
Vá direto ao ponto!
Na UTI, pedir exame “porque sempre foi feito” pode ser tão pouco útil quanto deixar de pedir um exame necessário. O que realmente importa é relacionar avaliação clínica, monitorização e exames complementares à pergunta que precisa ser respondida naquele paciente.
A avaliação começa à beira do leito
Antes dos números, observe o paciente. Nível de consciência, dor, sedação, agitação, delirium, padrão respiratório, perfusão, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, débito urinário, pele, edema e mobilidade formam um conjunto que precisa ser interpretado continuamente.
Para sedação e agitação em adultos na UTI, a RASS é uma das escalas mais utilizadas e apresenta dez níveis, de −5 a +4. A avaliação da profundidade da sedação deve ser feita rotineiramente e integrada à estratégia de despertar, ventilação e prevenção do delirium.
Um paciente intubado que passa de RASS −1 para −4, por exemplo, merece uma nova avaliação clínica. Pode haver mudança na necessidade de sedação, alteração metabólica, deterioração neurológica ou outro fator. O número da escala é um sinal para investigar, não um diagnóstico.
Avaliação respiratória
Na avaliação do sistema respiratório, observe frequência e padrão respiratório, esforço, expansão torácica, ausculta, SpO₂ e resposta à oxigenoterapia ou à ventilação mecânica.
Em pacientes ventilados, a equipe também acompanha parâmetros e alarmes do ventilador, sincronia paciente-ventilador e evolução da oxigenação e ventilação. Gasometria arterial pode ser necessária quando existe uma questão clínica relacionada à oxigenação, ventilação ou equilíbrio ácido-base; não deve ser encarada automaticamente como coleta diária para todos.
Na prática, uma mudança repentina na necessidade de oxigênio ou no comportamento respiratório pode ser mais importante naquele momento do que simplesmente comparar o hemograma de hoje com o de ontem.
Hemodinâmica, renal e metabólica
Pressão arterial, frequência cardíaca, ritmo, perfusão periférica, temperatura, balanço hídrico e débito urinário ajudam a acompanhar a evolução do paciente crítico. Dependendo do quadro, exames como hemograma, eletrólitos, glicemia, função renal, função hepática, lactato e outros marcadores podem ser necessários.
O ponto-chave é a indicação. Exames laboratoriais repetidos sem uma pergunta clínica aumentam coleta de sangue, custos e resultados incidentais, além de poderem contribuir para anemia iatrogênica.
Radiografia e outros exames de imagem
A radiografia de tórax continua sendo útil quando existe uma indicação, como investigação de alteração respiratória, complicação pulmonar ou verificação de determinadas situações relacionadas a dispositivos. Entretanto, radiografia diária de tórax não deve ser apresentada como rotina obrigatória para todo paciente em ventilação mecânica.
O mesmo raciocínio vale para ultrassom, tomografia e outros exames: a indicação depende da condição clínica e da pergunta que precisa ser respondida.
O paciente crítico muda rápido
A avaliação não termina depois da primeira coleta. Tendências são fundamentais: uma pressão que vem caindo, uma necessidade crescente de vasopressor, uma alteração progressiva do débito urinário ou uma mudança no nível de consciência podem modificar completamente a prioridade da assistência.
Um cenário comum na UTI é o paciente que começa o plantão estável, mas algumas horas depois apresenta extremidades frias, queda da pressão e redução importante da diurese. Mesmo que os exames da manhã estivessem aceitáveis, a nova condição exige reavaliação; não faz sentido esperar simplesmente “o próximo exame de rotina”.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem participa diretamente da coleta e interpretação inicial das tendências clínicas. É importante:
- conferir identificação e condições para cada coleta;
- observar alterações em relação aos valores anteriores;
- registrar oxigenoterapia, ventilação e outros suportes relevantes;
- acompanhar débito urinário e balanço hídrico conforme indicação;
- verificar RASS e outras escalas utilizadas pelo serviço;
- comunicar deterioração clínica, não apenas alterações laboratoriais;
- conferir se a coleta foi realizada corretamente e se há necessidade de nova amostra diante de resultado incompatível com o quadro.
O mais importante é não transformar a rotina em automatismo. Exame complementar deve complementar a avaliação clínica, e não substituí-la.
Exames na UTI: O Que Realmente Importa
- A avaliação clínica vem antes dos exames
- RASS ajuda a monitorar sedação e agitação
- Exames devem responder a questões clínicas
- Radiografia diária não é rotina obrigatória para todos
Referências:
- LEWIS, K. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. SCCM — Atualização PADIS 2025
- SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. ICU Liberation Bundle (A-F). 2026. SCCM — ICU Liberation
- CRITICAL CARE SOCIETIES COLLABORATIVE. Choosing Wisely: não solicitar exames diagnósticos em intervalos regulares sem questão clínica específica. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, 2014. Choosing Wisely — Critical Care
La Gasometría Arterial
Faltou algum tema ou procedimento?
Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

Você precisa fazer login para comentar.