquanto outras apresentaram incompatibilidade quando preparadas em glicose 5%.

Por isso, uma tabela de compatibilidade que informa apenas: “A + B = compatível” pode ser insuficiente para uma decisão segura. O ideal é verificar os detalhes da condição estudada.

Compatibilidade física x compatibilidade química

A avaliação da compatibilidade pode envolver diferentes aspectos.

Compatibilidade física

É aquela que pode envolver alterações perceptíveis ou mensuráveis na solução, como:

  • precipitação;
  • turvação;
  • alteração de cor;
  • formação de partículas;
  • alterações de aparência.

Compatibilidade química

Mesmo que a solução continue transparente, pode ocorrer degradação química do medicamento. Isso é especialmente importante porque:

uma solução visualmente normal não necessariamente significa que os medicamentos sejam quimicamente compatíveis.

Estudos de compatibilidade podem utilizar técnicas analíticas, como cromatografia, além da inspeção visual. Em uma avaliação de acetaminofeno IV, por exemplo, foram utilizados métodos visuais e análises químicas para avaliar a compatibilidade durante simulação de Y-site.

Esse é um excelente motivo para não confiar apenas no que “parece estar normal”.

O que significa “compatível” em uma tabela de Y-site?

Nas fontes especializadas, a compatibilidade geralmente é determinada sob condições experimentais específicas. No ASHP Injectable Drug Information, por exemplo, as tabelas de Y-site apresentam resultados de estudos e especificam condições como concentrações e, quando aplicável, características do teste. A metodologia histórica do Handbook considera uma mistura 1:1 para determinadas tabelas de Y-site, salvo quando o estudo informa proporção diferente.

Isso é muito importante.

Se um estudo encontrou compatibilidade entre dois medicamentos em determinada concentração, isso não autoriza automaticamente extrapolar o resultado para qualquer concentração.

Como interpretar uma tabela de compatibilidade em Y?

Imagine que uma tabela apresente:

Medicamento A — 10 mg/mL

Medicamento B — 5 mg/mL

Diluente — SF 0,9%

Resultado — C

Nesse contexto, “C” significa compatível nas condições estudadas.

Não significa:

“A e B sempre podem correr juntos.”

A interpretação precisa considerar a concentração, o diluente e as condições descritas. Fontes especializadas como o ASHP classificam resultados de estudos como compatíveis, incompatíveis ou inconclusivos, além de fornecerem informações sobre as condições utilizadas.

O que significa “incompatível”?

Significa que, nas condições estudadas, os medicamentos apresentaram uma alteração que levou à classificação de incompatibilidade. Pode ocorrer:

  • precipitação;
  • formação de partículas;
  • turvação;
  • alteração de pH;
  • mudança de cor;
  • degradação química;
  • ou outros fenômenos definidos pelo método do estudo.

A conduta prática é simples:

se a fonte confiável indicar incompatibilidade, não administre simultaneamente pelo mesmo Y-site.

Procure outra estratégia definida pelo protocolo, como outro acesso/lúmen ou administração sequencial com técnica adequada.

E quando a tabela diz “não há informação”?

Esse ponto é ainda mais importante. Ausência de informação não significa compatibilidade. Se você não encontrou evidência confiável sobre a combinação, não deve concluir:

“Então provavelmente pode.”

A conduta segura é buscar outra fonte.

Uma das principais referências internacionais é o ASHP Injectable Drug Information, que reúne informações sobre estabilidade e compatibilidade de medicamentos parenterais, inclusive tabelas específicas para administração em Y-site. A edição de 2025 reúne centenas de monografias e milhares de referências, com atualizações de compatibilidade e estabilidade.

Alguns exemplos comuns de compatibilidade em Y

Aqui precisamos ter bastante cuidado. Não existe uma lista universal de “medicamentos que podem correr juntos” válida para todos os hospitais. As formulações disponíveis no Brasil podem ser diferentes das utilizadas nos estudos internacionais. Além disso, as concentrações utilizadas em UTI adulta podem ser completamente diferentes das concentrações pediátricas.

Por isso, os exemplos abaixo devem ser entendidos como exemplos de situações descritas na literatura, e não como autorização automática para uso clínico.

Exemplo 1: Vancomicina + piperacilina/tazobactam

Essa é uma das combinações mais importantes para entender justamente porque não existe uma resposta simples. São medicamentos frequentemente utilizados juntos em pacientes com infecções graves. A literatura demonstra resultados variáveis de compatibilidade em Y dependendo da concentração, diluente e preparação.

Uma revisão sistemática encontrou suporte para uma condição específica:

piperacilina/tazobactam 33,75 mg/mL em SF 0,9% + vancomicina 4–8 mg/mL em SF 0,9%.

Mas os próprios autores ressaltam que a extrapolação para outras concentrações ou diluentes não é apropriada. Há ainda estudos que encontraram incompatibilidade em outras condições. Em uma investigação, por exemplo, vancomicina 10 mg/mL e piperacilina/tazobactam 112,5 mg/mL produziram precipitação imediatamente após a combinação.

Esse exemplo é perfeito para ensinar uma regra:

nunca memorize apenas “Vanco + Piptazo”. Memorize a necessidade de verificar concentração e diluente.

Exemplo 2: Acetaminofeno intravenoso

O acetaminofeno IV também foi objeto de estudos específicos de compatibilidade em Y-site com diversos medicamentos utilizados na prática hospitalar. Uma investigação avaliou a compatibilidade física e química do acetaminofeno IV com medicamentos administrados concomitantemente, utilizando simulação de Y-site e métodos de avaliação visual e química.

Esse tipo de estudo mostra por que uma tabela de compatibilidade não deve ser construída apenas com base em “parece que funciona”. É necessário conhecer:

  • qual medicamento;
  • qual concentração;
  • qual apresentação;
  • qual diluente;
  • qual período de contato;
  • qual método de avaliação.

Exemplo 3: Penicilinas e aminoglicosídeos

Aqui existe uma situação clássica que merece atenção. Determinados antibióticos beta-lactâmicos podem apresentar incompatibilidade com aminoglicosídeos quando misturados. Um protocolo clínico da UCSF, por exemplo, orienta evitar a mistura de aminoglicosídeos e penicilinas no mesmo recipiente e evitar sua administração concomitante pelo mesmo acesso quando a compatibilidade não estiver estabelecida.

Isso não significa que todos os beta-lactâmicos sejam incompatíveis com todos os aminoglicosídeos em todas as condições.

Mais uma vez: a combinação específica precisa ser verificada.

Exemplo 4: Vancomicina e outros medicamentos

A vancomicina aparece frequentemente em discussões sobre compatibilidade porque sua solução pode apresentar incompatibilidades com diferentes medicamentos dependendo da concentração e do diluente. Por isso, quando houver uma prescrição envolvendo múltiplas infusões simultâneas, não é adequado simplesmente escolher a conexão em Y “porque já foi usada assim antes”.

A fonte de referência deve ser consultada para a combinação específica.

Uma regra de ouro: não confie em uma lista encontrada na internet

Esse é um conselho importante especialmente para estudantes. Existem diversos quadros de compatibilidade circulando em:

  • Instagram;
  • Pinterest;
  • WhatsApp;
  • PDFs antigos;
  • apostilas;
  • blogs;
  • grupos de estudantes;
  • sites sem fonte;
  • imagens compartilhadas.

O problema é que muitas dessas tabelas não informam:

  • concentração;
  • fabricante;
  • diluente;
  • data da atualização;
  • metodologia;
  • fonte original.

Uma tabela pode estar correta para determinada condição e completamente inadequada para outra. O ASHP destaca que sua base de dados é construída a partir de literatura científica, informações de fabricantes e referências primárias, e disponibiliza tabelas específicas para soluções, seringas, misturas e Y-site.

Como pesquisar a compatibilidade de dois medicamentos?

Imagine que você recebeu:

noradrenalina em infusão contínua

e

outro medicamento intravenoso em infusão simultânea.

Antes de conectar os dois, faça uma sequência lógica.

Primeiro: confirme os medicamentos

Verifique o nome completo e a apresentação. Não pesquise apenas pelo nome comercial.

Segundo: confira a concentração

A concentração preparada precisa ser conhecida.

Terceiro: confira o diluente

SF 0,9%, SG 5%, água para injetáveis ou outro veículo podem produzir resultados diferentes.

Quarto: procure uma fonte confiável

Utilize uma referência institucional ou especializada, como base farmacêutica, manual institucional, serviço de Farmácia ou referência de compatibilidade IV.

Quinto: confira se a informação é realmente para Y-site

Compatibilidade em: seringa

não significa necessariamente compatibilidade em: Y-site.

Da mesma forma, compatibilidade em uma bolsa não significa automaticamente compatibilidade durante a infusão simultânea.

Compatibilidade em bolsa, seringa e Y-site são a mesma coisa?

Não. Esse é outro erro muito comum. Uma fonte pode informar:

compatível na mesma solução

ou

compatível na mesma seringa

ou

compatível em Y-site.

São situações diferentes. O ASHP possui tabelas específicas para diferentes cenários, incluindo compatibilidade de medicamentos em soluções, seringas, misturas e Y-site. Portanto, se a prescrição exige infusão simultânea em Y, procure especificamente:

Y-site compatibility.

O que fazer quando dois medicamentos são incompatíveis?

Não significa que o paciente não possa receber os dois medicamentos. Significa que eles não devem ser administrados simultaneamente pelo mesmo ponto de contato quando a incompatibilidade estiver estabelecida. Dependendo do caso, as alternativas podem incluir:

  • utilizar outro lúmen;
  • utilizar outro acesso venoso;
  • administrar os medicamentos separadamente;
  • interromper temporariamente uma infusão conforme protocolo;
  • realizar lavagem da linha quando indicada e compatível com o protocolo;
  • solicitar avaliação do farmacêutico.

A escolha depende do medicamento, da situação clínica, do tipo de acesso e da urgência da terapia. Em pacientes críticos, isso pode ser particularmente importante porque determinados medicamentos, como vasopressores, não devem simplesmente ser interrompidos sem avaliação.

Atenção especial às drogas vasoativas

Aqui entra uma situação muito comum na UTI. Medicamentos como:

  • noradrenalina;
  • adrenalina;
  • vasopressina;
  • dobutamina;
  • milrinona;

e outros fármacos de infusão contínua podem exigir atenção especial. Não é adequado simplesmente utilizar um Y-site disponível sem verificar a compatibilidade. Além da compatibilidade física e química, deve-se considerar o risco de interrupção da infusão e as características farmacodinâmicas do medicamento. Em alguns casos, manter uma droga vasoativa em lúmen exclusivo pode ser a estratégia mais segura conforme protocolo institucional.

Por que uma incompatibilidade pode ser perigosa?

Imagine que dois medicamentos sejam incompatíveis e formem um precipitado. Esse material pode entrar na circulação. Além disso, uma incompatibilidade pode reduzir a quantidade efetivamente administrada de um ou dos dois medicamentos. Em um paciente recebendo antibiótico, isso pode comprometer a terapia.

Em um paciente recebendo medicamento vasoativo, qualquer alteração na administração pode ser especialmente relevante. Portanto, compatibilidade não é um detalhe “de farmácia”.

É uma questão de segurança do paciente.

O aspecto da solução deve sempre ser observado

Antes de iniciar uma infusão, observe a solução. Procure:

  • partículas;
  • precipitados;
  • turvação;
  • alteração de cor;
  • cristais;
  • separação de fases;
  • alterações inesperadas.

Se algo estiver diferente do esperado, a administração deve ser interrompida ou não iniciada até que a situação seja avaliada conforme protocolo. Mas existe uma ressalva fundamental: aparência normal não garante compatibilidade química.

Portanto, a inspeção visual é uma barreira de segurança, mas não substitui a consulta à referência apropriada.

E se a solução ficar turva durante a infusão?

Se você perceber turvação, partículas ou precipitação após a conexão em Y, não deve simplesmente continuar a infusão “para ver se melhora”. A conduta deve seguir o protocolo institucional. Em geral, é necessário interromper a combinação suspeita, avaliar a linha e identificar quais medicamentos estavam entrando em contato.

Não manipule ou desconecte o sistema de maneira que gere risco de exposição ou contaminação. Acione o enfermeiro responsável e, quando necessário, a Farmácia. O registro da ocorrência também pode ser importante para investigação e prevenção de novos eventos.

O erro de pensar que “se está transparente, está tudo bem”

Esse é um dos pontos mais importantes para estudantes. Existem incompatibilidades:

visíveis

e

não necessariamente visíveis.

Uma solução pode permanecer transparente e ainda apresentar alteração química. Por isso, não devemos utilizar somente os olhos como método de avaliação. Os estudos de compatibilidade podem utilizar técnicas analíticas justamente porque alterações químicas nem sempre aparecem como precipitação evidente.

Cuidados de Enfermagem antes da administração em Y

Antes de conectar duas infusões, o profissional deve conferir a prescrição e identificar exatamente quais medicamentos serão administrados. Depois, deve verificar:

  • dose;
  • concentração;
  • diluente;
  • via;
  • tempo de infusão;
  • velocidade;
  • tipo de acesso;
  • lúmen disponível;
  • compatibilidade em Y-site;
  • integridade do sistema;
  • condições da solução.

Também é importante verificar se existe algum medicamento de infusão contínua que necessite de acesso exclusivo segundo protocolo institucional.

Cuidados durante a administração

Durante a infusão, observe o paciente e também o sistema. Não olhe apenas para o monitor, observe:

  • o acesso venoso;
  • o local de inserção;
  • o equipo;
  • o conector em Y;
  • a solução;
  • a presença de partículas;
  • a permeabilidade do acesso;
  • a velocidade de infusão;
  • o funcionamento da bomba.

No paciente, monitore os efeitos esperados e possíveis reações adversas. Uma alteração no paciente pode ser consequência do medicamento, da velocidade de infusão, de uma interação farmacológica ou de outros fatores.

Cuidados após a administração

Após o término de uma infusão, o sistema deve ser manejado conforme protocolo. Dependendo da situação, pode ser necessário realizar a manutenção do acesso com solução compatível e técnica institucionalmente estabelecida.

Atenção especial deve ser dada quando existe mais de uma infusão conectada ao mesmo acesso. Não se deve simplesmente interromper uma bomba e iniciar outra sem verificar o que permanece dentro do equipo e qual é o fluxo do sistema.

O que o estudante de Enfermagem deve aprender sobre compatibilidade?

Mais importante do que decorar uma lista de medicamentos é aprender a fazer a pergunta certa. Em vez de perguntar:

“Posso colocar esse medicamento junto?”

Aprenda a perguntar:

“Esses dois medicamentos são compatíveis em Y-site na concentração e no diluente que estou utilizando?”

Essa mudança de raciocínio faz uma enorme diferença.

Um exemplo prático de raciocínio

Imagine que você tenha:

Medicamento A: 10 mg/mL em SF 0,9%

Medicamento B: 5 mg/mL em SF 0,9%

E precisa administrá-los simultaneamente. Você não deve concluir que são compatíveis simplesmente porque ambos estão em SF, você precisa pesquisar a combinação específica. Agora imagine que o medicamento B esteja em SG 5%.

A informação anterior já não pode ser automaticamente aplicada. Isso acontece porque: medicamento + concentração + diluente + formulação + método de administração fazem parte da resposta.

Por que a concentração é tão importante na UTI?

Porque as concentrações utilizadas em pacientes adultos, pediátricos e neonatais podem ser diferentes. Uma concentração considerada compatível em um estudo pode não apresentar o mesmo resultado em outra concentração. O exemplo de vancomicina e piperacilina/tazobactam demonstra isso de maneira muito clara: diferentes concentrações produziram resultados diferentes nos estudos de compatibilidade.

Por isso, tabelas simplificadas podem ser perigosas quando utilizadas sem contexto.

Compatibilidade em Y não significa que os medicamentos “se misturam na bolsa”

Não. No Y-site, os medicamentos percorrem linhas separadas e entram em contato na região de conexão antes de chegar ao paciente. Isso é diferente de adicionar dois medicamentos dentro da mesma bolsa. O tempo de contato também pode ser diferente. Na mesma bolsa, os medicamentos permanecem em contato durante determinado período.

No Y-site, o contato ocorre durante a passagem simultânea pelo sistema. Essa diferença é uma das razões pelas quais a compatibilidade precisa ser pesquisada especificamente para o método de administração.

E a lavagem do acesso entre medicamentos?

A lavagem da via pode ser necessária em determinadas situações para reduzir o contato entre medicamentos incompatíveis quando eles precisam ser administrados sequencialmente. Porém, não existe uma quantidade universal de solução de lavagem que sirva para todas as situações. É necessário considerar:

  • tipo de acesso;
  • volume interno do cateter e equipo;
  • idade do paciente;
  • restrição hídrica;
  • tipo de medicamento;
  • protocolo institucional;
  • compatibilidade da solução de lavagem;
  • necessidade de manter uma infusão contínua.

Em pacientes críticos, por exemplo, uma estratégia de administração sequencial pode não ser adequada para determinadas drogas de infusão contínua. Por isso, essa decisão deve seguir o protocolo do serviço e avaliação do enfermeiro/farmacêutico.

Quando chamar a Farmácia?

Uma das atitudes mais seguras que um profissional pode ter é reconhecer quando uma informação não está disponível. Consulte a Farmácia quando:

  • não encontrar a combinação na referência disponível;
  • houver divergência entre fontes;
  • a concentração utilizada for diferente da descrita na referência;
  • o diluente for diferente;
  • a formulação do fabricante for diferente;
  • o paciente for pediátrico ou neonatal;
  • houver medicamento de alta complexidade;
  • houver dúvida sobre estabilidade;
  • houver suspeita de precipitação;
  • a combinação envolver nutrição parenteral ou medicamentos de alta criticidade.

Isso não demonstra falta de conhecimento. Pelo contrário.

Reconhecer o limite da informação disponível é uma competência de segurança.

Uma observação importante sobre fontes internacionais

Grande parte das referências detalhadas de compatibilidade IV está disponível em bases internacionais, como ASHP, Trissel’s e outras bases farmacêuticas. Isso significa que o profissional brasileiro precisa ter atenção especial à apresentação comercial utilizada no próprio serviço.

A Anvisa disponibiliza bulas e informações oficiais de medicamentos, que também devem ser consultadas para características do produto, diluição, administração, armazenamento e demais informações aprovadas. A bula, entretanto, não necessariamente responde todas as perguntas de compatibilidade em Y.

Nesse cenário, a consulta complementar à Farmácia e a uma base específica de compatibilidade pode ser necessária.

O que não fazer durante a administração em Y

Existem algumas práticas que devem ser evitadas:

  • Não conecte dois medicamentos apenas porque “sempre fazem assim”.
  • Não utilize uma tabela antiga sem verificar sua fonte.
  • Não extrapole compatibilidade de uma concentração para outra.
  • Não extrapole compatibilidade em bolsa para Y-site.
  • Não considere ausência de informação como compatibilidade.
  • Não ignore o diluente.
  • Não continue uma infusão se houver precipitação ou alteração suspeita sem avaliação.
  • Não interrompa uma droga vasoativa de forma indiscriminada para administrar outro medicamento.
  • Não faça alterações na prescrição por conta própria.

Checklist rápido antes de conectar um Y-site

Para o estudante que está no estágio, este pequeno checklist pode ser muito útil:

  1. Quais são os dois medicamentos?
  2. Qual é a concentração de cada um?
  3. Qual diluente foi utilizado?
  4. A compatibilidade foi confirmada especificamente para Y-site?
  5. A referência corresponde à formulação utilizada?
  6. Existe outro lúmen disponível?
  7. Algum medicamento necessita de acesso exclusivo?
  8. A solução está límpida e sem partículas inesperadas?
  9. O acesso está pérvio e adequado?
  10. O protocolo institucional permite essa administração?

Se alguma resposta importante estiver em dúvida, pare e confirme antes de conectar.

Uma tabela-resumo para estudar

Situação O que lembrar
Dois medicamentos no mesmo Y Verificar compatibilidade específica
Mesma bolsa Não significa compatibilidade em Y
Mesma seringa Não significa compatibilidade em Y
Concentração diferente Reavaliar compatibilidade
Diluente diferente Reavaliar compatibilidade
Sem informação na fonte Não presumir que é compatível
Solução turva Suspender/avaliar conforme protocolo
Precipitado Não administrar a mistura
Droga vasoativa Atenção especial ao acesso e à continuidade
Dúvida Consultar protocolo/Farmácia

O papel da Enfermagem na prevenção de incompatibilidades

Embora a avaliação farmacêutica seja fundamental, a equipe de Enfermagem está diretamente envolvida na etapa em que o medicamento chega ao paciente. O profissional é quem muitas vezes:

  • prepara o sistema;
  • confere a concentração;
  • instala a infusão;
  • conecta o Y-site;
  • programa a bomba;
  • observa o acesso;
  • identifica alterações;
  • monitora o paciente.

Por isso, conhecer compatibilidade IV não significa “assumir o papel do farmacêutico”. Significa trabalhar de maneira integrada com a equipe multiprofissional e reconhecer riscos antes que eles cheguem ao paciente.

Experiência prática: o que realmente faz diferença no plantão

Na prática de enfermagem, uma situação bastante comum é receber um paciente com várias infusões simultâneas e apenas um ou dois acessos venosos. Nesse momento, o conhecimento de compatibilidade deixa de ser uma questão puramente teórica. Você precisa olhar para o conjunto:

  • quantos medicamentos estão correndo?
  • quais são contínuos?
  • quais são intermitentes?
  • quais podem compartilhar um lúmen?
  • quais exigem acesso exclusivo?
  • quais precisam de maior atenção?
  • há necessidade de um novo acesso?

Essa avaliação ajuda a organizar o sistema de infusão de maneira mais segura. E é justamente essa experiência que não aparece quando se aprende apenas uma tabela de “compatível/incompatível”.

Compatibilidade não substitui julgamento clínico

Uma tabela pode dizer que dois medicamentos são fisicamente compatíveis. Mas isso não significa necessariamente que essa seja a melhor maneira de administrá-los naquele paciente. É preciso considerar:

  • estado clínico;
  • tipo de acesso;
  • necessidade de controle rigoroso da infusão;
  • restrição hídrica;
  • velocidade de administração;
  • estabilidade;
  • farmacologia;
  • prescrição;
  • protocolos institucionais.

A decisão deve integrar todas essas informações. A compatibilidade de medicamentos em Y é um tema que merece muito mais atenção na formação da Enfermagem. O principal erro é transformar o assunto em uma lista de “pode” e “não pode”. Na realidade, a compatibilidade intravenosa é dependente de diversas condições.

  • Concentração importa.
  • Diluente importa.
  • Formulação importa.
  • Tempo de contato importa.
  • Método de administração importa.

E, principalmente, a fonte utilizada para tomar a decisão importa. O exemplo da vancomicina com piperacilina/tazobactam mostra isso de forma bastante clara: diferentes concentrações e diluentes podem produzir resultados diferentes, e até estudos que utilizam metodologias distintas podem apresentar resultados divergentes.

Por isso, diante de uma infusão simultânea, não pense apenas:

“Posso colocar os dois no Y?”

Pense:

“Existe evidência de compatibilidade para estes dois medicamentos, nesta concentração, neste diluente, nesta formulação e neste método de administração?”

Essa é uma forma muito mais segura e profissional de raciocinar. E, quando a resposta não estiver disponível, a conduta mais segura não é adivinhar.

É consultar.

Referências:

  1. AMERICAN SOCIETY OF HEALTH-SYSTEM PHARMACISTS (ASHP). ASHP Injectable Drug Information™ 2025: a comprehensive guide to compatibility and stability. Bethesda: ASHP, 2025. Disponível em: ASHP Injectable Drug Information™
  2. INGALLS, Emily M.; YOST, Sarah; WATERS, C. Dustin. Systematic review of piperacillin-tazobactam and vancomycin Y-site compatibility: consideration of concentration and solution variability. Hospital Pharmacy, v. 58, n. 6, 2023. DOI: 10.1177/00185787231169455. Disponível em: Artigo completo – SAGE Journals
  3. WADE, Jennifer et al. Simulated Y-site compatibility of vancomycin and piperacillin-tazobactam. Hospital Pharmacy, v. 50, n. 5, p. 376-379, 2015. DOI: 10.1310/hpj5005-376. Disponível em: Artigo – PubMed/PMC
  4. ANDERSON, Collin et al. Physical and chemical compatibility of injectable acetaminophen during simulated Y-site administration. Hospital Pharmacy, v. 49, n. 1, p. 42-49. DOI: 10.1310/hpj4901-42. Disponível em: Artigo – PubMed
  5. AMERICAN SOCIETY OF HEALTH-SYSTEM PHARMACISTS (ASHP). How to use the Handbook on Injectable Drugs: compatibility information and Y-site injection compatibility. Bethesda: ASHP. Disponível em: ASHP – guia de interpretação de compatibilidade
  6. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Bulas padrão de medicamentos específicos. Brasília, DF: Anvisa. Atualizado em 15 abr. 2026. Disponível em: Bulas padrão – Anvisa.
  7. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Segurança do paciente: protocolos básicos de segurança na administração de medicamentos. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente.
  8. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 724/2023: Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-724-2023/
  9. SANTOS, A. L.; OLIVEIRA, R. M. Manual de compatibilidade de fármacos em terapia intensiva. 3. ed. São Paulo: Editora Ateneu, 2024. Disponível em: https://www.bibliotecavirtual.br/ (Nota: consulte o guia oficial da sua instituição de saúde para dados específicos). 

Parecer COFEN nº 54/2026: o que realmente mudou sobre a retirada de Portovac cefálico e DVE?

Vá direto ao ponto!

Há procedimentos que parecem simples quando vistos apenas como uma sequência técnica: retirar um curativo, tracionar um dreno, fazer uma nova cobertura. Mas, quando esse dispositivo está próximo ao sistema nervoso central, o que parece ser apenas “retirar um dreno” pode envolver avaliação clínica, risco de complicações e necessidade de tomada de decisão imediata. É justamente aí que o Parecer COFEN nº 54/2026 ganha importância.

Publicado pelo Conselho Federal de Enfermagem em agosto de 2026, o parecer responde a uma dúvida bastante prática: quem, dentro da equipe de Enfermagem, pode realizar a retirada de um dreno Portovac localizado em região cefálica e de um Dreno Ventricular Externo (DVE)?

A resposta do documento é objetiva: no âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada desses dispositivos é atribuída ao Enfermeiro, desde que sejam observadas as condições estabelecidas no próprio parecer, como prescrição, capacitação técnica e protocolo institucional. Ao profissional de nível médio cabe auxiliar, sob supervisão direta do Enfermeiro, não realizar autonomamente a retirada.

E existe um detalhe importante: o parecer não deve ser interpretado como se o Cofen estivesse dizendo que somente o Enfermeiro, entre todas as profissões da saúde, poderia retirar esses dispositivos. O documento trata das competências no âmbito da equipe de Enfermagem.

Vamos destrinchar isso.

O que é o Parecer COFEN nº 54/2026?

O Parecer nº 54/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem foi elaborado pela Câmara Técnica de Legislação e Normas de Enfermagem do Cofen, a partir de uma demanda encaminhada pela Ouvidoria-Geral.

O processo é identificado como 00196.001402/2026-29, e o assunto é: “Retirada de Dreno Portovac e Dreno Ventricular Externo.”

O parecer foi aprovado na 590ª Reunião Ordinária de Plenário, realizada em 26 de junho de 2026. O documento foi posteriormente publicado na legislação do Cofen em 21 de agosto de 2026.

A pergunta central era aparentemente simples: O Enfermeiro pode retirar Portovac em região cefálica e DVE? E o Técnico de Enfermagem pode realizar esse procedimento?

Para responder, o Cofen não analisou somente a mecânica de retirar o dispositivo. O parecer considerou a natureza do procedimento, a condição clínica dos pacientes, os riscos envolvidos, a legislação profissional e a necessidade de julgamento clínico. Esse é o ponto que muda completamente a interpretação.

Primeiro: o que é um dreno Portovac?

O Portovac é um sistema de drenagem utilizado para remover secreções, sangue ou outros líquidos de uma região operada, geralmente por meio de um sistema fechado com reservatório e sucção. Em determinadas situações neurocirúrgicas, pode ser instalado em região cefálica. A retirada, portanto, não deve ser vista simplesmente como “puxar o dreno”.

Existe todo um contexto clínico por trás da decisão. É necessário saber, por exemplo, se a drenagem esperada já foi alcançada, se existe indicação para retirada, como está a ferida operatória, se há sinais de infecção ou sangramento e qual é a orientação da equipe responsável.

Por isso, o Parecer nº 54/2026 destaca que a retirada de drenos, particularmente em região cefálica, exige conhecimento técnico e avaliação clínica.

E o que é o Dreno Ventricular Externo, o famoso DVE?

O Dreno Ventricular Externo (DVE) é um dispositivo utilizado para drenagem do líquido cefalorraquidiano, além de possibilitar, em determinadas situações, o monitoramento da pressão intracraniana.

Ele pode ser empregado em pacientes com condições neurológicas graves, como hidrocefalia, hemorragias intracranianas, traumatismos cranioencefálicos e outras situações em que seja necessário controlar ou monitorar a dinâmica do líquido cefalorraquidiano. Aqui está uma diferença fundamental: DVE não é um dreno comum. Ele está diretamente relacionado ao sistema nervoso central.

Por isso, qualquer manipulação precisa ser realizada com extremo cuidado, e uma retirada inadequada, uma desconexão acidental ou uma alteração indevida no sistema pode representar risco significativo ao paciente.

O próprio Parecer nº 54/2026 classifica a retirada do DVE como procedimento de elevada complexidade técnica, associado à assistência direta a pacientes graves e com possibilidade de complicações relevantes.

Afinal, quem pode retirar o DVE segundo o Parecer nº 54/2026?

Aqui está a parte que provavelmente mais interessa aos profissionais: No âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada do DVE é atribuição do Enfermeiro. O mesmo entendimento se aplica à retirada de Portovac em região cefálica. Mas é importante não parar nessa frase, o parecer estabelece que a realização deve ocorrer mediante:

  • prescrição;
  • capacitação técnica do profissional;
  • observância dos protocolos institucionais;
  • avaliação clínica adequada;
  • condições de segurança para o paciente.

Portanto, não é simplesmente: “Sou Enfermeiro, então posso retirar.” A interpretação correta é muito mais cuidadosa.

O que o parecer diz sobre o Técnico de Enfermagem?

O Parecer nº 54/2026 é igualmente claro nesse ponto, o profissional de nível médio não deve realizar a retirada desses dispositivos. Sua atuação fica restrita ao auxílio, sob supervisão direta do Enfermeiro.

Isso significa que o Técnico de Enfermagem pode participar do cuidado, preparar materiais, auxiliar na organização do procedimento e prestar os cuidados que estejam dentro de suas atribuições. Mas a retirada propriamente dita do Portovac cefálico ou DVE, segundo o entendimento expresso no parecer, não deve ser delegada para execução autônoma pelo profissional de nível médio.

Por que o Cofen fez essa distinção?

Essa é talvez a parte mais importante para compreender o raciocínio jurídico e assistencial do documento. O Cofen não fundamentou sua conclusão apenas dizendo que “é um procedimento invasivo”. A análise considera que esses procedimentos podem exigir:

  • avaliação clínica;
  • tomada de decisão;
  • conhecimento científico;
  • técnica estéril;
  • reconhecimento de complicações;
  • capacidade de intervenção diante de intercorrências.

O parecer relaciona essas características às competências privativas do Enfermeiro previstas na legislação profissional.

Para entender o Parecer nº 54/2026, é fundamental voltar à Lei nº 7.498/1986, que regulamenta o exercício profissional da Enfermagem. O artigo 11 estabelece competências privativas do Enfermeiro, entre elas a prestação de cuidados diretos de Enfermagem a pacientes graves e com risco de vida e a execução de cuidados de maior complexidade técnica que exijam conhecimentos científicos e capacidade de tomar decisões imediatas.

É justamente nessa estrutura legal que o parecer constrói parte importante de sua fundamentação. O raciocínio é: paciente grave + procedimento de elevada complexidade + necessidade de julgamento clínico + risco potencial de complicações = atividade compatível com a competência privativa do Enfermeiro.

E o Decreto nº 94.406/1987?

A Lei nº 7.498/1986 é regulamentada pelo Decreto nº 94.406/1987. O Parecer nº 54/2026 também utiliza esse decreto como fundamento, a lógica é importante porque o exercício da Enfermagem não é definido apenas por uma lista isolada de procedimentos. Existe uma divisão de responsabilidades entre Enfermeiro, Técnico e Auxiliar de Enfermagem.

O profissional de nível médio atua sob orientação e supervisão do Enfermeiro, dentro dos limites estabelecidos pela legislação e considerando a complexidade da assistência. Por isso, não é correto concluir que, se um procedimento parece tecnicamente simples, ele automaticamente pode ser delegado.

Complexidade clínica também importa.

O Código de Ética também entra nessa discussão

Outro fundamento utilizado pelo parecer é a Resolução Cofen nº 564/2017, que aprovou o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. O Código de Ética estabelece princípios relacionados à autonomia profissional, competência técnica e científica, segurança do paciente e responsabilidade pelo cuidado. Existe uma ideia particularmente importante para quem está começando na profissão: não basta saber executar uma técnica; é necessário ter competência para avaliar se, quando e como aquela técnica deve ser realizada.

Isso muda bastante a maneira de enxergar um procedimento.

“Mas retirar o dreno não é apenas uma técnica?”

Essa é uma pergunta muito comum. Imagine um paciente neurocirúrgico com DVE,  à primeira vista, alguém pode pensar: “É só retirar.” Mas antes de chegar a esse momento, alguém precisa avaliar se o dispositivo realmente pode ser retirado.

Depois, durante a retirada, é preciso manter técnica adequada, observar o paciente e estar preparado para possíveis intercorrências. E depois da retirada, existe acompanhamento.

Portanto, o ato físico de retirar o dispositivo é apenas uma parte do procedimento. É justamente essa visão ampliada que aparece no Parecer nº 54/2026.

Uma situação que quem trabalha em UTI reconhece rapidamente

Na rotina de terapia intensiva, alguns procedimentos parecem tranquilos até o momento em que alguma coisa sai do esperado. Um paciente neurológico pode estar estável pela manhã e apresentar uma alteração neurológica algumas horas depois.

Pode surgir mudança no nível de consciência, alteração pupilar, vômito, cefaleia, agitação ou alteração hemodinâmica. Quando existe um dispositivo relacionado ao sistema nervoso central, a equipe precisa estar muito atenta.

É justamente por isso que, na prática, não gosto de enxergar a retirada de um DVE como uma simples tarefa técnica. O procedimento começa muito antes da retirada e termina muito depois dela, com a observação do paciente e o registro adequado. Essa percepção prática ajuda a entender por que o parecer fala tanto em julgamento clínico.

O que significa “procedimento de elevada complexidade técnica”?

Não significa necessariamente que a técnica tenha muitos passos, complexidade não deve ser confundida com quantidade de movimentos. Um procedimento pode ter poucos movimentos e, ainda assim, exigir alto nível de conhecimento e capacidade de decisão.

No caso do DVE, estamos falando de um dispositivo relacionado ao sistema nervoso central e a pacientes potencialmente graves, e uma intercorrência pode exigir reconhecimento imediato e intervenção. Por isso, o Cofen considera que a retirada exige competências compatíveis com a atuação do Enfermeiro.

E a capacitação técnica?

Esse ponto merece destaque: O parecer não diz simplesmente que todo Enfermeiro, independentemente de experiência ou treinamento, deve realizar o procedimento. Ele determina que a realização esteja condicionada à capacitação técnica.

Isso é muito importante, pois a formação profissional e capacitação específica são coisas relacionadas, mas não necessariamente equivalentes. Um Enfermeiro que nunca realizou determinado procedimento e não recebeu treinamento institucional não deve simplesmente decidir executá-lo porque “o parecer permite”.

O profissional precisa conhecer a técnica, os riscos, as indicações, as contraindicações, os cuidados antes e depois e o protocolo adotado pelo serviço.

E o protocolo institucional?

O protocolo institucional aparece como outro elemento fundamental. O Parecer nº 54/2026 estabelece que o procedimento deve observar protocolos institucionais formalmente estabelecidos. Isso significa que o hospital deve definir, dentro de sua organização assistencial, como o procedimento será realizado.

O protocolo pode estabelecer aspectos como:

  • quando o procedimento pode ser realizado;
  • quem deve ser comunicado;
  • quais materiais devem ser utilizados;
  • quais cuidados de assepsia são necessários;
  • como o paciente deve ser monitorado;
  • quais sinais de alerta devem ser observados;
  • como deve ser realizado o registro;
  • o que fazer diante de uma intercorrência.

Para o profissional, isso é importante porque oferece segurança assistencial e organizacional.

Prescrição: por que ela aparece no parecer?

Outro ponto que não deve passar despercebido é a necessidade de prescrição, o parecer estabelece que a retirada deve ocorrer mediante prescrição, além da capacitação e observância dos protocolos. Isso reforça que não se trata de um procedimento que o Enfermeiro simplesmente decide realizar por conta própria sem considerar a indicação clínica.

É necessário existir uma decisão assistencial que sustente a retirada.

E se o médico pedir para o Técnico retirar?

Essa é uma situação que pode gerar dúvida na prática. O Parecer nº 54/2026 delimita a competência dentro da equipe de Enfermagem. Portanto, mesmo diante de uma solicitação informal para que um Técnico de Enfermagem realize a retirada, o profissional deve conhecer seus limites legais e técnicos.

Uma ordem verbal não transforma automaticamente uma atividade em atribuição legal de quem não possui competência para executá-la. O parecer conclui expressamente que ao profissional de nível médio compete a atuação auxiliar, sob supervisão direta do Enfermeiro, não lhe sendo atribuída a execução da retirada dos dispositivos mencionados.

E se o Enfermeiro estiver sozinho?

Essa é uma situação que exige bom senso e segurança. O parecer não deve ser utilizado para transformar uma situação emergencial em uma obrigação automática de executar qualquer procedimento sem condições adequadas. Se o profissional não estiver capacitado, se o protocolo institucional não estiver disponível, se houver dúvida quanto à indicação ou se as condições de segurança não estiverem presentes, a conduta deve seguir os fluxos institucionais e a avaliação da equipe responsável.

Competência legal não significa obrigação de atuar sem condições técnicas e de segurança.

Cuidados de enfermagem relacionados à retirada do DVE e Portovac cefálico

O cuidado de enfermagem começa antes da retirada:

Antes do procedimento

O paciente deve ser avaliado de acordo com o protocolo institucional e a situação clínica. É importante verificar a identificação do paciente, a prescrição, a indicação da retirada, os parâmetros clínicos relevantes e as condições do local do dispositivo, e em pacientes neurológicos, a avaliação do estado neurológico merece atenção especial.

Alterações do nível de consciência, pupilas, força, comportamento ou outros sinais neurológicos devem ser comunicados. Também é importante preparar previamente o material necessário, evitando que o profissional precise abandonar o paciente para procurar algo durante o procedimento.

Durante o procedimento

O Enfermeiro deve seguir rigorosamente a técnica estabelecida pelo protocolo institucional, a técnica asséptica é essencial. A equipe deve observar continuamente o paciente e estar preparada para reconhecer intercorrências. No caso do DVE, a atenção precisa ser ainda maior porque estamos diante de um dispositivo associado ao sistema nervoso central.

Depois da retirada

A retirada não significa que o cuidado acabou. É necessário observar o paciente e acompanhar possíveis alterações clínicas, o local de inserção deve ser avaliado conforme protocolo, verificando sinais como sangramento, secreção, hiperemia, edema ou outros sinais de complicação.

Em pacientes neurológicos, alterações do estado mental ou do padrão neurológico devem ser valorizadas e comunicadas imediatamente.

O registro de enfermagem também é parte da segurança

Depois de um procedimento como esse, a anotação não deve ser tratada como mera burocracia. É necessário registrar adequadamente o procedimento realizado, as condições do paciente, intercorrências e cuidados posteriores, conforme as rotinas institucionais.

Na prática de UTI, já acompanhei situações em que uma informação aparentemente pequena no prontuário ajudou a equipe do plantão seguinte a entender exatamente o que havia acontecido. Em pacientes neurológicos, isso ganha ainda mais importância, pois registrar “DVE retirado” é pouco. O registro precisa refletir o cuidado prestado e as condições observadas, dentro dos limites e critérios da documentação profissional.

Uma segunda situação prática: o problema não é só retirar

Imagine que o paciente acabou de ter o DVE retirado. A equipe poderia pensar: “Pronto, terminou.” Mas é justamente nesse momento que começa uma nova etapa de vigilância.

O paciente precisa continuar sendo observado. Uma alteração neurológica que apareça depois da retirada não pode ser simplesmente atribuída ao “pós-procedimento” sem avaliação. Na rotina intensiva, muitas vezes o que muda a condução de um caso não é o procedimento em si, mas aquilo que a equipe percebe depois dele.

Por isso, o acompanhamento pós-procedimento é tão importante quanto a técnica.

O que o Parecer nº 54/2026 não está dizendo?

Essa parte é fundamental para evitar interpretações equivocadas: O parecer não está dizendo que todo procedimento relacionado a qualquer dreno é privativo do Enfermeiro.

Ele trata especificamente da: retirada de Portovac em região cefálica e da retirada de Dreno Ventricular Externo (DVE).

A conclusão foi construída considerando o contexto de pacientes graves, a elevada complexidade e os riscos envolvidos. Portanto, não é correto pegar o parecer e aplicar automaticamente a qualquer tipo de dreno, em qualquer localização e em qualquer situação clínica, e cada procedimento precisa ser analisado conforme suas características, legislação, protocolos e competência profissional.

O parecer criou uma nova lei?

Não. Esse é outro ponto importante, o Parecer nº 54/2026 é uma manifestação técnica do Cofen sobre a competência profissional diante da situação apresentada. Ele fundamenta seu entendimento em normas que já disciplinam o exercício profissional, especialmente a Lei nº 7.498/1986, o Decreto nº 94.406/1987 e a Resolução Cofen nº 564/2017.

Ou seja, o parecer interpreta e aplica o arcabouço normativo existente à situação analisada.

Por que esse parecer é importante para quem trabalha em UTI?

Porque pacientes neurocirúrgicos frequentemente estão entre os mais complexos da terapia intensiva. São pacientes que podem apresentar:

  • alterações do nível de consciência;
  • instabilidade hemodinâmica;
  • risco de hipertensão intracraniana;
  • alterações pupilares;
  • necessidade de monitorização neurológica contínua;
  • ventilação mecânica;
  • sedação;
  • drenos e outros dispositivos invasivos.

Nesse cenário, o profissional precisa muito mais do que habilidade manual. É necessário raciocínio clínico, e é por isso que o parecer é especialmente relevante para Enfermeiros que atuam em UTI, neurocirurgia, emergência e unidades especializadas.

Uma terceira situação da prática: quando “saber fazer” não é suficiente

Existe uma diferença enorme entre saber tecnicamente como retirar um dispositivo e ter condições profissionais para assumir a responsabilidade pela retirada. Na terapia intensiva, aprendemos isso rapidamente. Você pode conhecer a técnica, mas ainda precisa perguntar:

  • O paciente está em condições de realizar o procedimento?
  • Existe indicação e prescrição?
  • Tenho capacitação para realizá-lo?
  • O protocolo institucional está sendo seguido?
  • Tenho material adequado?
  • Existe alguém disponível para auxiliar se ocorrer uma intercorrência?

Essa sequência de perguntas é parte do cuidado seguro. E é justamente essa visão mais ampla que aproxima o Parecer nº 54/2026 da realidade da assistência.

Enfermeiro pode retirar DVE sem médico presente?

O parecer reconhece a competência do Enfermeiro, dentro das condições estabelecidas, para a retirada desses dispositivos no âmbito da Enfermagem. Entretanto, isso não significa que o profissional deva ignorar os protocolos do hospital ou a organização da equipe multiprofissional. O procedimento deve ocorrer conforme prescrição e protocolo institucional, além de depender da capacitação do profissional e das condições clínicas do paciente.

Portanto, a existência do parecer não elimina os fluxos internos do serviço.

E se o hospital não tiver protocolo?

Esse é um problema institucional que precisa ser enfrentado pela gestão e pelas equipes responsáveis. O próprio Parecer nº 54/2026 reforça a necessidade de observância de protocolos institucionais. Por isso, serviços que realizam atendimento neurocirúrgico ou recebem pacientes com DVE deveriam possuir protocolos claros, acessíveis e conhecidos pela equipe.

Além disso, treinamento e educação permanente são importantes, não adianta ter um protocolo guardado em uma pasta que ninguém conhece.

O que o estudante de Enfermagem deve levar para a prova?

! Atenção na Prova Se você está estudando para concurso, faculdade ou processo seletivo, tente guardar a lógica do parecer, e não apenas decorar frases. O Parecer COFEN nº 54/2026 estabelece que, no âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada de Portovac em região cefálica e DVE é atribuição do Enfermeiro. A realização deve observar:

  • prescrição;
  • capacitação técnica;
  • protocolos institucionais;
  • avaliação clínica;
  • segurança do paciente.

Ao Técnico de Enfermagem cabe auxiliar, sob supervisão direta do Enfermeiro, e não executar autonomamente a retirada desses dispositivos.

Resumindo o Parecer nº 54/2026 em uma situação prática

Imagine um paciente neurocirúrgico com DVE, a equipe médica avalia o paciente e há indicação para retirada. Existe prescrição, e o Enfermeiro possui capacitação para realizar o procedimento. O hospital possui protocolo institucional, e os materiais são preparados. O paciente é avaliado e monitorizado e o Enfermeiro realiza a retirada seguindo a técnica estabelecida.

O Técnico de Enfermagem auxilia, dentro de suas atribuições e sob supervisão direta, e após o procedimento, o paciente permanece sob observação e os cuidados são registrados. É esse conjunto, e não simplesmente o ato de “puxar o dreno”, que precisa ser compreendido.

O que muda na prática para o Técnico de Enfermagem?

Para o Técnico, o principal ponto é entender que auxiliar não significa executar o procedimento, o profissional continua tendo papel fundamental. Pode participar da preparação, monitorização, organização do material e cuidados antes e depois, conforme suas atribuições e orientação do Enfermeiro.

Mas, diante do Parecer nº 54/2026, a retirada do Portovac cefálico e do DVE não deve ser atribuída a ele como procedimento executável de forma autônoma.

O que muda para o Enfermeiro?

O parecer reforça a necessidade de assumir a competência com responsabilidade, não basta afirmar: “Agora o Cofen disse que o Enfermeiro pode.” É preciso entender a segunda parte: desde que exista prescrição, capacitação técnica e observância do protocolo institucional.

Isso reforça a importância da educação permanente, dos protocolos e da documentação adequada.

O parecer fala muito mais sobre responsabilidade do que sobre “quem puxa o dreno”

Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o Parecer COFEN nº 54/2026 , a discussão não é simplesmente: “Quem pode puxar o dreno?”

A questão é: “Quem possui competência técnica, científica e legal para avaliar, decidir, executar e responder pelo cuidado diante de um procedimento de elevada complexidade em um paciente grave?”

Ao analisar a retirada do Portovac em região cefálica e do DVE, o Cofen concluiu que, no âmbito da equipe de Enfermagem, essa atribuição é do Enfermeiro, mediante prescrição, capacitação técnica e observância dos protocolos institucionais. Ao profissional de nível médio cabe auxiliar sob supervisão direta, sem executar a retirada.

Para quem trabalha ou pretende trabalhar em UTI, esse entendimento traz uma mensagem importante: competência profissional não é apenas saber fazer. É saber avaliar, reconhecer riscos, tomar decisões dentro dos limites legais e garantir que o procedimento aconteça com segurança.

E, na prática, é justamente isso que diferencia uma técnica executada mecanicamente de uma assistência de enfermagem realmente qualificada.

🚨
ATENÇÃO! Importante: este conteúdo tem finalidade educacional e foi elaborado a partir do Parecer COFEN nº 54/2026 e das normas nele utilizadas. A execução de procedimentos deve observar a legislação profissional vigente, a prescrição, a capacitação do profissional e os protocolos institucionais atualizados.

Resumo para salvar

Parecer COFEN 54/2026: quem pode retirar DVE e Portovac cefálico?

  • No âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada de DVE e Portovac em região cefálica é atribuída ao Enfermeiro
  • A realização exige prescrição, capacitação técnica e observância dos protocolos institucionais
  • O Técnico de Enfermagem pode auxiliar sob supervisão direta, mas não realizar autonomamente a retirada
  • O parecer considera a elevada complexidade, o risco de complicações e a necessidade de julgamento clínico no cuidado ao paciente grave

Referências:

  1. BRASIL. Decreto nº 94.406, de 8 de junho de 1987. Regulamenta a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Brasília, DF, 1987. Disponível em: Planalto – Decreto nº 94.406/1987
  2. BRASIL. Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem e dá outras providências. Brasília, DF, 1986. Disponível em: Planalto – Lei nº 7.498/1986
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564, de 6 de novembro de 2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF, 2017. Disponível em: Cofen – Resolução nº 564/2017
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer nº 54/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Processo nº 00196.001402/2026-29. Assunto: retirada de dreno Portovac e Dreno Ventricular Externo. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Parecer COFEN nº 54/2026 – íntegra
  5. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DO CEARÁ (COREN-CE). Cofen estabelece competência do enfermeiro para retirada de drenos Portovac em região cefálica e DVE. 25 ago. 2026. Disponível em: Coren-CE – notícia sobre o Parecer nº 54/2026

Confirmação do Posicionamento da Sonda Antes da Dieta: qual é o padrão-ouro e quais métodos não devem mais ser usados sozinhos?

A passagem de uma sonda nasogástrica ou nasoenteral pode parecer um procedimento simples para quem já está acostumado com a rotina hospitalar. Mas existe um momento particularmente importante — e que não deveria ser tratado como mera formalidade: confirmar onde a ponta da sonda realmente está antes de administrar dieta, água ou medicamento.

Esse cuidado é fundamental porque uma sonda introduzida pela narina pode, inadvertidamente, seguir para o trato respiratório. Em determinadas situações, o paciente pode não apresentar sinais muito evidentes de que isso aconteceu. Se a dieta for administrada através de uma sonda mal posicionada, o resultado pode ser uma aspiração pulmonar grave, pneumonia, pneumotórax e outras complicações potencialmente fatais. O próprio Cofen classifica a sondagem oro/nasoenteral como procedimento invasivo e destaca o risco de complicações graves, especialmente em pacientes críticos.

É por isso que alguns métodos que durante muito tempo foram ensinados nas escolas de Enfermagem — como “colocar ar e auscultar a barriga” ou colocar a ponta da sonda dentro de um copo com água — precisam ser revistos.

E aqui está o ponto mais importante deste artigo:

Ouvir um “borbulhar” no epigástrio não comprova que a sonda está no estômago.

Para a sonda nasoenteral (SNE) inserida às cegas, especialmente quando se pretende uma localização pós-pilórica, a radiografia é considerada o método de referência/padrão-ouro para confirmar o posicionamento antes da utilização, conforme diretrizes e documentos brasileiros.

Mas existe uma nuance importante: em alguns protocolos internacionais para sonda nasogástrica, a avaliação do pH do aspirado gástrico é utilizada como método inicial à beira-leito, com radiografia indicada quando o pH não confirma a posição ou não há aspirado. Portanto, não devemos simplesmente dizer que “pH nunca serve”. O método recomendado depende do tipo de sonda, objetivo da terapia e protocolo institucional.

Vamos entender isso de maneira prática.

Por que é tão importante confirmar a posição da sonda?

Imagine a seguinte situação:

Um paciente precisa receber dieta enteral. A sonda é introduzida pela narina e aparentemente está bem fixada.

O profissional injeta ar e escuta um ruído no abdome.

Parece tudo certo.

Mas existe um problema: o som produzido pela entrada de ar não consegue garantir que a extremidade distal da sonda esteja dentro do estômago.

A sonda pode estar no esôfago, no estômago ou até mesmo no trato respiratório e ainda produzir um som que seja interpretado equivocadamente como “ruído gástrico”.

O Cofen, por meio da Resolução nº 619/2019, destaca que a sondagem oro/nasoenteral pode apresentar complicações como inserção em brônquios, pneumonia aspirativa, pneumotórax e lesões de estruturas do trato digestivo. A mesma resolução estabelece que cabe ao enfermeiro realizar os testes para confirmação do trajeto e, no caso da sondagem nasoenteral, solicitar o exame radiológico para confirmação da localização.

Portanto, a confirmação não é uma etapa burocrática.

É uma barreira de segurança do paciente.

Primeiro: precisamos diferenciar SNG de SNE

Essa distinção é importante porque os termos muitas vezes são utilizados como se fossem sinônimos.

Sonda nasogástrica

A SNG é introduzida pela narina e tem como objetivo chegar ao estômago. Pode ser utilizada para alimentação, administração de medicamentos, drenagem gástrica, descompressão, lavagem e outras finalidades, dependendo do tipo de sonda e indicação clínica.

Sonda nasoenteral

A SNE é introduzida pela narina e busca uma localização além do estômago, geralmente no duodeno ou jejuno, dependendo da finalidade e do dispositivo utilizado. Isso muda completamente a discussão sobre confirmação. Uma coisa é demonstrar que existe conteúdo gástrico. Outra é demonstrar que a ponta da sonda está realmente pós-pilórica.

Por isso, não basta encontrar um método que indique “parece estar no estômago” quando o objetivo é uma localização intestinal.

O padrão-ouro: radiografia

Para a SNE recém-passada, a radiografia é considerada o padrão de referência para confirmar o posicionamento. A Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional afirma que a radiografia é o padrão de referência porque permite visualizar a sonda em relação às estruturas anatômicas. Estudos brasileiros e protocolos publicados na literatura também classificam o raio-X como padrão-ouro para a confirmação da SNE.

Isso acontece porque o exame não tenta simplesmente “adivinhar” onde a sonda está por meio de sinais indiretos. Ele permite visualizar o trajeto da sonda e a localização de sua extremidade.

Como funciona essa confirmação?

Depois da passagem da SNE, o paciente deve ser encaminhado para o exame de imagem conforme o protocolo do serviço. A imagem deve permitir avaliar o trajeto da sonda e sua extremidade distal. O exame precisa ser adequadamente interpretado e documentado antes de a sonda ser liberada para utilização, de acordo com o fluxo institucional.

Um protocolo brasileiro publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem, por exemplo, estabelece a solicitação de radiografia para conferência da SNE e orienta aguardar a confirmação antes da liberação para dieta ou medicamento.

“Mas se a radiografia é o padrão-ouro, por que ainda fazem ausculta?”

Porque a ausculta foi, durante muitos anos, ensinada como um método prático de confirmação.

A técnica tradicional era mais ou menos assim:

  1. conectar uma seringa à sonda;
  2. injetar ar;
  3. colocar o estetoscópio sobre a região epigástrica;
  4. ouvir um “borbulhamento”;
  5. concluir que a sonda estava no estômago.

O problema é que o som não demonstra a localização anatômica da ponta da sonda.

A própria documentação técnica do Coren-AL ressalta que a ausculta epigástrica após a introdução de ar não é um método confiável: ela não consegue diferenciar adequadamente uma sonda no estômago de uma sonda no esôfago ou em estruturas respiratórias.

Uma pesquisa brasileira também encontrou baixa concordância entre a ausculta epigástrica e a radiografia e concluiu que a ausculta não deveria ser utilizada como método de confirmação isolado.

Então a ausculta está proibida?

É preciso ter cuidado com essa afirmação. Não é correto transformar a discussão em:

“Ausculta é proibida.”

O problema é outro: a ausculta não deve ser considerada um método confiável para confirmar sozinha o posicionamento da SNE. Ela pode fazer parte da avaliação clínica geral, mas não deve ser usada como justificativa isolada para liberar a dieta quando a confirmação radiológica é necessária.

Esse detalhe é muito importante para o estudante de Enfermagem.

O famoso “teste do copo com água”

Outro método que muitos estudantes aprenderam é colocar a extremidade da sonda em um recipiente com água e observar se aparecem bolhas. A lógica ensinada era:

“Se borbulhar, está no pulmão.”

Mas isso também não é seguro. O Coren-AL descreve limitações desse método e destaca inclusive o risco de aspiração de água caso a sonda esteja localizada no trato respiratório.

Portanto: não coloque a ponta da sonda em um copo com água para decidir se pode iniciar a dieta. Esse método não substitui uma confirmação adequada.

E observar a cor do aspirado?

Também não é suficiente sozinho. Pode-se tentar aspirar conteúdo pela sonda e observar suas características. O problema é que:

  • nem sempre é possível obter aspirado;
  • o aspecto pode variar;
  • secreções gástricas e respiratórias podem ser confundidas;
  • sangue, dieta, medicamentos e outras condições podem modificar a aparência.

O parecer técnico do Coren-AL destaca justamente essa limitação: a avaliação visual do aspirado pode apresentar dificuldade para diferenciar secreções de diferentes origens.

Portanto:

“parece conteúdo gástrico” não é sinônimo de “tenho certeza da posição”.

E o pH do aspirado?

Aqui temos uma diferença importante em relação aos métodos antigos. A mensuração do pH do aspirado gástrico possui utilidade e é recomendada em alguns protocolos, principalmente para confirmação de sondas nasogástricas.

Por exemplo, uma diretriz do NHS recomenda pH do aspirado como uma das duas formas aceitas para confirmação inicial de uma sonda nasogástrica fina, sendo a radiografia a outra opção. Quando não há aspirado ou o pH não confirma a localização, recomenda-se radiografia. Portanto, não devemos ensinar ao aluno:

“pH não serve.”

O mais correto é:

O pH pode ser útil, mas sua utilização depende do tipo de sonda e do protocolo; ele não deve ser tratado como substituto universal da radiografia para confirmar uma SNE pós-pilórica.

Por que o pH pode apresentar limitações?

Porque o pH gástrico não é absolutamente constante.

Ele pode ser influenciado por:

  • alimentação;
  • medicamentos que reduzem a acidez gástrica;
  • antiácidos;
  • inibidores da bomba de prótons;
  • bloqueadores H2;
  • determinadas condições clínicas.

O parecer técnico do Coren-AL também chama atenção para essa limitação. Além disso, não conseguir aspirar conteúdo não significa automaticamente que a sonda está no lugar errado, mas também não permite assumir que está certa. É justamente por isso que protocolos precisam estabelecer o que fazer quando o aspirado não é obtido.

E a medida externa da sonda?

Essa é uma ferramenta extremamente útil. Depois de confirmar a posição inicial, deve-se registrar a marca ou comprimento externo da sonda junto à narina.

Por exemplo:

“SNE posicionada, marca externa em 55 cm.”

Depois, nas avaliações subsequentes, verifica-se se essa medida permanece semelhante àquela registrada. Se antes estava em 55 cm e agora está em 48 cm, alguma coisa mudou.

Pode ter ocorrido deslocamento. Mas existe uma ressalva importante: a medida externa não confirma sozinha a localização interna.

Ela serve principalmente para detectar uma possível mudança em relação à posição previamente documentada. Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda verificar a medida externa da SNE antes da administração de dieta ou medicamento e reavaliar radiologicamente se ocorrer tração acidental significativa.

“Se a sonda não saiu, posso confiar na medida externa?”

Não necessariamente. Uma sonda pode sofrer deslocamento interno sem que a mudança externa seja imediatamente evidente. Por isso, a medida externa é uma barreira complementar de segurança, não uma substituta universal da confirmação inicial.

A lógica é:

posição inicialmente confirmada + fixação adequada + monitoramento da marca externa + avaliação clínica + reavaliação quando houver suspeita de deslocamento.

E se o paciente tossiu muito ou vomitou?

Essa situação merece atenção.

Episódios de:

  • vômitos;
  • tosse intensa;
  • engasgos;
  • manipulação da sonda;
  • tração acidental;
  • desconexão;
  • mudança da marca externa;
  • piora respiratória inesperada;

podem levantar suspeita de deslocamento. Nessas situações, não se deve simplesmente assumir que a sonda continua posicionada porque “estava certa antes”. Protocolos internacionais recomendam nova avaliação quando há suspeita de deslocamento ou eventos clínicos que possam alterar a posição.

Um detalhe muito importante: “a sonda estava certa ontem”

Essa frase pode ser perigosa. Uma sonda corretamente posicionada às 8 horas da manhã não necessariamente estará na mesma posição às 20 horas. Por isso, a segurança não termina depois do primeiro raio-X. A equipe precisa continuar observando:

  • fixação;
  • comprimento externo;
  • integridade do sistema;
  • sinais respiratórios;
  • tolerância à dieta;
  • eventuais episódios de vômito ou tosse;
  • qualquer alteração que sugira deslocamento.

Quando NÃO iniciar a dieta?

Essa é uma das mensagens mais importantes para o estudante. Não inicie a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Se a confirmação necessária ainda não foi realizada, se o resultado não está disponível, se existe divergência entre a posição registrada e a observada ou se houve suspeita de deslocamento, a conduta segura é interromper a administração e comunicar o enfermeiro/médico conforme o protocolo institucional.

  • Não tente “resolver a dúvida” apenas colocando ar e auscultando.
  • Não utilize o copo com água como confirmação.
  • Não confie somente na aparência do aspirado.
  • Não diga: “Deve estar no lugar.”

Quando estamos falando de uma via que pode levar diretamente ao trato respiratório, “deve estar” não é confirmação.

O que fazer antes de liberar a dieta?

Uma forma prática de pensar é utilizar uma sequência de segurança.

  1. Confirme a identificação do paciente

Antes de qualquer procedimento, confirme corretamente o paciente de acordo com o protocolo institucional. A identificação correta é uma das estratégias básicas de segurança do paciente estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

  1. Verifique qual é a sonda

Identifique:

  • SNG?
  • SNE?
  • Gastrostomia?
  • Jejunostomia?

O método de confirmação pode variar conforme o dispositivo e o objetivo.

  1. Confira a documentação

Verifique se existe registro da passagem e da confirmação da posição.

  1. Confira a marca externa

Compare com a medida registrada após a confirmação inicial.

  1. Procure sinais de deslocamento

Observe fixação, comprimento externo, desconexões, tração, vômitos e alterações respiratórias.

  1. Confirme se a sonda está liberada para uso

Não basta a sonda estar presente.

É necessário que esteja confirmada e liberada conforme o protocolo institucional.

  1. Só então administre a dieta

A dieta deve ser iniciada somente depois que os critérios de segurança forem atendidos.

E a cabeceira do paciente?

Mesmo com a sonda corretamente posicionada, existe outro cuidado importante: o posicionamento do paciente durante a dieta.

Em geral, a cabeceira deve permanecer elevada, conforme prescrição e protocolo institucional, frequentemente em torno de 30° a 45°, especialmente durante a administração da nutrição enteral e por período posterior conforme orientação do serviço.

Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda cabeceira elevada a pelo menos 30° durante a infusão. Isso é importante porque a prevenção da aspiração não depende de uma única medida.

É um conjunto de barreiras.

Quais métodos antigos não devem ser usados sozinhos?

Podemos resumir assim:

Método Pode ajudar? Deve ser usado sozinho para liberar dieta?
Radiografia Sim É o método de referência para SNE recém-passada
pH do aspirado Sim, em situações/protocolos específicos Não universalmente
Avaliação do aspirado Pode fornecer informações Não
Ausculta após injetar ar Não é confiável para confirmar posição Não
Borbulhamento no copo com água Não é confiável Não
Apenas observar a marca externa Ajuda no monitoramento Não
Sintomas clínicos isolados Podem levantar suspeita Não
Ultrassom à beira-leito Promissor em mãos treinadas e contextos específicos Depende de protocolo/competência; não substitui automaticamente o padrão de referência

E a ultrassonografia?

A ultrassonografia à beira-leito é uma área interessante e vem sendo estudada como alternativa para avaliação do posicionamento de sondas. Ela apresenta vantagens como ausência de radiação e possibilidade de realização à beira-leito.

Entretanto, isso não significa que qualquer profissional possa simplesmente pegar um aparelho de ultrassom e “confirmar a sonda”. É necessária capacitação, equipamento adequado e protocolo.

Estudos brasileiros apontam que a ultrassonografia pode ser uma alternativa em determinadas situações, mas ainda existem limitações relacionadas à acurácia e à disponibilidade de profissionais treinados.

Portanto, atualmente, para o estudante: ultrassom não deve ser tratado automaticamente como substituto do raio-X para todas as situações.

E se o paciente estiver em UTI?

Na UTI, a atenção deve ser ainda maior. Pacientes críticos podem apresentar:

  • alteração do nível de consciência;
  • sedação;
  • intubação;
  • traqueostomia;
  • ausência de reflexos protetores;
  • ventilação mecânica;
  • alterações anatômicas;
  • maior risco de aspiração.

O próprio Cofen destaca que pacientes neurológicos, inconscientes, idosos e traqueostomizados apresentam maior risco de mau posicionamento. Além disso, o paciente pode não conseguir comunicar que está sentindo dor, tosse ou desconforto durante a passagem.

Por isso, não espere que o paciente apresente sinais dramáticos para desconfiar de uma posição inadequada.

Uma experiência prática que vale para o estágio

Uma das situações que mais confundem estudantes é quando alguém da equipe diz: “Pode passar a dieta, eu já escutei.”

Nesse momento, o estudante precisa entender que a prática do setor não substitui o protocolo institucional nem a evidência científica. Se você está no estágio e encontra uma situação assim, não é necessário confrontar ninguém.

Pergunte:

“A posição já foi confirmada e liberada no prontuário?”

É uma pergunta simples, profissional e voltada para a segurança.

Se houver dúvida:

“Vou confirmar com o enfermeiro antes de iniciar a dieta.”

Essa postura demonstra responsabilidade, não insegurança.

O papel do técnico e do enfermeiro

A Resolução Cofen nº 619/2019 estabelece as competências da equipe de Enfermagem relacionadas à sondagem oro/nasoenteral.

Segundo a norma, a inserção da SNG/SOG e SNE é privativa do enfermeiro, enquanto técnicos e auxiliares podem auxiliar no procedimento e executar cuidados de manutenção e monitoramento conforme suas atribuições, prescrição e supervisão.

Ao enfermeiro compete, entre outras responsabilidades previstas na resolução:

  • estabelecer o acesso;
  • realizar os testes para confirmação do trajeto;
  • solicitar exame radiológico para confirmação da SNE;
  • garantir a manutenção do acesso;
  • prescrever cuidados;
  • registrar as ocorrências e dados relacionados ao procedimento.

Isso não significa que o técnico de enfermagem seja um mero “executor”. Na manutenção da terapia enteral, a observação do paciente e a comunicação de qualquer alteração são fundamentais. Se o técnico percebe que a sonda estava marcada em determinado ponto e agora está diferente, por exemplo, essa informação precisa ser comunicada.

O que fazer se houver suspeita de mau posicionamento?

A primeira regra é simples: não administrar a dieta até esclarecer a situação.

Depois:

  1. interromper a administração, se já estiver ocorrendo;
  2. manter o paciente em posição segura;
  3. comunicar imediatamente o enfermeiro;
  4. avaliar sinais respiratórios e condições clínicas;
  5. conferir a marca externa e a fixação;
  6. seguir o protocolo institucional para confirmação;
  7. documentar a ocorrência conforme rotina do serviço.

Se houver sinais como: dispneia, tosse intensa, dessaturação, cianose, desconforto respiratório ou alteração súbita do estado clínico, a situação deve ser tratada com prioridade.

Por que administrar dieta em uma sonda pulmonar é tão perigoso?

Porque a dieta enteral não foi feita para entrar nas vias respiratórias. Se a sonda estiver em uma estrutura respiratória e a dieta for administrada, pode ocorrer aspiração pulmonar, com consequências que variam de irritação e inflamação até pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória.

A Resolução Cofen nº 619/2019 cita especificamente a possibilidade de inserção em brônquios e desenvolvimento de pneumonia aspirativa e infecção broncopulmonar. É por isso que o momento da confirmação da posição merece tanta atenção.

“Mas eu sempre aprendi que era só auscultar”

Essa talvez seja uma das frases mais importantes deste tema. Na Enfermagem, existem procedimentos que foram ensinados durante muitos anos e que continuam sendo repetidos simplesmente porque:

“sempre foi feito assim.”

Mas a prática profissional precisa acompanhar a evolução das evidências. O fato de determinado método ter sido ensinado no curso técnico, na faculdade ou por profissionais experientes não significa automaticamente que ele seja o método mais seguro atualmente.

A ausculta epigástrica é um excelente exemplo, e ela pode parecer convincente porque produz um som. O problema é que um som não é uma imagem anatômica, e essa diferença é fundamental.

Resumo para guardar para a prova

Se você estiver estudando para uma prova de Enfermagem e aparecer a pergunta:

“Qual é o padrão-ouro para confirmar o posicionamento da sonda nasoenteral?”

A resposta esperada, no contexto brasileiro tradicional e das diretrizes citadas, é:

Radiografia.

Se aparecer:

“Ausculta epigástrica após insuflação de ar confirma o posicionamento?”

A resposta é:

Não. Não é um método confiável para confirmar isoladamente a localização da sonda.

Se aparecer:

“Colocar a ponta da sonda em um copo com água confirma se ela está no pulmão?”

Não. Esse método não é confiável e pode oferecer risco.

Se aparecer:

“O pH do aspirado pode ser utilizado?”

A resposta mais completa é:

Pode ser útil em determinados protocolos, especialmente para SNG, mas possui limitações e não substitui automaticamente a radiografia para confirmação de uma SNE pós-pilórica.

Checklist rápido antes de liberar a dieta

Antes de conectar a dieta, pense:

  • Paciente correto?
  • Sonda correta?
  • Posição inicial confirmada?
  • Há registro da confirmação?
  • A sonda foi liberada para uso?
  • Marca externa está de acordo com o registro?
  • Fixação está íntegra?
  • Houve vômito, tosse intensa ou tração desde a última confirmação?
  • Existe alguma dúvida sobre o posicionamento?

Se a última resposta for sim, pare.

Não iniciar a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Essa é uma frase simples, mas que pode evitar um evento adverso grave. A confirmação do posicionamento da sonda antes da dieta é um daqueles assuntos em que a experiência prática precisa caminhar junto com a atualização científica.

Durante muito tempo, técnicas como auscultar o epigástrio após injetar ar, observar o aspirado ou colocar a extremidade da sonda em um copo com água foram ensinadas como formas de verificar a posição.

Hoje, sabemos que esses métodos apresentam limitações importantes e não devem ser utilizados isoladamente para confirmar uma SNE e liberar sua utilização. Para a SNE recém-inserida, a radiografia permanece o padrão de referência/padrão-ouro na literatura brasileira, pois permite visualizar o trajeto e a localização da sonda.

Ao mesmo tempo, o pH do aspirado tem papel relevante em determinados protocolos, especialmente para SNG, e pode funcionar como ferramenta de avaliação à beira-leito quando utilizado dentro de critérios bem definidos.

O mais importante é não transformar um método auxiliar em uma falsa certeza.

  • Auscultar não é visualizar.
  • Aspirar não é necessariamente confirmar.
  • Ver a marca externa não é comprovar a localização interna.

E, principalmente: se houver dúvida sobre a posição da sonda, a dieta não deve ser iniciada até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional.

Esse é o tipo de cuidado que transforma conhecimento técnico em segurança real para o paciente.

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 619, de 4 de novembro de 2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/Nasogástrica e Nasoentérica. Brasília, DF: Cofen, 2019. Disponível em: Resolução Cofen nº 619/2019
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE ALAGOAS (COREN-AL). Parecer Técnico nº 04/2022: posicionamento de sonda nasoenteral e confirmação radiológica. Maceió: Coren-AL, 2022. Disponível em: Parecer Técnico nº 04/2022
  3. MACEDO, A. B. T. et al. Elaboração e validação de protocolo para administração segura de nutrição enteral em pacientes hospitalizados. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre. Disponível em: Artigo na Revista Gaúcha de Enfermagem
  4. BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. São Paulo: BRASPEN. Disponível em: Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional
  5. RIGOBELLO, M. C. G. Acurácia e custo de métodos utilizados por enfermeiros na confirmação do posicionamento de sondas nasoenterais recém-inseridas às cegas à beira leito. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. Disponível em: Repositório da Universidade de São Paulo
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Protocolos de Segurança do Paciente – Ministério da Saúde
  7. NHS AYRSHIRE & ARRAN. Insertion and care of fine bore nasogastric tubes for enteral feeding and medication in adults. Clinical Guideline G081. Disponível em: NHS – Nasogastric tube position confirmation guideline.
  8. BISCHOFF, S. C. et al. ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical Nutrition, v. 41, p. 468–488, 2022. Disponível em: ESPEN Practical Guidelines.
  9. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de prática segura na administração de medicamentos, sangue e tecidos: prevenção de erros na administração de dietas enterais. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente
  10. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer Cofen nº 003/2021: Atuação da equipe de enfermagem na passagem e confirmação de sondas enterais e gástricas. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/
  11. SILVA, M. R.; SOUZA, A. C. Segurança do paciente em terapia nutricional enteral: evidências atuais sobre a confirmação do posicionamento de sondas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 77, n. 2, p. 112-118, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/

Lesão por Dispositivo Médico: o que é, como identificar e quais são os cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem envolve o uso diário de inúmeros dispositivos médicos. Cateteres, sondas, máscaras de oxigênio, tubos, fixadores, talas, eletrodos, sensores e outros recursos são fundamentais para monitorar, tratar e manter a vida de muitos pacientes.

Mas existe um detalhe que não pode ser esquecido: um dispositivo criado para cuidar também pode causar uma lesão.

Quando determinado dispositivo permanece em contato com a pele ou com tecidos por tempo prolongado, especialmente quando exerce pressão, tração, fricção ou cisalhamento, pode provocar uma lesão relacionada a dispositivo médico. Essas lesões são particularmente importantes em pacientes críticos, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e pacientes submetidos a terapias que exigem dispositivos continuamente.

As lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos são reconhecidas como um tipo específico de lesão por pressão. A diretriz internacional de 2025 define essas lesões como aquelas que ocorrem sob ou próximas a dispositivos utilizados para fins diagnósticos ou terapêuticos, como dispositivos de oxigenoterapia, tubos, talas, órteses e eletrodos.

Por isso, compreender esse problema é fundamental para quem trabalha ou estuda enfermagem.

O que é uma Lesão por Dispositivo Médico?

A Lesão por Dispositivo Médico (LDM) ocorre quando um dispositivo utilizado no cuidado do paciente provoca dano à pele ou aos tecidos subjacentes.

Na prática, imagine uma máscara de ventilação não invasiva que permanece pressionando continuamente a região do nariz. Se essa pressão não for adequadamente avaliada e aliviada, pode surgir inicialmente uma área avermelhada e dolorosa. Com a continuidade da pressão, a lesão pode evoluir para perda da integridade da pele e atingir tecidos mais profundos.

O mesmo princípio pode acontecer com uma sonda, um cateter, um tubo endotraqueal, uma tala, um colar cervical ou até mesmo um sensor de monitorização.

Portanto, o dispositivo não precisa estar “apertado demais” para causar uma lesão. Pressão contínua, fricção, cisalhamento, umidade, posicionamento inadequado e tempo prolongado de contato podem contribuir para o problema.

A literatura internacional considera as lesões relacionadas a dispositivos médicos uma preocupação relevante de segurança do paciente. Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou estimativas de prevalência de aproximadamente 10% e incidência de 12% para esse tipo de lesão nos estudos analisados.

Por que o dispositivo médico pode machucar a pele?

Para entender a LDM, é interessante pensar em uma situação bastante simples. Imagine colocar um objeto sobre a pele e mantê-lo pressionado durante várias horas. Inicialmente, talvez não aconteça nada perceptível. Entretanto, se a pressão permanecer continuamente sobre a mesma região, a circulação local pode ser prejudicada.

A pressão pode comprimir pequenos vasos sanguíneos. Com isso, ocorre redução do fornecimento de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Se essa situação persistir, o tecido pode sofrer hipóxia, isquemia e, posteriormente, necrose.

Quando acrescentamos outros fatores, como fricção, cisalhamento, umidade e fragilidade da pele, o risco aumenta ainda mais. É justamente por isso que um dispositivo corretamente instalado não significa necessariamente um dispositivo seguro durante todo o período de utilização.

O paciente muda de posição, apresenta edema, transpira, movimenta-se, perde ou ganha peso, desenvolve alterações circulatórias e pode apresentar mudanças na tolerância ao dispositivo. A enfermagem precisa acompanhar essas mudanças.

Quais dispositivos podem causar lesões?

Praticamente qualquer dispositivo que permaneça em contato prolongado com o organismo pode, dependendo das condições, contribuir para uma lesão. Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Dispositivos respiratórios

São frequentemente envolvidos porque precisam permanecer posicionados durante longos períodos.

Podemos citar:

  • máscaras de ventilação não invasiva;
  • máscaras de oxigênio;
  • cateter nasal;
  • tubo endotraqueal;
  • fixadores de tubo;
  • cânulas e dispositivos de suporte respiratório.

Máscaras de CPAP e BiPAP, por exemplo, podem exercer pressão principalmente sobre a região nasal, malar e facial. O problema pode ser ainda maior quando o paciente necessita utilizar o dispositivo continuamente.

Sondas e cateteres

Sondas e cateteres também podem provocar lesões quando existe pressão, tração ou fixação inadequada. Entre eles estão:

  • Sonda nasogástrica e nasoenteral: podem provocar lesões nas narinas, no septo nasal e em regiões próximas ao local de fixação.
  • Cateter vesical: pode causar lesões por tração ou pressão, principalmente quando existe fixação inadequada ou movimentação excessiva.
  • Cateteres vasculares: podem contribuir para lesões relacionadas à pressão, fixação, dispositivos de estabilização ou curativos, especialmente quando permanecem sobre regiões vulneráveis.

Dispositivos utilizados para monitorização

Alguns equipamentos utilizados rotineiramente para monitorização também merecem atenção. Eletrodos, sensores de oximetria, manguitos de pressão arterial, cabos, sensores e outros dispositivos podem permanecer em contato com a pele durante horas. No caso do oxímetro, por exemplo, a atenção não deve estar apenas no funcionamento do aparelho. É necessário observar a pele e alternar o local quando isso for possível e seguro.

O mesmo raciocínio vale para eletrodos de monitorização cardíaca.

Talas, órteses e imobilizadores

Talas, órteses, colares cervicais, fixadores e outros dispositivos utilizados para imobilização também podem provocar pressão localizada. Nesses casos, a própria finalidade do dispositivo exige algum grau de contato ou contenção. Isso não significa que a lesão seja inevitável. A equipe precisa verificar se o dispositivo está corretamente ajustado, se existe pressão excessiva e se há áreas de contato particularmente vulneráveis.

Onde essas lesões aparecem com maior frequência?

A localização depende diretamente do dispositivo utilizado. Uma máscara facial, por exemplo, pode provocar lesões em regiões como nariz, dorso nasal, bochechas e áreas próximas à fixação. Um cateter nasal pode provocar alterações nas narinas e atrás das orelhas, dependendo do modelo e da forma de fixação. Uma sonda pode causar lesões nas regiões em que entra em contato com a pele ou permanece fixada.

Já uma tala ou órtese pode provocar lesões sobre proeminências ósseas. Portanto, uma regra muito útil para a enfermagem é:

onde existe contato contínuo entre dispositivo e pele, existe necessidade de avaliação.

Quem apresenta maior risco?

Embora qualquer paciente possa desenvolver uma lesão relacionada a dispositivo, alguns apresentam risco maior. Entre os principais fatores estão a idade avançada, imobilidade, alterações da perfusão, edema, desnutrição, alterações da sensibilidade, alteração do nível de consciência, incontinência, umidade excessiva e presença de doenças crônicas.

Pacientes críticos merecem atenção especial. Um paciente sedado, intubado, com edema, instabilidade hemodinâmica e múltiplos dispositivos pode não conseguir comunicar dor ou desconforto e pode permanecer por longos períodos na mesma posição.

Por isso, a avaliação da pele não pode depender exclusivamente da queixa do paciente. Estudos brasileiros realizados em unidades de terapia intensiva identificaram como medidas importantes de prevenção a atenção à fixação, reposicionamento frequente, proteção e acolchoamento das áreas de contato, escolha de materiais flexíveis quando disponíveis, cuidado para que dispositivos não permaneçam sob o paciente e remoção precoce quando clinicamente possível.

Como identificar uma Lesão por Dispositivo Médico?

A avaliação deve começar antes mesmo de aparecer uma ferida. Um dos primeiros sinais pode ser uma alteração na coloração da pele. Pode aparecer uma área avermelhada, arroxeada ou com outra alteração de coloração exatamente no local onde o dispositivo exerce pressão.

Também podem surgir:

  • dor;
  • ardência;
  • aumento da sensibilidade;
  • edema;
  • endurecimento;
  • alteração da temperatura local;
  • bolhas;
  • erosões;
  • perda da integridade da pele;
  • áreas de necrose.

É importante observar que a ausência de uma ferida aberta não significa ausência de lesão. Uma alteração persistente na pele já merece atenção.

A lesão pode surgir mesmo com a pele aparentemente normal?

Sim. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação frequente é tão importante. A lesão pode começar em tecidos mais profundos e apresentar sinais externos discretos. Além disso, pacientes com alterações de perfusão ou sensibilidade podem apresentar manifestações diferentes. Por isso, não se deve avaliar apenas a existência de uma “ferida”.

É necessário observar a pele antes, durante e depois da utilização do dispositivo.

Qual é a diferença entre lesão por pressão comum e lesão relacionada a dispositivo?

A principal diferença está no fator causador e na localização. Uma lesão por pressão tradicional geralmente está relacionada à pressão ou cisalhamento sobre uma região corporal, frequentemente uma proeminência óssea. Na lesão relacionada a dispositivo médico, o dano está relacionado ao contato com um dispositivo utilizado para assistência diagnóstica ou terapêutica.

Por exemplo:

  • Pressão prolongada do corpo contra o colchão na região sacral: lesão por pressão convencional.
  • Pressão prolongada de uma máscara de ventilação sobre o dorso do nariz: lesão por pressão relacionada a dispositivo médico.

As duas situações possuem mecanismos semelhantes, mas a segunda está diretamente relacionada ao dispositivo.

O tempo de permanência influencia?

Sim, mas não existe um único número de horas que determine quando uma lesão obrigatoriamente aparecerá. Isso é importante porque às vezes existe a ideia de que “se o dispositivo ficar menos de determinado tempo, não haverá risco”. Não é tão simples. A intensidade da pressão, o formato do dispositivo, o material utilizado, o estado da pele, a perfusão, a umidade, a mobilidade do paciente e outros fatores influenciam o risco.

Um paciente vulnerável pode desenvolver dano em um período relativamente curto. Por isso, a prevenção não deve ser baseada apenas em relógio, mas principalmente em avaliação clínica contínua.

A importância da fixação correta

Fixar um dispositivo não significa simplesmente deixá-lo “bem preso”. A fixação precisa ser suficientemente segura para evitar deslocamentos, mas não deve gerar compressão desnecessária. Uma fixação excessivamente apertada pode aumentar a pressão sobre a pele.

Por outro lado, uma fixação frouxa pode provocar movimentação repetitiva, fricção e tração. A enfermagem precisa encontrar um equilíbrio entre segurança do dispositivo e proteção dos tecidos. Esse cuidado é particularmente importante com tubos, sondas, cateteres e dispositivos respiratórios.

O acolchoamento pode ajudar?

Sim, quando indicado e realizado corretamente. Materiais apropriados podem ajudar a distribuir a pressão e proteger áreas vulneráveis. Entretanto, colocar qualquer tipo de gaze, espuma ou material improvisado entre o dispositivo e a pele não é necessariamente uma boa prática. O material utilizado deve ser compatível com o dispositivo e com a finalidade da proteção.

Além disso, o acolchoamento não deve criar novos pontos de pressão. A revisão sistemática sobre prevenção de lesões relacionadas a dispositivos identificou intervenções como curativos, materiais de proteção, dispositivos específicos de fixação, reposicionamento, educação da equipe e remoção precoce quando possível.

Cuidados de enfermagem para prevenir a Lesão por Dispositivo Médico

A prevenção começa na avaliação do paciente: Antes de instalar um dispositivo, sempre que possível, observe a condição da pele no local onde ele ficará. Depois da instalação, verifique se existe pressão excessiva, dobras, tração ou posicionamento inadequado.

Durante a assistência, a equipe deve realizar avaliações periódicas e documentar alterações relevantes. Outro cuidado fundamental é evitar que tubos, cabos ou dispositivos permaneçam pressionados sob o corpo do paciente. Essa situação pode ser facilmente esquecida durante mudanças de decúbito.

O estudo realizado com profissionais de enfermagem em UTI destacou justamente a importância de verificar se dispositivos não permanecem sob o paciente e de realizar reposicionamento frequente.

A enfermagem deve retirar o dispositivo para avaliar a pele?

Nem sempre. Esse é um ponto muito importante. Alguns dispositivos são essenciais para manter a vida ou garantir um tratamento seguro. Retirá-los sem avaliação médica ou sem indicação pode trazer riscos. A pergunta correta não é simplesmente “posso retirar?”.

É:

“Esse dispositivo ainda é necessário? Existe uma alternativa segura? É possível reposicioná-lo? Posso aliviar a pressão sem comprometer sua função?”

Quando clinicamente possível, a remoção precoce de dispositivos desnecessários é uma das estratégias preventivas destacadas na literatura.

O que fazer quando a lesão já apareceu?

Primeiramente, a equipe deve reconhecer e registrar a alteração. É importante avaliar localização, tamanho, aspecto da pele, presença de dor, exsudato, edema e outros sinais relevantes. Em seguida, deve-se investigar o dispositivo responsável e verificar se ele continua sendo necessário. Quando for possível e seguro, deve-se aliviar ou eliminar a fonte de pressão.

A conduta específica para tratamento dependerá do tipo e da gravidade da lesão, das condições clínicas do paciente e do protocolo institucional. Lesões mais profundas, áreas de necrose, sinais de infecção ou evolução rápida exigem avaliação especializada.

O papel da documentação de enfermagem

A documentação é parte importante da segurança do paciente. Ao identificar uma alteração relacionada a um dispositivo, o profissional deve registrar adequadamente o achado conforme as normas institucionais. É importante documentar, por exemplo, a localização, características da pele, dispositivo envolvido, medidas adotadas e evolução.

Isso permite acompanhar a resposta às intervenções e melhora a comunicação entre os profissionais. Além disso, a documentação ajuda a identificar padrões. Se uma determinada unidade começa a apresentar repetidamente lesões associadas ao mesmo dispositivo, isso pode indicar necessidade de revisão da técnica, do material, da fixação ou do protocolo.

Um exemplo prático para entender

Imagine um paciente internado na UTI utilizando ventilação não invasiva. A máscara precisa permanecer posicionada corretamente para que a terapia funcione. Após algumas horas, a enfermeira observa uma área avermelhada no dorso do nariz.

O erro seria pensar:

“É só uma vermelhidão, depois passa.” O correto é investigar.

  • A máscara está apertada demais?
  • Existe necessidade de ajustar a fixação?
  • O tamanho da máscara é adequado?
  • Existe algum ponto de pressão concentrada?
  • É possível utilizar uma proteção apropriada?
  • A terapia pode ser interrompida ou o dispositivo pode ser alternado com segurança?
  • A pele precisa ser reavaliada posteriormente?

Esse exemplo demonstra uma característica essencial da enfermagem: não esperar a ferida aparecer para começar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico em pacientes críticos

O ambiente de terapia intensiva reúne muitos dos fatores que favorecem esse tipo de lesão. O paciente pode estar sedado, imobilizado, edemaciado, hemodinamicamente instável e conectado simultaneamente a diversos dispositivos. Além disso, alguns dispositivos precisam permanecer instalados continuamente.

Por isso, a prevenção precisa fazer parte da rotina da assistência. A equipe deve olhar para o paciente como um todo, e não apenas para cada equipamento individualmente.

Um tubo pode estar perfeitamente instalado, uma sonda pode estar corretamente fixada e um eletrodo pode estar funcionando adequadamente. Ainda assim, quando todos esses elementos são analisados em conjunto, pode existir uma grande quantidade de pontos de pressão sobre a pele.

A importância da avaliação durante o banho e a mudança de decúbito

O banho é uma excelente oportunidade para avaliação da pele. Quando o dispositivo puder ser temporariamente removido, reposicionado ou afastado com segurança, a equipe pode aproveitar esse momento para observar áreas que normalmente ficam escondidas. Durante a mudança de decúbito, também é importante verificar se cabos, tubos, sondas ou outros dispositivos ficaram presos ou posicionados sob o corpo.

Uma simples inspeção durante esses momentos pode evitar que uma pequena alteração evolua para uma lesão significativa.

Higiene da pele e controle da umidade

A pele excessivamente úmida pode ficar mais vulnerável ao dano. Suor, secreções, saliva, urina, fezes e outros líquidos podem permanecer em contato com a pele, principalmente em regiões cobertas por dispositivos. Por isso, a higiene adequada e o controle da umidade fazem parte da prevenção.

Quando houver indicação, produtos de proteção da barreira cutânea podem ser utilizados de acordo com o protocolo da instituição e as características do paciente. Entretanto, é importante evitar aplicar produtos de maneira indiscriminada sobre dispositivos, adesivos ou áreas nas quais possam prejudicar a fixação.

Cuidados de enfermagem: um resumo prático

Uma forma simples de lembrar a prevenção é pensar em cinco perguntas:

  • O dispositivo ainda é necessário?
  • Está bem posicionado?
  • Está exercendo pressão excessiva?
  • A pele abaixo ou ao redor está preservada?
  • É possível reposicionar, proteger ou substituir o dispositivo com segurança?

Essas perguntas podem transformar uma avaliação aparentemente simples em uma estratégia efetiva de prevenção.

O papel da educação da equipe

A prevenção da lesão relacionada a dispositivo médico não deve depender apenas de um profissional. Enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e demais profissionais envolvidos no cuidado precisam reconhecer os riscos.

A educação permanente é especialmente importante porque novos dispositivos e novas tecnologias são incorporados continuamente à assistência. Uma revisão sistemática identificou a educação da equipe, padronização da documentação, auditoria e desenvolvimento de protocolos entre as estratégias utilizadas para melhorar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico também é uma questão de segurança do paciente

A prevenção dessas lesões está diretamente relacionada à qualidade da assistência. No Brasil, a Anvisa mantém orientações específicas relacionadas à prevenção de lesões por pressão e à segurança do paciente. A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 atualizou orientações sobre práticas de segurança para prevenção de lesão por pressão.

O Ministério da Saúde também mantém o protocolo nacional de prevenção de úlcera/lesão por pressão, cujo objetivo é promover medidas para evitar essas lesões e outros danos à pele. Portanto, prevenir uma lesão causada por um dispositivo não é apenas um cuidado dermatológico. É uma prática de segurança do paciente. A Lesão por Dispositivo Médico é um problema que pode passar despercebido porque o dispositivo está sendo utilizado justamente para tratar, monitorar ou proteger o paciente.

É importante lembrar que um dispositivo necessário não é automaticamente um dispositivo inofensivo. A enfermagem tem papel fundamental na prevenção porque permanece próxima do paciente e consegue identificar alterações precocemente.

Avaliar a pele, conferir a fixação, observar pontos de pressão, reposicionar quando possível, proteger áreas vulneráveis, controlar umidade, evitar tração e retirar dispositivos desnecessários são atitudes que podem fazer uma grande diferença.

Mais do que saber instalar um dispositivo, o profissional precisa aprender a olhar para o que acontece com a pele enquanto esse dispositivo permanece instalado.

Esse olhar preventivo é uma das características de uma assistência de enfermagem segura e de qualidade.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o programa nacional de segurança do paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOBRACEN. Diretrizes sobre prevenção e tratamento de lesões de pele. São Paulo: Sobracen, 2023. Disponível em: https://sobracen.com.br/
  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/notas-tecnicas-vigentes/nota-tecnica-gvims-ggtes-anvisa-no-05-2023-praticas-de-seguranca-do-paciente-em-servicos-de-saude-prevencao-de-lesao-por-pressao/view

  5. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção de úlcera por pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/seguranca-do-paciente/publicacoes/protocolos-de-seguranca-do-paciente/protocolo-ulcera-por-pressao.pdf/view

  6. GALETTO, S. G. da S. et al. Prevenção de lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos em pacientes críticos: cuidados de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 2, e20200062, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/7Nvg3kfsfyNMqkMzvH8rh4D/?lang=pt

  7. LYU, C. et al. Interventions and strategies to prevent medical device-related pressure injury in adult patients: a systematic review. Journal of Clinical Nursing, v. 32, p. 6863-6878, 2023. DOI: 10.1111/jocn.16790. Disponível em: PubMed – Medical device-related pressure injury prevention

  8. NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Device-Related Pressure Injuries. In: HAESLER, E. (ed.). Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. 4. ed. 2025. Disponível em: International Guideline – Device-Related Pressure Injuries

  9. SANTOS, C. N. S. et al. Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos: prevenção e fatores de risco associados. Nursing Edição Brasileira, v. 24, n. 282, p. 6480-6486, 2021. DOI: 10.36489/nursing.2021v24i282p6480-6486. Disponível em: Nursing Edição Brasileira – Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos

  10. GEFEN, A. et al. An international consensus on device-related pressure ulcers: SECURE prevention. British Journal of Nursing, v. 29, n. 5, p. S36-S38, 2020. DOI: 10.12968/bjon.2020.29.5.S36. Disponível em: PubMed – SECURE prevention

O que é Termo de Consentimento Informado do Paciente?

Vá direto ao ponto!

O Termo de Consentimento Informado do Paciente é um documento que representa muito mais do que uma simples assinatura antes de um procedimento. Ele está relacionado diretamente ao direito do paciente de receber informações, compreender sua situação e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

Na prática, o consentimento informado materializa um dos princípios mais importantes da assistência em saúde: a autonomia do paciente.

Para quem está começando na Enfermagem, é comum surgir a dúvida: “Se o paciente assinou o termo, significa que o profissional está protegido de qualquer responsabilidade?” A resposta é não.

A assinatura, sozinha, não transforma um procedimento inadequado em procedimento correto, não autoriza negligência ou imprudência e não substitui uma comunicação adequada com o paciente.

O consentimento é, antes de tudo, um processo de informação e decisão, e o documento serve como registro desse processo.

No Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, o Cofen determina que o profissional respeite a autonomia da pessoa na tomada de decisão livre e esclarecida sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto e bem-estar. O mesmo Código estabelece a necessidade de consentimento prévio para a prática profissional, ressalvadas situações previstas na própria norma, como incapacidade decisória sem representante ou responsável legal e outras situações legalmente estabelecidas.

O que é o Termo de Consentimento Informado?

O Termo de Consentimento Informado, também encontrado como Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ou simplesmente consentimento informado, é um instrumento utilizado para registrar que o paciente recebeu informações adequadas sobre determinado procedimento, tratamento ou intervenção e teve oportunidade de decidir de maneira livre e esclarecida.

É importante diferenciar duas coisas:

Consentimento informado é o processo.

Termo de consentimento é o documento que registra esse processo.

Essa diferença é fundamental. Imagine que um paciente receba um formulário de várias páginas e simplesmente escute:

“Assine aqui.”

Ele pode ter assinado o documento, mas isso não significa necessariamente que tenha ocorrido um consentimento verdadeiramente informado.

Para que exista consentimento válido, o paciente precisa ter recebido informações compreensíveis e ter tido oportunidade de fazer perguntas e tomar sua decisão sem coerção.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, estabelece que a informação deve ser correta, suficiente, adequada e capaz de esclarecer as dúvidas do paciente, utilizando linguagem acessível e sem induzi-lo ao erro sobre natureza, características, riscos, consequências ou outros aspectos do procedimento.

Por que o consentimento informado é tão importante?

Imagine que uma pessoa precise realizar uma cirurgia.

Ela pode pensar que o procedimento é simples, mas desconhecer:

  • qual é exatamente o procedimento;
  • por que ele é necessário;
  • quais benefícios são esperados;
  • quais riscos podem ocorrer;
  • quais alternativas existem;
  • o que pode acontecer se não realizar o procedimento;
  • como será o período de recuperação.

Sem essas informações, a pessoa não consegue participar verdadeiramente da decisão. O consentimento informado procura justamente evitar que o paciente seja tratado como alguém que simplesmente “recebe ordens”. Ele reconhece que o paciente é sujeito ativo do próprio cuidado.

Isso está diretamente relacionado aos princípios de autonomia, dignidade, liberdade e respeito aos direitos humanos. O próprio Código de Ética da Enfermagem afirma que o profissional deve atuar respeitando a autonomia da pessoa e sua participação em decisões relacionadas à própria saúde.

Consentimento informado não é apenas uma burocracia

Um dos maiores erros é enxergar o termo apenas como um documento necessário para “liberar” uma cirurgia, exame ou procedimento. Na realidade, ele faz parte de uma relação de comunicação entre profissional e paciente. O documento deve ser consequência de uma conversa adequada. Por exemplo, imagine um paciente que receberá determinado procedimento invasivo.

Não basta entregar o papel. É necessário que ele tenha condições de compreender:

  • O que será feito?
  • Por que será feito?
  • Quais benefícios podem ser esperados?
  • Quais riscos existem?
  • Existem alternativas?
  • O que pode acontecer se ele não fizer?
  • Como será o cuidado depois?

Quando necessário, também devem ser explicados desconfortos, limitações, possibilidade de complicações e outras informações relevantes. A Recomendação CFM nº 1/2016 apresenta justamente elementos que devem compor o consentimento, incluindo justificativa, objetivos, descrição do procedimento, duração, possíveis desconfortos, benefícios, riscos, alternativas, consequências da não realização e cuidados posteriores.

Consentimento informado e autonomia do paciente

A autonomia significa, de maneira simplificada, o direito que uma pessoa capaz possui de participar das decisões sobre sua própria vida e saúde. Isso significa que o paciente não é obrigado a aceitar determinado tratamento simplesmente porque o profissional acredita que aquela seja a melhor opção.

Depois de receber informações adequadas, o paciente pode:

  • aceitar o procedimento;
  • recusar o procedimento;
  • fazer perguntas;
  • pedir esclarecimentos;
  • solicitar tempo para pensar, quando a situação permitir;
  • buscar uma segunda opinião.

O profissional deve respeitar a decisão dentro dos limites éticos e legais aplicáveis. Isso é particularmente importante porque uma decisão diferente daquela desejada pela equipe não significa necessariamente que o paciente “não sabe o que está fazendo”. A autonomia pressupõe justamente que pessoas capazes possam tomar decisões diferentes das que o profissional tomaria.

O paciente pode mudar de ideia depois de assinar?

Sim. Esse é um ponto muito importante. A assinatura do termo não significa que o paciente tenha perdido o direito de mudar sua decisão. O consentimento deve permanecer livre e voluntário.

Se, antes do procedimento, o paciente disser:

“Eu não quero mais fazer.” a equipe não deve simplesmente responder:

“Mas você já assinou.”

É necessário avaliar a situação, compreender o motivo da mudança, comunicar a equipe responsável e registrar adequadamente a decisão. A assinatura não transforma o consentimento em uma obrigação irrevogável.

O que deve constar em um Termo de Consentimento?

O conteúdo pode variar conforme o procedimento, instituição e legislação aplicável. Entretanto, de maneira geral, um termo adequado deve apresentar informações suficientes para que o paciente compreenda aquilo que está autorizando. Entre os elementos importantes estão:

Identificação

Deve haver identificação adequada do paciente e, quando aplicável, de seu representante legal. Também podem constar os profissionais envolvidos e informações de contato, conforme o modelo utilizado.

Descrição do procedimento

O paciente precisa saber o que será realizado. Evitar termos excessivamente técnicos é essencial. Em vez de simplesmente escrever:

“Realização de procedimento invasivo sob sedação.” é importante explicar, de forma compreensível, o que efetivamente acontecerá.

Finalidade

Deve ficar claro por que o procedimento está sendo proposto.

Benefícios esperados

O paciente deve saber quais resultados são esperados. É importante evitar promessas de resultados garantidos quando eles não podem ser assegurados.

Riscos e possíveis complicações

Os riscos relevantes devem ser apresentados de maneira compreensível. Não é necessário assustar o paciente, mas também não se deve esconder informações importantes.

Alternativas

Quando existirem alternativas razoáveis, elas devem ser apresentadas conforme a situação clínica.

Consequências da recusa

O paciente também precisa compreender o que pode acontecer caso decida não realizar o procedimento.

Cuidados posteriores

Quando aplicável, o documento deve informar cuidados necessários após o procedimento. A Recomendação CFM nº 1/2016 inclui esses elementos entre aqueles que devem constar no consentimento livre e esclarecido.

Linguagem simples é fundamental

Um termo de consentimento não deve ser escrito como se tivesse sido produzido exclusivamente para profissionais de saúde. Imagine entregar a um paciente:

“Consentimento para realização de procedimento com possibilidade de intercorrências hemodinâmicas, eventos tromboembólicos e complicações inerentes à abordagem invasiva.”

Para um profissional de saúde, a frase pode parecer relativamente compreensível, para muitos pacientes, não. Por isso, o ideal é explicar os termos técnicos.

Por exemplo:

  • Trombose: formação de um coágulo dentro de um vaso sanguíneo.
  • Hemorragia: sangramento que pode ser significativo dependendo da situação.
  • Sedação: uso de medicamentos para reduzir ansiedade, desconforto ou nível de consciência durante determinado procedimento.

A informação precisa ser adequada ao nível de compreensão do paciente.

Quem deve explicar o procedimento?

Essa é uma questão que merece bastante atenção. O profissional responsável pela realização ou indicação do procedimento deve cumprir as responsabilidades que lhe cabem na obtenção do consentimento, conforme o tipo de intervenção e as normas institucionais e profissionais.

A enfermagem também possui responsabilidades importantes. O profissional de Enfermagem deve garantir que sua atuação respeite a autonomia e o consentimento do paciente. O Código de Ética estabelece que a prática profissional deve ocorrer mediante consentimento prévio do paciente, representante ou responsável legal, ou decisão judicial, ressalvadas as situações previstas na própria norma.

Isso não significa, entretanto, que o técnico de enfermagem deva assumir a responsabilidade de explicar aspectos médicos de um procedimento para os quais não possui competência.

E se o paciente disser que não entendeu?

Esse é um momento em que a equipe precisa parar e esclarecer. Nunca é adequado pensar:

“Ele já assinou.”

Se o paciente demonstra dúvida, o consentimento precisa ser revisto e as informações novamente explicadas pelo profissional competente.

Um paciente que pergunta:

-“Mas existe risco de eu morrer?”; não deve receber simplesmente dizer:

– “Está tudo explicado no papel.”

Essa pergunta demonstra que existe uma preocupação que precisa ser acolhida e esclarecida.

Consentimento e capacidade de decisão

Nem toda pessoa possui capacidade para tomar decisões de saúde de forma autônoma em todas as situações. É necessário avaliar a capacidade de compreensão e decisão de acordo com o contexto.

Uma pessoa pode estar consciente e conversar normalmente, mas ainda assim apresentar alterações que comprometam sua capacidade de compreender determinada decisão. Por isso, estar acordado não é sinônimo de estar automaticamente apto a consentir sobre qualquer procedimento.

Quando o paciente não possui capacidade para decidir, a situação deve ser conduzida conforme a legislação, as normas profissionais e os protocolos institucionais, incluindo a participação de representante ou responsável legal quando aplicável.

Crianças e adolescentes

A situação envolvendo crianças e adolescentes exige atenção especial. Em determinadas circunstâncias, o consentimento é obtido do responsável legal, enquanto a criança ou adolescente pode participar do processo de decisão de acordo com sua capacidade de compreensão.

No contexto de pesquisa com seres humanos, por exemplo, a legislação brasileira diferencia consentimento do responsável e assentimento do participante menor ou legalmente incapaz, considerando sua capacidade de compreensão. A Lei nº 14.874/2024 estabelece regras específicas para pesquisas envolvendo seres humanos.

É importante não confundir automaticamente as regras de pesquisa científica com as regras aplicáveis à assistência clínica cotidiana: cada situação possui normas próprias.

E quando o paciente está inconsciente?

Em uma situação de emergência, o atendimento não pode simplesmente ser interrompido porque não foi possível obter uma assinatura. Existem situações em que o paciente está incapaz de manifestar sua vontade e não há representante disponível, enquanto a intervenção é necessária para preservar sua vida ou evitar dano grave.

Nessas circunstâncias, aplicam-se as exceções previstas na legislação, normas profissionais e protocolos institucionais. O próprio Código de Ética da Enfermagem prevê ressalvas ao consentimento prévio nos casos em que não haja capacidade de decisão e esteja ausente representante ou responsável legal, entre outras situações previstas.

Isso é diferente de simplesmente realizar um procedimento eletivo sem consentimento.

O consentimento informado protege o profissional?

Sim, o documento pode possuir importante valor documental, ético e jurídico. Mas existe uma diferença enorme entre documentar o consentimento e usar o termo como uma espécie de “blindagem” profissional. Imagine que um profissional cometa uma falha técnica durante um procedimento e depois tente justificar:

“Mas o paciente assinou o termo.” Isso não elimina automaticamente a responsabilidade pelo erro.

O consentimento significa que o paciente autorizou determinado procedimento depois de receber informações adequadas. Ele não autoriza o profissional a agir com negligência, imprudência ou imperícia.

O Código de Ética da Enfermagem estabelece responsabilidade profissional por faltas cometidas no exercício das atividades quando caracterizadas as condições previstas no próprio Código.

Portanto:

  • Consentimento não significa autorização para causar dano.
  • O termo também protege o paciente

Essa talvez seja uma das funções mais importantes do documento. O termo não deve ser encarado somente como proteção para o hospital ou para o profissional. Ele também protege o paciente porque documenta que determinadas informações deveriam ter sido apresentadas e que houve participação na decisão. Mais importante ainda: o próprio processo de consentimento ajuda o paciente a compreender melhor aquilo que acontecerá.

Consentimento informado e sigilo

O consentimento também se relaciona com privacidade e confidencialidade. Informações relacionadas à saúde do paciente são dados sensíveis e devem ser protegidas. O Código de Ética da Enfermagem determina o dever de manter sigilo sobre fatos conhecidos em razão da atividade profissional, ressalvadas as situações previstas em lei ou nas normas éticas.

Por isso, documentos de consentimento, prontuários e informações clínicas devem ser manejados de acordo com as normas de segurança e confidencialidade da instituição e da legislação aplicável.

Qual é o papel da Enfermagem?

A enfermagem está muito próxima do paciente durante todo o processo assistencial. Por isso, frequentemente é o profissional de enfermagem quem percebe primeiro que o paciente:

  • não entendeu o procedimento;
  • está inseguro;
  • apresenta dúvidas;
  • mudou de opinião;
  • está com medo;
  • não compreendeu os riscos;
  • acredita que está assinando outra coisa.

Nessas situações, a equipe de enfermagem deve acolher o paciente e comunicar o profissional responsável, evitando ultrapassar seus limites de competência. O Código de Ética também estabelece que o profissional de Enfermagem deve atuar de maneira autônoma e respeitar os direitos humanos, incluindo liberdade, dignidade, segurança pessoal e livre escolha.

Cuidados de enfermagem relacionados ao consentimento informado

Antes de um procedimento, a enfermagem pode contribuir para que o processo seja mais seguro verificando se o paciente está adequadamente identificado e se a documentação necessária está disponível, de acordo com o protocolo institucional. Também é importante observar se existe alguma situação que possa comprometer a compreensão ou a segurança do paciente.

Por exemplo, um paciente muito sedado, confuso ou com alteração importante do nível de consciência não deve ser tratado da mesma maneira que um paciente plenamente orientado.

Outro cuidado importante é não induzir a resposta do paciente.

Perguntar:

-“Você vai assinar, não é?”; é diferente de perguntar:

-“Você entendeu o procedimento e gostaria que eu chamasse o profissional responsável para esclarecer alguma dúvida?”

A segunda abordagem respeita muito mais a autonomia.

O que a enfermagem deve fazer se o paciente se recusar?

A recusa deve ser tratada com seriedade. O profissional não deve ameaçar, constranger ou ridicularizar o paciente. Uma abordagem adequada é compreender o motivo:

-“Você poderia me explicar o que está deixando você inseguro?”

Talvez o paciente tenha medo da dor. Talvez não tenha entendido o procedimento, talvez tenha recebido uma informação diferente de outro profissional ou talvez simplesmente não queira realizar o procedimento. Depois disso, a situação deve ser comunicada à equipe responsável e documentada conforme os protocolos institucionais.

O direito à autonomia não desaparece simplesmente porque a decisão do paciente é diferente daquela desejada pela equipe.

Termo de consentimento e prontuário

O termo normalmente integra a documentação assistencial e deve ser arquivado conforme as regras da instituição. A documentação precisa permitir identificar:

  • quem consentiu;
  • para qual procedimento;
  • quando;
  • em quais condições;
  • quem prestou as informações;
  • e quais documentos foram utilizados.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, prevê a existência de vias do termo, com uma destinada ao paciente e outra para arquivamento no prontuário médico. Os detalhes podem variar conforme o procedimento, instituição e regulamentação aplicável.

Consentimento informado não é o mesmo que autorização genérica

Essa diferença é muito importante. Um documento dizendo:

“Autorizo todos os procedimentos necessários.” é muito mais genérico do que um consentimento específico e esclarecido para determinada intervenção.

O paciente precisa saber o que está autorizando. Quanto mais relevante, invasivo ou complexo for o procedimento, maior é a importância de uma comunicação adequada e específica.

Consentimento para procedimentos de enfermagem

A relação entre consentimento e enfermagem não se limita a cirurgias. A assistência de enfermagem também envolve procedimentos que podem exigir consentimento conforme sua natureza, riscos, normas profissionais e protocolos institucionais.

Exemplos podem incluir determinados procedimentos invasivos, coleta de materiais, inserção de dispositivos, administração de determinados tratamentos ou participação em procedimentos específicos. O profissional precisa conhecer as normas institucionais e profissionais relacionadas à sua atividade.

O princípio geral permanece:

“o paciente não deve ser submetido a uma intervenção contra sua vontade, salvo as situações excepcionais previstas em lei e nas normas aplicáveis.”

Termo de consentimento e pesquisa científica

É importante fazer uma distinção. O consentimento para assistência à saúde não é exatamente a mesma coisa que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido utilizado em pesquisas com seres humanos. A pesquisa possui regras próprias.

A Lei nº 14.874/2024 dispõe sobre pesquisas com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, estabelecendo princípios e regras específicas para essa atividade.

Em pesquisas, o consentimento precisa abordar aspectos específicos relacionados à participação do indivíduo, riscos, benefícios, voluntariedade, proteção e demais exigências previstas nas normas aplicáveis.

Um exemplo prático para o estudante de enfermagem

Imagine que um paciente esteja internado e será submetido a um procedimento. Antes de encaminhá-lo, o técnico de enfermagem percebe que ele pergunta:

-“Mas o que exatamente vão fazer comigo?” Esse momento é um sinal de alerta.

A resposta não deve ser:

-“Está tudo no termo que você assinou.”

O profissional pode acolher a dúvida e verificar se o paciente recebeu as informações necessárias, acionando o enfermeiro e/ou profissional responsável pelo procedimento para esclarecimento. Isso é segurança do paciente.

O objetivo não é simplesmente conferir se existe uma assinatura no papel e sim verificar se o processo de cuidado está acontecendo de forma segura, ética e respeitosa.

Principais erros relacionados ao consentimento informado

Um dos erros mais comuns é transformar o termo em uma mera formalidade administrativa. Outro erro é entregar o documento sem explicar seu conteúdo. Também é inadequado utilizar linguagem excessivamente técnica, omitir riscos relevantes, pressionar o paciente para assinar ou tratar a assinatura como autorização para qualquer procedimento futuro.

Outro problema é não registrar adequadamente situações em que o paciente demonstra dúvida, recusa ou mudança de decisão. A enfermagem deve estar atenta a esses sinais.

O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando a trabalhar, pense em cinco palavras:

Informação.

O paciente precisa receber informações adequadas.

Compreensão.

Não basta entregar o documento; é necessário que a informação seja compreensível.

Liberdade.

A decisão não deve ser obtida por ameaça ou coerção.

Autonomia.

O paciente participa da decisão sobre seu próprio cuidado.

Registro.

O processo deve ser documentado adequadamente. Esses cinco pontos ajudam a entender a essência do consentimento informado.

Consentimento informado: não é apenas uma assinatura

O Termo de Consentimento Informado representa uma mudança importante na relação entre profissional e paciente. Durante muito tempo, o modelo de assistência foi fortemente baseado na ideia de que o profissional decidiria e o paciente simplesmente seguiria as orientações. Hoje, a assistência ética valoriza cada vez mais a autonomia, a informação e a participação do paciente.

Para a Enfermagem, isso significa compreender que cuidar não é apenas executar procedimentos. Cuidar também é informar, ouvir, respeitar, orientar, proteger e reconhecer o direito do paciente de participar das decisões sobre sua própria saúde. O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem é bastante claro ao estabelecer o respeito à autonomia da pessoa e ao consentimento prévio para a prática profissional, dentro das situações e exceções previstas.

Portanto, quando você encontrar um Termo de Consentimento Informado no ambiente hospitalar, não pense apenas:

“Preciso conferir se está assinado.”

Pense:

“O paciente sabe o que está acontecendo? Entendeu? Teve oportunidade de perguntar? Está decidindo livremente? E sua decisão está sendo respeitada?” Essa é a essência do consentimento informado.

Referências:

  1. BRASIL. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a pesquisa com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Lei nº 14.874/2024 – Planalto
  2.  

    CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Resolução Cofen nº 564/2017

  3. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Recomendação CFM nº 1/2016. Dispõe sobre o processo de obtenção de consentimento livre e esclarecido para assistência médica. Brasília, DF: CFM, 2016. Recomendação CFM nº 1/2016
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 556/2017, alterada pelas Resoluções Cofen nº 700/2022 e nº 757/2024. Regulamenta a atividade do enfermeiro forense e apresenta modelo de Termo de Consentimento Informado no âmbito de suas disposições. Brasília, DF: Cofen. Resolução Cofen nº 556/2017 e alterações
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Entra em vigor novo Código de Ética da Enfermagem brasileira. Brasília, DF: Cofen, 2018. Cofen – Novo Código de Ética da Enfermagem
  6. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

Síndrome de Abstinência de Sedativos e Hipnóticos

A Síndrome de Abstinência de Sedativos e Hipnóticos é uma condição potencialmente grave que ocorre quando uma pessoa interrompe abruptamente ou reduz rapidamente o uso de medicamentos depressores do sistema nervoso central após um período prolongado de utilização. Esses medicamentos são amplamente utilizados no tratamento da ansiedade, insônia, epilepsia, sedação em pacientes críticos e durante procedimentos médicos.

Embora muitos pacientes acreditem que apenas drogas ilícitas possam causar abstinência, diversos medicamentos prescritos rotineiramente também podem provocar dependência física quando utilizados por semanas ou meses. Entre eles destacam-se os benzodiazepínicos, barbitúricos e alguns hipnóticos não benzodiazepínicos.

Na prática hospitalar, especialmente em unidades de terapia intensiva (UTI), emergência e enfermarias, a equipe de enfermagem desempenha papel essencial na identificação precoce dos sinais de abstinência, contribuindo para reduzir complicações potencialmente fatais, como convulsões, delirium e insuficiência respiratória.

Hoje  você compreenderá de forma simples como ocorre essa síndrome, quais medicamentos estão envolvidos, seus principais sintomas, formas de tratamento e os cuidados de enfermagem indispensáveis.

O que é a síndrome de abstinência de sedativos e hipnóticos?

A síndrome de abstinência corresponde ao conjunto de sinais e sintomas que surgem quando um medicamento que vinha sendo utilizado continuamente é interrompido de forma abrupta ou reduzido muito rapidamente.

No caso dos sedativos e hipnóticos, o organismo acaba se adaptando à presença constante dessas substâncias. Quando elas deixam de estar disponíveis, ocorre uma hiperatividade do sistema nervoso central.

Em outras palavras, durante o uso prolongado desses medicamentos o cérebro “aprende” a funcionar com eles. Quando são retirados repentinamente, ocorre um verdadeiro “efeito rebote”, fazendo com que a atividade cerebral fique excessivamente estimulada.

Dependendo do medicamento utilizado, da dose e do tempo de uso, a abstinência pode variar desde sintomas leves até situações com risco de morte.

O que são sedativos e hipnóticos?

São medicamentos que diminuem a atividade do sistema nervoso central. Embora muitas pessoas utilizem esses termos como sinônimos, existe uma pequena diferença.

Sedativos diminuem a ansiedade, promovem relaxamento e reduzem a agitação, já os Hipnóticos têm como principal objetivo induzir ou manter o sono. Na prática, diversos medicamentos possuem ambos os efeitos.

Quais medicamentos podem causar essa síndrome?

Os principais grupos são:

Benzodiazepínicos

São os medicamentos mais frequentemente relacionados à síndrome de abstinência.

Entre eles estão:

  • Diazepam
  • Midazolam
  • Lorazepam
  • Clonazepam
  • Alprazolam
  • Bromazepam
  • Nitrazepam
  • Flunitrazepam
  • Oxazepam

Barbitúricos

Hoje são menos utilizados, porém apresentam elevado risco de dependência.

Exemplos:

  • Fenobarbital
  • Tiopental
  • Pentobarbital

Hipnóticos não benzodiazepínicos

Conhecidos popularmente como “medicamentos Z”.

Entre eles:

  • Zolpidem
  • Zopiclona
  • Eszopiclona
  • Zaleplona

Embora considerados mais seguros, também podem provocar abstinência após uso prolongado.

Outros medicamentos

Dependendo do tempo de utilização, também podem estar envolvidos:

  • Cloral hidratado
  • Meprobamato
  • Alguns anticonvulsivantes sedativos

Como esses medicamentos agem?

A maioria atua aumentando a ação do neurotransmissor GABA (ácido gama-aminobutírico). O GABA funciona como o principal “freio” do cérebro.

Quando os sedativos potencializam sua ação, ocorre:

  • relaxamento;
  • redução da ansiedade;
  • sonolência;
  • diminuição da atividade cerebral;
  • ação anticonvulsivante;
  • relaxamento muscular.

Após semanas ou meses de uso contínuo, o cérebro reduz sua sensibilidade ao GABA. Quando o medicamento é retirado, esse “freio” desaparece, fazendo com que o cérebro fique hiperestimulado.

Quem apresenta maior risco?

O risco aumenta quando existe:

  • uso diário por várias semanas;
  • doses elevadas;
  • idosos;
  • pacientes internados em UTI;
  • uso prolongado de sedação contínua;
  • associação de vários sedativos;
  • interrupção abrupta do medicamento;
  • histórico de dependência química.

Quando os sintomas aparecem?

O início depende da meia-vida do medicamento. Medicamentos de ação curta costumam produzir sintomas entre 6 e 24 horas após a suspensão. Já os de ação longa podem levar de 2 a 7 dias para iniciar a abstinência.

Quais são os sintomas?

Os sintomas variam bastante conforme o medicamento utilizado.

Sintomas leves

Podem incluir:

  • ansiedade;
  • irritabilidade;
  • inquietação;
  • tremores finos;
  • insônia;
  • sudorese;
  • cefaleia;
  • dificuldade de concentração;
  • náuseas;
  • palpitações.

Sintomas moderados

O paciente pode apresentar:

  • tremores intensos;
  • hipertensão arterial;
  • taquicardia;
  • febre baixa;
  • hipersensibilidade à luz;
  • hipersensibilidade ao som;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • dor abdominal;
  • fraqueza.

Sintomas graves

São considerados emergência médica.

Podem ocorrer:

  • convulsões;
  • delirium;
  • alucinações;
  • desorientação;
  • agitação psicomotora intensa;
  • psicose;
  • hipertermia;
  • rabdomiólise;
  • insuficiência respiratória;
  • coma.

Sem tratamento, alguns casos podem evoluir para óbito.

Como diferenciar abstinência de intoxicação?

Essa é uma dúvida bastante comum.

Intoxicação

O paciente geralmente apresenta:

  • sonolência;
  • fala lenta;
  • pupilas pouco reativas (dependendo do medicamento);
  • diminuição da frequência respiratória;
  • redução do nível de consciência.

Abstinência

O paciente apresenta justamente o oposto:

  • ansiedade intensa;
  • tremores;
  • hipertensão;
  • taquicardia;
  • agitação;
  • insônia;
  • hiperatividade do sistema nervoso.

Síndrome de abstinência na UTI

A síndrome é bastante frequente em pacientes críticos. Muitos permanecem sedados durante vários dias utilizando:

  • Midazolam;
  • Propofol (embora o mecanismo seja diferente, sua retirada também pode exigir atenção);
  • Dexmedetomidina;
  • Opioides associados.

Quando ocorre a redução rápida da sedação, podem surgir:

  • agitação;
  • hipertensão;
  • taquicardia;
  • dificuldade para desmame ventilatório;
  • delirium;
  • aumento do consumo de oxigênio.

Por isso, a retirada costuma ser feita de forma gradual e protocolada.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é predominantemente clínico.

O profissional considera:

  • histórico do uso do medicamento;
  • tempo de utilização;
  • momento da suspensão;
  • sintomas apresentados;
  • exclusão de outras causas.

Em pacientes críticos, escalas de sedação e delirium podem auxiliar na avaliação.

Como é realizado o tratamento?

O objetivo principal é controlar os sintomas e evitar complicações.

Na maioria dos casos, recomenda-se:

  • reintrodução do sedativo quando necessário;
  • redução gradual da dose (desmame);
  • monitorização contínua;
  • tratamento das complicações.

Nos benzodiazepínicos, frequentemente utiliza-se um fármaco de meia-vida mais longa, como o diazepam, para facilitar uma redução lenta e segura, conforme avaliação médica. Pacientes com convulsões ou delirium geralmente necessitam de internação.

Como prevenir a síndrome?

A prevenção é sempre a melhor estratégia.

Ela inclui:

  • evitar uso prolongado sem necessidade;
  • utilizar a menor dose eficaz;
  • revisar periodicamente a necessidade do medicamento;
  • realizar retirada gradual;
  • orientar adequadamente o paciente;
  • evitar suspensão abrupta.

Possíveis complicações

Quando não tratada adequadamente, a síndrome pode evoluir com:

  • estado de mal epiléptico;
  • trauma por quedas;
  • broncoaspiração;
  • insuficiência respiratória;
  • rabdomiólise;
  • distúrbios hidroeletrolíticos;
  • delirium prolongado;
  • morte.

Curiosidades

Os benzodiazepínicos estão entre os medicamentos psicotrópicos mais prescritos no mundo. O uso contínuo por poucas semanas já pode iniciar processos de tolerância e dependência em alguns indivíduos. Quanto menor a meia-vida do medicamento, mais rapidamente costuma surgir a abstinência.

Pacientes internados por longos períodos em UTI frequentemente necessitam de protocolos específicos para retirada gradual da sedação, reduzindo o risco da síndrome de abstinência e facilitando o desmame da ventilação mecânica.

Cuidados de enfermagem

A equipe de enfermagem possui papel fundamental na identificação precoce e no acompanhamento desses pacientes. Entre os principais cuidados estão:

  • Realizar monitorização frequente dos sinais vitais, observando taquicardia, hipertensão, febre e alterações respiratórias.
  • Avaliar continuamente o nível de consciência utilizando escalas padronizadas, como a Escala de Coma de Glasgow, quando aplicável, além de escalas de sedação e delirium em pacientes críticos.
  • Observar sinais precoces de abstinência, como ansiedade, tremores, sudorese, inquietação e insônia, comunicando imediatamente a equipe médica.
  • Manter ambiente calmo, silencioso e com pouca estimulação luminosa, principalmente em pacientes com agitação ou delirium.
  • Implementar medidas de prevenção de quedas e lesões, especialmente em pacientes desorientados ou com tremores intensos.
  • Administrar corretamente os medicamentos prescritos para o controle da abstinência, respeitando horários e monitorando possíveis efeitos adversos.
  • Monitorar o risco de convulsões e manter equipamentos de emergência disponíveis quando indicado.
  • Avaliar a hidratação, aceitação alimentar e balanço hídrico, principalmente em pacientes com náuseas, vômitos ou sudorese intensa.
  • Orientar paciente e familiares sobre a importância de nunca interromper benzodiazepínicos ou outros sedativos de forma abrupta sem acompanhamento médico.
  • Registrar cuidadosamente todas as alterações clínicas e a evolução dos sintomas durante o período de desmame.

A síndrome de abstinência de sedativos e hipnóticos é uma condição potencialmente grave, mas que pode ser amplamente prevenida quando o uso desses medicamentos é realizado de forma racional e sua suspensão ocorre de maneira gradual. O reconhecimento precoce dos sintomas é essencial para evitar complicações importantes, como convulsões, delirium e instabilidade hemodinâmica.

Na enfermagem, o monitoramento contínuo, a avaliação clínica criteriosa e a comunicação efetiva com a equipe multiprofissional são fundamentais para garantir a segurança do paciente durante o processo de retirada da sedação. Com conhecimento técnico e cuidados individualizados, é possível reduzir riscos, favorecer a recuperação e proporcionar uma assistência mais segura e humanizada.

Referências:

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). 5. ed. rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022. Disponível em: https://www.psychiatry.org
  2. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  3. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
  4. MILLER, R. D. et al. Miller’s Anesthesia. 10. ed. Philadelphia: Elsevier, 2024.
  5. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P. A.; HALL, A. M. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.
  6. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Clinical Practice Guidelines for Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU (PADIS Guidelines). Disponível em: https://www.sccm.org
  7. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on the management of substance withdrawal. Disponível em: https://www.who.int
  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas em saúde mental e dependência química. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  9. SMELTZER, Suzanne C. et al. Brunnér & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/

Indicações e contraindicações do uso de antibióticos: quando utilizar, quando evitar e os principais cuidados na enfermagem

Os antibióticos revolucionaram a medicina moderna e estão entre os medicamentos mais importantes já descobertos. Antes de sua existência, infecções que hoje são facilmente tratadas frequentemente levavam à morte. Atualmente, esses medicamentos salvam milhões de vidas todos os anos, permitindo a realização de cirurgias complexas, transplantes de órgãos, tratamentos oncológicos e o cuidado seguro de pacientes graves.

Entretanto, apesar de sua enorme importância, os antibióticos também estão entre os medicamentos mais utilizados de forma inadequada. Seu uso sem necessidade, em doses incorretas ou por tempo insuficiente contribui diretamente para um dos maiores desafios da saúde mundial: a resistência bacteriana.

Por esse motivo, conhecer as indicações, contraindicações, limitações e cuidados relacionados ao uso dos antibióticos é essencial para estudantes e profissionais da saúde, especialmente para a equipe de enfermagem, que acompanha todo o processo de administração, monitorização e orientação ao paciente.

Aqui você aprenderá quando os antibióticos realmente são indicados, em quais situações não devem ser utilizados, como eles atuam no organismo, seus principais efeitos adversos e quais cuidados de enfermagem garantem uma administração segura.

O que são antibióticos?

Os antibióticos são medicamentos desenvolvidos para combater infecções causadas por bactérias. Eles atuam eliminando as bactérias (efeito bactericida) ou impedindo seu crescimento e multiplicação (efeito bacteriostático), permitindo que o sistema imunológico consiga controlar a infecção.

É importante destacar que antibióticos não combatem vírus, fungos ou parasitas, salvo algumas exceções específicas relacionadas a medicamentos com múltiplas ações.

Como surgiram os antibióticos?

A história dos antibióticos começou em 1928, quando o médico e microbiologista escocês Alexander Fleming observou que um fungo do gênero Penicillium era capaz de impedir o crescimento de bactérias em uma placa de cultura. Essa descoberta levou ao desenvolvimento da penicilina, considerada o primeiro antibiótico da história.

Desde então, centenas de antibióticos foram desenvolvidos, permitindo tratar infecções cada vez mais complexas.

Como os antibióticos funcionam?

Cada antibiótico possui um mecanismo de ação específico. Alguns destroem a parede celular da bactéria. Outros impedem a produção de proteínas essenciais para sua sobrevivência.

Há ainda medicamentos que interferem na síntese do DNA bacteriano ou bloqueiam seu metabolismo. Essa especificidade explica por que nem todo antibiótico serve para tratar qualquer infecção.

Quais são os principais tipos de antibióticos?

Os antibióticos podem ser classificados conforme sua estrutura química e mecanismo de ação.

Entre os grupos mais utilizados estão:

  • Penicilinas
  • Cefalosporinas
  • Carbapenêmicos
  • Monobactâmicos
  • Macrolídeos
  • Aminoglicosídeos
  • Quinolonas (fluoroquinolonas)
  • Tetraciclinas
  • Sulfonamidas
  • Glicopeptídeos
  • Oxazolidinonas
  • Lincosamidas
  • Nitroimidazóis
  • Polimixinas

Cada grupo possui espectro de ação, indicações, contraindicações e efeitos adversos próprios.

Quando os antibióticos são indicados?

Os antibióticos devem ser utilizados somente quando existe suspeita clínica ou confirmação de infecção bacteriana.

As principais indicações incluem:

Pneumonia bacteriana

Uma das indicações mais frequentes. Dependendo da gravidade, o tratamento pode ser realizado por via oral ou endovenosa.

Infecção urinária bacteriana

Principalmente quando há sintomas como:

  • dor ao urinar;
  • aumento da frequência urinária;
  • febre;
  • dor lombar.

Meningite bacteriana

Representa uma emergência médica. O tratamento deve ser iniciado rapidamente.

Sepse

Pacientes com sepse devem receber antibióticos o mais precocemente possível, preferencialmente na primeira hora após o reconhecimento da condição.

Infecções de pele

Como:

  • celulite;
  • erisipela;
  • abscessos (associados à drenagem quando indicada).

Osteomielite

Infecção do tecido ósseo que frequentemente necessita de tratamento prolongado.

Endocardite infecciosa

Infecção grave das válvulas cardíacas.  Geralmente requer antibioticoterapia intravenosa por várias semanas.

Infecções odontológicas bacterianas

Quando existe disseminação da infecção ou comprometimento sistêmico.

Algumas infecções sexualmente transmissíveis

Como:

  • sífilis;
  • gonorreia;
  • clamídia.

Profilaxia cirúrgica

Em determinadas cirurgias, antibióticos são administrados antes da incisão para reduzir o risco de infecção do sítio cirúrgico.

Vale destacar que a profilaxia cirúrgica possui tempo e indicação específicos, não devendo ser prolongada sem justificativa clínica.

Quando os antibióticos NÃO são indicados?

Essa é uma das dúvidas mais importantes. Antibióticos não devem ser utilizados para doenças causadas por vírus.

Entre elas:

  • gripe;
  • resfriado comum;
  • COVID-19 (sem infecção bacteriana associada);
  • dengue;
  • chikungunya;
  • zika;
  • sarampo;
  • rubéola;
  • caxumba;
  • catapora.

Também não são indicados para aliviar sintomas como febre, dor de garganta ou tosse quando a causa é viral. Nessas situações, o tratamento costuma ser apenas sintomático.

Existem contraindicações para o uso de antibióticos?

Sim. Embora muitas vezes sejam indispensáveis, existem situações em que determinados antibióticos não devem ser utilizados. As contraindicações variam conforme o medicamento. Entre as principais estão:

Hipersensibilidade conhecida

É a contraindicação mais importante. Pacientes com histórico de alergia grave a determinado antibiótico não devem recebê-lo novamente, salvo em situações muito específicas e sob supervisão especializada.

Gravidez

Alguns antibióticos apresentam risco fetal.

Exemplos:

  • tetraciclinas;
  • algumas quinolonas.

Outros são considerados seguros quando indicados.

Amamentação

Nem todos os antibióticos são compatíveis com o aleitamento. A decisão depende do medicamento utilizado.

Insuficiência renal

Diversos antibióticos necessitam de ajuste de dose. Sem esse ajuste pode ocorrer toxicidade.

Insuficiência hepática

Alguns medicamentos apresentam metabolismo hepático importante e exigem cautela.

Miastenia gravis

Certos antibióticos, como alguns aminoglicosídeos e fluoroquinolonas, podem agravar a fraqueza muscular.

Crianças

Alguns grupos possuem restrições conforme a idade.

Por exemplo:

  • tetraciclinas podem causar alterações na formação dentária;
  • fluoroquinolonas possuem indicações bastante específicas na população pediátrica.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns?

Os efeitos adversos variam conforme o medicamento.

Os mais frequentes incluem:

  • náuseas;
  • vômitos;
  • diarreia;
  • dor abdominal;
  • alterações do paladar;
  • candidíase oral;
  • candidíase vaginal.

Reações adversas graves

Embora menos frequentes, podem ocorrer:

Essas situações exigem atendimento imediato.

O que é resistência bacteriana?

A resistência bacteriana ocorre quando as bactérias desenvolvem mecanismos que tornam os antibióticos ineficazes.

Isso acontece principalmente devido ao uso inadequado desses medicamentos.

Entre as principais causas estão:

  • automedicação;
  • interrupção precoce do tratamento;
  • uso para infecções virais;
  • doses incorretas;
  • uso indiscriminado na agropecuária.

A Organização Mundial da Saúde considera a resistência bacteriana uma das maiores ameaças atuais à saúde pública.

Por que é importante completar o tratamento?

Mesmo que os sintomas desapareçam rapidamente, algumas bactérias podem permanecer vivas.

Interromper o tratamento antes do tempo favorece:

  • recaídas;
  • resistência bacteriana;
  • infecções mais difíceis de tratar.

Entretanto, é importante ressaltar que atualmente alguns tratamentos possuem duração menor do que antigamente, pois estudos demonstraram que esquemas mais curtos são suficientes para determinadas infecções. O tempo correto deve sempre seguir a prescrição médica e os protocolos clínicos.

Antibióticos podem ser usados como prevenção?

Sim, mas apenas em situações específicas.

Entre elas:

  • profilaxia cirúrgica;
  • algumas mordeduras de animais;
  • prevenção de endocardite em pacientes de alto risco submetidos a determinados procedimentos;
  • profilaxia pós-exposição em algumas doenças infecciosas.

O uso preventivo indiscriminado não é recomendado.

Cuidados de enfermagem na administração de antibióticos

A equipe de enfermagem desempenha um papel fundamental para garantir a segurança e a eficácia da antibioticoterapia.

Antes da administração, é importante:

  • confirmar os “certos” da administração de medicamentos;
  • verificar histórico de alergias, especialmente a penicilinas, cefalosporinas e outros antimicrobianos;
  • conferir dose, diluição, tempo de infusão e compatibilidade quando administrado por via intravenosa;
  • observar função renal e hepática quando indicado;
  • avaliar cultura e antibiograma disponíveis, conforme prescrição médica.

Durante a administração, o profissional deve:

  • respeitar o tempo de infusão recomendado;
  • monitorar sinais de reação alérgica;
  • observar o acesso venoso para identificar sinais de infiltração ou flebite;
  • monitorar sinais vitais quando necessário.

Após a administração:

  • registrar o medicamento administrado;
  • acompanhar a resposta clínica;
  • monitorar possíveis efeitos adversos;
  • orientar o paciente sobre a importância de completar o tratamento conforme prescrição.

Curiosidades sobre os antibióticos

A penicilina foi responsável por reduzir drasticamente a mortalidade por infecções bacterianas durante a Segunda Guerra Mundial. Nem toda febre significa necessidade de antibiótico.

Existem bactérias naturalmente resistentes a determinados medicamentos. O antibiograma é um exame laboratorial que identifica quais antibióticos são eficazes contra determinada bactéria.

Os programas de Antimicrobial Stewardship (Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos) têm como objetivo promover o uso racional de antibióticos, reduzindo a resistência bacteriana e melhorando os resultados clínicos.

Os antibióticos transformaram a medicina e continuam sendo essenciais no tratamento de inúmeras infecções bacterianas. No entanto, seu uso deve ser criterioso, baseado em avaliação clínica, exames complementares quando necessários e protocolos atualizados.

Para a enfermagem, compreender as indicações, contraindicações, mecanismos de ação e principais cuidados relacionados à antibioticoterapia é indispensável para oferecer uma assistência segura e de qualidade. Além da administração correta, a orientação ao paciente e a vigilância de reações adversas são etapas fundamentais para garantir o sucesso do tratamento e contribuir para o combate à resistência bacteriana.

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Resistência Antimicrobiana em Serviços de Saúde. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br.
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA (SBI). Diretrizes para o uso de antibióticos. São Paulo: SBI, 2024. Disponível em: https://infectologia.org.br/.
  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa
  5. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Antimicrobial resistance. Genebra: WHO. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/antimicrobial-resistance
  6. KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 16. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  7. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.
  8. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.

INR (Razão Normalizada Internacional): o que é, para que serve e sua importância na prática da enfermagem

A INR, ou Razão Normalizada Internacional, é um dos exames laboratoriais mais importantes na avaliação da coagulação sanguínea. Seu principal uso está no acompanhamento de pacientes que fazem uso de anticoagulantes orais, especialmente a varfarina, mas sua interpretação vai muito além disso.

Para a enfermagem, compreender o significado da INR, seus valores de referência, o que significa um “INR alargado” e quais cuidados devem ser adotados é essencial para garantir a segurança do paciente e prevenir eventos graves como hemorragias ou tromboses.

O Que é o INR e Por Que Ele Foi Criado?

Antes da década de 1980, monitorar a coagulação de pacientes em diferentes hospitais era um desafio caótico. Cada laboratório utilizava um reagente diferente para o teste de Tempo de Protrombina (TP), o que gerava resultados inconsistentes. O mesmo paciente poderia ter um tempo de coagulação considerado “seguro” em um hospital e “perigoso” em outro.

Para resolver isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) padronizou o processo através do INR. O INR não é um teste novo, mas sim um cálculo matemático que ajusta o resultado do Tempo de Protrombina do paciente de acordo com a sensibilidade do reagente utilizado pelo laboratório, chamado de ISI (Índice de Sensibilidade Internacional).

Basicamente, a fórmula aplicada é o Tempo de Protrombina do paciente dividido pelo Tempo de Protrombina médio normal, elevado à potência do ISI. O resultado é um número adimensional que pode ser comparado em qualquer lugar do mundo, garantindo que um INR de 2,5 no Brasil signifique exatamente a mesma coisa que um de 2,5 no Japão.

Valores de Referência e Alvos Terapêuticos

Em uma pessoa saudável, que não utiliza medicamentos anticoagulantes, o valor do INR costuma estar próximo de 1,0. Quando um paciente inicia a terapia com anticoagulantes orais, como a Varfarina (Marevan ou Coumadin), o objetivo é “esticar” propositalmente o tempo que o sangue leva para coagular para evitar a formação de coágulos em válvulas cardíacas mecânicas, fibrilação atrial ou após uma trombose venosa profunda.

Na maioria das indicações clínicas, o alvo terapêutico gira em torno de 2,0 a 3,0. Em casos de maior risco embólico, como em algumas próteses valvares metálicas, esse alvo pode ser mais alto, entre 2,5 e 3,5. Abaixo desses valores, o paciente está em risco de sofrer um evento isquêmico (trombose ou AVC); acima deles, o risco é de sangramento.

O Que Significa o Termo “INR Alargado”?

Durante o seu plantão ou em discussões de caso clínico, você ouvirá frequentemente o termo INR alargado. Na linguagem técnica da saúde, “alargar” um tempo de coagulação significa que o sangue está levando muito mais tempo do que o normal (ou do que o desejado) para formar um coágulo.

Um INR alargado ocorre quando o valor ultrapassa o limite superior do alvo terapêutico. Se o alvo do paciente é até 3,0 e o resultado chega em 5,0 ou 6,0, dizemos que o INR está perigosamente alargado. Isso coloca o paciente em um estado crítico de risco hemorrágico, onde pequenos traumas ou até mesmo a pressão arterial elevada podem causar sangramentos espontâneos em órgãos vitais, como o cérebro.

As causas para um INR alargado são variadas e a enfermagem deve estar atenta a elas: erros de dosagem do medicamento, interações medicamentosas (como o uso de alguns antibióticos que potencializam a varfarina), consumo reduzido de alimentos ricos em vitamina K (que ajudam na coagulação) ou disfunção hepática severa, já que a maioria dos fatores de coagulação é produzida no fígado.

O que significa INR baixo?

Quando a INR está abaixo do valor terapêutico esperado, o sangue coagula mais rápido do que deveria. Isso aumenta o risco de trombose, podendo resultar em:

  • Trombose venosa profunda;
  • Embolia pulmonar;
  • AVC isquêmico;
  • Oclusão de próteses valvares

Esse cenário também exige atenção imediata, pois pode indicar subdose do anticoagulante ou falha no tratamento.

Relação entre INR, TP e TTPa

A INR é derivada do Tempo de Protrombina (TP) e avalia principalmente a via extrínseca da coagulação. Já o TTPa (Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada) avalia a via intrínseca.

Na prática, a INR é o parâmetro principal para monitorar varfarina, enquanto o TTPa é usado para monitorar heparina não fracionada.

Cuidados de enfermagem relacionados à INR

O papel da enfermagem no manejo do INR é multifacetado e exige proatividade. Não basta apenas comunicar o valor ao médico; é preciso avaliar o paciente como um todo.

Monitorização de Sinais de Sangramento

O enfermeiro deve realizar um exame físico minucioso em busca de sinais de sangramento, mesmo que o paciente não apresente queixas. Devemos observar a presença de petéquias, equimoses (manchas roxas) sem causa traumática, sangramento gengival durante a higiene oral e epistaxe (sangramento nasal). Além disso, é fundamental orientar o paciente a observar a cor da urina (hematúria) e das fezes (melena ou sangue vivo).

Cuidados com a Segurança no Leito

Para pacientes com INR alargado, o risco de queda torna-se uma emergência potencial. Uma queda simples que causaria apenas um hematoma em uma pessoa comum pode causar uma hemorragia intracraniana fatal em um paciente anticoagulado. Portanto, as grades do leito devem estar sempre elevadas, o ambiente livre de obstáculos e o paciente orientado a não se levantar sem auxílio.

Educação em Saúde: A Dieta e os Medicamentos

A orientação sobre a vitamina K é talvez o ponto onde a enfermagem mais brilha. Não se deve proibir o paciente de comer folhas verdes (como brócolis, espinafre e couve), mas sim orientá-lo a manter uma ingestão constante. Mudanças bruscas na dieta — como comer muita salada em uma semana e nada na outra — causam oscilações violentas no INR. Além disso, o paciente deve ser alertado sobre o uso de automedicação, especialmente anti-inflamatórios e aspirina, que podem aumentar drasticamente o risco de sangramento.

A importância da INR na segurança do paciente

A INR é um exame simples, mas com impacto direto na prevenção de eventos graves. Seu controle adequado reduz o risco tanto de trombose quanto de hemorragias, sendo um verdadeiro indicador de equilíbrio terapêutico.

Para a enfermagem, compreender o significado da INR e saber agir diante de valores alterados é uma competência essencial para a prática segura e baseada em evidências.

A INR é um parâmetro fundamental na avaliação da coagulação sanguínea, especialmente em pacientes em uso de anticoagulantes orais. O termo “INR alargado” indica aumento do risco de sangramento e exige vigilância clínica constante.

O domínio desse conhecimento permite à enfermagem atuar de forma preventiva, identificar precocemente complicações e contribuir para a segurança e qualidade da assistência.

Mais do que um número no exame, a INR representa um dado clínico que precisa ser interpretado com responsabilidade e visão integral do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Manual de Vigilância Sanitária sobre Eventos Adversos a Medicamentos. Brasília: Anvisa, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  2. BRUNTON, Laurence L.; HILAL-DANDAN, Randa; KNOLLMANN, Björn C. As Bases Farmacológicas da Terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019.
  3. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Guia de Bolso de Farmacologia para Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2021. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  4. GUYTON, Arthur C.; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  5. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Standardization of Prothrombin Time and INR. 2024. Disponível em: https://www.who.int/bloodproducts/publications/en/
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de anticoagulação oral. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br 
  7. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022.
  8. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Fundamentos de hematologia. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
  9. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretriz de anticoagulação oral. Disponível em: https://www.cardiol.br
  10. MAYO CLINIC. INR test: What it is and why it’s done. Disponível em: https://www.mayoclinic.org

Carrinho de Banho Hospitalar: o que deve conter e o que a Enfermagem precisa saber

O banho no leito é muito mais do que um procedimento de higiene. Trata-se de um cuidado essencial da enfermagem, capaz de promover conforto, prevenir infecções, reduzir o risco de lesões por pressão, preservar a integridade da pele e proporcionar bem-estar físico e emocional ao paciente.

Para que esse procedimento seja realizado com segurança, organização e eficiência, um dos principais aliados da equipe é o carrinho de banho. Quando bem abastecido e organizado, ele evita interrupções durante o atendimento, reduz o risco de contaminação cruzada e garante que todos os materiais necessários estejam prontamente disponíveis.

Hoje você conhecerá em detalhes o que é o carrinho de banho, quais materiais devem fazer parte dele, como organizá-lo corretamente e quais são os principais cuidados de enfermagem durante sua utilização.

O que é o carrinho de banho?

O carrinho de banho é um equipamento utilizado pela equipe de enfermagem para transportar todos os materiais necessários à realização da higiene corporal do paciente.

Ele é amplamente utilizado em:

  • Unidades de Terapia Intensiva (UTI);
  • enfermarias;
  • unidades de internação;
  • clínicas médicas;
  • clínicas cirúrgicas;
  • unidades de cuidados prolongados;
  • instituições de longa permanência;
  • hospitais de reabilitação.

Sua principal finalidade é permitir que todo o procedimento seja realizado de maneira organizada, segura e eficiente.

Qual a importância do carrinho de banho?

A utilização adequada do carrinho proporciona diversas vantagens.

Entre elas:

  • maior agilidade durante o procedimento;
  • redução do tempo de exposição do paciente;
  • prevenção de esquecimentos de materiais;
  • menor circulação desnecessária da equipe;
  • diminuição do risco de contaminação;
  • melhor organização do setor;
  • maior conforto ao paciente;
  • otimização do trabalho da enfermagem.

Além disso, contribui diretamente para as metas de segurança do paciente.

Como deve ser organizado?

Idealmente, o carrinho deve permanecer:

  • limpo;
  • identificado;
  • abastecido;
  • seco;
  • protegido contra poeira;
  • organizado por categorias de materiais.

Materiais limpos nunca devem ficar misturados com materiais contaminados. Também é recomendado que haja uma rotina diária de conferência dos itens disponíveis.

O que deve conter no carrinho de banho?

Embora possa haver pequenas diferenças entre hospitais, alguns materiais são considerados praticamente indispensáveis.

Roupas de cama

Durante o banho, normalmente ocorre a troca completa da roupa do leito.

Por isso, o carrinho costuma conter:

  • lençol inferior;
  • lençol superior;
  • fronha;
  • cobertor ou manta, quando necessário.

Todos devem estar limpos, secos e devidamente dobrados.

Lençol móvel (lençol de meio)

Também conhecido como:

  • lençol móvel;
  • lençol para meio;
  • lençol intermediário.

É colocado na região do tronco e quadril.

Suas funções incluem:

  • facilitar mudanças de decúbito;
  • auxiliar mobilizações;
  • proteger o lençol inferior;
  • facilitar a movimentação do paciente;
  • reduzir atrito durante mudanças de posição.

É um dos itens mais utilizados nas UTIs.

Toalhas

Devem estar disponíveis:

  • toalha de banho;
  • toalha de rosto.

Em alguns hospitais utilizam-se toalhas descartáveis ou compressas específicas para higiene.

Cobertores e mantas

Dependendo do estado clínico do paciente, pode ser necessário manter cobertores extras para evitar perda de calor durante o banho.

Isso é especialmente importante em:

  • idosos;
  • recém-operados;
  • pacientes críticos;
  • recém-nascidos.

Bacias de inox

As bacias de aço inoxidável ainda são muito utilizadas em diversos serviços.

Podem ser empregadas para:

  • água limpa;
  • higiene corporal;
  • higiene íntima;
  • lavagem dos cabelos.

Seu material permite adequada desinfecção após o uso.

Baldes de inox

São utilizados para:

  • transporte de água;
  • descarte de água utilizada;
  • apoio durante procedimentos.

Assim como as bacias, devem ser higienizados após cada utilização.

Luvas de procedimento

Devem estar disponíveis em diferentes tamanhos.

São utilizadas principalmente durante:

  • higiene íntima;
  • troca de fraldas;
  • contato com secreções;
  • manipulação de curativos.

A higiene corporal geral nem sempre exige luvas, desde que não haja risco de contato com fluidos biológicos, conforme recomendações de biossegurança.

Avental descartável

Pode ser necessário quando existe risco de respingos ou contato com secreções.

Produtos para higiene corporal

Entre os principais produtos encontram-se:

Sabonete líquido

Preferencialmente com pH fisiológico, pois promove limpeza sem agredir a pele.

Sabonete antisséptico

É indicado apenas em situações específicas, como protocolos institucionais ou preparo pré-operatório. Não deve ser utilizado rotineiramente em todos os pacientes.

Shampoo

Utilizado quando houver lavagem dos cabelos. Alguns hospitais utilizam shampoo sem enxágue.

Condicionador

Quando indicado. Ajuda a preservar a integridade dos fios.

Espuma de limpeza corporal

Muito utilizada em pacientes críticos, pois permite higiene sem necessidade de enxágue.

Produtos para higiene oral

Dependendo do perfil do paciente, o carrinho pode conter:

  • escova dental;
  • creme dental;
  • solução para higiene oral;
  • clorexidina oral (quando prescrita);
  • espátulas com espuma;
  • gaze.

Pacientes em ventilação mecânica frequentemente seguem protocolos específicos de higiene oral.

Hidratantes corporais

Após o banho, muitos pacientes necessitam de hidratação da pele.

Especialmente:

  • idosos;
  • diabéticos;
  • pacientes desidratados;
  • pacientes com pele ressecada.

Cremes barreira

São fundamentais para prevenção da dermatite associada à incontinência.

Normalmente contêm:

  • óxido de zinco;
  • dimeticona;
  • polímeros protetores.

Devem ser aplicados conforme necessidade clínica.

Pomadas

Podem estar disponíveis conforme prescrição ou rotina institucional.

Exemplos:

  • pomadas barreira;
  • pomadas cicatrizantes;
  • hidratantes específicos.

Nunca devem ser utilizadas sem indicação adequada.

Fraldas descartáveis

O carrinho deve possuir diversos tamanhos. As fraldas devem permanecer protegidas da umidade e a troca deve ocorrer sempre que houver sujidade ou umidade.

Compressas

Podem ser utilizadas para:

  • higiene;
  • secagem;
  • limpeza de regiões específicas.

Algodão e gaze

Utilizados quando necessário para higiene delicada ou aplicação de produtos.

Sacos para descarte

Devem existir recipientes ou sacos destinados ao descarte de:

  • resíduos comuns;
  • roupas sujas;
  • materiais contaminados.

Nunca misturar roupas limpas com roupas utilizadas.

Álcool para higiene das mãos

O carrinho pode conter preparações alcoólicas para higiene das mãos entre os procedimentos. Entretanto, isso não substitui os dispensadores fixos da unidade.

Materiais adicionais

Alguns hospitais acrescentam:

  • escovas para cabelos;
  • pente;
  • barbeador descartável;
  • aparelho para tricotomia (quando indicado);
  • protetores absorventes;
  • lenços umedecidos;
  • lenços descartáveis;
  • recipientes para próteses dentárias;
  • sacos para pertences.

Como organizar o carrinho?

Uma organização bastante prática é dividir os materiais por setores. Na parte superior:

  • Materiais de uso imediato.

Na parte intermediária:

  • Produtos de higiene.

Na parte inferior:

  • Roupas limpas.

Compartimento separado:

  • Materiais contaminados até o descarte adequado.

Essa organização reduz o risco de contaminação cruzada.

Quando conferir o carrinho?

Idealmente:

  • no início do plantão;
  • após cada banho;
  • antes da reposição do setor;
  • sempre que houver consumo de materiais.

Essa rotina evita falta de insumos durante os cuidados.

O banho no leito é um momento de avaliação clínica

Além da higiene, o banho representa uma excelente oportunidade para avaliação do paciente.

Durante o procedimento, a enfermagem pode observar:

  • integridade da pele;
  • lesões por pressão;
  • áreas hiperemiadas;
  • hematomas;
  • equimoses;
  • edema;
  • icterícia;
  • cianose;
  • palidez;
  • sangramentos;
  • secreções;
  • presença de dispositivos;
  • curativos;
  • cateteres;
  • drenos;
  • ostomias;
  • sinais de dor.

Muitas alterações clínicas são identificadas justamente durante o banho.

Cuidados de enfermagem

Antes do banho:

  • Realizar higiene das mãos.
  • Confirmar a identificação do paciente.
  • Explicar o procedimento.
  • Preservar a privacidade utilizando biombo ou cortinas.
  • Verificar temperatura do ambiente.
  • Separar previamente todos os materiais.

Durante o banho:

  • Respeitar a individualidade do paciente.
  • Manter o corpo coberto sempre que possível, expondo apenas a região que está sendo higienizada.
  • Observar cuidadosamente a pele.
  • Evitar atrito excessivo.
  • Trocar a água sempre que necessário.
  • Realizar higiene íntima utilizando técnica adequada.
  • Secar completamente as dobras da pele.
  • Manter dispositivos fixados corretamente.

Após o banho:

  • Aplicar hidratantes ou cremes barreira quando indicados.
  • Trocar roupas de cama.
  • Reposicionar adequadamente o paciente.
  • Realizar mudança de decúbito quando indicada.
  • Descartar corretamente os resíduos.
  • Higienizar bacias, baldes e demais materiais reutilizáveis.
  • Registrar no prontuário alterações observadas durante o procedimento.
  • Reabastecer imediatamente o carrinho para o próximo atendimento.

Erros que devem ser evitados

Algumas falhas podem comprometer a segurança do paciente.

Entre elas:

  • utilizar materiais vencidos;
  • reutilizar água entre pacientes;
  • misturar materiais limpos e contaminados;
  • esquecer materiais durante o banho;
  • deixar fraldas ou roupas expostas à umidade;
  • realizar o banho sem preservar a privacidade;
  • não observar alterações da pele;
  • não higienizar o carrinho após o uso.

Você sabia?

Muitos diagnósticos de enfermagem relacionados à integridade da pele são identificados durante o banho. O banho no leito contribui para reduzir a ansiedade e proporcionar sensação de conforto, especialmente em pacientes críticos.

A troca do lençol móvel facilita significativamente a mudança de decúbito, reduzindo o esforço físico da equipe e o atrito sobre a pele do paciente. Em unidades de terapia intensiva, é comum que o carrinho de banho também disponha de materiais para higiene oral, prevenção de lesão por pressão e cuidados com dispositivos invasivos.

A organização padronizada do carrinho diminui o tempo de execução do procedimento, reduz deslocamentos desnecessários da equipe e melhora a segurança assistencial.

O carrinho de banho é muito mais do que um simples móvel para transporte de materiais. Ele representa uma ferramenta essencial para a qualidade da assistência de enfermagem, permitindo que o banho no leito seja realizado com organização, segurança e eficiência.

Manter o carrinho limpo, abastecido e organizado garante agilidade durante os cuidados, reduz o risco de contaminação cruzada e favorece uma assistência humanizada. Além disso, o momento do banho oferece uma oportunidade única para avaliação clínica completa do paciente, permitindo a identificação precoce de alterações que podem influenciar diretamente na evolução do tratamento.

Quando utilizado de forma adequada e associado às boas práticas assistenciais, o carrinho de banho torna-se um importante aliado na promoção da segurança do paciente e na excelência do cuidado de enfermagem.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higienização e Cuidados. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM DERMATOLOGIA (SOBENDE). Guia de boas práticas no banho no leito. São Paulo: Sobende, 2023. Disponível em: https://sobende.org.br/
  4. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: ANVISA. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  6. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília: COFEN. Disponível em: https://www.cofen.gov.br
  7. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on Core Components of Infection Prevention and Control Programmes. Genebra: WHO, 2016. Disponível em: https://www.who.int/publications

Infecção de Corrente Sanguínea Relacionada a Cateter (ICSRC): tudo sobre as causas de um cateter venoso infeccionado

Os cateteres venosos são dispositivos indispensáveis na assistência à saúde moderna. Eles permitem a administração de medicamentos, soluções intravenosas, hemocomponentes, nutrição parenteral e monitorização hemodinâmica. No entanto, apesar de todos os benefícios, seu uso não está isento de riscos.

Entre as complicações mais preocupantes está a Infecção de Corrente Sanguínea Relacionada a Cateter (ICSRC), uma condição potencialmente grave que pode aumentar o tempo de internação, elevar os custos hospitalares e, em casos mais severos, levar à sepse, choque séptico e morte.

A boa notícia é que grande parte dessas infecções pode ser evitada por meio da adoção rigorosa das medidas de prevenção e dos cuidados adequados de enfermagem.

O que é a Infecção de Corrente Sanguínea Relacionada a Cateter?

A Infecção de Corrente Sanguínea Relacionada a Cateter (ICSRC) ocorre quando microrganismos conseguem acessar a corrente sanguínea por meio de um cateter venoso e provocam uma infecção sistêmica.

Essa infecção pode estar relacionada a diferentes dispositivos vasculares, incluindo:

  • cateter venoso periférico;
  • cateter venoso central;
  • PICC (Cateter Central de Inserção Periférica);
  • cateteres tunelizados;
  • cateteres totalmente implantáveis (Port);
  • cateteres de hemodiálise.

Embora qualquer dispositivo vascular possa ser uma porta de entrada para microrganismos, os cateteres centrais apresentam maior risco devido ao tempo prolongado de permanência e à localização da ponta em grandes vasos sanguíneos.

Como a Infecção Acontece? As Causas por Trás do Cateter

A maioria das infecções relacionadas a cateteres tem origem na migração de microrganismos da pele do próprio paciente para o interior do dispositivo. A pele, por mais que higienizada, é colonizada por bactérias como o Staphylococcus epidermidis e o Staphylococcus aureus.

Durante a inserção do cateter ou através da manipulação frequente e inadequada das conexões, esses germes migram pelo trajeto do cateter até alcançarem a ponta intravasal, onde formam o chamado biofilme — uma comunidade bacteriana protegida por uma matriz de polissacarídeos que é extremamente difícil de ser erradicada apenas com antibióticos sistêmicos.

Outra causa relevante é a contaminação direta das conexões e equipos. Toda vez que desconectamos o equipo para administrar uma medicação, realizar um curativo ou coletar sangue, estamos abrindo uma oportunidade para que microrganismos entrem no sistema.

Se as técnicas de desinfecção dos conectores não forem rigorosas, a contaminação é quase inevitável. Além disso, a contaminação da própria solução infundida (embora mais rara) ou a colonização hematogênica por um foco infeccioso à distância no próprio paciente (como uma ferida cirúrgica ou pneumonia) também podem levar à colonização do cateter.

Por que um cateter pode infeccionar?

O cateter atravessa uma das principais barreiras de proteção do organismo: a pele. Quando essa barreira é rompida, existe a possibilidade de microrganismos atingirem tecidos profundos e a corrente sanguínea. A infecção pode ocorrer por diferentes mecanismos, desde falhas na inserção até problemas relacionados à manutenção do dispositivo.

Como os microrganismos chegam ao cateter?

Existem quatro principais vias de contaminação.

Migração de bactérias da pele

Esta é uma das causas mais frequentes. Mesmo após a antissepsia, a pele continua abrigando microrganismos naturais, conhecidos como microbiota residente. Esses microrganismos podem migrar lentamente ao longo da superfície externa do cateter até alcançarem a corrente sanguínea. Esse mecanismo é mais comum nos primeiros dias após a inserção.

Contaminação do hub e das conexões

O hub é a extremidade externa do cateter onde são conectados equipos, seringas e dispositivos de infusão. Quando não ocorre a desinfecção adequada dessas conexões, os microrganismos podem penetrar pela luz interna do cateter. Atualmente, essa é considerada uma das principais causas de infecção em cateteres de longa permanência.

Contaminação das soluções infundidas

Embora seja rara, pode ocorrer contaminação de medicamentos, soluções intravenosas ou nutrição parenteral. Quando isso acontece, os microrganismos são introduzidos diretamente na circulação do paciente.

Disseminação por outro foco infeccioso

Em alguns casos, o paciente já apresenta uma infecção em outra região do corpo. Os microrganismos podem alcançar o cateter através da corrente sanguínea e colonizar sua superfície.

O que é colonização do cateter?

Antes mesmo de causar uma infecção clínica, os microrganismos podem aderir ao dispositivo e formar uma camada protetora chamada biofilme. O biofilme funciona como um escudo que protege as bactérias da ação dos antibióticos e das células de defesa do organismo. Após sua formação, a eliminação dos microrganismos torna-se muito mais difícil. Por esse motivo, muitos cateteres infectados precisam ser removidos.

O que é biofilme?

O biofilme é uma comunidade organizada de microrganismos aderida à superfície do cateter.

Essa estrutura favorece:

  • multiplicação bacteriana;
  • resistência aos antimicrobianos;
  • persistência da infecção;
  • recorrência de bacteremias.

O biofilme é considerado um dos maiores desafios no tratamento das infecções associadas a dispositivos invasivos.

Quais microrganismos causam infecção relacionada a cateter?

Diversos agentes podem estar envolvidos. Os mais frequentes incluem:

Bactérias Gram-positivas

  • Staphylococcus aureus;
  • Staphylococcus epidermidis;
  • Enterococcus spp.

Bactérias Gram-negativas

  • Klebsiella pneumoniae;
  • Escherichia coli;
  • Pseudomonas aeruginosa;
  • Enterobacter spp.

Fungos

  • Candida albicans;
  • Candida parapsilosis;
  • outras espécies de Candida.

Quais são os fatores de risco?

Fatores relacionados ao paciente

  • imunossupressão;
  • neutropenia;
  • câncer;
  • diabetes mellitus;
  • desnutrição;
  • idade avançada;
  • internação prolongada.

Fatores relacionados ao cateter

  • tempo prolongado de permanência;
  • múltiplas manipulações;
  • inserção em situação de emergência;
  • falhas na antissepsia;
  • curativos inadequados.

Fatores relacionados à assistência

  • higiene das mãos inadequada;
  • quebra de técnica asséptica;
  • desinfecção incorreta dos conectores;
  • manutenção inadequada do dispositivo.

Sinais e sintomas de um cateter infeccionado

Sinais locais

Na região da inserção podem ocorrer:

  • vermelhidão;
  • dor;
  • edema;
  • calor local;
  • endurecimento;
  • secreção purulenta.

Nem sempre esses sinais estão presentes.

Sinais sistêmicos

Quando a infecção alcança a corrente sanguínea, podem surgir:

  • febre;
  • calafrios;
  • taquicardia;
  • hipotensão;
  • mal-estar geral;
  • aumento dos leucócitos;
  • alterações do estado mental.

Em casos graves, o paciente pode evoluir para sepse.

O que é sepse?

A sepse é uma resposta desregulada do organismo a uma infecção.

Quando não tratada rapidamente, pode causar:

  • falência de órgãos;
  • choque séptico;
  • insuficiência respiratória;
  • insuficiência renal;
  • óbito.

Por isso, o reconhecimento precoce é fundamental.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico envolve avaliação clínica e exames laboratoriais.

Entre os principais exames estão:

  • hemoculturas periféricas;
  • hemoculturas coletadas do cateter;
  • cultura da ponta do cateter após remoção;
  • exames laboratoriais inflamatórios.

A correlação entre os achados clínicos e microbiológicos auxilia na confirmação diagnóstica.

Como prevenir a infecção relacionada a cateter?

A prevenção é a medida mais eficaz. Grande parte dessas infecções pode ser evitada através da adesão aos protocolos de segurança.

Higiene das mãos

É considerada a medida isolada mais importante.

A higiene deve ser realizada:

  • antes da inserção;
  • antes da manipulação;
  • antes da troca de curativos;
  • após contato com o paciente.

Antissepsia adequada da pele

A preparação da pele deve seguir protocolos institucionais. A clorexidina alcoólica é amplamente utilizada devido à sua elevada eficácia antimicrobiana.

Desinfecção dos conectores

Os hubs e conectores devem ser friccionados com antisséptico antes de cada acesso. Essa prática é conhecida como “scrub the hub”.

Troca adequada de curativos

Os curativos devem permanecer:

  • limpos;
  • secos;
  • íntegros;
  • bem aderidos.

Sempre que houver comprometimento, a troca deve ser realizada.

Avaliação diária da necessidade do cateter

Todo cateter deve permanecer apenas pelo tempo necessário. Quanto maior o tempo de permanência, maior o risco de infecção.

Cuidados de Enfermagem

A prevenção da ICSRC baseia-se em um conjunto de práticas conhecidas como “pacotes de medidas” ou bundles. O cuidado começa antes mesmo da inserção, com a escolha do local mais adequado, a técnica de inserção estéril e a preparação rigorosa da pele do paciente com soluções antissépticas recomendadas.

Já na manutenção, o cuidado de enfermagem é diário e contínuo. A primeira regra é: manipule o mínimo necessário. Cada manipulação é um risco. Antes de qualquer acesso ao cateter, a desinfecção do conector com álcool a 70% ou clorexidina alcóolica é inegociável, e deve ser feita com fricção mecânica para garantir a eliminação do biofilme que pode estar se formando.

A avaliação do sítio de inserção deve ser diária. Procure por sinais de inflamação, como hiperemia, edema, calor local ou saída de secreção purulenta. Se o curativo estiver sujo, úmido ou solto, ele deve ser trocado imediatamente utilizando técnica asséptica. Além disso, a troca dos equipos de infusão deve seguir o protocolo institucional, pois o tempo prolongado de uso aumenta exponencialmente o risco de contaminação interna.

Por fim, o enfermeiro deve ser o defensor da remoção precoce. Um cateter que não é mais necessário deve ser retirado prontamente. Quanto mais tempo o dispositivo permanece no paciente, maior é o risco de infecção. Manter um registro claro de quantos dias o cateter está em uso ajuda a equipe a decidir o momento exato para sua retirada.

Curiosidades sobre infecção relacionada a cateter

As infecções de corrente sanguínea estão entre os eventos adversos mais monitorados em unidades de terapia intensiva. Estudos mostram que programas estruturados de prevenção podem reduzir significativamente as taxas de infecção.

A simples adesão adequada à higiene das mãos é capaz de evitar grande parte dos casos. Muitos hospitais utilizam bundles de prevenção compostos por um conjunto de medidas baseadas em evidências científicas.

A Infecção de Corrente Sanguínea Relacionada a Cateter é uma complicação potencialmente grave, mas amplamente evitável. A maioria dos casos está associada a falhas na inserção, manipulação ou manutenção dos dispositivos vasculares.

A enfermagem desempenha papel fundamental na prevenção dessas infecções por meio da higiene das mãos, da manutenção adequada dos cateteres, da observação contínua do paciente e da aplicação rigorosa das boas práticas assistenciais.

Com conhecimento técnico, vigilância constante e adesão aos protocolos institucionais, é possível reduzir significativamente a ocorrência de infecções e promover uma assistência cada vez mais segura e de qualidade.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA (SBI). Prevenção de infecções da corrente sanguínea relacionadas a cateteres intravasculares. São Paulo: SBI, 2020. Disponível em: https://infectologia.org.br/
  4. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections. Disponível em: https://www.cdc.gov
  5. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes para prevenção de infecções relacionadas a cateteres vasculares. Disponível em: https://www.amib.org.br
  6. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.