
Vá direto ao ponto!
Um paciente que ficou sonolento de repente pode estar apresentando uma alteração neurológica importante, mas também pode estar diante de uma causa simples e reversível. Por isso, o primeiro erro é olhar apenas para a pontuação da Escala de Coma de Glasgow e esquecer de avaliar o paciente como um todo.
Comece pelo que pode matar primeiro
Diante de um rebaixamento agudo do nível de consciência, a avaliação inicial deve priorizar via aérea, respiração e circulação. Observe se o paciente mantém a via aérea protegida, apresenta padrão respiratório adequado, alteração de saturação, instabilidade hemodinâmica ou sinais de má perfusão. A glicemia capilar também merece atenção imediata, porque a hipoglicemia pode provocar alteração importante da consciência e é uma causa potencialmente reversível.
Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando normalmente passa a responder apenas quando chamado com insistência. Antes de concluir que houve uma piora neurológica, a equipe verifica sinais vitais e glicemia e encontra uma alteração importante da glicose. Esse tipo de checagem rápida pode mudar completamente a conduta inicial.
Glasgow ajuda, mas não conta toda a história
A Escala de Coma de Glasgow avalia abertura ocular, resposta verbal e resposta motora, permitindo acompanhar alterações do nível de consciência de maneira padronizada. O mais importante é registrar a resposta de cada componente, e não apenas escrever “Glasgow 10”, porque a composição da pontuação ajuda a identificar mudanças ao longo do tempo.
Além da Glasgow, observe pupilas, simetria e reatividade, força e movimentação dos membros, presença de convulsões, fala, comportamento e resposta a estímulos. Uma mudança súbita, principalmente quando acompanhada de déficit focal, alteração pupilar ou convulsão, exige avaliação imediata.
Procure a causa enquanto monitora
Medicamentos sedativos, opioides, alterações metabólicas, hipoxemia, hipercapnia, infecções, distúrbios eletrolíticos, intoxicações e eventos neurológicos estão entre as possibilidades que precisam ser consideradas. O contexto ajuda muito: um paciente que recebeu opioide recentemente será investigado de forma diferente daquele que apresentou alteração neurológica súbita sem explicação aparente.
Uma cena que acontece com frequência em ambiente hospitalar é o paciente ficar excessivamente sonolento após receber uma medicação e apresentar respiração mais lenta. Nesse momento, registrar apenas “paciente sonolento” não descreve adequadamente a situação. Frequência respiratória, saturação, nível de consciência, horário e medicamento administrado ajudam a equipe a reconhecer uma possível relação medicamentosa e agir rapidamente.
Mudança do padrão é um sinal importante
Nem sempre o que chama atenção é uma pontuação muito baixa. Uma redução progressiva da resposta, uma nova confusão, dificuldade para despertar ou mudança em relação ao estado neurológico habitual já merece investigação. Comparar o paciente com sua avaliação anterior é essencial, principalmente em UTI e em pacientes que já apresentam algum grau de alteração neurológica.
Se houver deterioração, mantenha monitorização, reavalie ABC, glicemia e parâmetros neurológicos, comunique imediatamente a equipe responsável e prepare o paciente para as medidas diagnósticas ou terapêuticas indicadas.
Cuidados de enfermagem
Na prática, diante de um rebaixamento do nível de consciência, a enfermagem deve avaliar:
- nível de consciência e Glasgow, registrando seus componentes;
- pupilas, resposta motora e alterações neurológicas novas;
- via aérea, padrão respiratório e saturação;
- pressão arterial, frequência cardíaca e perfusão;
- glicemia capilar;
- medicamentos administrados recentemente;
- evolução em comparação com avaliações anteriores.
Mantenha a segurança do paciente, reduza o risco de queda e aspiração, mantenha monitorização adequada e comunique rapidamente qualquer deterioração. O registro deve ser objetivo e permitir comparar a evolução neurológica ao longo do tempo.
Rebaixamento do Nível de Consciência
- Avalie primeiro via aérea respiração e circulação
- Verifique glicemia e sinais vitais
- Avalie Glasgow pupilas e resposta motora
- Compare com o estado neurológico anterior
Referências:
- MERCK MANUALS. Abordagem ao paciente com alteração da consciência. Disponível em: Manuais MSD.
- TEASDALE, Graham; MAAS, Andrew; LECKY, Fiona; MANLEY, Geoffrey; STOCCHETTI, Nino; MURRAY, Gordon. The Glasgow Coma Scale at 40 years: standing the test of time. The Lancet Neurology, v. 13, n. 8, p. 844-854, ago. 2014. DOI: 10.1016/S1474-4422(14)70120-6. Disponível em: PubMed: Glasgow Coma Scale at 40 years.
- PATTI, Laryssa; GUPTA, Mohit. Change in Mental Status. In: StatPearls (Internet). Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: NCBI Bookshelf: Change in Mental Status.
- AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. Committee on Trauma. Advanced Trauma Life Support (ATLS): Student Course Manual. 10. ed. Chicago: American College of Surgeons, 2018. ISBN 978-0-9968262-3-5. Disponível em: American College of Surgeons: ATLS.
Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM)
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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