Identificação Incorreta do Paciente: Como Agir

identificação divergente

O erro pode aparecer antes mesmo de qualquer procedimento: uma pulseira com dado errado, uma etiqueta trocada ou um prontuário aberto no paciente errado já representa uma barreira de segurança quebrada. Por isso, identificação não é uma conferência para “cumprir protocolo”; é o que garante que o cuidado planejado chegue à pessoa correta.

O protocolo nacional orienta a utilização de identificadores para confirmar a identidade do paciente antes de medicamentos, exames e procedimentos. Entre os exemplos estão nome completo, data de nascimento e número do prontuário, conforme o protocolo adotado pelo serviço.

Encontrou um dado errado? Pare o processo

Se você percebe que a pulseira, etiqueta, placa do leito ou outro registro apresenta identificação incorreta, não continue o cuidado como se nada tivesse acontecido. Primeiro interrompa o processo que depende daquela identificação e confirme quem é o paciente utilizando os identificadores previstos no protocolo institucional.

Uma situação prática comum acontece na administração de medicamentos: o profissional chega ao leito, confere a pulseira e percebe que a data de nascimento não corresponde ao prontuário eletrônico. Mesmo que o nome pareça correto, a administração deve ser interrompida até que a divergência seja esclarecida. A confirmação ativa da identidade é justamente uma barreira contra erros de medicação e outros incidentes.

Não confirme apenas pelo número do leito

Leito não é identificador seguro do paciente. O mesmo vale para reconhecer alguém apenas pelo rosto, pelo diagnóstico ou pela informação de que “é o paciente da cama 12”.

A identificação deve utilizar os dados definidos pelo protocolo do serviço, com participação ativa do próprio paciente quando ele consegue responder. Quando isso não é possível, devem ser utilizados outros identificadores confiáveis disponíveis no prontuário e na pulseira.

Imagine uma transferência interna durante um plantão movimentado: dois pacientes com nomes semelhantes chegam quase simultaneamente à mesma unidade. A etiqueta de um exame aparece na prancheta errada e só é percebida durante a conferência antes da coleta. É justamente nesse ponto que a checagem interrompe uma sequência que poderia terminar com exame realizado no paciente errado.

E se o procedimento já aconteceu?

Se a identificação incorreta foi percebida depois que um medicamento, exame ou procedimento já foi realizado, a situação muda de gravidade. A equipe deve comunicar imediatamente o enfermeiro e os profissionais responsáveis, avaliar o paciente e seguir o protocolo institucional para gerenciamento e notificação do incidente.

Também é fundamental registrar de forma objetiva o que aconteceu, quais medidas foram tomadas e qual foi a resposta do paciente. A rastreabilidade faz parte da segurança e permite que o serviço investigue a falha e estabeleça medidas para evitar recorrência. O Cofen reforça a importância do registro fidedigno e tempestivo das informações relacionadas ao cuidado.

Cuidados de enfermagem

Na prática, diante de uma identificação incorreta:

  • interrompa o cuidado que depende daquela identificação;
  • confirme o paciente usando os identificadores estabelecidos pelo serviço;
  • corrija a pulseira, etiqueta ou cadastro conforme o fluxo institucional;
  • comunique a divergência ao enfermeiro e aos setores envolvidos;
  • se já houve algum procedimento, avalie o paciente e siga o protocolo de incidente;
  • registre o ocorrido e as condutas realizadas.

A identificação correta deve funcionar como uma barreira presente durante todo o cuidado, e não somente na admissão. O próprio Ministério da Saúde mantém a identificação do paciente como um dos protocolos básicos de segurança, com finalidade de reduzir incidentes relacionados ao cuidado.

Para guardar no plantão

Identificação errada encontrada? Pare, confirme, corrija e comunique.

Não tente “resolver rápido” apenas trocando uma etiqueta ou seguindo pelo número do leito. Primeiro garanta quem é o paciente; depois, regularize os registros e siga o fluxo de segurança da instituição.

Resumo para salvar

Identificação Incorreta do Paciente

  • Pare o cuidado e confirme a identidade
  • Use os identificadores do protocolo
  • Comunique e corrija a divergência
  • Registre e siga o fluxo de incidente

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Identificação do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Atualizado em 23 mar. 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Identificação do Paciente.
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo implantado de identificação do paciente. Brasília, DF: Anvisa, 2025. Disponível em: Anvisa – Protocolo de Identificação do Paciente.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. 10 Passos para a Segurança do Paciente. Brasília, DF: Cofen. Disponível em: Cofen – 10 Passos para a Segurança do Paciente.
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen – Parecer nº 11/2026. 

Medicamento Sem Identificação? O Que Fazer

medicamento sem identificação

Na administração de medicamentos, existe um momento em que a pressa precisa parar: quando você não consegue identificar com segurança o que está prestes a administrar. Se uma seringa, frasco, cuba ou solução está sem identificação adequada, o medicamento não deve ser administrado até que sua identidade possa ser confirmada de forma segura e rastreável.

O protocolo nacional de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos estabelece a identificação correta do medicamento como uma das barreiras para prevenir erros. O Cofen também reforça a necessidade de conferência dos elementos relacionados à administração segura e à rastreabilidade do cuidado.

Não tente descobrir pelo aspecto

Cor, volume, cheiro ou aparência não são métodos confiáveis para confirmar a identidade de um medicamento. Uma solução transparente pode ser confundida com outra, e duas preparações visualmente semelhantes podem ter princípios ativos completamente diferentes.

Imagine uma seringa encontrada na bancada durante a troca de plantão, sem nome do medicamento, concentração ou horário de preparo. Mesmo que alguém diga “é aquele medicamento que estava sendo usado no leito”, essa informação verbal não substitui a identificação adequada. Sem possibilidade de confirmar a origem e o conteúdo, a administração deve ser interrompida.

A segurança medicamentosa depende de processos sistemáticos de conferência, registro e monitoramento, justamente para reduzir a possibilidade de que uma preparação sem rastreabilidade chegue ao paciente.

E se eu souber qual medicamento é?

Saber ou suspeitar qual é o medicamento não é suficiente. É necessário conseguir confirmar sua identidade, concentração, apresentação, validade e correspondência com a prescrição, de acordo com o processo adotado pelo serviço.

Se a identificação original foi perdida e não existe uma forma segura de confirmar o conteúdo, não é adequado simplesmente escrever o nome posteriormente e considerar o problema resolvido. A conduta deve seguir o protocolo institucional e envolver o enfermeiro responsável e, quando necessário, a farmácia.

O Cofen relaciona entre os itens de segurança da administração a conferência do medicamento, forma/apresentação, validade, compatibilidade, registro e resposta, reforçando que a administração segura envolve mais do que apenas saber o nome do fármaco.

O erro pode começar antes da administração

Outro cenário comum acontece quando uma medicação é preparada para vários pacientes e uma das seringas permanece sobre a bancada sem identificação. Na hora de administrar, alguém reconhece a seringa pela posição ou pelo volume e assume que sabe o conteúdo. É justamente nesse momento que uma barreira de segurança foi perdida.

A identificação deve acompanhar o medicamento preparado conforme as regras do serviço, permitindo saber o que foi preparado, para quem, em qual concentração e em que momento, quando aplicável. A rastreabilidade faz parte da segurança do processo, não é apenas uma formalidade.

O que fazer na prática?

Se encontrar um medicamento sem identificação adequada:

não administre; interrompa o processo; não tente identificar apenas pela aparência; confira a prescrição e os registros disponíveis; comunique o enfermeiro responsável; siga o protocolo institucional para confirmação, descarte ou novo preparo; e registre a intercorrência quando indicado.

Se houver suspeita de que um medicamento não identificado já foi administrado, a situação muda de gravidade: a equipe responsável deve ser comunicada imediatamente para avaliação do paciente e adoção das medidas previstas no protocolo institucional.

O princípio é simples: se você não consegue provar com segurança o que está dentro, não deve administrar.

Cuidados de enfermagem

A prevenção começa no preparo. Identifique corretamente as preparações conforme o protocolo institucional, mantenha medicamentos de diferentes pacientes separados, evite deixar seringas ou soluções sem identificação e faça a conferência antes da administração.

Além disso, o registro não deve ser tratado como uma etapa secundária. O Cofen orienta que o registro de enfermagem seja claro, completo, cronológico e realizado em tempo oportuno, contribuindo para a continuidade e a rastreabilidade da assistência.

Para lembrar no plantão

Medicamento sem identificação = medicamento que não deve ser administrado até ser devidamente confirmado.

Não confie na cor. Não confie no volume. Não confie no “eu sei o que é”.

Na dúvida, pare, confirme e mantenha a segurança do paciente como a próxima etapa do cuidado.

Resumo para salvar

Medicamento Sem Identificação O Que Fazer

  • Não administrar medicamento sem identificação
  • Não identificar pela aparência
  • Confirmar medicamento e prescrição
  • Comunicar e registrar a intercorrência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Atualizado em 2026. Disponível em: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília: Cofen, 2026. Disponível em: Parecer Cofen nº 11/2026. 
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Recomendações para registros de enfermagem no exercício da profissão. Brasília: Cofen. Disponível em: Recomendações para Registros de Enfermagem. 

Medidas de Conforto, cuidados que Fazem Diferença

Medidas de Conforto

Conforto não é um detalhe colocado no fim da assistência. Muitas vezes, é justamente uma pequena intervenção da enfermagem — ajustar o travesseiro, diminuir um ruído, reposicionar um membro ou explicar o que será feito — que muda completamente a maneira como o paciente vivencia a internação. O conforto envolve dimensões físicas, ambientais, psicológicas, sociais e até espirituais, devendo ser considerado dentro do cuidado individualizado.

O que são medidas de conforto?

São ações realizadas pela equipe de saúde para reduzir desconfortos, aliviar sintomas, favorecer o repouso, preservar a dignidade e melhorar o bem-estar do paciente. Elas podem incluir higiene corporal, mudança de posição, organização do leito, controle de temperatura e iluminação, redução de ruídos, auxílio na alimentação, hidratação conforme indicação, controle da dor e apoio emocional.

Um paciente restrito ao leito, por exemplo, pode estar com os sinais vitais estáveis e ainda assim apresentar dor nas costas porque permanece muito tempo na mesma posição. Ajustar o decúbito, alinhar o corpo, acomodar os membros e verificar se há pressão excessiva em proeminências ósseas são medidas simples que podem proporcionar alívio e, ao mesmo tempo, contribuir para a prevenção de lesões por pressão.

Conforto começa pelo ambiente

Temperatura adequada, iluminação confortável, privacidade, roupa de cama limpa e seca e redução de ruídos fazem parte da assistência. Em unidades como UTI, onde alarmes, conversas e procedimentos acontecem continuamente, organizar o ambiente para favorecer períodos de descanso pode ser especialmente importante.

Imagine um paciente consciente em pós-operatório reclamando que não consegue dormir porque a luz permanece acesa e há movimentação constante no quarto. Quando possível, reduzir a iluminação, organizar os cuidados para evitar interrupções desnecessárias e explicar previamente os procedimentos são intervenções simples que respeitam o descanso e diminuem a ansiedade. A literatura sobre conforto em enfermagem destaca justamente a influência de temperatura, iluminação, ruídos, odores e comunicação na experiência de hospitalização.

Posicionamento também é cuidado

O posicionamento deve considerar a condição clínica, limitações de mobilidade, presença de dispositivos, dor e risco de lesão por pressão. A mudança de posição não deve ser feita de maneira automática e igual para todos; é preciso avaliar o paciente, utilizar recursos de apoio quando indicados e proteger pele e proeminências ósseas.

Em um paciente acamado com mobilidade reduzida, por exemplo, a equipe pode perceber vermelhidão persistente na região sacral durante a higiene. Esse achado precisa gerar uma resposta: reavaliar o posicionamento, reduzir pressão e implementar as medidas preventivas previstas no protocolo institucional. A prevenção de lesões por pressão é uma prática de segurança do paciente e envolve avaliação sistemática do risco e cuidados preventivos individualizados.

Higiene, dor e necessidades básicas

Banho, higiene oral, troca de roupas e roupas de cama, cuidado com cabelos, hidratação da pele e auxílio para eliminação não são apenas tarefas rotineiras. Quando realizados com privacidade, comunicação e respeito, também promovem conforto e preservam a autoestima.

A dor merece atenção especial. Avaliar intensidade, localização, características e resposta às intervenções permite direcionar melhor o cuidado. Quando houver prescrição, a enfermagem deve administrar os medicamentos com segurança e reavaliar a resposta; medidas não farmacológicas, como posicionamento, ambiente tranquilo e aplicação de recursos previstos no plano de cuidados, podem complementar a assistência.

O cuidado também é emocional

Chamar o paciente pelo nome, explicar o procedimento antes de realizá-lo, permitir que ele faça perguntas e escutar suas preocupações são medidas de conforto. Em situações de medo, dor ou terminalidade, a comunicação pode ser tão importante quanto uma intervenção física.

O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem estabelece a assistência com promoção da qualidade de vida e, nos casos de doenças graves incuráveis e terminais, prevê cuidados que assegurem conforto físico, psíquico, social e espiritual, respeitando a vontade da pessoa ou de seu representante legal.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a equipe deve avaliar continuamente dor, posição, pele, higiene, temperatura, ruído, iluminação, sono, mobilidade, ansiedade e necessidades básicas, adaptando as medidas à condição clínica.

Também é importante manter o leito organizado e seguro, proteger dispositivos e acessos durante mudanças de posição, evitar exposição corporal desnecessária, utilizar técnicas adequadas de mobilização e registrar alterações relevantes e respostas às intervenções. Confortar não significa apenas fazer algo pelo paciente; significa perceber o que está causando desconforto e agir de forma segura, individualizada e respeitosa.

Resumo para salvar

Medidas de Conforto do Paciente

  • Reduzem dor, ansiedade e desconfortos durante a assistência
  • Incluem higiene, posicionamento, ambiente adequado e controle da dor
  • Devem considerar necessidades físicas e emocionais individuais
  • Conforto também envolve segurança, dignidade e humanização

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Prevenção de Úlcera por Pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde/Anvisa/Fiocruz, 2013. Disponível em: Protocolo de Prevenção de Úlcera por Pressão — Ministério da Saúde.
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: Práticas de Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Prevenção de Lesão por Pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Anvisa — Prevenção de Lesão por Pressão
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564/2017: Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Cofen — Resolução nº 564/2017
  4. PONTE, Keila Maria de Azevedo et al. Teoria do conforto no cuidado clínico de enfermagem pelo método de pesquisa-cuidado. Biblioteca Virtual do Cofen. Biblioteca Digital do Cofen — Teoria do Conforto

13 Certos da Enfermagem: O Que Mudou

13 certos da enfermagem

O número mudou, mas a ideia principal continua a mesma: criar barreiras antes, durante e depois da administração de um medicamento. É por isso que ainda aparecem conteúdos falando em 5, 9 ou 13 certos; eles pertencem a diferentes momentos da evolução das práticas de segurança. O modelo dos 13 certos não surgiu de uma única atualização oficial nacional, e sim da ampliação dos itens de verificação utilizados na literatura e em protocolos educacionais.

De onde vieram os 13 certos?

Historicamente, a administração segura de medicamentos começou sendo ensinada com os 5 certos, relacionados principalmente a paciente, medicamento, dose, via e horário. Com o fortalecimento das políticas de segurança do paciente, outros pontos passaram a ser incorporados às listas de conferência.

No Brasil, o Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos, publicado pelo Ministério da Saúde/Anvisa em 2013, trabalha com um conjunto de verificações que ficou conhecido no ensino como os 9 certos. Já a literatura e diferentes instituições passaram a utilizar listas ampliadas, chegando aos 13 certos. Uma questão de concurso de 2019, por exemplo, já registrava explicitamente que o protocolo trabalhava com 9 certos enquanto alguns autores consideravam 13.

Então quando os 13 certos foram atualizados?

Aqui está o detalhe que costuma gerar confusão: não existe uma data única de “atualização dos 13 certos”.

Materiais brasileiros já apresentavam os 13 certos pelo menos desde 2018, e a Universidade Federal Fluminense publicou em 2022 um e-book específico sobre o tema. Em 2023, também foi desenvolvido e validado um instrumento educativo com os 13 certos. Mais recentemente, em 2025 e 2026, novos materiais educacionais e o próprio Cofen passaram a utilizar e discutir explicitamente essa abordagem ampliada.

Portanto, dizer que “em determinado ano a enfermagem passou oficialmente de 9 para 13 certos” simplifica demais a história. O mais correto é falar em ampliação progressiva das barreiras de segurança.

Quais são os 13 certos?

A lista pode apresentar pequenas diferenças conforme a instituição ou a referência utilizada. No Parecer Cofen nº 11/2026, aparecem os seguintes:

  1. Prescrição certa
  2. Paciente certo
  3. Medicamento certo
  4. Dose certa
  5. Via certa
  6. Horário certo
  7. Forma/apresentação certa
  8. Validade certa
  9. Compatibilidade certa
  10. Registro certo
  11. Orientação certa
  12. Tempo de administração certo
  13. Resposta certa

Essa organização mostra por que a lista foi ampliada: não basta conferir o medicamento antes de administrá-lo. É necessário considerar também preparo, administração, orientação, registro e resposta do paciente.

O que realmente mudou na prática?

Imagine uma situação comum no plantão: a prescrição indica um medicamento intravenoso, mas a apresentação disponível na unidade possui concentração diferente da habitual. Conferir apenas “medicamento certo” não resolve o problema. É preciso verificar forma/apresentação, dose, compatibilidade e prescrição, antes que a medicação chegue ao paciente.

Outro momento frequente ocorre depois da administração. O medicamento foi administrado corretamente e registrado, mas o paciente apresenta uma resposta inesperada. É justamente aí que entra o “certo da resposta”: a assistência não termina no momento em que a medicação é administrada; é necessário observar efeitos terapêuticos e possíveis reações e registrar as intercorrências pertinentes. O Cofen reforça, inclusive, que o registro deve ser claro, completo e realizado em tempo oportuno.

Por que acrescentaram tantos itens?

Porque os erros de medicação não acontecem somente quando alguém escolhe o medicamento errado. Eles podem estar relacionados a identificação, prescrição, dose, apresentação, via, velocidade, compatibilidade, comunicação, registro e monitoramento da resposta.

A ampliação dos certos tenta transformar essas etapas em barreiras de segurança, tornando a conferência mais abrangente. Um guia educacional publicado em 2025, por exemplo, foi elaborado justamente com o objetivo de orientar estudantes e profissionais e prevenir erros durante o processo de administração.

E o direito de recusa?

Aqui aparece outra fonte de confusão. Alguns materiais encontrados na internet apresentam “direito de recusa do paciente” ou até “direito de recusa do profissional” dentro dos 13 certos. Porém, essa não é uma composição universal. O Parecer Cofen nº 11/2026 apresenta outra lista, formada por prescrição, paciente, medicamento, dose, via, horário, forma/apresentação, validade, compatibilidade, registro, orientação, tempo e resposta.

Por isso, para prova ou protocolo institucional, o estudante deve verificar qual referência a banca, instituição de ensino ou serviço está utilizando. Não existe uma única lista universal de 13 itens que substitua todas as demais.

5, 9 ou 13 certos: qual estudar?

A resposta depende da fonte.

Os 5 certos representam uma abordagem histórica e mais básica. Os 9 certos aparecem associados ao protocolo nacional de segurança de medicamentos e continuam sendo encontrados em materiais baseados nessa referência. Já os 13 certos são amplamente utilizados atualmente em materiais educacionais e institucionais como uma abordagem ampliada de segurança.

Para o profissional, entretanto, o mais importante não é decorar simplesmente o número. É entender que cada conferência funciona como uma oportunidade de interromper um erro antes que ele alcance o paciente.

Cuidados de enfermagem

Conferir a prescrição, identificar corretamente o paciente, verificar medicamento, dose, via, apresentação, validade, compatibilidade e horário, respeitar o tempo de administração, orientar o paciente, observar sua resposta e realizar o registro adequado. Em caso de dúvida ou inconsistência, a administração deve ser interrompida até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional e as normas profissionais.

Para guardar na prova

! Atenção na Prova

5 certos → modelo histórico básico.

9 certos → associados ao protocolo nacional de segurança de medicamentos de 2013.

13 certos → ampliação progressiva das verificações, já documentada em materiais brasileiros desde pelo menos 2018 e utilizada atualmente em diferentes materiais institucionais e educacionais.

O ponto mais importante é este: não houve uma “virada” oficial em uma única data de 9 para 13 certos. A evolução aconteceu gradualmente, acompanhando a necessidade de tornar a administração de medicamentos uma barreira de segurança cada vez mais completa.

Resumo para salvar

13 Certos da Enfermagem O Que Mudou

  • Os 13 certos não surgiram de uma única atualização oficial nacional
  • O protocolo brasileiro de 2013 ficou associado aos 9 certos na administração segura de medicamentos
  • Os 13 certos já aparecem em materiais brasileiros pelo menos desde 2018 e foram ampliados progressivamente
  • A versão apresentada pelo Cofen em 2026 inclui prescrição paciente medicamento dose via horário forma validade compatibilidade registro orientação tempo e resposta

13 certos

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde; ANVISA; FIOCRUZ; FUNDAÇÃO HOSPITALAR DO ESTADO DE MINAS GERAIS. Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília, DF, 2013. Disponível em: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Parecer nº 11/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Cofen – Parecer nº 11/2026.
  3. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. E-book: descrição das práticas seguras na administração de medicamentos – os 13 certos da medicação. Niterói, 2022. Disponível em: eduCapes – Os 13 certos da medicação.
  4. SILVA, Mayara Pryscilla Santos et al. Elaboração do guia segurança do paciente na administração de medicamentos: os 13 certos. Cadernos Cajuína, v. 11, n. 3, 2026. DOI: 10.52641/cadcajv11i3.2131. Disponível em: Cadernos Cajuína – artigo sobre os 13 certos. 

Evento Adverso, Incidente e Quase Erro na Enfermagem

EA, Incidente e Quase erro

Na segurança do paciente, às vezes uma única etapa separa um quase erro de um evento adverso. Por isso, para entender o que aconteceu, não basta perguntar “houve erro?”. É preciso saber se o incidente chegou ao paciente e se produziu dano. Essa sequência ajuda a classificar corretamente a ocorrência e direcionar a investigação.

Incidente é o termo mais amplo

Incidente é o evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou que resultou, em dano desnecessário ao paciente. Portanto, ele funciona como uma categoria mais abrangente dentro da segurança do paciente.

Um incidente pode ser interrompido antes de atingir o paciente, chegar ao paciente sem provocar dano ou resultar efetivamente em dano. É justamente o que acontece depois que ajuda a definir a classificação.

Quase erro: o paciente nem chegou a ser atingido

O near miss, ou quase erro, acontece quando o incidente não chega ao paciente. Uma barreira de segurança, uma conferência da equipe ou até a percepção de uma falha no processo interrompe a situação antes que ela alcance a pessoa assistida.

Imagine uma medicação preparada para o paciente errado que é identificada durante a conferência antes da administração. A troca não chegou ao paciente, mas a ocorrência mostra que existiu uma falha potencialmente perigosa no processo e que uma barreira conseguiu interrompê-la. A OMS utiliza justamente esse princípio para diferenciar o near miss de outros incidentes.

Na prática da enfermagem, é nesse momento que uma conferência aparentemente simples pode mudar completamente o desfecho. Um medicamento pode estar pronto, o paciente pode estar identificado no leito e tudo parecer encaminhado, até que a conferência ativa revele que aquela prescrição pertencia ao paciente do leito ao lado. Como a administração não aconteceu, estamos diante de um quase erro, e não de um evento adverso.

Incidente sem dano é diferente

Existe ainda uma situação que costuma gerar confusão: o incidente chega ao paciente, mas não causa dano identificável.

Por exemplo, uma medicação é administrada em horário diferente do previsto, chega ao paciente e, após avaliação, não produz dano. Nesse caso, o evento não deve ser chamado de near miss porque o paciente foi atingido pelo incidente. A classificação é incidente sem dano.

Essa diferença é pequena na descrição, mas importante na análise. No near miss, a ocorrência é interrompida antes de alcançar o paciente; no incidente sem dano, ela alcança o paciente, porém não resulta em dano discernível.

Quando passa a ser evento adverso?

O evento adverso é o incidente que resulta em dano ao paciente durante a assistência. O dano pode envolver lesão, sofrimento, alteração funcional ou outras consequências relacionadas ao cuidado, conforme a classificação utilizada para segurança do paciente.

Um exemplo seria administrar uma medicação incorreta e o paciente apresentar uma reação prejudicial decorrente dessa administração. Nesse caso, o incidente alcançou o paciente e houve dano, portanto estamos diante de um evento adverso.

Outro cenário bastante concreto ocorre durante uma transfusão: se a identificação incorreta for percebida antes de iniciar a transfusão, trata-se de near miss; se o sangue chegar ao paciente, mas não houver dano identificável, é incidente sem dano; se houver dano relacionado ao incidente, passa a ser um evento com dano. A OMS utiliza justamente situações de transfusão para demonstrar essa diferença.

A pergunta que resolve a classificação

Quando houver dúvida, pense nesta sequência:

O incidente chegou ao paciente?

Se não chegou, pode ser um near miss.

Se chegou, mas não causou dano, é incidente sem dano.

Se chegou e causou dano, é um evento adverso.

O termo incidente continua sendo a denominação mais abrangente para eventos ou circunstâncias que poderiam ter causado ou causaram dano desnecessário.

O que fazer depois da ocorrência

A classificação não deve ser o ponto final. Depois de garantir a segurança do paciente, a equipe deve comunicar e registrar o ocorrido conforme o fluxo institucional, fornecendo informações objetivas sobre o que aconteceu, em qual etapa ocorreu, como foi identificado e quais barreiras estavam envolvidas.

A finalidade da notificação é permitir aprendizado e melhoria dos processos, e não simplesmente encontrar um profissional para responsabilizar. A Anvisa destaca que a comunicação de incidentes contribui para a adoção de medidas corretivas e para evitar a repetição de danos.

É comum, por exemplo, que uma ocorrência inicialmente pareça apenas um erro individual e, ao analisar o processo, apareçam outros fatores: nomes semelhantes, armazenamento inadequado, interrupções durante o preparo, comunicação incompleta ou identificação pouco clara. É aí que a investigação deixa de olhar apenas para o momento do erro e começa a enxergar as condições que permitiram que ele acontecesse.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a enfermagem deve interromper imediatamente a situação de risco, avaliar o paciente quando o incidente tiver chegado até ele, comunicar a equipe responsável e realizar o registro conforme o protocolo institucional.

Na documentação, priorize informações objetivas: o que aconteceu, quando ocorreu, quem identificou, se o paciente foi atingido, quais consequências foram observadas e quais medidas foram tomadas. Evite omitir um quase erro apenas porque “nada aconteceu”; justamente o fato de o paciente não ter sofrido dano pode indicar que uma barreira funcionou e merece ser analisada.

Para não esquecer

⚠ Pegadinha de Prova

Incidente: evento ou circunstância que poderia causar ou causou dano.

Near miss: não chegou ao paciente.

Incidente sem dano: chegou ao paciente, mas não causou dano identificável.

Evento adverso: chegou ao paciente e resultou em dano.

A diferença entre eles está principalmente em onde o incidente parou e qual foi o resultado para o paciente. Entender essa sequência torna a notificação mais precisa e ajuda a equipe de enfermagem a transformar uma ocorrência em oportunidade de prevenção.

Resumo para salvar

Evento Adverso, Incidente e Quase Erro

  • Incidente é o evento que poderia causar ou causou dano
  • Near miss não chega ao paciente
  • Incidente sem dano chega ao paciente mas não causa dano
  • Evento adverso chega ao paciente e resulta em dano

Referências:

  1. BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Documento de referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Anvisa, 2014. Disponível em: Anvisa – Documento de referência do PNSP.
  2. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. O que são eventos adversos? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Eventos Adversos.
  3. BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Segurança do paciente. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa – Segurança do Paciente.
  4. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety incident reporting and learning systems: technical report. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety Incident Reporting and Learning Systems.
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety. 

Near Miss Como Identificar na Enfermagem

near miss

O erro que foi percebido a tempo pode ser um dos avisos mais importantes de um serviço de saúde. Na enfermagem, o near miss, também chamado de quase-erro ou quase-acidente, acontece quando uma situação poderia ter causado dano ao paciente, mas não chegou a produzir esse dano, seja porque alguém identificou a falha, seja porque uma barreira do próprio processo funcionou. A OMS diferencia ainda o near miss do incidente sem dano: no primeiro, o incidente não chega ao paciente; no segundo, chega, mas não produz dano perceptível.

Como reconhecer um near miss

Uma pergunta simples ajuda: “Se ninguém tivesse percebido, o paciente poderia ter sido prejudicado?”

Se a resposta for sim e a situação foi interrompida antes de atingir o paciente, existe possibilidade de se tratar de um near miss. Isso pode acontecer durante preparo e administração de medicamentos, identificação do paciente, coleta de exames, transfusão, procedimentos, passagem de informações ou utilização de equipamentos.

Imagine, por exemplo, uma medicação preparada para um paciente que está no leito errado. Antes da administração, a conferência da identificação revela a troca e a medicação é retirada. O medicamento não chegou ao paciente, mas houve uma falha no processo que merece ser registrada e analisada.

Exemplos que podem acontecer na enfermagem

Um profissional identifica que recebeu uma prescrição destinada a outro paciente antes de preparar o medicamento. Uma bolsa de sangue é encaminhada para o leito incorreto, mas a identificação do paciente impede a transfusão. Um antibiótico com concentração diferente da prescrita é separado, porém a conferência antes da administração detecta a divergência.

Também pode ocorrer com dispositivos e procedimentos. Um paciente quase recebe uma infusão conectada à via errada, mas a equipe percebe a incompatibilidade antes de iniciar. Em todos esses casos, o ponto principal é que havia potencial de dano, mas o evento foi interceptado antes de alcançar o paciente.

Na rotina de uma unidade, é fácil lembrar de situações em que a conferência final mudou completamente o desfecho. Por exemplo, durante a organização dos medicamentos de um turno, uma ampola com nome e apresentação semelhantes pode ser colocada junto à medicação de outro paciente; a identificação ativa antes da administração interrompe o processo. O mais importante depois disso não é apenas guardar a ampola correta, mas entender por que aquela troca foi possível.

O que fazer quando identificar um near miss

A primeira prioridade é interromper a situação de risco e garantir que o paciente permaneça seguro. Depois, a ocorrência deve ser comunicada conforme o fluxo definido pela instituição e registrada no sistema de notificação utilizado pelo serviço.

A notificação não deve ser encarada apenas como uma forma de apontar quem estava envolvido. O objetivo da segurança do paciente é identificar fatores que contribuíram para o incidente e criar barreiras para reduzir a possibilidade de repetição. A OMS destaca que sistemas de notificação e aprendizagem permitem identificar erros, near misses e riscos de segurança para promover melhorias.

Não procure apenas quem errou

Um near miss pode envolver uma falha individual, mas também pode revelar problemas de processo. Escala inadequada, interrupções frequentes, comunicação incompleta, etiquetas semelhantes, armazenamento confuso, excesso de tarefas ou sistemas pouco claros podem contribuir para que um erro aconteça.

A própria OMS destaca que incidentes de segurança geralmente envolvem múltiplos fatores, incluindo aspectos organizacionais, tecnológicos, humanos, comunicação e condições de trabalho. Por isso, analisar somente “quem fez” pode esconder uma pergunta muito mais importante: “o que permitiu que isso acontecesse?”

Um exemplo prático seria encontrar uma medicação quase administrada ao paciente errado e descobrir, na investigação, que dois pacientes tinham nomes semelhantes, estavam próximos na unidade e os medicamentos haviam sido organizados juntos. Corrigir apenas a conduta do profissional não necessariamente elimina o risco; reorganizar a identificação e o armazenamento pode criar uma barreira adicional.

Near miss não deve ser escondido

Um dos maiores problemas é considerar que, porque o paciente não sofreu dano, “não aconteceu nada”. A situação aconteceu, houve uma oportunidade de falha e uma barreira impediu que o dano chegasse ao paciente.

No Brasil, o Programa Nacional de Segurança do Paciente incentiva uma cultura de segurança baseada no gerenciamento de riscos, na notificação e na análise de incidentes. A Anvisa também define incidente como o evento ou circunstância que poderia ter resultado, ou resultou, em dano desnecessário à saúde.

Cuidados de enfermagem

Na prática, a enfermagem deve interromper imediatamente qualquer processo inseguro, confirmar a condição do paciente, comunicar o ocorrido e realizar a notificação conforme o protocolo institucional. Também é importante registrar informações objetivas: o que aconteceu, em que etapa ocorreu, como foi identificado, quais barreiras impediram que chegasse ao paciente e quais condições contribuíram para o episódio.

Evite transformar a notificação em julgamento pessoal. O foco deve ser compreender o processo e fortalecer as barreiras de segurança.

Como memorizar

✓ Decore para a Prova

Near miss = havia potencial de dano + o incidente foi interceptado antes de atingir o paciente.

Se o evento chegou ao paciente e não causou dano, trata-se de outra classificação: incidente sem dano. Se chegou ao paciente e provocou dano, estamos diante de um evento adverso.

O near miss, portanto, não é simplesmente um erro que “não deu problema”. É uma informação valiosa sobre um ponto vulnerável da assistência. Quando a equipe identifica, comunica e analisa esse tipo de ocorrência, uma falha que quase atingiu um paciente pode se transformar em uma oportunidade concreta de prevenção.

Resumo para salvar

Near Miss: Como Identificar na Enfermagem

  • Reconheça situações que poderiam causar dano mas foram interrompidas
  • Diferencie near miss de incidente sem dano e evento adverso
  • Comunique e notifique o ocorrido conforme o protocolo institucional
  • Analise as causas e fortaleça as barreiras de segurança

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Do que se trata o tema Segurança do Paciente? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. Atualizado em 28 abr. 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Segurança do Paciente.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. O que são eventos adversos? Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: Ministério da Saúde – Eventos Adversos.
  3. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segurança do paciente. Brasília, DF: Anvisa. Disponível em: Anvisa – Segurança do Paciente.
  4. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Conceptual framework for the international classification for patient safety. Geneva: WHO, 2009. Disponível em: WHO – International Classification for Patient Safety.
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety curriculum guide: multi-professional edition. Geneva: WHO. Disponível em: WHO – Patient Safety Curriculum Guide. 
Notícias da Enfermagem

Dipirona Hypofarma: Anvisa Determina Recolhimento de Lote

Brasília, 2026 – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento preventivo de um lote do medicamento dipirona sódica produzido pelo laboratório Hypofarma. A medida foi adotada após a identificação de desvios de qualidade que podem comprometer a segurança dos pacientes e a eficácia do tratamento. A ação reforça o rigor do órgão […]

Guia de compatibilidade de medicamentos em Y: como avaliar a infusão simultânea de medicamentos intravenosos

Vá direto ao ponto!

A administração de medicamentos por via intravenosa faz parte da rotina de muitos setores da Enfermagem, principalmente em pronto-socorro, unidades de internação, centro cirúrgico, pediatria e, de maneira muito intensa, nas UTIs.

Na prática, porém, existe uma situação que costuma gerar bastante dúvida: o que fazer quando dois medicamentos precisam ser administrados ao mesmo tempo, mas o paciente possui apenas um acesso venoso disponível?

É nesse contexto que aparece o chamado conector em Y, também conhecido como Y-site, utilizado para permitir que duas soluções intravenosas sejam administradas por um mesmo acesso em determinados cenários, ou quando é administrado dois medicamentos simultaneamente pela mesma dânula no acesso.

Mas existe um detalhe fundamental: dois medicamentos poderem ser administrados pela mesma via não significa que eles sejam compatíveis entre si.

A compatibilidade precisa ser verificada antes da infusão simultânea.

Uma mistura inadequada pode provocar precipitação, turvação, alteração de cor, formação de partículas, degradação do medicamento ou outras alterações que podem comprometer a segurança e a eficácia do tratamento. E, em alguns casos, a incompatibilidade pode não ser visualmente evidente.

Por isso, este guia foi elaborado pensando principalmente em estudantes e profissionais de Enfermagem que precisam compreender o raciocínio por trás da compatibilidade em Y, sem transformar uma tabela de medicamentos em uma “lista para decorar”.

🚨
ATENÇÃO! Importante: os exemplos apresentados neste artigo são didáticos e não substituem a consulta à bula específica do produto, ao protocolo institucional, ao farmacêutico clínico ou a uma fonte especializada de compatibilidade IV. A compatibilidade pode mudar conforme concentração, diluente, formulação, temperatura, fabricante e condições de administração.

O que é compatibilidade de medicamentos em Y?

A expressão compatibilidade em Y refere-se à possibilidade de dois medicamentos ou soluções intravenosas entrarem em contato no ponto de conexão de um sistema em Y durante a administração simultânea, sem apresentar incompatibilidade clinicamente relevante nas condições estudadas.

Imagine duas linhas:

Medicamento A →

    Y → acesso venoso → paciente

Medicamento B →

Os dois medicamentos percorrem seus respectivos equipos e se encontram próximo ao paciente, no conector em Y. Nesse pequeno trecho, ocorre a mistura das soluções. É justamente nesse ponto que uma eventual incompatibilidade pode acontecer.

Compatibilidade não é a mesma coisa que interação medicamentosa

Esse é um conceito muito importante para quem está estudando. Quando falamos em compatibilidade física ou química em Y, estamos perguntando se os medicamentos podem entrar em contato na linha intravenosa sem ocorrer uma alteração indesejada nas condições avaliadas. Já uma interação farmacológica diz respeito ao efeito de um medicamento sobre outro dentro do organismo.

São situações diferentes. Por exemplo, dois medicamentos podem ser fisicamente compatíveis no equipo e ainda assim apresentar uma interação farmacológica no paciente. Da mesma maneira, dois medicamentos podem não apresentar uma interação farmacológica relevante, mas serem fisicamente incompatíveis quando entram em contato dentro do equipo.

As fontes especializadas de compatibilidade, como o ASHP Injectable Drug Information, deixam claro que as tabelas de compatibilidade são voltadas principalmente à estabilidade e compatibilidade dos medicamentos parenterais e não substituem referências farmacoterapêuticas para interações medicamentosas.

Por que dois medicamentos podem ser incompatíveis?

Existem várias razões. Os medicamentos possuem características físico-químicas próprias, como:

  • pH;
  • concentração;
  • solubilidade;
  • osmolaridade;
  • composição química;
  • tipo de diluente;
  • excipientes;
  • temperatura;
  • tempo de contato.

Quando duas soluções entram em contato, essas características podem provocar alterações. Uma das manifestações mais conhecidas é a precipitação.

O que é precipitação?

Precipitação acontece quando uma substância que estava dissolvida deixa de permanecer solúvel na solução e forma partículas ou um precipitado. Visualmente, pode aparecer como:

  • partículas;
  • cristais;
  • aspecto leitoso;
  • turvação;
  • depósito;
  • alteração da transparência;
  • mudança de cor.

Um exemplo clássico estudado na literatura é a incompatibilidade que pode ocorrer entre determinadas concentrações de vancomicina e piperacilina/tazobactam durante administração em Y. Estudos demonstraram que a incompatibilidade pode aparecer como precipitado branco e que os resultados variam conforme concentração e diluente.

Isso mostra uma coisa essencial: não basta saber o nome dos dois medicamentos. É necessário saber como eles estão preparados.

Compatibilidade depende da concentração

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes deste artigo. Não é seguro dizer simplesmente:

“Vancomicina é compatível com piperacilina/tazobactam.”

Essa afirmação é incompleta. A pergunta correta seria:

Qual vancomicina, em qual concentração, diluente, formulação e condição de administração, está sendo comparada com qual concentração e preparação de piperacilina/tazobactam?

A literatura demonstra exatamente esse problema.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou suporte para administração simultânea em Y de piperacilina/tazobactam 33,75 mg/mL em solução fisiológica 0,9% com vancomicina 4–8 mg/mL em solução fisiológica 0,9%, mas ressalta que concentrações, diluentes, condições de armazenamento ou preparações diferentes devem ser consideradas incompatíveis quando não houver evidência específica de compatibilidade.

Portanto:

medicamento + concentração + diluente + formulação + condição = informação necessária.

O diluente também importa

Outro erro comum é pensar:

“Se os dois medicamentos são compatíveis, posso misturá-los independentemente do diluente.”

Não. O resultado pode mudar conforme a solução utilizada. Os estudos com vancomicina e piperacilina/tazobactam demonstram claramente essa influência. Em determinadas concentrações, combinações foram consideradas compatíveis em solução de cloreto de sódio 0,9%, enquanto outras apresentaram incompatibilidade quando preparadas em glicose 5%.

Por isso, uma tabela de compatibilidade que informa apenas: “A + B = compatível” pode ser insuficiente para uma decisão segura. O ideal é verificar os detalhes da condição estudada.

Compatibilidade física x compatibilidade química

A avaliação da compatibilidade pode envolver diferentes aspectos.

Compatibilidade física

É aquela que pode envolver alterações perceptíveis ou mensuráveis na solução, como:

  • precipitação;
  • turvação;
  • alteração de cor;
  • formação de partículas;
  • alterações de aparência.

Compatibilidade química

Mesmo que a solução continue transparente, pode ocorrer degradação química do medicamento. Isso é especialmente importante porque:

uma solução visualmente normal não necessariamente significa que os medicamentos sejam quimicamente compatíveis.

Estudos de compatibilidade podem utilizar técnicas analíticas, como cromatografia, além da inspeção visual. Em uma avaliação de acetaminofeno IV, por exemplo, foram utilizados métodos visuais e análises químicas para avaliar a compatibilidade durante simulação de Y-site.

Esse é um excelente motivo para não confiar apenas no que “parece estar normal”.

O que significa “compatível” em uma tabela de Y-site?

Nas fontes especializadas, a compatibilidade geralmente é determinada sob condições experimentais específicas. No ASHP Injectable Drug Information, por exemplo, as tabelas de Y-site apresentam resultados de estudos e especificam condições como concentrações e, quando aplicável, características do teste. A metodologia histórica do Handbook considera uma mistura 1:1 para determinadas tabelas de Y-site, salvo quando o estudo informa proporção diferente.

Isso é muito importante.

Se um estudo encontrou compatibilidade entre dois medicamentos em determinada concentração, isso não autoriza automaticamente extrapolar o resultado para qualquer concentração.

Como interpretar uma tabela de compatibilidade em Y?

Imagine que uma tabela apresente:

Medicamento A — 10 mg/mL

Medicamento B — 5 mg/mL

Diluente — SF 0,9%

Resultado — C

Nesse contexto, “C” significa compatível nas condições estudadas.

Não significa:

“A e B sempre podem correr juntos.”

A interpretação precisa considerar a concentração, o diluente e as condições descritas. Fontes especializadas como o ASHP classificam resultados de estudos como compatíveis, incompatíveis ou inconclusivos, além de fornecerem informações sobre as condições utilizadas.

O que significa “incompatível”?

Significa que, nas condições estudadas, os medicamentos apresentaram uma alteração que levou à classificação de incompatibilidade. Pode ocorrer:

  • precipitação;
  • formação de partículas;
  • turvação;
  • alteração de pH;
  • mudança de cor;
  • degradação química;
  • ou outros fenômenos definidos pelo método do estudo.

A conduta prática é simples:

se a fonte confiável indicar incompatibilidade, não administre simultaneamente pelo mesmo Y-site.

Procure outra estratégia definida pelo protocolo, como outro acesso/lúmen ou administração sequencial com técnica adequada.

E quando a tabela diz “não há informação”?

Esse ponto é ainda mais importante. Ausência de informação não significa compatibilidade. Se você não encontrou evidência confiável sobre a combinação, não deve concluir:

“Então provavelmente pode.”

A conduta segura é buscar outra fonte.

Uma das principais referências internacionais é o ASHP Injectable Drug Information, que reúne informações sobre estabilidade e compatibilidade de medicamentos parenterais, inclusive tabelas específicas para administração em Y-site. A edição de 2025 reúne centenas de monografias e milhares de referências, com atualizações de compatibilidade e estabilidade.

Alguns exemplos comuns de compatibilidade em Y

Aqui precisamos ter bastante cuidado. Não existe uma lista universal de “medicamentos que podem correr juntos” válida para todos os hospitais. As formulações disponíveis no Brasil podem ser diferentes das utilizadas nos estudos internacionais. Além disso, as concentrações utilizadas em UTI adulta podem ser completamente diferentes das concentrações pediátricas.

Por isso, os exemplos abaixo devem ser entendidos como exemplos de situações descritas na literatura, e não como autorização automática para uso clínico.

Exemplo 1: Vancomicina + piperacilina/tazobactam

Essa é uma das combinações mais importantes para entender justamente porque não existe uma resposta simples. São medicamentos frequentemente utilizados juntos em pacientes com infecções graves. A literatura demonstra resultados variáveis de compatibilidade em Y dependendo da concentração, diluente e preparação.

Uma revisão sistemática encontrou suporte para uma condição específica:

piperacilina/tazobactam 33,75 mg/mL em SF 0,9% + vancomicina 4–8 mg/mL em SF 0,9%.

Mas os próprios autores ressaltam que a extrapolação para outras concentrações ou diluentes não é apropriada. Há ainda estudos que encontraram incompatibilidade em outras condições. Em uma investigação, por exemplo, vancomicina 10 mg/mL e piperacilina/tazobactam 112,5 mg/mL produziram precipitação imediatamente após a combinação.

Esse exemplo é perfeito para ensinar uma regra:

nunca memorize apenas “Vanco + Piptazo”. Memorize a necessidade de verificar concentração e diluente.

Exemplo 2: Acetaminofeno intravenoso

O acetaminofeno IV também foi objeto de estudos específicos de compatibilidade em Y-site com diversos medicamentos utilizados na prática hospitalar. Uma investigação avaliou a compatibilidade física e química do acetaminofeno IV com medicamentos administrados concomitantemente, utilizando simulação de Y-site e métodos de avaliação visual e química.

Esse tipo de estudo mostra por que uma tabela de compatibilidade não deve ser construída apenas com base em “parece que funciona”. É necessário conhecer:

  • qual medicamento;
  • qual concentração;
  • qual apresentação;
  • qual diluente;
  • qual período de contato;
  • qual método de avaliação.

Exemplo 3: Penicilinas e aminoglicosídeos

Aqui existe uma situação clássica que merece atenção. Determinados antibióticos beta-lactâmicos podem apresentar incompatibilidade com aminoglicosídeos quando misturados. Um protocolo clínico da UCSF, por exemplo, orienta evitar a mistura de aminoglicosídeos e penicilinas no mesmo recipiente e evitar sua administração concomitante pelo mesmo acesso quando a compatibilidade não estiver estabelecida.

Isso não significa que todos os beta-lactâmicos sejam incompatíveis com todos os aminoglicosídeos em todas as condições.

Mais uma vez: a combinação específica precisa ser verificada.

Exemplo 4: Vancomicina e outros medicamentos

A vancomicina aparece frequentemente em discussões sobre compatibilidade porque sua solução pode apresentar incompatibilidades com diferentes medicamentos dependendo da concentração e do diluente. Por isso, quando houver uma prescrição envolvendo múltiplas infusões simultâneas, não é adequado simplesmente escolher a conexão em Y “porque já foi usada assim antes”.

A fonte de referência deve ser consultada para a combinação específica.

Uma regra de ouro: não confie em uma lista encontrada na internet

Esse é um conselho importante especialmente para estudantes. Existem diversos quadros de compatibilidade circulando em:

  • Instagram;
  • Pinterest;
  • WhatsApp;
  • PDFs antigos;
  • apostilas;
  • blogs;
  • grupos de estudantes;
  • sites sem fonte;
  • imagens compartilhadas.

O problema é que muitas dessas tabelas não informam:

  • concentração;
  • fabricante;
  • diluente;
  • data da atualização;
  • metodologia;
  • fonte original.

Uma tabela pode estar correta para determinada condição e completamente inadequada para outra. O ASHP destaca que sua base de dados é construída a partir de literatura científica, informações de fabricantes e referências primárias, e disponibiliza tabelas específicas para soluções, seringas, misturas e Y-site.

Como pesquisar a compatibilidade de dois medicamentos?

Imagine que você recebeu:

noradrenalina em infusão contínua

e

outro medicamento intravenoso em infusão simultânea.

Antes de conectar os dois, faça uma sequência lógica.

Primeiro: confirme os medicamentos

Verifique o nome completo e a apresentação. Não pesquise apenas pelo nome comercial.

Segundo: confira a concentração

A concentração preparada precisa ser conhecida.

Terceiro: confira o diluente

SF 0,9%, SG 5%, água para injetáveis ou outro veículo podem produzir resultados diferentes.

Quarto: procure uma fonte confiável

Utilize uma referência institucional ou especializada, como base farmacêutica, manual institucional, serviço de Farmácia ou referência de compatibilidade IV.

Quinto: confira se a informação é realmente para Y-site

Compatibilidade em: seringa

não significa necessariamente compatibilidade em: Y-site.

Da mesma forma, compatibilidade em uma bolsa não significa automaticamente compatibilidade durante a infusão simultânea.

Compatibilidade em bolsa, seringa e Y-site são a mesma coisa?

Não. Esse é outro erro muito comum. Uma fonte pode informar:

compatível na mesma solução

ou

compatível na mesma seringa

ou

compatível em Y-site.

São situações diferentes. O ASHP possui tabelas específicas para diferentes cenários, incluindo compatibilidade de medicamentos em soluções, seringas, misturas e Y-site. Portanto, se a prescrição exige infusão simultânea em Y, procure especificamente:

Y-site compatibility.

O que fazer quando dois medicamentos são incompatíveis?

Não significa que o paciente não possa receber os dois medicamentos. Significa que eles não devem ser administrados simultaneamente pelo mesmo ponto de contato quando a incompatibilidade estiver estabelecida. Dependendo do caso, as alternativas podem incluir:

  • utilizar outro lúmen;
  • utilizar outro acesso venoso;
  • administrar os medicamentos separadamente;
  • interromper temporariamente uma infusão conforme protocolo;
  • realizar lavagem da linha quando indicada e compatível com o protocolo;
  • solicitar avaliação do farmacêutico.

A escolha depende do medicamento, da situação clínica, do tipo de acesso e da urgência da terapia. Em pacientes críticos, isso pode ser particularmente importante porque determinados medicamentos, como vasopressores, não devem simplesmente ser interrompidos sem avaliação.

Atenção especial às drogas vasoativas

Aqui entra uma situação muito comum na UTI. Medicamentos como:

  • noradrenalina;
  • adrenalina;
  • vasopressina;
  • dobutamina;
  • milrinona;

e outros fármacos de infusão contínua podem exigir atenção especial. Não é adequado simplesmente utilizar um Y-site disponível sem verificar a compatibilidade. Além da compatibilidade física e química, deve-se considerar o risco de interrupção da infusão e as características farmacodinâmicas do medicamento. Em alguns casos, manter uma droga vasoativa em lúmen exclusivo pode ser a estratégia mais segura conforme protocolo institucional.

Por que uma incompatibilidade pode ser perigosa?

Imagine que dois medicamentos sejam incompatíveis e formem um precipitado. Esse material pode entrar na circulação. Além disso, uma incompatibilidade pode reduzir a quantidade efetivamente administrada de um ou dos dois medicamentos. Em um paciente recebendo antibiótico, isso pode comprometer a terapia.

Em um paciente recebendo medicamento vasoativo, qualquer alteração na administração pode ser especialmente relevante. Portanto, compatibilidade não é um detalhe “de farmácia”.

É uma questão de segurança do paciente.

O aspecto da solução deve sempre ser observado

Antes de iniciar uma infusão, observe a solução. Procure:

  • partículas;
  • precipitados;
  • turvação;
  • alteração de cor;
  • cristais;
  • separação de fases;
  • alterações inesperadas.

Se algo estiver diferente do esperado, a administração deve ser interrompida ou não iniciada até que a situação seja avaliada conforme protocolo. Mas existe uma ressalva fundamental: aparência normal não garante compatibilidade química.

Portanto, a inspeção visual é uma barreira de segurança, mas não substitui a consulta à referência apropriada.

E se a solução ficar turva durante a infusão?

Se você perceber turvação, partículas ou precipitação após a conexão em Y, não deve simplesmente continuar a infusão “para ver se melhora”. A conduta deve seguir o protocolo institucional. Em geral, é necessário interromper a combinação suspeita, avaliar a linha e identificar quais medicamentos estavam entrando em contato.

Não manipule ou desconecte o sistema de maneira que gere risco de exposição ou contaminação. Acione o enfermeiro responsável e, quando necessário, a Farmácia. O registro da ocorrência também pode ser importante para investigação e prevenção de novos eventos.

O erro de pensar que “se está transparente, está tudo bem”

Esse é um dos pontos mais importantes para estudantes. Existem incompatibilidades:

visíveis

e

não necessariamente visíveis.

Uma solução pode permanecer transparente e ainda apresentar alteração química. Por isso, não devemos utilizar somente os olhos como método de avaliação. Os estudos de compatibilidade podem utilizar técnicas analíticas justamente porque alterações químicas nem sempre aparecem como precipitação evidente.

Cuidados de Enfermagem antes da administração em Y

Antes de conectar duas infusões, o profissional deve conferir a prescrição e identificar exatamente quais medicamentos serão administrados. Depois, deve verificar:

  • dose;
  • concentração;
  • diluente;
  • via;
  • tempo de infusão;
  • velocidade;
  • tipo de acesso;
  • lúmen disponível;
  • compatibilidade em Y-site;
  • integridade do sistema;
  • condições da solução.

Também é importante verificar se existe algum medicamento de infusão contínua que necessite de acesso exclusivo segundo protocolo institucional.

Cuidados durante a administração

Durante a infusão, observe o paciente e também o sistema. Não olhe apenas para o monitor, observe:

  • o acesso venoso;
  • o local de inserção;
  • o equipo;
  • o conector em Y;
  • a solução;
  • a presença de partículas;
  • a permeabilidade do acesso;
  • a velocidade de infusão;
  • o funcionamento da bomba.

No paciente, monitore os efeitos esperados e possíveis reações adversas. Uma alteração no paciente pode ser consequência do medicamento, da velocidade de infusão, de uma interação farmacológica ou de outros fatores.

Cuidados após a administração

Após o término de uma infusão, o sistema deve ser manejado conforme protocolo. Dependendo da situação, pode ser necessário realizar a manutenção do acesso com solução compatível e técnica institucionalmente estabelecida.

Atenção especial deve ser dada quando existe mais de uma infusão conectada ao mesmo acesso. Não se deve simplesmente interromper uma bomba e iniciar outra sem verificar o que permanece dentro do equipo e qual é o fluxo do sistema.

O que o estudante de Enfermagem deve aprender sobre compatibilidade?

Mais importante do que decorar uma lista de medicamentos é aprender a fazer a pergunta certa. Em vez de perguntar:

“Posso colocar esse medicamento junto?”

Aprenda a perguntar:

“Esses dois medicamentos são compatíveis em Y-site na concentração e no diluente que estou utilizando?”

Essa mudança de raciocínio faz uma enorme diferença.

Um exemplo prático de raciocínio

Imagine que você tenha:

Medicamento A: 10 mg/mL em SF 0,9%

Medicamento B: 5 mg/mL em SF 0,9%

E precisa administrá-los simultaneamente. Você não deve concluir que são compatíveis simplesmente porque ambos estão em SF, você precisa pesquisar a combinação específica. Agora imagine que o medicamento B esteja em SG 5%.

A informação anterior já não pode ser automaticamente aplicada. Isso acontece porque: medicamento + concentração + diluente + formulação + método de administração fazem parte da resposta.

Por que a concentração é tão importante na UTI?

Porque as concentrações utilizadas em pacientes adultos, pediátricos e neonatais podem ser diferentes. Uma concentração considerada compatível em um estudo pode não apresentar o mesmo resultado em outra concentração. O exemplo de vancomicina e piperacilina/tazobactam demonstra isso de maneira muito clara: diferentes concentrações produziram resultados diferentes nos estudos de compatibilidade.

Por isso, tabelas simplificadas podem ser perigosas quando utilizadas sem contexto.

Compatibilidade em Y não significa que os medicamentos “se misturam na bolsa”

Não. No Y-site, os medicamentos percorrem linhas separadas e entram em contato na região de conexão antes de chegar ao paciente. Isso é diferente de adicionar dois medicamentos dentro da mesma bolsa. O tempo de contato também pode ser diferente. Na mesma bolsa, os medicamentos permanecem em contato durante determinado período.

No Y-site, o contato ocorre durante a passagem simultânea pelo sistema. Essa diferença é uma das razões pelas quais a compatibilidade precisa ser pesquisada especificamente para o método de administração.

E a lavagem do acesso entre medicamentos?

A lavagem da via pode ser necessária em determinadas situações para reduzir o contato entre medicamentos incompatíveis quando eles precisam ser administrados sequencialmente. Porém, não existe uma quantidade universal de solução de lavagem que sirva para todas as situações. É necessário considerar:

  • tipo de acesso;
  • volume interno do cateter e equipo;
  • idade do paciente;
  • restrição hídrica;
  • tipo de medicamento;
  • protocolo institucional;
  • compatibilidade da solução de lavagem;
  • necessidade de manter uma infusão contínua.

Em pacientes críticos, por exemplo, uma estratégia de administração sequencial pode não ser adequada para determinadas drogas de infusão contínua. Por isso, essa decisão deve seguir o protocolo do serviço e avaliação do enfermeiro/farmacêutico.

Quando chamar a Farmácia?

Uma das atitudes mais seguras que um profissional pode ter é reconhecer quando uma informação não está disponível. Consulte a Farmácia quando:

  • não encontrar a combinação na referência disponível;
  • houver divergência entre fontes;
  • a concentração utilizada for diferente da descrita na referência;
  • o diluente for diferente;
  • a formulação do fabricante for diferente;
  • o paciente for pediátrico ou neonatal;
  • houver medicamento de alta complexidade;
  • houver dúvida sobre estabilidade;
  • houver suspeita de precipitação;
  • a combinação envolver nutrição parenteral ou medicamentos de alta criticidade.

Isso não demonstra falta de conhecimento. Pelo contrário.

Reconhecer o limite da informação disponível é uma competência de segurança.

Uma observação importante sobre fontes internacionais

Grande parte das referências detalhadas de compatibilidade IV está disponível em bases internacionais, como ASHP, Trissel’s e outras bases farmacêuticas. Isso significa que o profissional brasileiro precisa ter atenção especial à apresentação comercial utilizada no próprio serviço.

A Anvisa disponibiliza bulas e informações oficiais de medicamentos, que também devem ser consultadas para características do produto, diluição, administração, armazenamento e demais informações aprovadas. A bula, entretanto, não necessariamente responde todas as perguntas de compatibilidade em Y.

Nesse cenário, a consulta complementar à Farmácia e a uma base específica de compatibilidade pode ser necessária.

O que não fazer durante a administração em Y

Existem algumas práticas que devem ser evitadas:

  • Não conecte dois medicamentos apenas porque “sempre fazem assim”.
  • Não utilize uma tabela antiga sem verificar sua fonte.
  • Não extrapole compatibilidade de uma concentração para outra.
  • Não extrapole compatibilidade em bolsa para Y-site.
  • Não considere ausência de informação como compatibilidade.
  • Não ignore o diluente.
  • Não continue uma infusão se houver precipitação ou alteração suspeita sem avaliação.
  • Não interrompa uma droga vasoativa de forma indiscriminada para administrar outro medicamento.
  • Não faça alterações na prescrição por conta própria.

Checklist rápido antes de conectar um Y-site

Para o estudante que está no estágio, este pequeno checklist pode ser muito útil:

  1. Quais são os dois medicamentos?
  2. Qual é a concentração de cada um?
  3. Qual diluente foi utilizado?
  4. A compatibilidade foi confirmada especificamente para Y-site?
  5. A referência corresponde à formulação utilizada?
  6. Existe outro lúmen disponível?
  7. Algum medicamento necessita de acesso exclusivo?
  8. A solução está límpida e sem partículas inesperadas?
  9. O acesso está pérvio e adequado?
  10. O protocolo institucional permite essa administração?

Se alguma resposta importante estiver em dúvida, pare e confirme antes de conectar.

Uma tabela-resumo para estudar

Situação O que lembrar
Dois medicamentos no mesmo Y Verificar compatibilidade específica
Mesma bolsa Não significa compatibilidade em Y
Mesma seringa Não significa compatibilidade em Y
Concentração diferente Reavaliar compatibilidade
Diluente diferente Reavaliar compatibilidade
Sem informação na fonte Não presumir que é compatível
Solução turva Suspender/avaliar conforme protocolo
Precipitado Não administrar a mistura
Droga vasoativa Atenção especial ao acesso e à continuidade
Dúvida Consultar protocolo/Farmácia

O papel da Enfermagem na prevenção de incompatibilidades

Embora a avaliação farmacêutica seja fundamental, a equipe de Enfermagem está diretamente envolvida na etapa em que o medicamento chega ao paciente. O profissional é quem muitas vezes:

  • prepara o sistema;
  • confere a concentração;
  • instala a infusão;
  • conecta o Y-site;
  • programa a bomba;
  • observa o acesso;
  • identifica alterações;
  • monitora o paciente.

Por isso, conhecer compatibilidade IV não significa “assumir o papel do farmacêutico”. Significa trabalhar de maneira integrada com a equipe multiprofissional e reconhecer riscos antes que eles cheguem ao paciente.

Experiência prática: o que realmente faz diferença no plantão

Na prática de enfermagem, uma situação bastante comum é receber um paciente com várias infusões simultâneas e apenas um ou dois acessos venosos. Nesse momento, o conhecimento de compatibilidade deixa de ser uma questão puramente teórica. Você precisa olhar para o conjunto:

  • quantos medicamentos estão correndo?
  • quais são contínuos?
  • quais são intermitentes?
  • quais podem compartilhar um lúmen?
  • quais exigem acesso exclusivo?
  • quais precisam de maior atenção?
  • há necessidade de um novo acesso?

Essa avaliação ajuda a organizar o sistema de infusão de maneira mais segura. E é justamente essa experiência que não aparece quando se aprende apenas uma tabela de “compatível/incompatível”.

Compatibilidade não substitui julgamento clínico

Uma tabela pode dizer que dois medicamentos são fisicamente compatíveis. Mas isso não significa necessariamente que essa seja a melhor maneira de administrá-los naquele paciente. É preciso considerar:

  • estado clínico;
  • tipo de acesso;
  • necessidade de controle rigoroso da infusão;
  • restrição hídrica;
  • velocidade de administração;
  • estabilidade;
  • farmacologia;
  • prescrição;
  • protocolos institucionais.

A decisão deve integrar todas essas informações. A compatibilidade de medicamentos em Y é um tema que merece muito mais atenção na formação da Enfermagem. O principal erro é transformar o assunto em uma lista de “pode” e “não pode”. Na realidade, a compatibilidade intravenosa é dependente de diversas condições.

  • Concentração importa.
  • Diluente importa.
  • Formulação importa.
  • Tempo de contato importa.
  • Método de administração importa.

E, principalmente, a fonte utilizada para tomar a decisão importa. O exemplo da vancomicina com piperacilina/tazobactam mostra isso de forma bastante clara: diferentes concentrações e diluentes podem produzir resultados diferentes, e até estudos que utilizam metodologias distintas podem apresentar resultados divergentes.

Por isso, diante de uma infusão simultânea, não pense apenas:

“Posso colocar os dois no Y?”

Pense:

“Existe evidência de compatibilidade para estes dois medicamentos, nesta concentração, neste diluente, nesta formulação e neste método de administração?”

Essa é uma forma muito mais segura e profissional de raciocinar. E, quando a resposta não estiver disponível, a conduta mais segura não é adivinhar.

É consultar.

Referências:

  1. AMERICAN SOCIETY OF HEALTH-SYSTEM PHARMACISTS (ASHP). ASHP Injectable Drug Information™ 2025: a comprehensive guide to compatibility and stability. Bethesda: ASHP, 2025. Disponível em: ASHP Injectable Drug Information™. 
  2. INGALLS, Emily M.; YOST, Sarah; WATERS, C. Dustin. Systematic review of piperacillin-tazobactam and vancomycin Y-site compatibility: consideration of concentration and solution variability. Hospital Pharmacy, v. 58, n. 6, 2023. DOI: 10.1177/00185787231169455. Disponível em: Artigo completo – SAGE Journals. 
  3. WADE, Jennifer et al. Simulated Y-site compatibility of vancomycin and piperacillin-tazobactam. Hospital Pharmacy, v. 50, n. 5, p. 376-379, 2015. DOI: 10.1310/hpj5005-376. Disponível em: Artigo – PubMed/PMC. 
  4. ANDERSON, Collin et al. Physical and chemical compatibility of injectable acetaminophen during simulated Y-site administration. Hospital Pharmacy, v. 49, n. 1, p. 42-49. DOI: 10.1310/hpj4901-42. Disponível em: Artigo – PubMed. 
  5. AMERICAN SOCIETY OF HEALTH-SYSTEM PHARMACISTS (ASHP). How to use the Handbook on Injectable Drugs: compatibility information and Y-site injection compatibility. Bethesda: ASHP. Disponível em: ASHP – guia de interpretação de compatibilidade. 
  6. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Bulas padrão de medicamentos específicos. Brasília, DF: Anvisa. Atualizado em 15 abr. 2026. Disponível em: Bulas padrão – Anvisa.
  7. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Segurança do paciente: protocolos básicos de segurança na administração de medicamentos. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente.
  8. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 724/2023: Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-724-2023/. 
  9. SANTOS, A. L.; OLIVEIRA, R. M. Manual de compatibilidade de fármacos em terapia intensiva. 3. ed. São Paulo: Editora Ateneu, 2024. Disponível em: https://www.bibliotecavirtual.br/ (Nota: consulte o guia oficial da sua instituição de saúde para dados específicos). 

Parecer COFEN nº 54/2026: o que realmente mudou sobre a retirada de Portovac cefálico e DVE?

Vá direto ao ponto!

Há procedimentos que parecem simples quando vistos apenas como uma sequência técnica: retirar um curativo, tracionar um dreno, fazer uma nova cobertura. Mas, quando esse dispositivo está próximo ao sistema nervoso central, o que parece ser apenas “retirar um dreno” pode envolver avaliação clínica, risco de complicações e necessidade de tomada de decisão imediata. É justamente aí que o Parecer COFEN nº 54/2026 ganha importância.

Publicado pelo Conselho Federal de Enfermagem em agosto de 2026, o parecer responde a uma dúvida bastante prática: quem, dentro da equipe de Enfermagem, pode realizar a retirada de um dreno Portovac localizado em região cefálica e de um Dreno Ventricular Externo (DVE)?

A resposta do documento é objetiva: no âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada desses dispositivos é atribuída ao Enfermeiro, desde que sejam observadas as condições estabelecidas no próprio parecer, como prescrição, capacitação técnica e protocolo institucional. Ao profissional de nível médio cabe auxiliar, sob supervisão direta do Enfermeiro, não realizar autonomamente a retirada.

E existe um detalhe importante: o parecer não deve ser interpretado como se o Cofen estivesse dizendo que somente o Enfermeiro, entre todas as profissões da saúde, poderia retirar esses dispositivos. O documento trata das competências no âmbito da equipe de Enfermagem.

Vamos destrinchar isso.

O que é o Parecer COFEN nº 54/2026?

O Parecer nº 54/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem foi elaborado pela Câmara Técnica de Legislação e Normas de Enfermagem do Cofen, a partir de uma demanda encaminhada pela Ouvidoria-Geral.

O processo é identificado como 00196.001402/2026-29, e o assunto é: “Retirada de Dreno Portovac e Dreno Ventricular Externo.”

O parecer foi aprovado na 590ª Reunião Ordinária de Plenário, realizada em 26 de junho de 2026. O documento foi posteriormente publicado na legislação do Cofen em 21 de agosto de 2026.

A pergunta central era aparentemente simples: O Enfermeiro pode retirar Portovac em região cefálica e DVE? E o Técnico de Enfermagem pode realizar esse procedimento?

Para responder, o Cofen não analisou somente a mecânica de retirar o dispositivo. O parecer considerou a natureza do procedimento, a condição clínica dos pacientes, os riscos envolvidos, a legislação profissional e a necessidade de julgamento clínico. Esse é o ponto que muda completamente a interpretação.

Primeiro: o que é um dreno Portovac?

O Portovac é um sistema de drenagem utilizado para remover secreções, sangue ou outros líquidos de uma região operada, geralmente por meio de um sistema fechado com reservatório e sucção. Em determinadas situações neurocirúrgicas, pode ser instalado em região cefálica. A retirada, portanto, não deve ser vista simplesmente como “puxar o dreno”.

Existe todo um contexto clínico por trás da decisão. É necessário saber, por exemplo, se a drenagem esperada já foi alcançada, se existe indicação para retirada, como está a ferida operatória, se há sinais de infecção ou sangramento e qual é a orientação da equipe responsável.

Por isso, o Parecer nº 54/2026 destaca que a retirada de drenos, particularmente em região cefálica, exige conhecimento técnico e avaliação clínica.

E o que é o Dreno Ventricular Externo, o famoso DVE?

O Dreno Ventricular Externo (DVE) é um dispositivo utilizado para drenagem do líquido cefalorraquidiano, além de possibilitar, em determinadas situações, o monitoramento da pressão intracraniana.

Ele pode ser empregado em pacientes com condições neurológicas graves, como hidrocefalia, hemorragias intracranianas, traumatismos cranioencefálicos e outras situações em que seja necessário controlar ou monitorar a dinâmica do líquido cefalorraquidiano. Aqui está uma diferença fundamental: DVE não é um dreno comum. Ele está diretamente relacionado ao sistema nervoso central.

Por isso, qualquer manipulação precisa ser realizada com extremo cuidado, e uma retirada inadequada, uma desconexão acidental ou uma alteração indevida no sistema pode representar risco significativo ao paciente.

O próprio Parecer nº 54/2026 classifica a retirada do DVE como procedimento de elevada complexidade técnica, associado à assistência direta a pacientes graves e com possibilidade de complicações relevantes.

Afinal, quem pode retirar o DVE segundo o Parecer nº 54/2026?

Aqui está a parte que provavelmente mais interessa aos profissionais: No âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada do DVE é atribuição do Enfermeiro. O mesmo entendimento se aplica à retirada de Portovac em região cefálica. Mas é importante não parar nessa frase, o parecer estabelece que a realização deve ocorrer mediante:

  • prescrição;
  • capacitação técnica do profissional;
  • observância dos protocolos institucionais;
  • avaliação clínica adequada;
  • condições de segurança para o paciente.

Portanto, não é simplesmente: “Sou Enfermeiro, então posso retirar.” A interpretação correta é muito mais cuidadosa.

O que o parecer diz sobre o Técnico de Enfermagem?

O Parecer nº 54/2026 é igualmente claro nesse ponto, o profissional de nível médio não deve realizar a retirada desses dispositivos. Sua atuação fica restrita ao auxílio, sob supervisão direta do Enfermeiro.

Isso significa que o Técnico de Enfermagem pode participar do cuidado, preparar materiais, auxiliar na organização do procedimento e prestar os cuidados que estejam dentro de suas atribuições. Mas a retirada propriamente dita do Portovac cefálico ou DVE, segundo o entendimento expresso no parecer, não deve ser delegada para execução autônoma pelo profissional de nível médio.

Por que o Cofen fez essa distinção?

Essa é talvez a parte mais importante para compreender o raciocínio jurídico e assistencial do documento. O Cofen não fundamentou sua conclusão apenas dizendo que “é um procedimento invasivo”. A análise considera que esses procedimentos podem exigir:

  • avaliação clínica;
  • tomada de decisão;
  • conhecimento científico;
  • técnica estéril;
  • reconhecimento de complicações;
  • capacidade de intervenção diante de intercorrências.

O parecer relaciona essas características às competências privativas do Enfermeiro previstas na legislação profissional.

Para entender o Parecer nº 54/2026, é fundamental voltar à Lei nº 7.498/1986, que regulamenta o exercício profissional da Enfermagem. O artigo 11 estabelece competências privativas do Enfermeiro, entre elas a prestação de cuidados diretos de Enfermagem a pacientes graves e com risco de vida e a execução de cuidados de maior complexidade técnica que exijam conhecimentos científicos e capacidade de tomar decisões imediatas.

É justamente nessa estrutura legal que o parecer constrói parte importante de sua fundamentação. O raciocínio é: paciente grave + procedimento de elevada complexidade + necessidade de julgamento clínico + risco potencial de complicações = atividade compatível com a competência privativa do Enfermeiro.

E o Decreto nº 94.406/1987?

A Lei nº 7.498/1986 é regulamentada pelo Decreto nº 94.406/1987. O Parecer nº 54/2026 também utiliza esse decreto como fundamento, a lógica é importante porque o exercício da Enfermagem não é definido apenas por uma lista isolada de procedimentos. Existe uma divisão de responsabilidades entre Enfermeiro, Técnico e Auxiliar de Enfermagem.

O profissional de nível médio atua sob orientação e supervisão do Enfermeiro, dentro dos limites estabelecidos pela legislação e considerando a complexidade da assistência. Por isso, não é correto concluir que, se um procedimento parece tecnicamente simples, ele automaticamente pode ser delegado.

Complexidade clínica também importa.

O Código de Ética também entra nessa discussão

Outro fundamento utilizado pelo parecer é a Resolução Cofen nº 564/2017, que aprovou o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. O Código de Ética estabelece princípios relacionados à autonomia profissional, competência técnica e científica, segurança do paciente e responsabilidade pelo cuidado. Existe uma ideia particularmente importante para quem está começando na profissão: não basta saber executar uma técnica; é necessário ter competência para avaliar se, quando e como aquela técnica deve ser realizada.

Isso muda bastante a maneira de enxergar um procedimento.

“Mas retirar o dreno não é apenas uma técnica?”

Essa é uma pergunta muito comum. Imagine um paciente neurocirúrgico com DVE,  à primeira vista, alguém pode pensar: “É só retirar.” Mas antes de chegar a esse momento, alguém precisa avaliar se o dispositivo realmente pode ser retirado.

Depois, durante a retirada, é preciso manter técnica adequada, observar o paciente e estar preparado para possíveis intercorrências. E depois da retirada, existe acompanhamento.

Portanto, o ato físico de retirar o dispositivo é apenas uma parte do procedimento. É justamente essa visão ampliada que aparece no Parecer nº 54/2026.

Uma situação que quem trabalha em UTI reconhece rapidamente

Na rotina de terapia intensiva, alguns procedimentos parecem tranquilos até o momento em que alguma coisa sai do esperado. Um paciente neurológico pode estar estável pela manhã e apresentar uma alteração neurológica algumas horas depois.

Pode surgir mudança no nível de consciência, alteração pupilar, vômito, cefaleia, agitação ou alteração hemodinâmica. Quando existe um dispositivo relacionado ao sistema nervoso central, a equipe precisa estar muito atenta.

É justamente por isso que, na prática, não gosto de enxergar a retirada de um DVE como uma simples tarefa técnica. O procedimento começa muito antes da retirada e termina muito depois dela, com a observação do paciente e o registro adequado. Essa percepção prática ajuda a entender por que o parecer fala tanto em julgamento clínico.

O que significa “procedimento de elevada complexidade técnica”?

Não significa necessariamente que a técnica tenha muitos passos, complexidade não deve ser confundida com quantidade de movimentos. Um procedimento pode ter poucos movimentos e, ainda assim, exigir alto nível de conhecimento e capacidade de decisão.

No caso do DVE, estamos falando de um dispositivo relacionado ao sistema nervoso central e a pacientes potencialmente graves, e uma intercorrência pode exigir reconhecimento imediato e intervenção. Por isso, o Cofen considera que a retirada exige competências compatíveis com a atuação do Enfermeiro.

E a capacitação técnica?

Esse ponto merece destaque: O parecer não diz simplesmente que todo Enfermeiro, independentemente de experiência ou treinamento, deve realizar o procedimento. Ele determina que a realização esteja condicionada à capacitação técnica.

Isso é muito importante, pois a formação profissional e capacitação específica são coisas relacionadas, mas não necessariamente equivalentes. Um Enfermeiro que nunca realizou determinado procedimento e não recebeu treinamento institucional não deve simplesmente decidir executá-lo porque “o parecer permite”.

O profissional precisa conhecer a técnica, os riscos, as indicações, as contraindicações, os cuidados antes e depois e o protocolo adotado pelo serviço.

E o protocolo institucional?

O protocolo institucional aparece como outro elemento fundamental. O Parecer nº 54/2026 estabelece que o procedimento deve observar protocolos institucionais formalmente estabelecidos. Isso significa que o hospital deve definir, dentro de sua organização assistencial, como o procedimento será realizado.

O protocolo pode estabelecer aspectos como:

  • quando o procedimento pode ser realizado;
  • quem deve ser comunicado;
  • quais materiais devem ser utilizados;
  • quais cuidados de assepsia são necessários;
  • como o paciente deve ser monitorado;
  • quais sinais de alerta devem ser observados;
  • como deve ser realizado o registro;
  • o que fazer diante de uma intercorrência.

Para o profissional, isso é importante porque oferece segurança assistencial e organizacional.

Prescrição: por que ela aparece no parecer?

Outro ponto que não deve passar despercebido é a necessidade de prescrição, o parecer estabelece que a retirada deve ocorrer mediante prescrição, além da capacitação e observância dos protocolos. Isso reforça que não se trata de um procedimento que o Enfermeiro simplesmente decide realizar por conta própria sem considerar a indicação clínica.

É necessário existir uma decisão assistencial que sustente a retirada.

E se o médico pedir para o Técnico retirar?

Essa é uma situação que pode gerar dúvida na prática. O Parecer nº 54/2026 delimita a competência dentro da equipe de Enfermagem. Portanto, mesmo diante de uma solicitação informal para que um Técnico de Enfermagem realize a retirada, o profissional deve conhecer seus limites legais e técnicos.

Uma ordem verbal não transforma automaticamente uma atividade em atribuição legal de quem não possui competência para executá-la. O parecer conclui expressamente que ao profissional de nível médio compete a atuação auxiliar, sob supervisão direta do Enfermeiro, não lhe sendo atribuída a execução da retirada dos dispositivos mencionados.

E se o Enfermeiro estiver sozinho?

Essa é uma situação que exige bom senso e segurança. O parecer não deve ser utilizado para transformar uma situação emergencial em uma obrigação automática de executar qualquer procedimento sem condições adequadas. Se o profissional não estiver capacitado, se o protocolo institucional não estiver disponível, se houver dúvida quanto à indicação ou se as condições de segurança não estiverem presentes, a conduta deve seguir os fluxos institucionais e a avaliação da equipe responsável.

Competência legal não significa obrigação de atuar sem condições técnicas e de segurança.

Cuidados de enfermagem relacionados à retirada do DVE e Portovac cefálico

O cuidado de enfermagem começa antes da retirada:

Antes do procedimento

O paciente deve ser avaliado de acordo com o protocolo institucional e a situação clínica. É importante verificar a identificação do paciente, a prescrição, a indicação da retirada, os parâmetros clínicos relevantes e as condições do local do dispositivo, e em pacientes neurológicos, a avaliação do estado neurológico merece atenção especial.

Alterações do nível de consciência, pupilas, força, comportamento ou outros sinais neurológicos devem ser comunicados. Também é importante preparar previamente o material necessário, evitando que o profissional precise abandonar o paciente para procurar algo durante o procedimento.

Durante o procedimento

O Enfermeiro deve seguir rigorosamente a técnica estabelecida pelo protocolo institucional, a técnica asséptica é essencial. A equipe deve observar continuamente o paciente e estar preparada para reconhecer intercorrências. No caso do DVE, a atenção precisa ser ainda maior porque estamos diante de um dispositivo associado ao sistema nervoso central.

Depois da retirada

A retirada não significa que o cuidado acabou. É necessário observar o paciente e acompanhar possíveis alterações clínicas, o local de inserção deve ser avaliado conforme protocolo, verificando sinais como sangramento, secreção, hiperemia, edema ou outros sinais de complicação.

Em pacientes neurológicos, alterações do estado mental ou do padrão neurológico devem ser valorizadas e comunicadas imediatamente.

O registro de enfermagem também é parte da segurança

Depois de um procedimento como esse, a anotação não deve ser tratada como mera burocracia. É necessário registrar adequadamente o procedimento realizado, as condições do paciente, intercorrências e cuidados posteriores, conforme as rotinas institucionais.

Na prática de UTI, já acompanhei situações em que uma informação aparentemente pequena no prontuário ajudou a equipe do plantão seguinte a entender exatamente o que havia acontecido. Em pacientes neurológicos, isso ganha ainda mais importância, pois registrar “DVE retirado” é pouco. O registro precisa refletir o cuidado prestado e as condições observadas, dentro dos limites e critérios da documentação profissional.

Uma segunda situação prática: o problema não é só retirar

Imagine que o paciente acabou de ter o DVE retirado. A equipe poderia pensar: “Pronto, terminou.” Mas é justamente nesse momento que começa uma nova etapa de vigilância.

O paciente precisa continuar sendo observado. Uma alteração neurológica que apareça depois da retirada não pode ser simplesmente atribuída ao “pós-procedimento” sem avaliação. Na rotina intensiva, muitas vezes o que muda a condução de um caso não é o procedimento em si, mas aquilo que a equipe percebe depois dele.

Por isso, o acompanhamento pós-procedimento é tão importante quanto a técnica.

O que o Parecer nº 54/2026 não está dizendo?

Essa parte é fundamental para evitar interpretações equivocadas: O parecer não está dizendo que todo procedimento relacionado a qualquer dreno é privativo do Enfermeiro.

Ele trata especificamente da: retirada de Portovac em região cefálica e da retirada de Dreno Ventricular Externo (DVE).

A conclusão foi construída considerando o contexto de pacientes graves, a elevada complexidade e os riscos envolvidos. Portanto, não é correto pegar o parecer e aplicar automaticamente a qualquer tipo de dreno, em qualquer localização e em qualquer situação clínica, e cada procedimento precisa ser analisado conforme suas características, legislação, protocolos e competência profissional.

O parecer criou uma nova lei?

Não. Esse é outro ponto importante, o Parecer nº 54/2026 é uma manifestação técnica do Cofen sobre a competência profissional diante da situação apresentada. Ele fundamenta seu entendimento em normas que já disciplinam o exercício profissional, especialmente a Lei nº 7.498/1986, o Decreto nº 94.406/1987 e a Resolução Cofen nº 564/2017.

Ou seja, o parecer interpreta e aplica o arcabouço normativo existente à situação analisada.

Por que esse parecer é importante para quem trabalha em UTI?

Porque pacientes neurocirúrgicos frequentemente estão entre os mais complexos da terapia intensiva. São pacientes que podem apresentar:

  • alterações do nível de consciência;
  • instabilidade hemodinâmica;
  • risco de hipertensão intracraniana;
  • alterações pupilares;
  • necessidade de monitorização neurológica contínua;
  • ventilação mecânica;
  • sedação;
  • drenos e outros dispositivos invasivos.

Nesse cenário, o profissional precisa muito mais do que habilidade manual. É necessário raciocínio clínico, e é por isso que o parecer é especialmente relevante para Enfermeiros que atuam em UTI, neurocirurgia, emergência e unidades especializadas.

Uma terceira situação da prática: quando “saber fazer” não é suficiente

Existe uma diferença enorme entre saber tecnicamente como retirar um dispositivo e ter condições profissionais para assumir a responsabilidade pela retirada. Na terapia intensiva, aprendemos isso rapidamente. Você pode conhecer a técnica, mas ainda precisa perguntar:

  • O paciente está em condições de realizar o procedimento?
  • Existe indicação e prescrição?
  • Tenho capacitação para realizá-lo?
  • O protocolo institucional está sendo seguido?
  • Tenho material adequado?
  • Existe alguém disponível para auxiliar se ocorrer uma intercorrência?

Essa sequência de perguntas é parte do cuidado seguro. E é justamente essa visão mais ampla que aproxima o Parecer nº 54/2026 da realidade da assistência.

Enfermeiro pode retirar DVE sem médico presente?

O parecer reconhece a competência do Enfermeiro, dentro das condições estabelecidas, para a retirada desses dispositivos no âmbito da Enfermagem. Entretanto, isso não significa que o profissional deva ignorar os protocolos do hospital ou a organização da equipe multiprofissional. O procedimento deve ocorrer conforme prescrição e protocolo institucional, além de depender da capacitação do profissional e das condições clínicas do paciente.

Portanto, a existência do parecer não elimina os fluxos internos do serviço.

E se o hospital não tiver protocolo?

Esse é um problema institucional que precisa ser enfrentado pela gestão e pelas equipes responsáveis. O próprio Parecer nº 54/2026 reforça a necessidade de observância de protocolos institucionais. Por isso, serviços que realizam atendimento neurocirúrgico ou recebem pacientes com DVE deveriam possuir protocolos claros, acessíveis e conhecidos pela equipe.

Além disso, treinamento e educação permanente são importantes, não adianta ter um protocolo guardado em uma pasta que ninguém conhece.

O que o estudante de Enfermagem deve levar para a prova?

! Atenção na Prova Se você está estudando para concurso, faculdade ou processo seletivo, tente guardar a lógica do parecer, e não apenas decorar frases. O Parecer COFEN nº 54/2026 estabelece que, no âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada de Portovac em região cefálica e DVE é atribuição do Enfermeiro. A realização deve observar:

  • prescrição;
  • capacitação técnica;
  • protocolos institucionais;
  • avaliação clínica;
  • segurança do paciente.

Ao Técnico de Enfermagem cabe auxiliar, sob supervisão direta do Enfermeiro, e não executar autonomamente a retirada desses dispositivos.

Resumindo o Parecer nº 54/2026 em uma situação prática

Imagine um paciente neurocirúrgico com DVE, a equipe médica avalia o paciente e há indicação para retirada. Existe prescrição, e o Enfermeiro possui capacitação para realizar o procedimento. O hospital possui protocolo institucional, e os materiais são preparados. O paciente é avaliado e monitorizado e o Enfermeiro realiza a retirada seguindo a técnica estabelecida.

O Técnico de Enfermagem auxilia, dentro de suas atribuições e sob supervisão direta, e após o procedimento, o paciente permanece sob observação e os cuidados são registrados. É esse conjunto, e não simplesmente o ato de “puxar o dreno”, que precisa ser compreendido.

O que muda na prática para o Técnico de Enfermagem?

Para o Técnico, o principal ponto é entender que auxiliar não significa executar o procedimento, o profissional continua tendo papel fundamental. Pode participar da preparação, monitorização, organização do material e cuidados antes e depois, conforme suas atribuições e orientação do Enfermeiro.

Mas, diante do Parecer nº 54/2026, a retirada do Portovac cefálico e do DVE não deve ser atribuída a ele como procedimento executável de forma autônoma.

O que muda para o Enfermeiro?

O parecer reforça a necessidade de assumir a competência com responsabilidade, não basta afirmar: “Agora o Cofen disse que o Enfermeiro pode.” É preciso entender a segunda parte: desde que exista prescrição, capacitação técnica e observância do protocolo institucional.

Isso reforça a importância da educação permanente, dos protocolos e da documentação adequada.

O parecer fala muito mais sobre responsabilidade do que sobre “quem puxa o dreno”

Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o Parecer COFEN nº 54/2026 , a discussão não é simplesmente: “Quem pode puxar o dreno?”

A questão é: “Quem possui competência técnica, científica e legal para avaliar, decidir, executar e responder pelo cuidado diante de um procedimento de elevada complexidade em um paciente grave?”

Ao analisar a retirada do Portovac em região cefálica e do DVE, o Cofen concluiu que, no âmbito da equipe de Enfermagem, essa atribuição é do Enfermeiro, mediante prescrição, capacitação técnica e observância dos protocolos institucionais. Ao profissional de nível médio cabe auxiliar sob supervisão direta, sem executar a retirada.

Para quem trabalha ou pretende trabalhar em UTI, esse entendimento traz uma mensagem importante: competência profissional não é apenas saber fazer. É saber avaliar, reconhecer riscos, tomar decisões dentro dos limites legais e garantir que o procedimento aconteça com segurança.

E, na prática, é justamente isso que diferencia uma técnica executada mecanicamente de uma assistência de enfermagem realmente qualificada.

🚨
ATENÇÃO! Importante: este conteúdo tem finalidade educacional e foi elaborado a partir do Parecer COFEN nº 54/2026 e das normas nele utilizadas. A execução de procedimentos deve observar a legislação profissional vigente, a prescrição, a capacitação do profissional e os protocolos institucionais atualizados.

Resumo para salvar

Parecer COFEN 54/2026: quem pode retirar DVE e Portovac cefálico?

  • No âmbito da equipe de Enfermagem, a retirada de DVE e Portovac em região cefálica é atribuída ao Enfermeiro
  • A realização exige prescrição, capacitação técnica e observância dos protocolos institucionais
  • O Técnico de Enfermagem pode auxiliar sob supervisão direta, mas não realizar autonomamente a retirada
  • O parecer considera a elevada complexidade, o risco de complicações e a necessidade de julgamento clínico no cuidado ao paciente grave

Referências:

  1. BRASIL. Decreto nº 94.406, de 8 de junho de 1987. Regulamenta a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Brasília, DF, 1987. Disponível em: Planalto – Decreto nº 94.406/1987. 
  2. BRASIL. Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem e dá outras providências. Brasília, DF, 1986. Disponível em: Planalto – Lei nº 7.498/1986. 
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564, de 6 de novembro de 2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF, 2017. Disponível em: Cofen – Resolução nº 564/2017. 
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer nº 54/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem. Processo nº 00196.001402/2026-29. Assunto: retirada de dreno Portovac e Dreno Ventricular Externo. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Parecer COFEN nº 54/2026 – íntegra. 
  5. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DO CEARÁ (COREN-CE). Cofen estabelece competência do enfermeiro para retirada de drenos Portovac em região cefálica e DVE. 25 ago. 2026. Disponível em: Coren-CE – notícia sobre o Parecer nº 54/2026. 

Confirmação do Posicionamento da Sonda Antes da Dieta: qual é o padrão-ouro e quais métodos não devem mais ser usados sozinhos?

A passagem de uma sonda nasogástrica ou nasoenteral pode parecer um procedimento simples para quem já está acostumado com a rotina hospitalar. Mas existe um momento particularmente importante — e que não deveria ser tratado como mera formalidade: confirmar onde a ponta da sonda realmente está antes de administrar dieta, água ou medicamento.

Esse cuidado é fundamental porque uma sonda introduzida pela narina pode, inadvertidamente, seguir para o trato respiratório. Em determinadas situações, o paciente pode não apresentar sinais muito evidentes de que isso aconteceu. Se a dieta for administrada através de uma sonda mal posicionada, o resultado pode ser uma aspiração pulmonar grave, pneumonia, pneumotórax e outras complicações potencialmente fatais. O próprio Cofen classifica a sondagem oro/nasoenteral como procedimento invasivo e destaca o risco de complicações graves, especialmente em pacientes críticos.

É por isso que alguns métodos que durante muito tempo foram ensinados nas escolas de Enfermagem — como “colocar ar e auscultar a barriga” ou colocar a ponta da sonda dentro de um copo com água — precisam ser revistos.

E aqui está o ponto mais importante deste artigo:

Ouvir um “borbulhar” no epigástrio não comprova que a sonda está no estômago.

Para a sonda nasoenteral (SNE) inserida às cegas, especialmente quando se pretende uma localização pós-pilórica, a radiografia é considerada o método de referência/padrão-ouro para confirmar o posicionamento antes da utilização, conforme diretrizes e documentos brasileiros.

Mas existe uma nuance importante: em alguns protocolos internacionais para sonda nasogástrica, a avaliação do pH do aspirado gástrico é utilizada como método inicial à beira-leito, com radiografia indicada quando o pH não confirma a posição ou não há aspirado. Portanto, não devemos simplesmente dizer que “pH nunca serve”. O método recomendado depende do tipo de sonda, objetivo da terapia e protocolo institucional.

Vamos entender isso de maneira prática.

Por que é tão importante confirmar a posição da sonda?

Imagine a seguinte situação:

Um paciente precisa receber dieta enteral. A sonda é introduzida pela narina e aparentemente está bem fixada.

O profissional injeta ar e escuta um ruído no abdome.

Parece tudo certo.

Mas existe um problema: o som produzido pela entrada de ar não consegue garantir que a extremidade distal da sonda esteja dentro do estômago.

A sonda pode estar no esôfago, no estômago ou até mesmo no trato respiratório e ainda produzir um som que seja interpretado equivocadamente como “ruído gástrico”.

O Cofen, por meio da Resolução nº 619/2019, destaca que a sondagem oro/nasoenteral pode apresentar complicações como inserção em brônquios, pneumonia aspirativa, pneumotórax e lesões de estruturas do trato digestivo. A mesma resolução estabelece que cabe ao enfermeiro realizar os testes para confirmação do trajeto e, no caso da sondagem nasoenteral, solicitar o exame radiológico para confirmação da localização.

Portanto, a confirmação não é uma etapa burocrática.

É uma barreira de segurança do paciente.

Primeiro: precisamos diferenciar SNG de SNE

Essa distinção é importante porque os termos muitas vezes são utilizados como se fossem sinônimos.

Sonda nasogástrica

A SNG é introduzida pela narina e tem como objetivo chegar ao estômago. Pode ser utilizada para alimentação, administração de medicamentos, drenagem gástrica, descompressão, lavagem e outras finalidades, dependendo do tipo de sonda e indicação clínica.

Sonda nasoenteral

A SNE é introduzida pela narina e busca uma localização além do estômago, geralmente no duodeno ou jejuno, dependendo da finalidade e do dispositivo utilizado. Isso muda completamente a discussão sobre confirmação. Uma coisa é demonstrar que existe conteúdo gástrico. Outra é demonstrar que a ponta da sonda está realmente pós-pilórica.

Por isso, não basta encontrar um método que indique “parece estar no estômago” quando o objetivo é uma localização intestinal.

O padrão-ouro: radiografia

Para a SNE recém-passada, a radiografia é considerada o padrão de referência para confirmar o posicionamento. A Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional afirma que a radiografia é o padrão de referência porque permite visualizar a sonda em relação às estruturas anatômicas. Estudos brasileiros e protocolos publicados na literatura também classificam o raio-X como padrão-ouro para a confirmação da SNE.

Isso acontece porque o exame não tenta simplesmente “adivinhar” onde a sonda está por meio de sinais indiretos. Ele permite visualizar o trajeto da sonda e a localização de sua extremidade.

Como funciona essa confirmação?

Depois da passagem da SNE, o paciente deve ser encaminhado para o exame de imagem conforme o protocolo do serviço. A imagem deve permitir avaliar o trajeto da sonda e sua extremidade distal. O exame precisa ser adequadamente interpretado e documentado antes de a sonda ser liberada para utilização, de acordo com o fluxo institucional.

Um protocolo brasileiro publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem, por exemplo, estabelece a solicitação de radiografia para conferência da SNE e orienta aguardar a confirmação antes da liberação para dieta ou medicamento.

“Mas se a radiografia é o padrão-ouro, por que ainda fazem ausculta?”

Porque a ausculta foi, durante muitos anos, ensinada como um método prático de confirmação.

A técnica tradicional era mais ou menos assim:

  1. conectar uma seringa à sonda;
  2. injetar ar;
  3. colocar o estetoscópio sobre a região epigástrica;
  4. ouvir um “borbulhamento”;
  5. concluir que a sonda estava no estômago.

O problema é que o som não demonstra a localização anatômica da ponta da sonda.

A própria documentação técnica do Coren-AL ressalta que a ausculta epigástrica após a introdução de ar não é um método confiável: ela não consegue diferenciar adequadamente uma sonda no estômago de uma sonda no esôfago ou em estruturas respiratórias.

Uma pesquisa brasileira também encontrou baixa concordância entre a ausculta epigástrica e a radiografia e concluiu que a ausculta não deveria ser utilizada como método de confirmação isolado.

Então a ausculta está proibida?

É preciso ter cuidado com essa afirmação. Não é correto transformar a discussão em:

“Ausculta é proibida.”

O problema é outro: a ausculta não deve ser considerada um método confiável para confirmar sozinha o posicionamento da SNE. Ela pode fazer parte da avaliação clínica geral, mas não deve ser usada como justificativa isolada para liberar a dieta quando a confirmação radiológica é necessária.

Esse detalhe é muito importante para o estudante de Enfermagem.

O famoso “teste do copo com água”

Outro método que muitos estudantes aprenderam é colocar a extremidade da sonda em um recipiente com água e observar se aparecem bolhas. A lógica ensinada era:

“Se borbulhar, está no pulmão.”

Mas isso também não é seguro. O Coren-AL descreve limitações desse método e destaca inclusive o risco de aspiração de água caso a sonda esteja localizada no trato respiratório.

Portanto: não coloque a ponta da sonda em um copo com água para decidir se pode iniciar a dieta. Esse método não substitui uma confirmação adequada.

E observar a cor do aspirado?

Também não é suficiente sozinho. Pode-se tentar aspirar conteúdo pela sonda e observar suas características. O problema é que:

  • nem sempre é possível obter aspirado;
  • o aspecto pode variar;
  • secreções gástricas e respiratórias podem ser confundidas;
  • sangue, dieta, medicamentos e outras condições podem modificar a aparência.

O parecer técnico do Coren-AL destaca justamente essa limitação: a avaliação visual do aspirado pode apresentar dificuldade para diferenciar secreções de diferentes origens.

Portanto:

“parece conteúdo gástrico” não é sinônimo de “tenho certeza da posição”.

E o pH do aspirado?

Aqui temos uma diferença importante em relação aos métodos antigos. A mensuração do pH do aspirado gástrico possui utilidade e é recomendada em alguns protocolos, principalmente para confirmação de sondas nasogástricas.

Por exemplo, uma diretriz do NHS recomenda pH do aspirado como uma das duas formas aceitas para confirmação inicial de uma sonda nasogástrica fina, sendo a radiografia a outra opção. Quando não há aspirado ou o pH não confirma a localização, recomenda-se radiografia. Portanto, não devemos ensinar ao aluno:

“pH não serve.”

O mais correto é:

O pH pode ser útil, mas sua utilização depende do tipo de sonda e do protocolo; ele não deve ser tratado como substituto universal da radiografia para confirmar uma SNE pós-pilórica.

Por que o pH pode apresentar limitações?

Porque o pH gástrico não é absolutamente constante.

Ele pode ser influenciado por:

  • alimentação;
  • medicamentos que reduzem a acidez gástrica;
  • antiácidos;
  • inibidores da bomba de prótons;
  • bloqueadores H2;
  • determinadas condições clínicas.

O parecer técnico do Coren-AL também chama atenção para essa limitação. Além disso, não conseguir aspirar conteúdo não significa automaticamente que a sonda está no lugar errado, mas também não permite assumir que está certa. É justamente por isso que protocolos precisam estabelecer o que fazer quando o aspirado não é obtido.

E a medida externa da sonda?

Essa é uma ferramenta extremamente útil. Depois de confirmar a posição inicial, deve-se registrar a marca ou comprimento externo da sonda junto à narina.

Por exemplo:

“SNE posicionada, marca externa em 55 cm.”

Depois, nas avaliações subsequentes, verifica-se se essa medida permanece semelhante àquela registrada. Se antes estava em 55 cm e agora está em 48 cm, alguma coisa mudou.

Pode ter ocorrido deslocamento. Mas existe uma ressalva importante: a medida externa não confirma sozinha a localização interna.

Ela serve principalmente para detectar uma possível mudança em relação à posição previamente documentada. Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda verificar a medida externa da SNE antes da administração de dieta ou medicamento e reavaliar radiologicamente se ocorrer tração acidental significativa.

“Se a sonda não saiu, posso confiar na medida externa?”

Não necessariamente. Uma sonda pode sofrer deslocamento interno sem que a mudança externa seja imediatamente evidente. Por isso, a medida externa é uma barreira complementar de segurança, não uma substituta universal da confirmação inicial.

A lógica é:

posição inicialmente confirmada + fixação adequada + monitoramento da marca externa + avaliação clínica + reavaliação quando houver suspeita de deslocamento.

E se o paciente tossiu muito ou vomitou?

Essa situação merece atenção.

Episódios de:

  • vômitos;
  • tosse intensa;
  • engasgos;
  • manipulação da sonda;
  • tração acidental;
  • desconexão;
  • mudança da marca externa;
  • piora respiratória inesperada;

podem levantar suspeita de deslocamento. Nessas situações, não se deve simplesmente assumir que a sonda continua posicionada porque “estava certa antes”. Protocolos internacionais recomendam nova avaliação quando há suspeita de deslocamento ou eventos clínicos que possam alterar a posição.

Um detalhe muito importante: “a sonda estava certa ontem”

Essa frase pode ser perigosa. Uma sonda corretamente posicionada às 8 horas da manhã não necessariamente estará na mesma posição às 20 horas. Por isso, a segurança não termina depois do primeiro raio-X. A equipe precisa continuar observando:

  • fixação;
  • comprimento externo;
  • integridade do sistema;
  • sinais respiratórios;
  • tolerância à dieta;
  • eventuais episódios de vômito ou tosse;
  • qualquer alteração que sugira deslocamento.

Quando NÃO iniciar a dieta?

Essa é uma das mensagens mais importantes para o estudante. Não inicie a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Se a confirmação necessária ainda não foi realizada, se o resultado não está disponível, se existe divergência entre a posição registrada e a observada ou se houve suspeita de deslocamento, a conduta segura é interromper a administração e comunicar o enfermeiro/médico conforme o protocolo institucional.

  • Não tente “resolver a dúvida” apenas colocando ar e auscultando.
  • Não utilize o copo com água como confirmação.
  • Não confie somente na aparência do aspirado.
  • Não diga: “Deve estar no lugar.”

Quando estamos falando de uma via que pode levar diretamente ao trato respiratório, “deve estar” não é confirmação.

O que fazer antes de liberar a dieta?

Uma forma prática de pensar é utilizar uma sequência de segurança.

  1. Confirme a identificação do paciente

Antes de qualquer procedimento, confirme corretamente o paciente de acordo com o protocolo institucional. A identificação correta é uma das estratégias básicas de segurança do paciente estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

  1. Verifique qual é a sonda

Identifique:

  • SNG?
  • SNE?
  • Gastrostomia?
  • Jejunostomia?

O método de confirmação pode variar conforme o dispositivo e o objetivo.

  1. Confira a documentação

Verifique se existe registro da passagem e da confirmação da posição.

  1. Confira a marca externa

Compare com a medida registrada após a confirmação inicial.

  1. Procure sinais de deslocamento

Observe fixação, comprimento externo, desconexões, tração, vômitos e alterações respiratórias.

  1. Confirme se a sonda está liberada para uso

Não basta a sonda estar presente.

É necessário que esteja confirmada e liberada conforme o protocolo institucional.

  1. Só então administre a dieta

A dieta deve ser iniciada somente depois que os critérios de segurança forem atendidos.

E a cabeceira do paciente?

Mesmo com a sonda corretamente posicionada, existe outro cuidado importante: o posicionamento do paciente durante a dieta.

Em geral, a cabeceira deve permanecer elevada, conforme prescrição e protocolo institucional, frequentemente em torno de 30° a 45°, especialmente durante a administração da nutrição enteral e por período posterior conforme orientação do serviço.

Um protocolo brasileiro de administração segura de nutrição enteral recomenda cabeceira elevada a pelo menos 30° durante a infusão. Isso é importante porque a prevenção da aspiração não depende de uma única medida.

É um conjunto de barreiras.

Quais métodos antigos não devem ser usados sozinhos?

Podemos resumir assim:

Método Pode ajudar? Deve ser usado sozinho para liberar dieta?
Radiografia Sim É o método de referência para SNE recém-passada
pH do aspirado Sim, em situações/protocolos específicos Não universalmente
Avaliação do aspirado Pode fornecer informações Não
Ausculta após injetar ar Não é confiável para confirmar posição Não
Borbulhamento no copo com água Não é confiável Não
Apenas observar a marca externa Ajuda no monitoramento Não
Sintomas clínicos isolados Podem levantar suspeita Não
Ultrassom à beira-leito Promissor em mãos treinadas e contextos específicos Depende de protocolo/competência; não substitui automaticamente o padrão de referência

E a ultrassonografia?

A ultrassonografia à beira-leito é uma área interessante e vem sendo estudada como alternativa para avaliação do posicionamento de sondas. Ela apresenta vantagens como ausência de radiação e possibilidade de realização à beira-leito.

Entretanto, isso não significa que qualquer profissional possa simplesmente pegar um aparelho de ultrassom e “confirmar a sonda”. É necessária capacitação, equipamento adequado e protocolo.

Estudos brasileiros apontam que a ultrassonografia pode ser uma alternativa em determinadas situações, mas ainda existem limitações relacionadas à acurácia e à disponibilidade de profissionais treinados.

Portanto, atualmente, para o estudante: ultrassom não deve ser tratado automaticamente como substituto do raio-X para todas as situações.

E se o paciente estiver em UTI?

Na UTI, a atenção deve ser ainda maior. Pacientes críticos podem apresentar:

  • alteração do nível de consciência;
  • sedação;
  • intubação;
  • traqueostomia;
  • ausência de reflexos protetores;
  • ventilação mecânica;
  • alterações anatômicas;
  • maior risco de aspiração.

O próprio Cofen destaca que pacientes neurológicos, inconscientes, idosos e traqueostomizados apresentam maior risco de mau posicionamento. Além disso, o paciente pode não conseguir comunicar que está sentindo dor, tosse ou desconforto durante a passagem.

Por isso, não espere que o paciente apresente sinais dramáticos para desconfiar de uma posição inadequada.

Uma experiência prática que vale para o estágio

Uma das situações que mais confundem estudantes é quando alguém da equipe diz: “Pode passar a dieta, eu já escutei.”

Nesse momento, o estudante precisa entender que a prática do setor não substitui o protocolo institucional nem a evidência científica. Se você está no estágio e encontra uma situação assim, não é necessário confrontar ninguém.

Pergunte:

“A posição já foi confirmada e liberada no prontuário?”

É uma pergunta simples, profissional e voltada para a segurança.

Se houver dúvida:

“Vou confirmar com o enfermeiro antes de iniciar a dieta.”

Essa postura demonstra responsabilidade, não insegurança.

O papel do técnico e do enfermeiro

A Resolução Cofen nº 619/2019 estabelece as competências da equipe de Enfermagem relacionadas à sondagem oro/nasoenteral.

Segundo a norma, a inserção da SNG/SOG e SNE é privativa do enfermeiro, enquanto técnicos e auxiliares podem auxiliar no procedimento e executar cuidados de manutenção e monitoramento conforme suas atribuições, prescrição e supervisão.

Ao enfermeiro compete, entre outras responsabilidades previstas na resolução:

  • estabelecer o acesso;
  • realizar os testes para confirmação do trajeto;
  • solicitar exame radiológico para confirmação da SNE;
  • garantir a manutenção do acesso;
  • prescrever cuidados;
  • registrar as ocorrências e dados relacionados ao procedimento.

Isso não significa que o técnico de enfermagem seja um mero “executor”. Na manutenção da terapia enteral, a observação do paciente e a comunicação de qualquer alteração são fundamentais. Se o técnico percebe que a sonda estava marcada em determinado ponto e agora está diferente, por exemplo, essa informação precisa ser comunicada.

O que fazer se houver suspeita de mau posicionamento?

A primeira regra é simples: não administrar a dieta até esclarecer a situação.

Depois:

  1. interromper a administração, se já estiver ocorrendo;
  2. manter o paciente em posição segura;
  3. comunicar imediatamente o enfermeiro;
  4. avaliar sinais respiratórios e condições clínicas;
  5. conferir a marca externa e a fixação;
  6. seguir o protocolo institucional para confirmação;
  7. documentar a ocorrência conforme rotina do serviço.

Se houver sinais como: dispneia, tosse intensa, dessaturação, cianose, desconforto respiratório ou alteração súbita do estado clínico, a situação deve ser tratada com prioridade.

Por que administrar dieta em uma sonda pulmonar é tão perigoso?

Porque a dieta enteral não foi feita para entrar nas vias respiratórias. Se a sonda estiver em uma estrutura respiratória e a dieta for administrada, pode ocorrer aspiração pulmonar, com consequências que variam de irritação e inflamação até pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória.

A Resolução Cofen nº 619/2019 cita especificamente a possibilidade de inserção em brônquios e desenvolvimento de pneumonia aspirativa e infecção broncopulmonar. É por isso que o momento da confirmação da posição merece tanta atenção.

“Mas eu sempre aprendi que era só auscultar”

Essa talvez seja uma das frases mais importantes deste tema. Na Enfermagem, existem procedimentos que foram ensinados durante muitos anos e que continuam sendo repetidos simplesmente porque:

“sempre foi feito assim.”

Mas a prática profissional precisa acompanhar a evolução das evidências. O fato de determinado método ter sido ensinado no curso técnico, na faculdade ou por profissionais experientes não significa automaticamente que ele seja o método mais seguro atualmente.

A ausculta epigástrica é um excelente exemplo, e ela pode parecer convincente porque produz um som. O problema é que um som não é uma imagem anatômica, e essa diferença é fundamental.

Resumo para guardar para a prova

Se você estiver estudando para uma prova de Enfermagem e aparecer a pergunta:

“Qual é o padrão-ouro para confirmar o posicionamento da sonda nasoenteral?”

A resposta esperada, no contexto brasileiro tradicional e das diretrizes citadas, é:

Radiografia.

Se aparecer:

“Ausculta epigástrica após insuflação de ar confirma o posicionamento?”

A resposta é:

Não. Não é um método confiável para confirmar isoladamente a localização da sonda.

Se aparecer:

“Colocar a ponta da sonda em um copo com água confirma se ela está no pulmão?”

Não. Esse método não é confiável e pode oferecer risco.

Se aparecer:

“O pH do aspirado pode ser utilizado?”

A resposta mais completa é:

Pode ser útil em determinados protocolos, especialmente para SNG, mas possui limitações e não substitui automaticamente a radiografia para confirmação de uma SNE pós-pilórica.

Checklist rápido antes de liberar a dieta

Antes de conectar a dieta, pense:

  • Paciente correto?
  • Sonda correta?
  • Posição inicial confirmada?
  • Há registro da confirmação?
  • A sonda foi liberada para uso?
  • Marca externa está de acordo com o registro?
  • Fixação está íntegra?
  • Houve vômito, tosse intensa ou tração desde a última confirmação?
  • Existe alguma dúvida sobre o posicionamento?

Se a última resposta for sim, pare.

Não iniciar a dieta se houver dúvida sobre a posição da sonda. Essa é uma frase simples, mas que pode evitar um evento adverso grave. A confirmação do posicionamento da sonda antes da dieta é um daqueles assuntos em que a experiência prática precisa caminhar junto com a atualização científica.

Durante muito tempo, técnicas como auscultar o epigástrio após injetar ar, observar o aspirado ou colocar a extremidade da sonda em um copo com água foram ensinadas como formas de verificar a posição.

Hoje, sabemos que esses métodos apresentam limitações importantes e não devem ser utilizados isoladamente para confirmar uma SNE e liberar sua utilização. Para a SNE recém-inserida, a radiografia permanece o padrão de referência/padrão-ouro na literatura brasileira, pois permite visualizar o trajeto e a localização da sonda.

Ao mesmo tempo, o pH do aspirado tem papel relevante em determinados protocolos, especialmente para SNG, e pode funcionar como ferramenta de avaliação à beira-leito quando utilizado dentro de critérios bem definidos.

O mais importante é não transformar um método auxiliar em uma falsa certeza.

  • Auscultar não é visualizar.
  • Aspirar não é necessariamente confirmar.
  • Ver a marca externa não é comprovar a localização interna.

E, principalmente: se houver dúvida sobre a posição da sonda, a dieta não deve ser iniciada até que a situação seja esclarecida conforme o protocolo institucional.

Esse é o tipo de cuidado que transforma conhecimento técnico em segurança real para o paciente.

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 619, de 4 de novembro de 2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/Nasogástrica e Nasoentérica. Brasília, DF: Cofen, 2019. Disponível em: Resolução Cofen nº 619/2019. 
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE ALAGOAS (COREN-AL). Parecer Técnico nº 04/2022: posicionamento de sonda nasoenteral e confirmação radiológica. Maceió: Coren-AL, 2022. Disponível em: Parecer Técnico nº 04/2022. 
  3. MACEDO, A. B. T. et al. Elaboração e validação de protocolo para administração segura de nutrição enteral em pacientes hospitalizados. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre. Disponível em: Artigo na Revista Gaúcha de Enfermagem. 
  4. BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. São Paulo: BRASPEN. Disponível em: Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional. 
  5. RIGOBELLO, M. C. G. Acurácia e custo de métodos utilizados por enfermeiros na confirmação do posicionamento de sondas nasoenterais recém-inseridas às cegas à beira leito. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto. Disponível em: Repositório da Universidade de São Paulo. 
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Segurança do Paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Protocolos de Segurança do Paciente – Ministério da Saúde. 
  7. NHS AYRSHIRE & ARRAN. Insertion and care of fine bore nasogastric tubes for enteral feeding and medication in adults. Clinical Guideline G081. Disponível em: NHS – Nasogastric tube position confirmation guideline.
  8. BISCHOFF, S. C. et al. ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical Nutrition, v. 41, p. 468–488, 2022. Disponível em: ESPEN Practical Guidelines.
  9. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de prática segura na administração de medicamentos, sangue e tecidos: prevenção de erros na administração de dietas enterais. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente. 
  10. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer Cofen nº 003/2021: Atuação da equipe de enfermagem na passagem e confirmação de sondas enterais e gástricas. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/. 
  11. SILVA, M. R.; SOUZA, A. C. Segurança do paciente em terapia nutricional enteral: evidências atuais sobre a confirmação do posicionamento de sondas. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 77, n. 2, p. 112-118, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/.