Carteira de vacinação digital: como a Enfermagem pode transformar alguns minutos de orientação em prevenção para o paciente

Vá direto ao ponto!

Às vezes, o paciente chega à unidade de saúde preocupado porque perdeu a caderneta de vacinação. A primeira reação costuma ser pensar: “Agora vai precisar refazer tudo?”. Nem sempre. Antes de revacinar, procurar papéis antigos ou simplesmente mandar o paciente “baixar um aplicativo”, existe uma oportunidade importante de cuidado: a Enfermagem pode ajudá-lo a recuperar e compreender seu histórico vacinal por meio do Meu SUS Digital.

Mais do que ensinar alguém a mexer no celular, essa orientação faz parte de uma assistência que favorece a continuidade do cuidado, a conferência do histórico vacinal e o acesso do cidadão às próprias informações de saúde.

O Meu SUS Digital, plataforma oficial do Ministério da Saúde, permite ao cidadão consultar informações de saúde, incluindo histórico e carteira de vacinação, a partir dos registros disponíveis nos sistemas integrados ao SUS. A plataforma está disponível na versão web e também como aplicativo para Android e iOS.

E aqui existe um detalhe que merece muita atenção: a Enfermagem não deve apenas ensinar o paciente a acessar a carteira digital; também precisa saber explicar o que fazer quando uma vacina não aparece, quando existe alguma informação divergente ou quando o paciente não possui uma conta Gov.br.

Vamos entender isso na prática.

O que é a carteira de vacinação digital?

A Carteira de Vacinação Digital é uma forma de visualizar eletronicamente os registros de vacinação do cidadão por meio do Meu SUS Digital.

Ela reúne informações que foram registradas pelos serviços de saúde e encaminhadas aos sistemas que integram a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). O Ministério da Saúde informa que o Meu SUS Digital apresenta dados provenientes, entre outros, do SI-PNI, e-SUS APS e sistemas próprios das secretarias estaduais e municipais.

Isso é importante porque existe uma diferença entre: ter tomado uma vacina e ter o registro dessa vacina disponível digitalmente.

A pessoa pode ter recebido determinada dose e, por alguma razão relacionada ao registro ou transmissão dos dados, aquela informação ainda não aparecer na plataforma. Por isso, o profissional de Enfermagem precisa evitar uma conclusão precipitada. Se o paciente disser: “Minha vacina não aparece no aplicativo.” A resposta não deve ser automaticamente: “Então você não tomou.”

O correto é investigar o registro.

Por que esse assunto é importante para a Enfermagem?

A vacinação faz parte de diferentes momentos da assistência de Enfermagem, desde a Atenção Primária até serviços hospitalares, ambulatórios, campanhas e acompanhamento de grupos específicos.

Durante um atendimento, o profissional pode descobrir que o paciente:

  • perdeu a caderneta;
  • não sabe quais vacinas recebeu;
  • mudou de município;
  • possui registros antigos em papel;
  • precisa comprovar vacinação;
  • não sabe acessar a carteira digital;
  • tem dificuldade para utilizar ferramentas digitais;
  • encontrou informações incompletas no aplicativo.

Nesse momento, a orientação sobre o Meu SUS Digital deixa de ser simplesmente uma questão tecnológica. Ela passa a fazer parte da educação em saúde e da continuidade do cuidado.

O próprio Ministério da Saúde destaca que o Meu SUS Digital tem como objetivo facilitar o acesso às informações de saúde, contribuindo para continuidade do cuidado, transparência e segurança dos dados.

O profissional de Enfermagem pode ajudar o paciente a acessar?

Sim, o profissional pode orientar o paciente sobre o acesso à plataforma, explicar como utilizar a conta Gov.br, ajudá-lo a localizar a área de vacinação e orientar sobre o que fazer quando os dados estiverem ausentes ou divergentes.

Existe inclusive uma plataforma específica para profissionais, o SUS Digital Profissional, que permite, dentro do contexto de atendimento, consultar informações disponíveis na Rede Nacional de Dados em Saúde. Segundo o Ministério da Saúde, profissionais de Enfermagem estão entre os profissionais habilitados a utilizar essa plataforma.

Isso amplia a possibilidade de integração entre a informação disponível para o cidadão e aquela acessível ao profissional durante o atendimento. Mas há uma diferença importante: orientar o paciente não significa acessar a conta pessoal dele de maneira indiscriminada.

A privacidade e a segurança das informações de saúde precisam ser preservadas.

Como o paciente acessa a carteira de vacinação digital?

O caminho atual é pelo Meu SUS Digital, o acesso pode ser feito pelo aplicativo ou pela versão web da plataforma. O login utiliza a conta Gov.br. De maneira geral, o profissional pode orientar o paciente assim:

Acesse o Meu SUS Digital

O paciente pode utilizar o aplicativo oficial Meu SUS Digital ou acessar a versão web. O Ministério da Saúde disponibiliza o serviço nas versões para celular e navegador.

Entre com a conta Gov.br

O acesso é feito utilizando CPF e senha da conta Gov.br, caso o paciente ainda não possua uma conta, será necessário realizar o cadastro ou recuperar o acesso. É importante lembrar que o profissional de Enfermagem não deve solicitar ou guardar a senha pessoal do paciente. O ideal é orientar e permitir que o próprio cidadão realize o login.

Uma orientação simples que faz diferença

Na prática, existe uma situação bastante comum. O paciente entrega o celular para o profissional e diz: “Enfermeiro, você consegue ver para mim?” É tentador pegar o aparelho e fazer tudo rapidamente.  Mas existe uma questão de segurança e privacidade envolvida.

Eu prefiro pensar que o profissional deve ensinar o caminho, acompanhando o paciente quando necessário, mas permitindo que ele próprio digite seus dados de acesso. Essa pequena atitude ajuda a preservar a confidencialidade das informações.

Também ensina o paciente a repetir o procedimento sozinho em outra ocasião. Esse é um exemplo simples de como uma orientação aparentemente tecnológica pode se transformar em educação em saúde.

Onde encontrar os dados de vacinação?

Depois de realizar o login, o paciente poderá acessar os serviços relacionados à vacinação disponíveis no Meu SUS Digital. A plataforma permite consultar o histórico de vacinação e a carteira de vacinação digital.

O profissional pode explicar que a carteira digital não substitui a importância de manter os registros e documentos de vacinação preservados, principalmente quando ainda existem informações antigas que podem não estar disponíveis eletronicamente.

O Ministério da Saúde também orienta que o cidadão mantenha seu cartão de vacinas atualizado.

E se uma vacina não aparecer?

Essa provavelmente é uma das dúvidas mais importantes para o profissional de Enfermagem saber responder, imagine: O paciente acessa a carteira digital e encontra algumas vacinas, mas uma dose que ele lembra ter recebido não aparece.

Isso não significa automaticamente que a vacina não foi administrada. Os registros apresentados pelo Meu SUS Digital dependem das informações registradas pelos estabelecimentos de saúde e transmitidas aos sistemas integrados.

Nesse caso, o paciente deve procurar o estabelecimento onde a vacinação foi realizada para verificar o registro. O Ministério da Saúde orienta que, quando uma vacina não aparece ou existe divergência, o cidadão procure o local onde recebeu a vacinação para verificar e, quando necessário, corrigir a informação.

Por que a vacina pode não aparecer?

Existem diferentes possibilidades, o registro pode ainda não ter sido enviado ou processado na base de dados; pode existir alguma inconsistência nos dados de identificação do cidadão; a vacinação pode ter ocorrido em um sistema que ainda não disponibilizou aquela informação; ou simplesmente pode haver necessidade de correção do registro.

O importante é que o profissional não tente “resolver” a ausência do registro simplesmente supondo que o paciente não foi vacinado. A conduta depende da situação e das orientações do serviço de saúde.

“Mas eu tomei a vacina e não aparece no aplicativo”

Essa frase merece atenção: O profissional pode explicar ao paciente que a carteira digital é alimentada pelos registros realizados pelos serviços de saúde. O Ministério da Saúde esclarece que os dados de vacinação são registrados pelos estabelecimentos responsáveis pela aplicação e enviados às bases utilizadas para disponibilização das informações no Meu SUS Digital.

Portanto, o caminho mais adequado é verificar o registro na unidade onde a vacina foi aplicada. Em caso de ausência ou divergência, a correção precisa ocorrer na origem do registro, e não simplesmente dentro do aplicativo.

O próprio Ministério informa que não é possível ao cidadão adicionar ou corrigir diretamente informações de vacinação no Meu SUS Digital. Esse é um ponto excelente para orientar estudantes de Enfermagem: o aplicativo apresenta o registro; ele não é o local onde o cidadão simplesmente edita sua história vacinal.

E se o paciente perdeu a caderneta de vacinação?

A perda da caderneta não significa necessariamente que todo o histórico esteja perdido. Uma das possibilidades é consultar os registros disponíveis no Meu SUS Digital. Além disso, o Ministério da Saúde informa que a ausência do cartão de vacinas não impede a aplicação das vacinas indicadas e que, em caso de perda, é possível solicitar uma nova via.

Mas é importante não transformar isso em uma regra simplista do tipo: “Perdeu a carteira? É só tomar tudo novamente.” A situação deve ser avaliada conforme o histórico disponível, registros existentes, idade, condições clínicas, recomendações do Calendário Nacional de Vacinação e orientação da equipe de saúde.

A importância do CPF e da identificação correta

Os registros de vacinação precisam estar associados corretamente à identificação do cidadão. O Ministério da Saúde informa que o acesso aos dados da carteira digital depende da identificação do cidadão, utilizando CPF ou CNS válidos no contexto do registro da vacinação.

Isso mostra por que a conferência dos dados no momento da vacinação é tão importante. Um erro de identificação pode gerar consequências muito além de um simples problema administrativo.

Pode dificultar a visualização do histórico e comprometer a continuidade do cuidado.

O papel da Enfermagem começa antes da vacina

Quando falamos em carteira digital, é fácil pensar apenas no paciente que já foi vacinado. Mas existe outro ponto fundamental: a qualidade do registro realizado pelo serviço de saúde. Se a equipe registra corretamente a vacinação, utilizando os sistemas de informação disponíveis e os dados corretos do paciente, aquela informação poderá posteriormente integrar os sistemas de saúde e aparecer para o cidadão.

O Ministério da Saúde destaca que os registros são realizados pelos estabelecimentos de saúde responsáveis pela vacinação e alimentam as bases utilizadas pelo Meu SUS Digital. Portanto, registrar corretamente é também cuidar.

Uma situação muito comum na rotina de vacinação

Na prática, principalmente quando existe grande movimento em uma unidade, é fácil imaginar que o registro seja apenas a última etapa burocrática depois da aplicação, mas não é. Pense em uma pessoa que recebe uma vacina hoje e, alguns meses depois, precisa comprovar aquela dose para estágio, trabalho, viagem ou acompanhamento de saúde.

Se o registro estiver incompleto ou associado incorretamente ao cidadão, aquela pessoa poderá enfrentar uma dificuldade que começou no momento da vacinação. Por isso, a orientação que sempre considero importante para quem está aprendendo Enfermagem é: a aplicação termina com a administração do imunobiológico; o cuidado não termina ali. O registro também faz parte da assistência.

O que o profissional deve conferir no registro?

Durante o processo de vacinação, devem ser observadas as informações exigidas pelo sistema de registro utilizado pelo serviço, sempre conforme as normas e rotinas vigentes. A identificação correta do cidadão é essencial.

Também é importante que os dados relacionados à vacina sejam registrados corretamente, evitando inconsistências que possam prejudicar a rastreabilidade. O profissional deve seguir o sistema utilizado no serviço e as orientações do Programa Nacional de Imunizações.

SUS Digital Profissional: uma ferramenta importante para a Enfermagem

Existe uma diferença entre o Meu SUS Digital, voltado ao cidadão, e o SUS Digital Profissional, destinado ao uso profissional no contexto do atendimento.

Segundo o Ministério da Saúde, o SUS Digital Profissional permite ao profissional de saúde acessar informações existentes na RNDS, incluindo registros de vacinação. Atualmente, profissionais de Medicina, Odontologia e Enfermagem estão entre os habilitados a utilizar a plataforma.

Entretanto, o acesso aos registros clínicos não é apresentado como uma consulta livre e indiscriminada. O Ministério informa que a visualização ocorre no contexto de atendimento, sendo necessário iniciar o atendimento no prontuário eletrônico para habilitar o acesso. Isso reforça um princípio importante: informação de saúde não é informação pública.

O acesso profissional precisa estar relacionado à assistência e respeitar as regras de segurança e confidencialidade.

Como a Enfermagem pode ensinar o paciente sem fazer tudo por ele?

Uma boa orientação pode seguir uma sequência simples. Primeiro, pergunte se o paciente possui uma conta Gov.br. Depois, explique que o acesso ao Meu SUS Digital é feito por essa conta.

Oriente o paciente a abrir o aplicativo ou acessar a versão web e mostre onde localizar as informações de vacinação. Se houver alguma vacina ausente, explique que isso precisa ser verificado com a unidade onde a dose foi administrada, e principalmente, não peça ao paciente para fornecer sua senha. Esse último ponto parece óbvio, mas merece ser reforçado.

Orientar é diferente de assumir o controle da conta pessoal do paciente.

E quando o paciente é idoso ou tem dificuldade com tecnologia?

Aqui a Enfermagem tem uma oportunidade enorme de exercer educação em saúde: Nem todos os pacientes possuem a mesma familiaridade com aplicativos. Um paciente jovem pode fazer o procedimento em poucos segundos. Para uma pessoa idosa, entretanto, pode ser necessário explicar cada etapa com calma.

Em vez de simplesmente pegar o celular e resolver, vale mostrar:

  • “Primeiro vamos abrir o aplicativo.”
  • “Agora vamos entrar na sua conta.”
  • “Depois vamos procurar a parte de vacinação.”
  • “Agora confira comigo se as informações estão corretas.”

Isso transforma uma ação pontual em aprendizado. E, se possível, incentive o paciente a realizar os passos com as próprias mãos.

Um cuidado importante: nunca compartilhar senha

A conta Gov.br dá acesso a informações e serviços digitais do cidadão. Por isso, o profissional não deve solicitar, anotar ou guardar a senha do paciente, se for necessário ajudar, o paciente pode realizar o login enquanto o profissional orienta. Esse cuidado protege tanto o paciente quanto o profissional.

E se o paciente não tiver celular?

Não ter smartphone não significa estar excluído do acesso. O Meu SUS Digital também possui versão web. Além disso, a vacinação continua sendo registrada e acompanhada nos serviços de saúde.

O profissional deve evitar criar a impressão de que a carteira digital é a única maneira válida de comprovar vacinação. Ela é uma ferramenta de acesso e organização das informações; a assistência à vacinação continua acontecendo nos serviços de saúde.

Carteira digital substitui a carteira física?

É melhor pensar nas duas como formas complementares de acesso ao histórico. A versão digital facilita muito a consulta, principalmente quando o cidadão está fora de casa ou não está com o cartão físico. Porém, documentos e registros físicos antigos podem conter informações que ainda não estejam disponíveis na plataforma digital.

Por isso, quando o paciente possui a caderneta física, é recomendável mantê-la guardada. O próprio Ministério da Saúde continua orientando que o cartão de vacinas seja mantido atualizado e preservado.

A carteira digital pode ajudar na continuidade do cuidado

Imagine um paciente que muda de cidade. Ele não necessariamente terá facilidade para localizar todos os registros físicos anteriores. Quando os dados estão disponíveis digitalmente, o acesso ao histórico pode facilitar a continuidade da assistência.

Esse é um dos grandes benefícios da integração dos dados de saúde. O Meu SUS Digital foi desenvolvido justamente para permitir que o cidadão acompanhe informações de saúde e para favorecer a continuidade do cuidado.

Vacinação e segurança do paciente

Existe uma relação direta entre registro adequado e segurança, um histórico vacinal confiável ajuda a equipe a tomar decisões mais seguras. Quando há dúvida sobre uma dose, o profissional precisa consultar as informações disponíveis, avaliar o contexto e seguir as recomendações vigentes.

Um registro incompleto pode gerar dúvidas desnecessárias, e um registro incorreto pode gerar uma decisão inadequada. Por isso, a qualidade da informação também é uma dimensão da segurança do paciente.

Cuidados de Enfermagem relacionados à carteira de vacinação digital

Embora o acesso ao Meu SUS Digital pareça uma tarefa simples, alguns cuidados devem fazer parte da assistência.

Preservar a privacidade

Não solicitar ou armazenar senhas do paciente. Orientar o acesso sem assumir o controle da conta pessoal.

Conferir a identificação

Durante o atendimento e a vacinação, conferir corretamente os dados do cidadão, conforme os protocolos e sistemas utilizados.

Não presumir que “não aparece” significa “não tomou”

Uma vacina ausente no aplicativo deve ser investigada.

Orientar sobre a unidade de origem

Se houver ausência ou divergência no registro, orientar o paciente a procurar o estabelecimento onde recebeu a vacina. O Ministério da Saúde recomenda esse caminho para verificação e correção.

Incentivar o paciente a manter seus registros

A carteira digital é útil, mas documentos físicos e demais comprovantes também podem ser importantes.

Registrar adequadamente a vacinação

O profissional deve realizar os registros conforme o sistema utilizado e os protocolos do serviço.

Promover autonomia

Sempre que possível, ensinar o paciente a acessar sua própria informação, em vez de simplesmente fazer tudo por ele.

Por que essa orientação também demonstra experiência profissional?

Um conteúdo sobre vacinação digital poderia simplesmente ensinar: “Baixe o aplicativo, faça login e clique em vacinas.” Mas isso seria insuficiente para a realidade da assistência.

Quem está na Enfermagem sabe que o paciente raramente chega com uma pergunta perfeitamente organizada. Ele pode chegar dizendo:

  • “Minha vacina sumiu.”
  • “Eu perdi meu cartão.”
  • “Meu aplicativo não mostra nada.”
  • “Eu tomei essa vacina, mas não aparece.”
  • “Minha mãe não sabe mexer no celular.”

É nesse momento que conhecimento técnico precisa se transformar em orientação clara. Na prática assistencial, muitas vezes a diferença entre uma orientação boa e uma orientação ruim está justamente nesses detalhes.

O profissional que entende o processo consegue explicar o que o aplicativo mostra, de onde vem a informação, quem pode corrigir um registro e quando é necessário procurar a unidade de saúde. Essa é uma experiência que vai além de simplesmente conhecer o nome do aplicativo.

Cai em Concurso O que o estudante de Enfermagem precisa guardar?

Se você está estudando para uma prova, estágio ou concurso, tente memorizar a lógica: Meu SUS Digital: plataforma para o cidadão acessar informações de saúde, incluindo carteira e histórico de vacinação.

  • Acesso: realizado por meio da conta Gov.br.
  • Registros: são provenientes dos sistemas de vacinação integrados e dos registros realizados pelos serviços de saúde.
  • Vacina ausente ou incorreta: o paciente deve procurar o estabelecimento onde a vacinação foi realizada para verificar o registro e solicitar correção quando necessário.
  • Profissional de Enfermagem: pode utilizar o SUS Digital Profissional, dentro das condições de acesso profissional e no contexto de atendimento, para consultar informações disponíveis na RNDS.

A carteira de vacinação digital representa uma mudança importante na maneira como o cidadão acessa suas próprias informações de saúde. Mas existe algo ainda mais importante por trás dela: Não adianta ter tecnologia se o paciente não souber utilizá-la.

É justamente aí que a Enfermagem pode fazer diferença. O profissional pode orientar, esclarecer dúvidas, preservar a privacidade, conferir a qualidade do registro, identificar problemas e encaminhar o paciente para o local adequado quando uma informação estiver ausente ou incorreta.

E existe uma lição que vale para qualquer estudante ou profissional:

educação em saúde não acontece somente quando explicamos uma doença ou ensinamos um procedimento. Ela também acontece quando ajudamos uma pessoa a compreender e utilizar melhor as ferramentas disponíveis para cuidar da própria saúde.

A carteira de vacinação digital é uma dessas ferramentas. E ensinar o paciente a utilizá-la pode parecer uma pequena intervenção, mas, quando pensamos em continuidade do cuidado, histórico vacinal, acesso à informação e autonomia, ela ganha outra dimensão.

Resumo para salvar

Carteira de vacinação digital: como a Enfermagem pode ajudar o paciente?

  • O Meu SUS Digital permite ao cidadão consultar sua carteira e histórico de vacinação
  • O acesso é realizado por meio da conta Gov.br, preservando a autonomia e a privacidade do paciente
  • Vacinas ausentes ou com dados incorretos devem ser verificadas junto ao estabelecimento onde a vacinação foi realizada
  • A Enfermagem pode orientar o paciente, melhorar a qualidade dos registros e promover autonomia no acesso às informações de saúde

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Meu SUS Digital. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Meu SUS Digital – Ministério da Saúde
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. O que é o Meu SUS Digital? Brasília, DF, 2026. Disponível em: Perguntas e respostas – Meu SUS Digital
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Quais os serviços disponíveis no Meu SUS Digital? Brasília, DF, 2026. Disponível em: Serviços disponíveis no Meu SUS Digital.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Digital (SEIDIGI): dados do Meu SUS Digital. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Saúde Digital – Ministério da Saúde
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Vacinação. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Vacinação – Ministério da Saúde
  6. BRASIL. Ministério da Saúde. SUS Digital Profissional: perguntas frequentes. Brasília, DF. Disponível em: SUS Digital Profissional – Atendimento SUS
  7. BRASIL. Ministério da Saúde. Os dados da vacina contra a COVID-19 apresentados no Meu SUS Digital estão divergentes. Como corrigir as informações? Brasília, DF, 2026. Disponível em: Orientações para correção de dados vacinais.
  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19 e Caderneta Digital. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/conecte-sus
  9. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html.
  10. SOUZA, Mariana et al. A importância da informatização e do registro eletrônico na imunização no âmbito do SUS. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 76, n. 4, e20220192, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/7J5X8n9Z6WqK4mP8vYzLjQw/?lang=pt

Inteligência Artificial na Enfermagem: prós, contras, limites e o que o Cofen orienta

Vá direto ao ponto!

A Inteligência Artificial (IA) já deixou de ser uma tecnologia distante e passou a fazer parte da realidade dos serviços de saúde, da educação e também da Enfermagem. Sistemas capazes de analisar grandes volumes de dados, reconhecer padrões, produzir textos, auxiliar na organização de informações e gerar alertas podem modificar significativamente a maneira como enfermeiros e técnicos de enfermagem trabalham.

Mas existe uma pergunta importante: até onde a Inteligência Artificial pode chegar na Enfermagem?

A resposta exige equilíbrio. A IA pode ser uma excelente ferramenta de apoio, mas não substitui o conhecimento técnico-científico, o julgamento clínico, a responsabilidade profissional e, principalmente, o cuidado humano.

O próprio Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) vem discutindo o tema e reforça que a tecnologia deve ser utilizada como ferramenta auxiliar. Em publicação de 2025, o Conselho destacou que informações produzidas por IA precisam passar por análise crítica, conferência e adequação à realidade profissional.

Por isso, para o estudante ou profissional de Enfermagem, aprender a utilizar a IA de maneira responsável pode se tornar tão importante quanto saber interpretar um exame, realizar um procedimento ou consultar uma diretriz.

O que é Inteligência Artificial?

De maneira simples, Inteligência Artificial é o conjunto de tecnologias capazes de executar tarefas que normalmente exigiriam determinadas capacidades humanas, como reconhecer padrões, interpretar informações, produzir conteúdo, classificar dados, fazer previsões e auxiliar na tomada de decisões.

Existem diferentes tipos de IA. A IA generativa, por exemplo, consegue produzir textos, imagens, resumos, apresentações e outros conteúdos a partir de comandos fornecidos pelo usuário. Já sistemas preditivos podem analisar grandes quantidades de informações para estimar a probabilidade de determinados acontecimentos, como risco de deterioração clínica ou necessidade de acompanhamento.

Também existem sistemas capazes de analisar imagens, reconhecer alterações, organizar prontuários, transcrever conversas e automatizar determinadas tarefas administrativas. Na saúde, essas possibilidades são particularmente relevantes porque os serviços produzem enormes quantidades de dados diariamente.

A Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial da IA para melhorar diagnóstico, tratamento, pesquisa, desenvolvimento de medicamentos e funções de saúde pública, mas ressalta que sua utilização precisa estar associada à ética, aos direitos humanos, à segurança e à responsabilização.

Onde a Inteligência Artificial pode ser utilizada na Enfermagem?

A utilização da IA na Enfermagem pode ocorrer em diferentes áreas e não está limitada à assistência direta. Na assistência, sistemas inteligentes podem auxiliar na identificação de pacientes com maior risco de deterioração clínica, acompanhar sinais vitais, gerar alertas e organizar informações relevantes para a equipe.

Imagine, por exemplo, uma unidade hospitalar com dezenas de pacientes. Um sistema pode analisar continuamente informações como frequência cardíaca, pressão arterial, saturação de oxigênio, temperatura, resultados laboratoriais e evolução clínica e sinalizar que determinado paciente apresenta um conjunto de alterações que merece atenção.

Isso não significa que a IA “diagnosticou” o paciente. Significa que ela identificou um padrão que pode ajudar o profissional a perceber uma situação que precisa ser investigada. Essa diferença é fundamental.

IA no Processo de Enfermagem

Uma das aplicações mais interessantes está relacionada ao Processo de Enfermagem. Ferramentas digitais podem auxiliar na organização da coleta de dados, identificação de informações relevantes, elaboração de possibilidades de diagnósticos de enfermagem, planejamento de intervenções e acompanhamento de resultados. Entretanto, a ferramenta não deve simplesmente receber os dados e determinar automaticamente aquilo que o enfermeiro deverá fazer.

A avaliação clínica continua sendo responsabilidade do profissional. O Cofen já acompanha iniciativas brasileiras que utilizam IA para apoiar etapas do Processo de Enfermagem e reduzir tarefas burocráticas. Em projeto desenvolvido pela Universidade Federal de Alfenas, por exemplo, uma plataforma foi criada para auxiliar na avaliação, organização das informações, planejamento e acompanhamento de pacientes, sem retirar do enfermeiro a responsabilidade pelo julgamento clínico.

IA na documentação e no prontuário

Outra possibilidade está na documentação. Sistemas podem auxiliar na transcrição de informações, organização de registros, preenchimento de campos, identificação de informações incompletas e estruturação de dados. Isso pode ser especialmente interessante em ambientes onde o profissional passa grande parte do turno realizando atividades burocráticas. O ganho de tempo, entretanto, só representa benefício se o registro continuar sendo conferido pelo profissional.

Uma informação transcrita incorretamente pode gerar consequências importantes. Por isso, “automatizar” não significa “deixar de conferir”.

IA na educação em Enfermagem

Na educação, as possibilidades são ainda maiores. Estudantes podem utilizar ferramentas de IA para:

  • compreender conteúdos complexos em linguagem mais simples;
  • criar casos clínicos para estudo;
  • elaborar questões para revisão;
  • comparar conceitos;
  • organizar um plano de estudos;
  • simular situações clínicas;
  • revisar textos;
  • identificar pontos que precisam de aprofundamento;
  • transformar um assunto extenso em um roteiro de estudo.

O próprio Cofen relatou experiências positivas de professores utilizando IA para criação de casos clínicos, ressaltando, porém, a necessidade de conferir e ajustar o conteúdo produzido. O problema aparece quando o estudante deixa de aprender e passa apenas a copiar. Utilizar IA para explicar um assunto é diferente de pedir que ela faça todo o trabalho acadêmico.

A primeira situação pode favorecer a aprendizagem. A segunda pode prejudicá-la.

IA na pesquisa científica

A Inteligência Artificial também pode ser utilizada na pesquisa. Ela pode auxiliar na organização de referências, identificação de palavras-chave, elaboração de estratégias de busca, tradução, revisão textual, organização de dados e geração de ideias para perguntas de pesquisa.

Mas existe um cuidado indispensável: a IA pode produzir informações falsas, referências inexistentes ou interpretações inadequadas. Por isso, uma referência fornecida por uma ferramenta de IA nunca deve ser considerada verdadeira apenas porque parece convincente. O pesquisador precisa localizar a publicação original, verificar autores, periódico, DOI, ano, metodologia e conteúdo.

O Cofen também já destacou a necessidade de responsabilidade e cuidado com o uso da IA em publicações científicas.

Os principais benefícios da Inteligência Artificial na Enfermagem

Otimização do tempo

Um dos maiores benefícios é a possibilidade de reduzir tarefas repetitivas. Em vez de gastar determinado período organizando informações, o profissional pode utilizar uma ferramenta para realizar uma primeira estruturação e dedicar mais tempo à análise e ao cuidado. O Cofen reconhece justamente esse potencial: a tecnologia pode contribuir para tornar processos de trabalho mais eficientes, desde que seja utilizada como complemento ao trabalho profissional.

Apoio ao raciocínio clínico

A IA pode apresentar possibilidades que talvez não fossem imediatamente percebidas. Isso pode ser útil principalmente para estudantes e profissionais em formação. Mas existe uma diferença importante entre “apoiar o raciocínio clínico” e “tomar a decisão clínica”. A primeira função pode ser extremamente útil e a segunda exige limites rigorosos.

Análise de grandes volumes de dados

Uma pessoa pode ter dificuldade para analisar simultaneamente milhares de informações. Um sistema computacional consegue processar grandes volumes de dados rapidamente. Essa característica pode ser útil em hospitais, unidades de terapia intensiva, atenção primária, vigilância epidemiológica, gestão e pesquisa.

Identificação de riscos

Algoritmos podem ser utilizados para reconhecer padrões associados a determinados riscos. Em determinados contextos, isso pode ajudar a equipe a identificar precocemente situações que merecem avaliação.

Redução de tarefas burocráticas

A automação de atividades administrativas pode liberar tempo para atividades assistenciais. Essa possibilidade é particularmente relevante em uma profissão que frequentemente enfrenta elevada carga de trabalho.

Educação continuada

A IA pode funcionar como uma espécie de “tutor virtual”, ajudando o profissional a revisar conteúdos, esclarecer conceitos e estudar protocolos. Mas a informação deve sempre ser confrontada com fontes confiáveis e atualizadas.

Os contras e riscos da Inteligência Artificial na Enfermagem

A tecnologia também apresenta riscos. E talvez o maior deles seja acreditar que uma resposta produzida por uma máquina necessariamente está correta, e não está.

Alucinações da Inteligência Artificial

Sistemas generativos podem produzir respostas extremamente convincentes e, ao mesmo tempo, incorretas. Isso é particularmente perigoso na saúde. Uma IA pode inventar uma referência científica, atribuir uma recomendação a uma diretriz que não diz aquilo ou apresentar uma conduta clínica inadequada.

Por esse motivo, uma resposta bem escrita não deve ser confundida com uma resposta cientificamente correta. O Cofen enfatiza justamente a necessidade de análise crítica do conteúdo produzido pela IA.

Risco de perda do pensamento crítico

Outro problema é a dependência. Se o estudante consulta a IA para responder absolutamente todas as perguntas, pode deixar de desenvolver habilidades fundamentais. Na Enfermagem, o profissional precisa observar, interpretar, questionar, comparar informações, reconhecer alterações e tomar decisões fundamentadas.

Uma ferramenta que pensa pelo profissional pode, paradoxalmente, enfraquecer o pensamento crítico se for utilizada de maneira inadequada.

Privacidade e proteção dos dados dos pacientes

Esse é um dos pontos mais importantes. Nunca se deve inserir indiscriminadamente em uma ferramenta pública de IA informações que possam identificar um paciente. Nome, CPF, número do prontuário, endereço, telefone, imagens identificáveis, documentos e outros dados pessoais podem envolver informações protegidas.

A ANPD destaca, entre os desafios relacionados à IA, questões como uso de dados pessoais, transparência e possíveis vieses discriminatórios. Na prática, antes de utilizar uma ferramenta, o profissional deve verificar as políticas institucionais, as regras de segurança da informação e as condições de tratamento dos dados.

Viés algorítmico

A IA aprende a partir de dados. Se os dados utilizados para desenvolver determinado sistema forem incompletos ou apresentarem desigualdades, o resultado produzido também poderá reproduzir ou ampliar esses problemas. A Organização Mundial da Saúde alerta para riscos relacionados a vieses e discriminação no uso da IA em saúde. Por isso, um sistema aparentemente “neutro” não é necessariamente livre de vieses.

Responsabilidade profissional

Imagine que um sistema sugira determinada conduta e o profissional siga automaticamente a recomendação. Se a recomendação estiver errada, quem será responsável?

A tecnologia não elimina a responsabilidade profissional. O profissional de Enfermagem continua obrigado a exercer suas atividades de acordo com os conhecimentos técnico-científicos, éticos e legais aplicáveis. O Código de Ética aprovado pela Resolução Cofen nº 564/2017 estabelece princípios relacionados à autonomia, competência profissional e prestação de um cuidado seguro e livre de danos.

A IA pode substituir o enfermeiro ou o técnico de enfermagem?

Não é essa a orientação apresentada pelo Cofen. Em manifestação publicada em 2024, o Conselho afirmou que a IA não substitui o cuidado humano e destacou que empatia, comunicação, toque e relação de confiança permanecem fundamentais na assistência de Enfermagem. A Enfermagem não é apenas um conjunto de procedimentos.

É uma profissão que envolve observação, comunicação, vínculo, educação em saúde, tomada de decisão, gerenciamento, avaliação clínica e cuidado individualizado. Uma máquina pode identificar que a frequência cardíaca aumentou. Mas o profissional precisa compreender o contexto.

O paciente pode estar com dor? Ansioso? Febril? Hipovolêmico? Em uso de determinada medicação? Acabou de realizar um procedimento?

É o raciocínio profissional que transforma o dado em cuidado.

O que o Cofen determina sobre Inteligência Artificial?

Aqui é importante fazer uma distinção para evitar uma informação bastante comum nas redes sociais. Até o momento, não é correto afirmar que existe uma resolução específica do Cofen, já vigente, estabelecendo uma lista geral de “prós e contras da IA na Enfermagem”.

O que existe é um conjunto de posicionamentos, debates, orientações institucionais e propostas normativas relacionadas ao tema. Em 2025, o Cofen publicou conteúdo específico sobre IA na Enfermagem, destacando que ela deve ser compreendida como ferramenta auxiliar ao ser humano e utilizada de acordo com princípios éticos.

Mais recentemente, durante o processo de atualização do Código de Ética, apareceu uma proposta de dispositivo relacionado diretamente à IA. Na consulta pública do Cofen, o texto proposto prevê que o profissional deve referenciar a utilização de ferramentas baseadas em Inteligência Artificial sempre que fizer uso delas no contexto do exercício profissional, além de estimular uma cultura de inovação responsável.

Entretanto, esse ponto precisa ser tratado como proposta de atualização, e não como se já fosse uma obrigação definitiva do Código de Ética vigente. Em março de 2026, a II Conferência Nacional de Ética em Enfermagem aprovou a minuta do novo Código de Ética, que ainda deveria passar pelas etapas posteriores de aprovação e publicação. O próprio Cofen informou que o novo código entraria em vigor posteriormente à sua publicação no Diário Oficial da União, conforme as regras estabelecidas.

Portanto, para uma publicação profissional, a forma mais segura de escrever é:

O Cofen vem discutindo e regulamentando progressivamente o uso responsável da Inteligência Artificial na Enfermagem, enfatizando análise crítica, ética, segurança, inovação responsável e preservação do cuidado humano.

Isso é diferente de afirmar que o Cofen “proíbe” ou “autoriza” genericamente o uso de IA.

Quais são os principais limites para o profissional de Enfermagem?

A IA deve permanecer no papel de ferramenta de apoio. Na prática, isso significa que o profissional deve:

  • Conferir a informação. Não utilizar uma resposta de IA como única fonte para uma decisão clínica.
  • Consultar fontes confiáveis. Protocolos institucionais, legislação, resoluções do Cofen/Coren, diretrizes científicas, artigos e documentos oficiais devem prevalecer.
  • Preservar a confidencialidade. Não inserir dados identificáveis de pacientes em ferramentas sem autorização e segurança adequadas.
  • Manter o julgamento clínico. A recomendação da máquina precisa ser analisada dentro do contexto real do paciente.
  • Conhecer as limitações da ferramenta. Nem todo sistema possui dados atualizados ou treinamento adequado para determinado cenário.
  • Registrar adequadamente quando aplicável. Caso uma instituição estabeleça regras específicas sobre utilização de IA, elas precisam ser seguidas.
  • Não delegar à IA aquilo que exige responsabilidade profissional.

Cuidados de Enfermagem diante do uso da Inteligência Artificial

O profissional deve encarar a IA como qualquer outra tecnologia utilizada no cuidado: ela precisa ser segura, adequada e compreendida. Antes de utilizar uma recomendação gerada por IA, é necessário verificar se ela faz sentido diante das condições clínicas do paciente. Também é importante observar sinais e sintomas que contradigam a recomendação apresentada.

Por exemplo, se uma ferramenta sugerir determinado cuidado, mas a avaliação presencial demonstrar deterioração clínica, o achado clínico deve ser valorizado e o paciente deve ser reavaliado. A tecnologia nunca deve impedir o profissional de realizar uma avaliação clínica completa.

Na prática de Enfermagem, alguns cuidados são especialmente importantes:

Avaliar o paciente antes de confiar no algoritmo

O dado produzido pela IA não substitui exame físico, entrevista, avaliação de sinais vitais, histórico clínico e observação direta.

Conferir medicamentos e doses

Ferramentas generativas podem apresentar informações incorretas sobre medicamentos, contraindicações, diluições ou doses. Em situações envolvendo medicamentos, a conferência deve ser feita em fontes farmacológicas e protocolos institucionais confiáveis.

Não compartilhar informações identificáveis

Mesmo quando a intenção é apenas “pedir uma segunda opinião” à IA, dados identificáveis do paciente devem ser protegidos.

Conferir protocolos institucionais

Um protocolo institucional atualizado pode ser mais adequado ao contexto do serviço do que uma resposta genérica produzida por uma IA.

Observar o paciente, e não apenas o monitor

Esse cuidado é particularmente importante em ambientes de alta complexidade. Monitorização automatizada pode ajudar a identificar alterações, mas não substitui a avaliação do paciente.

Documentar corretamente

Registros de Enfermagem precisam refletir o cuidado efetivamente realizado e a avaliação profissional. A IA pode auxiliar na organização do texto, mas não deve fabricar informações ou substituir o registro verdadeiro.

Um exemplo prático

Imagine um paciente internado que apresenta aumento progressivo da frequência cardíaca, queda da pressão arterial e alteração do nível de consciência. Um sistema de IA pode identificar que existe um padrão de deterioração clínica e emitir um alerta.

Isso é útil.

Mas quem precisa avaliar o paciente é a equipe.

O enfermeiro deve verificar os sinais vitais, realizar avaliação clínica, conferir o histórico, medicamentos administrados, perdas, exames, acesso venoso, oxigenação, nível de consciência e demais informações pertinentes.

A IA ajudou a chamar atenção para o problema, mas quem realiza o cuidado é a equipe. Esse é provavelmente o melhor modelo para compreender a relação entre IA e Enfermagem:

“a máquina processa dados; o profissional interpreta o contexto; a equipe decide e executa o cuidado.”

IA na Enfermagem: prós e contras em resumo

Prós Contras
Otimização do tempo Possibilidade de informações incorretas
Redução de tarefas repetitivas Dependência tecnológica
Apoio ao raciocínio clínico Risco de reduzir o pensamento crítico
Análise de grandes volumes de dados Vieses algorítmicos
Identificação de padrões e riscos Falta de transparência em alguns sistemas
Apoio à educação Uso inadequado por estudantes
Auxílio na pesquisa Referências ou informações falsas
Organização de informações Riscos à privacidade
Automação administrativa Problemas de segurança cibernética
Personalização de algumas estratégias de cuidado Possível impacto sobre postos de trabalho

Como o estudante de Enfermagem pode usar a IA de maneira inteligente?

O estudante pode transformar a IA em uma ferramenta de aprendizagem, desde que não permita que ela substitua o estudo. Em vez de perguntar simplesmente “qual é a resposta?”, experimente utilizar a ferramenta para aprofundar o raciocínio.

Por exemplo:

“Explique a diferença entre choque hipovolêmico e distributivo como se eu fosse estudante do terceiro semestre de Enfermagem.”

Depois:

“Crie um caso clínico para eu tentar identificar o tipo de choque.”

Em seguida:

“Agora avalie minha resposta e explique onde errei.”

Esse tipo de utilização transforma a IA em uma ferramenta interativa de aprendizagem. O mesmo princípio pode ser aplicado à farmacologia, anatomia, fisiologia, semiologia, Processo de Enfermagem, cuidados intensivos e outras áreas.

Como o profissional pode utilizar IA sem perder a autonomia?

Uma boa regra é pensar na IA como um segundo par de olhos, e não como o profissional responsável pelo paciente.

  • Ela pode ajudar a organizar.
  • Pode sugerir.
  • Pode comparar.
  • Pode resumir.
  • Pode identificar padrões.
  • Pode levantar hipóteses.

Mas a decisão precisa continuar baseada em avaliação profissional, evidências científicas, protocolos e contexto clínico.

A própria discussão promovida pelo Cofen enfatiza que o problema não está simplesmente na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. O conteúdo produzido pela IA precisa ser analisado criticamente e ajustado à experiência e à realidade profissional.

O futuro da IA na Enfermagem

É muito provável que a presença da IA aumente nos próximos anos. Prontuários mais inteligentes, sistemas preditivos, reconhecimento de voz, análise automatizada de dados, ferramentas de apoio à gestão, educação personalizada e sistemas capazes de auxiliar na identificação precoce de riscos tendem a ganhar espaço.

O próprio Cofen já começou a incorporar a tecnologia em suas atividades. Em 2025, lançou a assistente virtual “Anna”, desenvolvida para modernizar o atendimento e apoiar processos relacionados ao sistema Cofen/Corens. Portanto, a discussão já não deveria ser apenas “vamos usar ou não usar IA?”.

A pergunta mais importante é:

Como utilizar Inteligência Artificial sem comprometer a segurança, a ética, a autonomia e a humanização da Enfermagem?

Esse é o verdadeiro desafio.

Inteligência Artificial não substitui a experiência clínica

Para quem trabalha ou pretende trabalhar na Enfermagem, existe uma mensagem que merece ser reforçada:

  • Uma IA pode conhecer milhares de protocolos.
  • Pode analisar milhões de informações.
  • Pode produzir um texto em poucos segundos.
  • Pode organizar uma enorme quantidade de dados.
  • Mas ela não substitui a experiência de estar diante de um paciente.

O profissional experiente percebe mudanças sutis no comportamento, na expressão facial, na coloração da pele, na respiração, na comunicação e na interação do paciente. Ele sabe que o mesmo número no monitor pode significar situações completamente diferentes dependendo do contexto. É essa combinação entre conhecimento científico, experiência prática, raciocínio clínico e humanização que torna a Enfermagem insubstituível.

A IA pode ampliar a capacidade do profissional mas não deve apagar o profissional.

A Inteligência Artificial representa uma das maiores transformações tecnológicas que a Enfermagem deverá enfrentar nos próximos anos. Se utilizada corretamente, pode ajudar a reduzir tarefas repetitivas, organizar informações, apoiar a educação, melhorar processos, identificar padrões e auxiliar profissionais na tomada de decisões.

Por outro lado, seu uso inadequado pode trazer riscos importantes, como informações falsas, dependência tecnológica, perda do pensamento crítico, exposição de dados, vieses e decisões inadequadas.

A posição que vem sendo apresentada pelo Cofen é coerente com essa visão equilibrada: a IA pode ser uma ferramenta importante para a Enfermagem, mas deve ser utilizada de maneira ética, responsável e crítica, preservando o cuidado humano.

Para o estudante, isso significa aprender a utilizar a tecnologia sem deixar de aprender Enfermagem, e para o profissional, significa utilizar a IA para potencializar sua capacidade, e não para transferir sua responsabilidade. Já para o paciente, significa garantir que a tecnologia esteja a serviço do cuidado — e não que o cuidado passe a estar a serviço da tecnologia.

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Inteligência Artificial na Enfermagem. Brasília, DF, 9 set. 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/inteligencia-artificial-na-enfermagem/.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Inteligência Artificial é essencial à Enfermagem, mas não substitui o cuidado humano. Brasília, DF, 7 jun. 2024. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/inteligencia-artificial-e-essencial-a-enfermagem-mas-nao-substitui-o-cuidado-humano/
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Qual o limite da IA na Enfermagem? Brasília, DF, 10 set. 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/qual-o-limite-da-ia-na-enfermagem/
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564/2017: aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF, 2017. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017/
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Conferência Nacional aprova minuta do novo Código de Ética de Enfermagem. Brasília, DF, 23 mar. 2026. Disponível em: https://biblioteca.cofen.gov.br/conferencia-nacional-aprova-minuta-do-novo-codigo-de-etica-de-enfermagem/
  6. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Cofen lança inteligência artificial “Anna” para modernizar atendimento à Enfermagem. Brasília, DF, 30 jun. 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/cofen-lanca-inteligencia-artificial-anna-para-modernizar-atendimento-a-enfermagem/
  7. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (WHO). Ethics and governance of artificial intelligence for health: WHO guidance. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240029200
  8. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (WHO). Ethics and governance of artificial intelligence for health: guidance on large multi-modal models. Geneva: World Health Organization, 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240084759
  9. AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS (ANPD). Por que Inteligência Artificial? Brasília, DF. Disponível em: https://www.gov.br/anpd/pt-br/sandbox/por-que-inteligencia-artificial
  10. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Inteligência Artificial é a nova aposta para aliviar rotina dos enfermeiros. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/inteligencia-artificial-e-a-nova-aposta-para-aliviar-rotina-dos-enfermeiros/

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