Sondas de alimentação: tipos, indicações e cuidados de enfermagem

A nutrição é uma parte essencial do tratamento de muitos pacientes hospitalizados. Quando a alimentação por via oral não é possível ou não é segura, as sondas de alimentação tornam-se fundamentais para garantir aporte nutricional adequado, manutenção da função intestinal e recuperação clínica.

Para a enfermagem, conhecer os tipos de sondas, suas indicações e os cuidados necessários é indispensável para prevenir complicações e promover segurança ao paciente.

O que são sondas de alimentação?

As sondas de alimentação são dispositivos médicos introduzidos no trato gastrointestinal com o objetivo de administrar dieta enteral, água e, em alguns casos, medicamentos. Elas podem ser utilizadas por curto, médio ou longo prazo, dependendo da condição clínica do paciente.

A escolha do tipo de sonda depende de fatores como tempo previsto de uso, nível de consciência, risco de aspiração, funcionamento do trato digestivo e diagnóstico médico.

Principais tipos de sondas de alimentação

Sondas de Curto Prazo: As Vias Nasais e Orais

As sondas introduzidas pelo nariz (nasais) ou pela boca (orais) são as mais comuns em ambientes hospitalares para pacientes que necessitam de suporte nutricional por um período de até quatro a seis semanas.

  • Sonda Nasogástrica (SNG) A famosa sonda de Levine, geralmente feita de PVC, é mais rígida e possui um calibre maior. Embora possa ser usada para alimentação em situações muito específicas e curtas, sua principal função na prática clínica é a descompressão gástrica (retirar ar ou líquidos do estômago) ou a drenagem. Para alimentação, ela é menos confortável e apresenta um risco maior de aspiração, já que o conteúdo é depositado diretamente no estômago, onde o refluxo é mais provável em pacientes acamados.
  • Sonda Nasoenteral (SNE) Diferente da gástrica, a sonda nasoenteral (como a Dobbhoff) é feita de poliuretano ou silicone, materiais muito mais flexíveis e confortáveis que não endurecem com o suco gástrico. Ela é mais fina e possui um fio-guia metálico para facilitar a introdução, além de um peso de tungstênio na ponta para ajudar o posicionamento. Sua ponta deve estar localizada no duodeno ou no jejuno. É a “queridinha” da nutrição enteral de curto prazo porque reduz significativamente o risco de pneumonia aspirativa, já que o alimento “pula” o estômago e vai direto para o intestino.
  • Sonda orogástrica: Introduzida pela boca até o estômago, é mais utilizada em pacientes inconscientes, intubados ou em recém-nascidos. Seu uso costuma ser temporário e restrito a ambientes hospitalares.

     

Dispositivos de Longa Permanência: As Estomias

Quando a previsão é de que o paciente precise de suporte nutricional por mais de seis semanas, as sondas nasais tornam-se inadequadas devido ao risco de lesões de septo, sinusites e desconforto crônico. Nesses casos, partimos para os acessos cirúrgicos ou endoscópicos.

  • Gastrostomia (GTT) A gastrostomia é um acesso direto ao estômago através da parede abdominal. O método mais comum é a Gastrostomia Endoscópica Percutânea (PEG). É uma excelente opção para pacientes com doenças neurológicas crônicas ou tumores de face e pescoço que impedem a passagem nasal. O dispositivo possui um anteparo interno e externo para evitar o deslocamento.
  • Jejunostomia Semelhante à gastrostomia, mas o cateter é inserido diretamente no jejuno. Essa via é escolhida quando o estômago não pode ser utilizado, seja por cirurgias prévias, gastroparesia grave (estômago paralisado) ou alto risco de refluxo gastroesofágico severo. É uma via mais delicada, pois o intestino não possui a mesma capacidade de reservatório que o estômago, exigindo que a dieta seja administrada de forma mais lenta e controlada, quase sempre em bomba de infusão.

Indicações gerais para uso de sondas de alimentação

As sondas são indicadas quando o paciente apresenta incapacidade de deglutição, risco de aspiração, desnutrição, doenças neurológicas, trauma, queimaduras extensas, estados críticos prolongados ou quando há necessidade de suplementação nutricional.

A decisão de uso deve sempre considerar a preservação do trato gastrointestinal, pois a nutrição enteral é preferível à parenteral sempre que possível.

Materiais e Calibres: Por que Escolher um ou Outro?

O material da sonda define o tempo que ela pode ficar no paciente. O PVC é barato, mas torna-se rígido e irritante em poucos dias, devendo ser trocado com frequência. Já o poliuretano e o silicone são biocompatíveis e podem permanecer por meses.

Quanto ao calibre, utilizamos a escala French (Fr). Para alimentação enteral, geralmente usamos sondas entre 8 Fr e 12 Fr. Sondas mais finas são mais confortáveis, mas entopem com maior facilidade se a enfermagem não for rigorosa na lavagem. Sondas mais grossas (14 Fr a 18 Fr) são reservadas para drenagem de conteúdo gástrico espesso.

Riscos e complicações associadas às sondas

Apesar de essenciais, as sondas de alimentação podem gerar complicações se não forem manejadas corretamente. Entre as mais comuns estão broncoaspiração, obstrução da sonda, deslocamento, lesões nasais, infecções no local de inserção (principalmente em gastrostomias), diarreia, náuseas e distensão abdominal.

Esses riscos reforçam a importância da vigilância constante da equipe de enfermagem.

Cuidados de Enfermagem Fundamentais

A gestão das sondas é uma arte técnica que exige disciplina. O primeiro e mais importante cuidado é a confirmação do posicionamento. Para sondas nasoenterais, o padrão ouro é o Raio-X. Nunca inicie uma dieta sem a confirmação radiológica de que a ponta está abaixo do diafragma. Testes de ausculta (injetar ar e ouvir com o esteto) são falhos e não devem ser usados isoladamente para confirmar posição enteral.

A manutenção da permeabilidade é outro ponto crítico. O enfermeiro e sua equipe devem lavar a sonda com pelo menos 20 a 40 mL de água filtrada antes e depois de cada dieta, e antes e depois de cada medicação. Se a sonda entupir, o paciente perde sua via de nutrição e precisará passar por um novo procedimento invasivo.

O cuidado com a pele não pode ser esquecido. Em sondas nasais, a fixação deve ser trocada diariamente e o local de pressão deve ser alternado para evitar úlceras nas narinas. Em gastrostomias e jejunostomias, o sítio de inserção (o estoma) deve ser mantido limpo e seco, observando sinais de infecção, granulomas ou vazamento de conteúdo gástrico, que é extremamente corrosivo para a pele abdominal.

Por fim, a segurança na administração envolve manter o paciente sempre com a cabeceira elevada entre 30° e 45° durante a infusão e por até uma hora após o término, caso a dieta seja intermitente. Isso previne o refluxo e a consequente aspiração broncopulmonar.

Cuidados específicos com gastrostomia e jejunostomia

Em pacientes com sondas cirúrgicas, é essencial observar sinais de infecção como vermelhidão, secreção, dor e mau odor. A limpeza do estoma deve ser feita diariamente, conforme orientação institucional.

A fixação adequada da sonda evita tração acidental e lesões na pele.

O papel da enfermagem na educação do paciente e da família

A enfermagem tem papel fundamental na orientação de familiares e cuidadores quanto ao manuseio da sonda, administração da dieta, sinais de alerta e higiene do dispositivo, principalmente quando o paciente recebe alta hospitalar com sonda domiciliar.

Esse cuidado educativo reduz complicações e promove maior autonomia e segurança no tratamento.

As sondas de alimentação são ferramentas indispensáveis para a manutenção da nutrição de pacientes que não conseguem se alimentar por via oral. Conhecer os diferentes tipos, suas indicações e os cuidados necessários é essencial para a prática segura da enfermagem.

Uma assistência bem executada reduz riscos, previne infecções, melhora o conforto do paciente e contribui diretamente para a recuperação clínica.

Referências:

  1. AMERICAN SOCIETY FOR PARENTERAL AND ENTERAL NUTRITION (ASPEN). Clinical Guidelines: Nutrition Support of Adult Patients With Hyperglycemia. 2021. Disponível em: https://www.nutritioncare.org
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Terapia Nutricional. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO PARENTERAL E ENTERAL (BRASPEN). Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. 2021. Disponível em: https://www.braspen.org/
  5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO PARENTERAL E ENTERAL (BRASPEN). Diretrizes de terapia nutricional. São Paulo, 2021. Disponível em:
    https://braspen.org
  6. SMELTZER, S. C. et al. Brunner & Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br
  7. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Enteral nutrition in clinical practice. Geneva: WHO, 2017. Disponível em: https://www.who.int

Dupla checagem de medicamentos na enfermagem: segurança que salva vidas

A administração de medicamentos é uma das atividades mais frequentes e, ao mesmo tempo, mais críticas da prática da enfermagem. Um erro nesse processo pode causar danos graves ao paciente, prolongar a internação e, em situações extremas, levar ao óbito. Dentro desse cenário, a dupla checagem de medicamentos surge como uma das estratégias mais importantes para a promoção da segurança do paciente.

Mais do que uma exigência institucional, a dupla checagem é uma barreira de segurança que protege o paciente, o profissional e toda a equipe de saúde.

Para o estudante de enfermagem, a dupla checagem não deve ser vista como uma burocracia ou uma falta de confiança no próprio trabalho. Pelo contrário, ela é uma das barreiras de segurança mais eficazes do sistema de saúde. Trata-se de um processo colaborativo onde dois profissionais qualificados verificam, de forma independente, o preparo e a administração de um medicamento antes que ele chegue ao paciente.

O que é a dupla checagem de medicamentos

A dupla checagem consiste na verificação independente de um medicamento por dois profissionais habilitados, antes da administração ao paciente. Essa verificação envolve a conferência da prescrição, do medicamento preparado e das condições do paciente, com o objetivo de identificar possíveis erros antes que eles cheguem ao leito.

O princípio central da dupla checagem é simples: um segundo olhar reduz significativamente a chance de falhas que podem passar despercebidas por um único profissional, especialmente em ambientes com alta carga de trabalho.

O Que é, de Fato, a Dupla Checagem Independente?

Existe uma diferença crucial entre “pedir para um colega dar uma olhadinha” e realizar uma dupla checagem independente. No método independente, o primeiro profissional prepara o medicamento e o segundo profissional realiza o cálculo e a conferência sem ser influenciado pelo que o primeiro fez.

Se eu digo para você: “Preparei 5 UI de insulina, confere?”, eu já estou induzindo o seu cérebro a ver 5 UI. Na dupla checagem correta, o segundo profissional olha para a prescrição, olha para a seringa e faz o seu próprio julgamento. Esse distanciamento crítico é o que permite identificar erros de cálculo, de diluição ou até mesmo a troca de ampolas visualmente semelhantes (os chamados medicamentos “Look-Alike“).

Por que a dupla checagem é tão importante na enfermagem?

A enfermagem atua diretamente na etapa final do processo medicamentoso, que é a administração. Isso significa que, muitas vezes, é o último ponto possível para interceptar um erro.

Fatores como fadiga, sobrecarga de trabalho, interrupções frequentes, prescrições complexas e semelhança entre nomes de medicamentos aumentam o risco de falhas. A dupla checagem funciona como uma barreira adicional, reduzindo a probabilidade de que esses erros cheguem ao paciente.

Além disso, a prática fortalece a cultura de segurança e estimula o trabalho colaborativo entre os profissionais.

Quando a Dupla Checagem é Obrigatória?

Embora o ideal fosse conferir tudo em dobro, sabemos que a realidade dos hospitais nem sempre permite isso para todas as dipironas administradas. Por isso, a dupla checagem foca nos Medicamentos de Alta Vigilância (MAV), que são aqueles que apresentam um risco potencial de causar danos graves ou óbito em caso de erro.

Os principais grupos que exigem esse rigor incluem as insulinas, os anticoagulantes (como a heparina e a enoxaparina), os quimioterápicos, os opioides e os eletrólitos concentrados, como o cloreto de potássio e o cloreto de sódio a 20%, drogas vasoativas.  Na pediatria e neonatologia, a dupla checagem costuma ser estendida para quase todos os medicamentos, devido à complexidade dos cálculos de dose por peso e à baixa tolerância dos pequenos pacientes a variações de dosagem.

Como funciona a dupla checagem na prática

Para que a dupla checagem seja realmente eficaz, ela precisa ser independente e consciente, e não apenas uma assinatura ou confirmação automática.

Cada profissional deve conferir separadamente a prescrição médica, identificando o paciente correto, o medicamento prescrito, a dose, a via, o horário, a diluição e a velocidade de administração. Também é importante verificar alergias, compatibilidade com outras medicações e condições clínicas do paciente.

Somente após essa verificação criteriosa o medicamento deve ser administrado. Quando há divergências, a administração deve ser suspensa até que a situação seja esclarecida.

A relação da dupla checagem com os “certos” da administração de medicamentos

A dupla checagem está diretamente relacionada aos princípios dos “certos” da administração de medicamentos, como paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa e horário certo. Ao realizar a checagem em conjunto, a enfermagem reforça esses princípios e amplia a segurança do processo.

Mais do que decorar conceitos, a prática diária da dupla checagem transforma esses “certos” em ações reais à beira do leito.

O processo começa na leitura da prescrição médica, passando pela conferência da etiqueta de identificação do paciente e chegando à conferência física do fármaco.

  1. Conferência da Prescrição: Ambos os profissionais devem confirmar o nome do paciente, o medicamento prescrito, a dose, a via de administração e o horário.
  2. Verificação do Cálculo: Especialmente em infusões contínuas ou doses fracionadas, o cálculo deve ser refeito por ambos. Se houver divergência, uma terceira pessoa ou o enfermeiro responsável deve ser consultado.
  3. Identificação do Paciente: Na beira do leito, a dupla confirma a identidade do paciente através da pulseira e perguntando o nome completo (se o paciente estiver consciente), garantindo que o medicamento certo vá para a pessoa certa.
  4. Programação de Bombas de Infusão: Quando o medicamento vai em bomba, a conferência da vazão (mL/h) e do volume total é um momento crítico onde a dupla checagem previne erros de digitação.

Barreiras e Desafios no Cotidiano

Apesar de ser uma prática salvadora, a dupla checagem enfrenta barreiras culturais. Às vezes, o estudante ou o profissional recém-formado sente vergonha de pedir ajuda, temendo parecer inseguro. Em outras situações, profissionais veteranos podem se sentir ofendidos ao serem questionados por um colega mais jovem.

É preciso entender que a segurança do paciente está acima de qualquer hierarquia ou ego. Outro desafio é a interrupção: o processo de dupla checagem deve ocorrer em uma “zona de silêncio” ou, pelo menos, em um momento de foco total. Interromper um colega durante uma checagem é aumentar as chances de que ele pule uma etapa importante.

Cuidados de enfermagem para uma dupla checagem eficaz

A enfermagem deve evitar realizar a dupla checagem de forma apressada ou mecânica. É essencial que o ambiente esteja o mais livre possível de interrupções durante o preparo e a conferência do medicamento.

A comunicação entre os profissionais deve ser clara e objetiva, sem pressupor que “o outro já conferiu”. Cada checagem precisa ser ativa, crítica e responsável.

Outro ponto fundamental é o registro adequado da dupla checagem, conforme protocolo institucional, garantindo rastreabilidade e respaldo legal ao profissional.

Principais falhas que comprometem a dupla checagem

Um dos erros mais comuns é transformar a dupla checagem em um ato simbólico, onde apenas um profissional confere e o outro apenas confirma sem verificar. Essa prática não oferece proteção real ao paciente.

A pressão do tempo, a escassez de profissionais e a cultura de normalização do risco também podem comprometer a efetividade da dupla checagem. Por isso, é fundamental que as instituições apoiem essa prática, oferecendo condições adequadas de trabalho.

Dupla checagem e cultura de segurança do paciente

A dupla checagem não deve ser vista como desconfiança entre colegas, mas como uma estratégia de cuidado compartilhado. Ela fortalece a cultura de segurança, promove aprendizado coletivo e reduz eventos adversos evitáveis.

Quando a equipe compreende que errar é humano, mas que sistemas seguros reduzem falhas, a dupla checagem passa a ser valorizada como aliada e não como obstáculo.

Como futuros enfermeiros, vocês devem ser os guardiões dessa prática. O cuidado de enfermagem na administração de medicamentos envolve a vigilância pós-administração. Após a dupla checagem e a aplicação da droga, é fundamental monitorar o paciente em busca de reações adversas e registrar no prontuário que a checagem foi realizada por dois profissionais (frequentemente assinando ambos no canhoto da prescrição).

A dupla checagem é, em última análise, um ato de cuidado com o colega. Quando eu confiro o que você preparou, estou protegendo o paciente, mas também estou protegendo a sua carreira e o seu registro profissional. É uma rede de proteção mútua que fortalece a cultura de segurança institucional.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/protocolo-de-seguranca-na-prescricao-uso-e-administracao-de-medicamentos.pdf
  2. INSTITUTO PARA PRÁTICAS SEGURAS NO USO DE MEDICAMENTOS (ISMP BRASIL). Dupla checagem independente: uma estratégia para reduzir erros de medicação. Belo Horizonte: ISMP, 2019. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Uso Seguro de Medicamentos: Guia para Profissionais de Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  5. INSTITUTE FOR SAFE MEDICATION PRACTICES. Medication safety best practices. 2023. Disponível em: https://www.ismp.org
  6. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Medication without harm: global patient safety challenge. Geneva: WHO, 2017. Disponível em: https://www.who.int

Cloreto de Potássio Endovenoso: indicações, riscos e cuidados de enfermagem

O cloreto de potássio endovenoso é um dos medicamentos mais utilizados no ambiente hospitalar, mas também está entre os mais perigosos quando administrados de forma inadequada. Por isso, ele exige atenção redobrada da equipe de enfermagem, conhecimento técnico sólido e rigor no cumprimento dos protocolos institucionais.

Para você que está começando agora na enfermagem, é provável que já tenha notado as ampolas de Kcl separadas em caixas específicas, muitas vezes com etiquetas vermelhas berrantes ou guardadas em armários de acesso restrito. Não é para menos: o potássio é um eletrólito vital, mas, se administrado de forma incorreta, torna-se uma arma letal.

Embora o potássio seja um eletrólito essencial para o funcionamento do organismo, pequenas variações em seus níveis séricos podem causar alterações graves, principalmente no coração. Entender quando, por que e como administrar o cloreto de potássio endovenoso é fundamental para uma assistência segura.

O que é o cloreto de potássio

O cloreto de potássio (KCl) é um sal mineral utilizado principalmente para corrigir ou prevenir a hipocalemia, que é a diminuição dos níveis de potássio no sangue. O potássio desempenha papel crucial na condução elétrica cardíaca, na contração muscular, no equilíbrio ácido-base e na função neuromuscular.

Quando a reposição oral não é possível, não é suficiente ou não é segura, a via endovenosa passa a ser indicada, sempre com extremo cuidado.

Por que o Potássio é Tão Crítico?

Para entender o perigo, precisamos lembrar um pouco da fisiologia. O potássio K+ é o principal cátion do fluido intracelular. Ele é o grande responsável por manter o potencial de repouso das membranas celulares, o que é fundamental para a condução nervosa e, mais importante ainda, para a contração muscular, incluindo a do músculo cardíaco.

O intervalo normal de potássio no sangue é muito estreito, geralmente entre 3,5 e 5 mEq/L. Quando esses níveis caem (hipocalemia), o paciente pode apresentar fraqueza, arritmias e até paralisia.

No entanto, quando os níveis sobem rapidamente (hipercalemia), o coração pode simplesmente parar em diástole. É por isso que o KCl concentrado é uma das drogas utilizadas em protocolos de execução e eutanásia animal; uma dose alta e direta causa parada cardíaca imediata. Na enfermagem, chamamos isso de Medicamento de Alta Vigilância.

Indicações do cloreto de potássio endovenoso

A principal indicação do cloreto de potássio por via endovenosa é a hipocalemia moderada a grave, especialmente quando associada a sintomas ou risco cardiovascular. Situações comuns na prática clínica incluem pacientes em uso de diuréticos, pacientes com vômitos ou diarreias persistentes, grandes queimados, pós-operatórios extensos e pacientes críticos em UTI.

Também pode ser indicado em pacientes com distúrbios metabólicos, alcalose metabólica e em algumas situações específicas de reposição eletrolítica controlada.

É importante destacar que a administração endovenosa nunca deve ser a primeira escolha quando a via oral é viável, justamente pelos riscos envolvidos.

Também vemos o uso de potássio em pacientes com cetoacidose diabética, já que a administração de insulina faz com que o potássio saia do sangue e entre nas células, podendo causar uma queda súbita nos níveis séricos. Em todos esses casos, o objetivo é restabelecer o equilíbrio eletrolítico sem ultrapassar os limites de segurança.

Por que o cloreto de potássio é considerado um medicamento de alto risco

O cloreto de potássio está classificado como medicamento potencialmente perigoso porque erros na sua administração podem levar a consequências fatais. A infusão rápida ou em concentrações inadequadas pode causar arritmias graves, bloqueios cardíacos e parada cardiorrespiratória.

Diferente de outros eletrólitos, o potássio tem uma margem de segurança muito estreita. Pequenos erros de dose, diluição ou velocidade podem resultar em hipercalemia aguda, uma condição extremamente perigosa.

Por esse motivo, muitas instituições adotam protocolos rígidos, exigem dupla checagem e restringem o acesso ao medicamento.

A Regra de Ouro: O Perigo do Bôlus

Se você esquecer tudo o que leu hoje, guarde apenas esta frase: Nunca, sob nenhuma circunstância, administre cloreto de potássio concentrado em bôlus intravenoso!

Administrar KCl direto na veia, sem diluição, causa morte por parada cardíaca. Por isso, ele deve ser sempre diluído em grandes volumes de solução (como Soro Fisiológico 0,9% ou Soro Glicosado 5%) e infundido lentamente. A velocidade e a concentração são os dois pilares que o enfermeiro deve vigiar constantemente.

Utilização na Prática Clínica: Diluição e Vias

Na prática, você encontrará ampolas de KCl a 10 % ou 19,1%. A forma como vamos administrar depende da gravidade da perda e do tipo de acesso venoso que o paciente possui.

Para acessos venosos periféricos, a concentração da solução não deve ultrapassar 40–60 mEq/L. Isso acontece porque o potássio é extremamente irritante para as veias (esclerosante). Se a solução estiver muito concentrada, o paciente sentirá muita dor no local e o risco de flebite química é altíssimo. A velocidade de infusão periférica também deve ser lenta, geralmente não ultrapassando 10  mEq/h.

Já em acessos venosos centrais, podemos usar concentrações maiores e velocidades ligeiramente superiores, mas isso exige monitorização cardíaca contínua. A recomendação padrão é que a velocidade máxima de infusão não exceda 20 mEq/h na maioria dos protocolos hospitalares, para evitar picos de hipercalemia.

Riscos associados ao cloreto de potássio endovenoso

Os riscos do cloreto de potássio não se limitam apenas ao sistema cardiovascular. A administração inadequada pode causar irritação venosa intensa, flebite química, extravasamento e necrose tecidual.

No âmbito sistêmico, os principais riscos incluem hipercalemia, arritmias cardíacas, fraqueza muscular, parestesias e, em casos extremos, parada cardíaca. Esses riscos reforçam a necessidade de vigilância constante da enfermagem durante todo o processo de infusão.

Cuidados de Enfermagem

Antes de administrar

Antes de iniciar a infusão de cloreto de potássio, a enfermagem deve confirmar a prescrição médica, atentando-se à dose, diluição, velocidade e via de administração. A conferência do potássio sérico recente é essencial para avaliar a real necessidade da reposição.

Também é fundamental avaliar o acesso venoso, garantindo que esteja pérvio e adequado para a concentração prescrita. A utilização de bomba de infusão não é opcional, mas obrigatória, para garantir controle preciso da velocidade.

A dupla checagem com outro profissional de enfermagem é uma medida de segurança amplamente recomendada.

Durante a infusão

Durante a infusão do cloreto de potássio, a enfermagem deve monitorar continuamente o paciente, observando sinais de desconforto no local da infusão, dor, ardor ou endurecimento da veia.

A monitorização cardíaca é indicada sempre que possível, principalmente em pacientes críticos. Alterações no ritmo cardíaco, queixas de palpitação, fraqueza ou formigamento devem ser valorizadas e comunicadas imediatamente à equipe médica.

O controle rigoroso da velocidade de infusão é um dos pontos mais críticos do cuidado de enfermagem nesse contexto.

Depois de administrar

Após o término da infusão, é importante reavaliar o acesso venoso, registrar corretamente a administração e acompanhar a evolução clínica do paciente. Novas dosagens de potássio sérico costumam ser solicitadas para avaliar a resposta ao tratamento.

A enfermagem também deve orientar o paciente, quando consciente, sobre possíveis sintomas que devem ser comunicados, reforçando a importância da segurança no tratamento.

Por fim, monitore o débito urinário. O potássio é excretado principalmente pelos rins. Se o paciente parar de urinar (oligúria ou anúria), o potássio administrado começará a se acumular rapidamente no sangue, levando à intoxicação. Sempre cheque os exames laboratoriais recentes antes de iniciar uma nova dose de reposição.

Responsabilidade e Conhecimento

O cloreto de potássio endovenoso é um medicamento essencial, mas que exige respeito, conhecimento e atenção absoluta por parte da equipe de enfermagem. Sua administração segura depende da correta indicação, diluição adequada, infusão controlada e monitorização contínua do paciente.

Para o estudante e para o profissional de enfermagem, dominar esse tema é fundamental para garantir uma assistência segura, baseada em evidências e alinhada às boas práticas de segurança do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Boletim ISMP Brasil: Uso Seguro de Soluções Eletrolíticas Concentradas. Belo Horizonte: ISMP, 2013. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Uso Seguro de Medicamentos: Guia para Profissionais de Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.

    SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/

  4. INSTITUTE FOR SAFE MEDICATION PRACTICES. High-alert medications in acute care settings. 2023. Disponível em: https://www.ismp.org
  5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-base. São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.cardiol.br

Cloreto de Sódio 0,9% e 20%: Entenda as Diferenças para uma Prática Segura

O cloreto de sódio é uma das soluções mais utilizadas na prática clínica, presente em praticamente todos os setores hospitalares. Apesar disso, ainda existem muitas dúvidas — e riscos — relacionados ao uso de suas diferentes concentrações, especialmente quando comparamos o cloreto de sódio 0,9% com o cloreto de sódio 20%.

Entender profundamente as diferenças entre essas soluções, suas indicações corretas e os cuidados de enfermagem é essencial para garantir a segurança do paciente e evitar erros de medicação.

O que é o cloreto de sódio?

O cloreto de sódio é um sal composto por sódio e cloro, dois eletrólitos fundamentais para o funcionamento do organismo. O sódio tem papel central no equilíbrio hídrico, na condução de impulsos nervosos, na contração muscular e na manutenção da pressão arterial.

Na prática clínica, o cloreto de sódio é utilizado em diferentes concentrações, cada uma com finalidade específica e riscos próprios.

Cloreto de sódio 0,9%: o soro fisiológico

O Cloreto de Sódio 0,9% é frequentemente chamado de “Soro Fisiológico”, embora o termo seja tecnicamente impreciso, já que sua concentração de sódio e cloro é ligeiramente superior à do plasma humano. Cada 100 ml dessa solução contém 0,9% de cloreto de sódio.

Sua principal característica é ser uma solução isotônica. Isso significa que sua osmolaridade (cerca de 308mOsm/L) é muito próxima à do sangue humano. Na prática, isso quer dizer que, ao ser administrado, ele não provoca grandes deslocamentos de água entre o compartimento intracelular e o extracelular. A água permanece onde é colocada, sendo excelente para expandir o volume intravascular.

As indicações do NaCl 0,9% são amplas: ele é usado para hidratação de curto prazo, reposição de perdas de líquidos (como em vômitos e diarreias), diluição de uma vasta gama de medicamentos, lavagem de cateteres venosos e higienização de feridas ou mucosas. Por ser compatível com o sangue, é a única solução que pode ser administrada simultaneamente com hemoderivados no mesmo acesso venoso.

Também é muito utilizado em situações de desidratação, hipovolemia leve a moderada, pós-operatório e em pacientes que necessitam de expansão do volume intravascular.

Cuidados de enfermagem com o cloreto de sódio 0,9%

Apesar de amplamente utilizado, o cloreto de sódio 0,9% não é isento de riscos. A enfermagem deve monitorar sinais de sobrecarga volêmica, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca, renal ou idosos.

A velocidade de infusão deve ser rigorosamente controlada, assim como a avaliação do balanço hídrico, edema, pressão arterial e ausculta pulmonar. O registro correto da infusão e da resposta do paciente é parte essencial do cuidado.

Cloreto de sódio 20%: solução hipertônica

Aqui entramos em um território muito mais restrito e perigoso. O Cloreto de Sódio 20% é uma solução hipertônica extrema. Se o soro a 0,9% tem 9 mg de sal por mililitro, a ampola de 20% possui impressionantes 200mg na mesma quantidade de líquido.

Sua osmolaridade é altíssima (cerca de 6.844mOsm/L). Se essa solução for administrada pura diretamente na veia de um paciente, ela causará uma desidratação celular súbita e violenta, podendo levar à destruição dos tecidos vasculares, hemorragia cerebral ou desmielinização osmótica. Por esse motivo, o NaCl 20% é classificado mundialmente como um Medicamento de Alta Vigilância (MAV).

As indicações para o uso do 20% são muito específicas. Ele raramente é usado de forma direta, servindo quase sempre como um concentrado para “turbinar” outras soluções. É indicado para a correção de hiponatremias graves (quando os níveis de sódio no sangue estão perigosamente baixos) ou como parte da reposição eletrolítica em nutrição parenteral. Em alguns protocolos de neurointensivismo, soluções hipertônicas são usadas para reduzir o edema cerebral, mas sempre sob rigorosa diluição e controle.

Por que o cloreto de sódio 20% exige tanto cuidado?

Por ser extremamente hipertônico, o cloreto de sódio 20% promove um deslocamento rápido de água do meio intracelular para o extracelular. Esse efeito pode ser terapêutico em casos de edema cerebral, mas também pode causar complicações graves se administrado incorretamente.

A correção rápida ou excessiva do sódio pode levar à síndrome da desmielinização osmótica, uma condição neurológica grave e potencialmente irreversível.

Cuidados de enfermagem com o cloreto de sódio 20%

A administração do cloreto de sódio 20% exige atenção máxima da enfermagem. A conferência da prescrição, da concentração e da via de administração é obrigatória. Geralmente, essa solução deve ser administrada por via venosa central ou em condições muito bem controladas.

Durante a infusão, a enfermagem deve monitorar sinais vitais, estado neurológico, débito urinário e acompanhar rigorosamente os níveis séricos de sódio. Qualquer alteração clínica deve ser comunicada imediatamente à equipe médica.

O preparo, a diluição (quando indicada) e a administração devem seguir protocolos institucionais rígidos.

Diferenças fundamentais entre cloreto de sódio 0,9% e 20%

A principal diferença reside na tonacidade. Enquanto o 0,9% mantém o equilíbrio das células, o 20% atrai água para fora delas. Uma troca acidental entre essas duas apresentações é fatal. Infelizmente, na pressa do plantão, ampolas de água destilada, NaCl 0,9%(em ampolas de 10 ml) e NaCl 20% podem ser visualmente parecidas se não houver um sistema de rotulagem adequado.

Administrar o 20% no lugar do 0,9% causa uma sobrecarga de sódio e cloro súbita, levando a edema agudo de pulmão, insuficiência renal e danos neurológicos irreversíveis. É por isso que muitas instituições adotam etiquetas coloridas (geralmente vermelhas ou laranjas) para identificar as ampolas de 20% e as mantêm armazenadas em locais separados das soluções comuns.

Cuidados de Enfermagem Fundamentais

A segurança na manipulação dessas soluções depende de protocolos rígidos que o estudante de enfermagem deve incorporar desde o primeiro dia de estágio.

A primeira regra de ouro é: nunca administre Cloreto de Sódio 20% em bôlus (direto). Ele deve ser sempre diluído em uma solução de grande volume, conforme prescrição médica e farmacêutica. A velocidade de infusão de soluções que contenham eletrólitos concentrados deve ser controlada rigorosamente, preferencialmente em bomba de infusão, para evitar oscilações bruscas na natremia do paciente.

A dupla checagem é obrigatória. Antes de aspirar a ampola e antes de conectar ao paciente, peça para um colega conferir a concentração e o cálculo. Além disso, a monitorização do local da punção é vital. Por ser uma solução irritante e vesicante quando concentrada, o NaCl  20% tem alto risco de causar flebite e necrose tecidual em caso de extravasamento. Idealmente, soluções muito hipertônicas devem ser administradas via acesso venoso central.

Por fim, observe os sinais clínicos do paciente durante a reposição. Sinais de confusão mental, sede excessiva, edema ou alterações na diurese podem indicar que a reposição de sódio está ocorrendo de forma inadequada ou rápida demais.

A importância da enfermagem na prevenção de erros

A enfermagem ocupa posição central na segurança do uso dessas soluções. A leitura atenta do rótulo, a dupla checagem, o conhecimento das indicações e a monitorização contínua do paciente são práticas indispensáveis.

Educação permanente, protocolos bem definidos e cultura de segurança são fundamentais para evitar eventos adversos relacionados ao uso inadequado de soluções hipertônicas.

O cloreto de sódio 0,9% e o cloreto de sódio 20% são soluções com finalidades completamente diferentes. Enquanto um é amplamente utilizado e relativamente seguro, o outro é um recurso terapêutico potente, porém de alto risco.

Para a enfermagem, compreender essas diferenças não é apenas conhecimento teórico, mas uma responsabilidade direta com a segurança e a vida do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Boletim ISMP Brasil: Uso Seguro de Soluções Eletrolíticas Concentradas. Belo Horizonte: ISMP, 2013. Disponível em: https://www.ismp-brasil.org
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Uso Seguro de Medicamentos: Guia para Profissionais de Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As bases farmacológicas da terapêutica. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2019. Disponível em:https://accessmedicine.mhmedical.com
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de segurança do paciente: práticas seguras no uso de medicamentos. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA. Distúrbios hidroeletrolíticos: abordagem clínica. São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.sbn.org.br
  7. SMELTZER, S. C. et al. Brunner & Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br

FAST HUGS BID: uma abordagem sistematizada para o cuidado diário do paciente crítico

Cuidar de um paciente crítico vai muito além de monitorar sinais vitais e administrar medicações. Na UTI, cada detalhe importa, e pequenas falhas podem gerar grandes impactos. Foi nesse contexto que surgiu o FAST HUGS, posteriormente ampliado para FAST HUGS BID, um checklist simples, porém extremamente poderoso, para garantir uma assistência integral, segura e contínua ao paciente internado em terapia intensiva.

Originalmente criado pelo intensivista Jean-Louis Vincent, esse mnemônico foi desenhado para garantir que nenhum cuidado essencial seja esquecido durante o plantão.

Para o estudante de enfermagem, o FAST HUGS BID funciona como uma bússola. Ele transforma a complexidade da UTI em uma lista mental estruturada que deve ser revisada pelo menos duas vezes ao dia (daí o “BID”, do latim bis in die). Vamos detalhar cada uma dessas letras, entendendo por que elas são fundamentais para a segurança do paciente crítico.

O que é o FAST HUGS BID?

O FAST HUGS BID é um método sistemático de avaliação diária do paciente crítico, utilizado principalmente em unidades de terapia intensiva. Ele funciona como um checklist que ajuda a equipe multiprofissional — especialmente a enfermagem — a não negligenciar cuidados essenciais.

A sigla representa aspectos fundamentais do cuidado, avaliados de forma rotineira, permitindo identificar precocemente falhas, riscos e oportunidades de intervenção.

A Primeira Parte: O FAST HUGS Original

O conceito inicial focava em aspectos metabólicos e preventivos que frequentemente passavam despercebidos na correria das emergências.

  • F de Feeding (Alimentação): O paciente crítico entra em um estado catabólico intenso. O enfermeiro deve verificar se a nutrição (enteral ou parenteral) está sendo administrada conforme o alvo calórico-proteico. É nossa função monitorar a tolerância à dieta, observar a presença de resíduo gástrico excessivo e garantir que o paciente não fique em jejum desnecessário, o que prejudica a cicatrização e a função imunológica.
  • A de Analgesia (Analgesia): A dor é o quinto sinal vital. Na UTI, muitos pacientes não conseguem falar, por isso usamos escalas como a CPOT para avaliar o sofrimento. É um erro comum sedar um paciente que, na verdade, sente dor. A regra de ouro é: trate a dor antes de aumentar a sedação. Um paciente sem dor colabora melhor com a ventilação e tem menos riscos de desenvolver delírio.
  • S de Sedation (Sedação): Aqui, o enfermeiro deve avaliar o nível de consciência através da Escala de RASS. O objetivo moderno é a “sedação leve”, onde o paciente fica calmo, mas pode ser despertado facilmente. Devemos evitar o excesso de sedação, que prolonga o tempo de ventilação mecânica e aumenta a fraqueza muscular adquirida na UTI.
  • T de Thromboembolic Prophylaxis (Prophylaxia Tromboembólica): Pacientes acamados têm um risco altíssimo de Trombose Venosa Profunda (TVP). A enfermagem deve garantir que a profilaxia medicamentosa (heparina) seja administrada e, tão importante quanto, que os métodos mecânicos, como as meias de compressão ou botas pneumáticas, estejam funcionando e bem posicionados.
  • H de Head of bed elevation (Elevação da Cabeceira): Manter a cabeceira entre 30° e 45° é a medida mais barata e eficaz para prevenir a Pneumonia Associada à Ventilação (PAV). Isso evita a microaspiração de secreções. Como enfermeiros, devemos vigiar esse posicionamento constantemente, especialmente após banhos ou mudanças de decúbito.
  • U de Ulcer Prophylaxis (Prophylaxia de Úlcera de Estresse): O estresse fisiológico da doença crítica aumenta a acidez gástrica, podendo causar sangramentos digestivos. O uso de protetores gástricos deve ser verificado, assim como a presença de sangue no conteúdo gástrico ou nas fezes.
  • G de Glycemic Control (Controle Glicêmico): A hiperglicemia de estresse é comum e aumenta a mortalidade e o risco de infecções. O enfermeiro gerencia os protocolos de insulina e realiza as glicemias capilares rigorosas, buscando manter os níveis geralmente entre 140 e 180 mg/dL, evitando tanto o excesso de açúcar quanto a hipoglicemia fatal.
  • S de Spontaneous Breathing Trial (Teste de Respiração Espontânea): Todos os dias, devemos nos perguntar: “Este paciente já pode respirar sozinho?”. A enfermagem colabora com a fisioterapia e a medicina no teste de despertar diário (desligar a sedação) e no teste de autonomia respiratória, visando a extubação o mais cedo possível.

O Complemento: O BID e a Vigilância Sistêmica

Com o tempo, percebeu-se que outros aspectos eram igualmente vitais para evitar complicações hospitalares, adicionando-se o sufixo BID.

  • B de Bowel habits (Hábito Intestinal): O intestino é muitas vezes o “órgão esquecido” da UTI. A constipação pode causar distensão abdominal e dificultar a ventilação. O enfermeiro deve registrar a frequência das evacuações e os ruídos hidroaéreos, sugerindo o uso de procinéticos ou laxantes quando necessário.
  • I de Indwelling catheters (Cateteres Invasivos): Cada cateter (venoso central, vesical de demora, arterial) é uma porta de entrada para bactérias. A pergunta diária da enfermagem deve ser: “Este cateter ainda é necessário?”. Retirar dispositivos invasivos assim que possível é a melhor forma de prevenir infecções da corrente sanguínea e do trato urinário.
  • D de Drug de-escalation (Descalonamento de Drogas): Refere-se à revisão das medicações. Estamos usando antibióticos que poderiam ser suspensos ou trocados por um de espectro menor? Alguma droga está causando efeitos colaterais desnecessários? Embora a decisão seja médica, o enfermeiro, que observa o paciente continuamente, é quem traz os dados para essa discussão.

Por que o FAST HUGS BID é tão importante na UTI?

O ambiente da UTI é complexo, dinâmico e exige tomadas de decisão rápidas. Em meio a tantos dispositivos, medicamentos e alterações clínicas, é fácil que cuidados básicos passem despercebidos.

O FAST HUGS BID ajuda a:

  • Reduzir eventos adversos;
  • Padronizar a assistência;
  • Melhorar a comunicação entre a equipe;
  • Aumentar a segurança do paciente;
  • Fortalecer o raciocínio clínico da enfermagem.

Ele transforma o cuidado fragmentado em um cuidado estruturado e intencional.

Cuidados de Enfermagem Integrados ao FAST HUGS BID

A implementação desse checklist não deve ser apenas burocrática. Na prática, o enfermeiro utiliza o momento da passagem de plantão e o exame físico da manhã para percorrer esses itens. O cuidado humanizado entra na personalização dessas letras: ao checar a analgesia, aproveitamos para oferecer suporte emocional; ao elevar a cabeceira, garantimos que o paciente tenha uma visão melhor do ambiente, reduzindo a desorientação.

A principal contribuição da enfermagem é a vigilância. Enquanto o médico prescreve as medidas, é o enfermeiro quem garante que a cabeceira permaneça elevada, que a insulina seja ajustada corretamente e que a sedação não passe do ponto necessário. Dominar esse mnemônico eleva o estudante de um nível operacional para um nível de pensamento crítico.

O FAST HUGS BID é uma ferramenta simples, mas extremamente eficaz, para garantir um cuidado completo ao paciente crítico. Para a enfermagem, ele representa organização, segurança e qualidade assistencial.

Incorporar essa abordagem à prática diária significa reduzir falhas, prevenir complicações e oferecer um cuidado mais humano, atento e responsável.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica. 2013. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/
  4. VINCENT, Jean-Louis. Give your patient a fast hug (at least) once a day. Critical Care Medicine, v. 33, n. 6, p. 1225-1229, 2005. Disponível em: https://journals.lww.com/ccmjournal/
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente em unidades de terapia intensiva. Brasília, 2021. Disponível em:https://www.gov.br/saude

Cuidados de enfermagem com pacientes intubados

O cuidado ao paciente intubado é uma das responsabilidades mais complexas e sensíveis da enfermagem. A intubação orotraqueal é um procedimento invasivo, geralmente indicado em situações críticas, quando o paciente não consegue manter uma via aérea pérvia ou uma ventilação adequada por conta própria.

Nesse contexto, a enfermagem assume papel central na manutenção da vida, na prevenção de complicações e na vigilância contínua. Para o estudante de enfermagem, compreender esses cuidados vai muito além da técnica: envolve raciocínio clínico, atenção constante e compromisso com a segurança do paciente.

O que é a intubação orotraqueal e por que ela é necessária?

A intubação orotraqueal consiste na introdução de um tubo na traqueia, por meio da boca, com o objetivo de garantir a via aérea e permitir a ventilação mecânica. Ela é indicada em situações como insuficiência respiratória aguda, rebaixamento do nível de consciência, parada cardiorrespiratória, proteção de vias aéreas e durante procedimentos cirúrgicos de grande porte.

Após a intubação, o paciente passa a depender de cuidados contínuos para evitar complicações que podem surgir rapidamente se a assistência não for adequada.

A importância da enfermagem no cuidado ao paciente intubado

O paciente intubado não consegue falar, tossir adequadamente ou eliminar secreções de forma eficaz. Além disso, muitas vezes está sedado, restrito ao leito e em estado crítico. A enfermagem, por estar ao lado do paciente durante todo o tempo, é responsável por identificar precocemente alterações clínicas e intervir de forma imediata.

Uma falha simples, como não perceber um deslocamento do tubo ou um acúmulo de secreções, pode levar à hipóxia grave e até ao óbito.

O Bundle de Prevenção da PAV: A Nossa Primeira Linha de Defesa

A complicação mais temida em um paciente ventilado é a Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV). Cada dia que o paciente passa intubado, o risco de infecção aumenta. Por isso, a enfermagem utiliza o que chamamos de “Bundle” ou pacote de medidas preventivas, que são ações simples, mas que, juntas, salvam vidas.

A primeira medida é a elevação do decúbito entre 30° e 45°. Manter o paciente com a cabeceira elevada não é apenas uma questão de conforto; é a forma mais eficaz de prevenir a microaspiração de secreções gástricas e orofaríngeas para os pulmões.

A higiene oral com clorexidina 0,12% também é inegociável. A boca é um reservatório de bactérias que podem migrar para o tubo. Realizar essa higiene de forma criteriosa, pelo menos três vezes ao dia, reduz drasticamente a carga bacteriana. Além disso, o monitoramento da pressão do cuff (o balãozinho que veda a traqueia) deve ser feito em todos os plantões. A pressão deve ser mantida entre 20 e 30 cmH2O; se estiver baixa, permite a aspiração de secreções; se estiver alta, pode causar necrose na traqueia do paciente.

Aspiração de Secreções: Quando e Como Intervir

Um erro comum no início da prática é achar que devemos aspirar o paciente de hora em hora. A aspiração traqueal deve ser feita sob demanda e não de forma rotineira. Como sabemos que é hora? Através da ausculta pulmonar (presença de roncos), queda na saturação de oxigênio, aumento da pressão de pico no ventilador ou quando o paciente apresenta tosse ou desconforto visível.

O procedimento pode ser feito pelo sistema aberto ou pelo sistema fechado (Trach Care). O sistema fechado é preferível em pacientes que exigem altos níveis de oxigênio ou PEEP, pois evita a despressurização dos pulmões e reduz o risco de contaminação ambiental. É fundamental lembrar que a aspiração é um procedimento estressante e que causa hipóxia temporária, por isso, a pré-oxigenação a 100% por um ou dois minutos antes do procedimento é uma boa prática recomendada.

Sedação e Analgesia: O Equilíbrio Necessário

Um paciente “brigando” com o ventilador é um paciente que está sofrendo e correndo riscos. A enfermagem é responsável por monitorar o nível de sedação utilizando escalas validadas, como a Escala de RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale).

O objetivo é manter o paciente calmo e colaborativo (RASS entre 0 e -2), evitando tanto a sedação excessiva (que prolonga o tempo de ventilação e aumenta o risco de delírio) quanto a sedação insuficiente (que gera dor e risco de autoextubação). O “Despertar Diário“, que é a interrupção da sedação para avaliar a função neurológica e a prontidão para o desmame, deve ser uma decisão compartilhada entre enfermeiro, médico e fisioterapeuta.

Proteção da Integridade Cutânea e Mucosa

O tubo orotraqueal é um corpo estranho que exerce pressão constante. O enfermeiro deve estar atento para evitar lesões por pressão no ângulo da boca e na face. A fixação do tubo deve ser trocada diariamente e o lado em que o tubo está posicionado (comisura labial direita ou esquerda) deve ser alternado para aliviar a pressão no tecido.

Além disso, o paciente sedado perde o reflexo de piscar. O cuidado ocular com hidratação e, se necessário, o fechamento das pálpebras com fita microporosa, previne úlceras de córnea, uma complicação silenciosa mas grave em pacientes de UTI.

Comunicação e registro de enfermagem

O paciente intubado não consegue expressar verbalmente desconfortos ou necessidades. Por isso, a enfermagem deve observar sinais não verbais, como agitação, sudorese e alterações fisiológicas.

O registro adequado em prontuário é essencial para garantir a continuidade do cuidado, a comunicação entre a equipe e a segurança legal do profissional.

Cuidados de enfermagem baseados em segurança do paciente

Todos os cuidados ao paciente intubado devem estar alinhados aos princípios da segurança do paciente. Seguir protocolos institucionais, utilizar checklists, realizar dupla checagem e comunicar alterações clínicas de forma imediata são atitudes que reduzem eventos adversos graves.

Para o estudante de enfermagem, aprender a cuidar de um paciente intubado é entender que cada detalhe importa.

O Olhar Além da Máquina: Humanização no Cuidado

Por fim, nunca devemos esquecer que o paciente intubado, mesmo sob sedação profunda, pode ter algum nível de percepção sensorial. Chame o paciente pelo nome, explique cada procedimento que será realizado (mesmo que ele pareça não ouvir) e garanta a privacidade durante o banho e as trocas. A presença da família e a comunicação humanizada são componentes da cura tanto quanto os medicamentos.

O cuidado ao paciente intubado exige conhecimento técnico, atenção constante e sensibilidade humana. A enfermagem ocupa posição central nesse processo, sendo responsável por manter a via aérea segura, prevenir complicações e garantir uma assistência digna, mesmo em situações críticas.

Para quem está em formação, compreender esses cuidados desde cedo é fundamental para construir uma prática profissional segura, ética e comprometida com a vida.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica. 2013. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente: higiene das mãos e prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica. Brasília, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br

Cuidados de enfermagem com pacientes hipotérmicos

A hipotermia é uma condição frequentemente subestimada fora dos cenários de trauma extremo ou exposição a climas gélidos, mas, na realidade da enfermagem, ela é uma visitante comum em centros cirúrgicos, unidades de terapia intensiva e prontos-socorros. Definida tecnicamente como a queda da temperatura central do corpo para níveis abaixo de 35°C, a hipotermia exige do profissional de enfermagem um olhar atento e uma intervenção rápida, porém cautelosa.

Para o estudante de enfermagem, é fundamental compreender que o corpo humano funciona como um motor térmico refinado. Quando essa temperatura cai, o metabolismo desacelera, o coração torna-se irritável e a cascata de coagulação é prejudicada. O nosso papel vai muito além de apenas “cobrir o paciente”; trata-se de gerenciar a recuperação térmica de forma a evitar complicações fatais.

O Que Define a Hipotermia Clínica?

A gravidade da hipotermia é classificada de acordo com a temperatura central, e cada estágio exige uma abordagem diferente. Na hipotermia leve (entre 32°C e 35°C), o paciente ainda está consciente, mas apresenta tremores intensos — a tentativa do corpo de gerar calor através da atividade muscular.

Já na hipotermia moderada (28°C a 32°C), os tremores costumam parar, o que é um sinal alarmante de que o corpo esgotou suas reservas de energia. Aqui, o nível de consciência começa a oscilar e o risco de arritmias aumenta significativamente. Abaixo de 28°C, entramos na hipotermia grave, um estado de quase morte aparente, onde a rigidez muscular e a bradicardia extrema podem mascarar os sinais vitais.

A Fisiologia do Resfriamento e a Perda de Calor

Para cuidar bem, precisamos entender como o paciente está perdendo calor. Existem quatro mecanismos principais que a enfermagem deve neutralizar: radiação (perda para o ambiente), condução (contato direto com superfícies frias), convecção (correntes de ar) e evaporação (suor ou roupas molhadas).

No ambiente hospitalar, a condução ocorre frequentemente quando o paciente é colocado em macas geladas sem proteção, ou quando recebe fluidos intravenosos em temperatura ambiente. A radiação é o principal motivo pelo qual pacientes cirúrgicos perdem calor, já que as salas de operação são mantidas frias e o corpo fica exposto.

Manifestações clínicas

Os sinais e sintomas da hipotermia variam conforme a gravidade do quadro. Em fases iniciais, o paciente pode apresentar tremores intensos, pele fria, palidez, taquicardia e confusão leve.

Com a progressão, surgem bradicardia, hipotensão, diminuição da frequência respiratória, rigidez muscular e rebaixamento do nível de consciência. Em casos graves, o paciente pode evoluir para coma, fibrilação ventricular e parada cardiorrespiratória.

A enfermagem deve estar atenta, pois sinais vitais podem estar falsamente baixos, exigindo avaliação cuidadosa.

Avaliação de enfermagem no paciente hipotérmico

A avaliação começa pela aferição correta da temperatura corporal, preferencialmente por métodos centrais, como esofágico, timpânico ou retal, quando disponíveis.

Além da temperatura, é fundamental avaliar sinais vitais, nível de consciência, perfusão periférica, presença de tremores, condições da pele e histórico clínico. A identificação da causa da hipotermia direciona as condutas e o plano de cuidados.

Cuidados de enfermagem no manejo da hipotermia

O principal objetivo do cuidado de enfermagem é restabelecer a temperatura corporal de forma segura e progressiva, evitando complicações.

Reaquecimento Passivo e Proteção

Em casos leves, o foco é impedir que o paciente perca mais calor. O primeiro passo é remover roupas úmidas e garantir que o paciente esteja em um ambiente aquecido e protegido de correntes de ar. O uso de mantas aluminizadas e cobertores de algodão aquecidos é a base dessa etapa. É vital isolar o paciente de superfícies frias, utilizando lençóis térmicos ou camadas extras de proteção entre a pele e o colchão.

Reaquecimento Ativo Externo e Interno

Para casos moderados a graves, precisamos fornecer calor de fora para dentro. Mantas térmicas de ar forçado são as ferramentas de ouro na enfermagem hospitalar. No entanto, em situações críticas, o cuidado se torna mais invasivo. A administração de fluidos intravenosos aquecidos a aproximadamente 39°C a 40°C é essencial para aquecer o núcleo corporal. A enfermagem deve monitorar rigorosamente a temperatura desses fluidos para evitar queimaduras internas ou hemólise.

Cuidados respiratórios e circulatórios

Pacientes hipotérmicos podem apresentar respiração lenta e superficial. A enfermagem deve garantir vias aéreas pérvias, administrar oxigênio aquecido e umidificado quando indicado e monitorar sinais de insuficiência respiratória.

No sistema cardiovascular, a monitorização da pressão arterial, frequência cardíaca e perfusão periférica é fundamental. A hipotermia pode mascarar sinais clássicos de choque, exigindo avaliação clínica criteriosa.

Monitorização e Vigilância Constante

O cuidado de enfermagem não termina quando o termômetro sobe para 36°C. A monitorização contínua é a nossa maior aliada.

  • Temperatura Central: Sempre que possível, utilize termômetros esofágicos ou cateteres vesicais com sensor de temperatura, que são muito mais precisos que a temperatura axilar em estados críticos.
  • Eletrocardiograma (ECG): O coração hipotérmico apresenta alterações clássicas, como a Onda de Osborne (uma deflexão após o complexo QRS). O enfermeiro deve estar atento ao surgimento de bradicardias ou batimentos ectópicos.
  • Balanço Hídrico e Glicemia: Pacientes hipotérmicos frequentemente sofrem de “diurese pelo frio” e podem estar desidratados. Além disso, o tremor consome muita glicose, sendo necessário monitorar os níveis glicêmicos para evitar hipoglicemia.

Administração de medicamentos e particularidades

Na hipotermia, o metabolismo dos medicamentos está reduzido. Isso significa que fármacos podem ter ação prolongada ou imprevisível. A enfermagem deve estar atenta a prescrições, intervalos e respostas clínicas, comunicando qualquer alteração à equipe médica.

Alguns medicamentos podem ter eficácia reduzida em temperaturas muito baixas, o que reforça a importância do reaquecimento adequado.

Aspectos éticos e segurança do paciente

A hipotermia é considerada um evento adverso evitável em muitos contextos hospitalares. A enfermagem deve atuar de forma preventiva, seguindo protocolos institucionais e promovendo uma assistência segura.

O registro adequado das intervenções e da evolução do paciente é essencial para garantir continuidade do cuidado e respaldo ético-profissional.

Os cuidados de enfermagem com pacientes hipotérmicos exigem atenção, conhecimento técnico e sensibilidade clínica. A identificação precoce, o reaquecimento adequado e a monitorização contínua são fundamentais para evitar complicações graves e desfechos fatais.

Para o estudante de enfermagem, compreender a hipotermia é entender que pequenas intervenções, quando realizadas no momento certo, podem salvar vidas.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Básico de Vida. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de atendimento às urgências e emergências. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br
  6. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Hypothermia. Geneva, 2021. Disponível em: https://www.who.int

O Peso da Responsabilidade: Quando o Erro de Enfermagem se Torna Fatal

Escolher a enfermagem é aceitar uma das missões mais nobres e, ao mesmo tempo, mais pesadas que existem. No dia a dia de um hospital, somos nós que passamos as 24 horas ao lado do paciente. Essa proximidade nos coloca em uma posição privilegiada para salvar vidas, mas também nos deixa na linha de frente de possíveis falhas.

Quando falamos em erros de enfermagem que podem levar à morte, não estamos buscando culpados para punir, mas sim caminhos para entender como o sistema falha e como podemos nos proteger — e proteger quem cuidamos.

Para um estudante, o medo de errar é constante. A verdade é que o ambiente de saúde é complexo e, muitas vezes, caótico. Um erro fatal raramente acontece por um único motivo; ele é quase sempre o desfecho de uma sucessão de pequenas falhas. Entender esses mecanismos é o primeiro passo para uma prática segura e consciente.

O objetivo deste texto não é apontar culpados, mas compreender os principais erros, as causas que os favorecem e o que pode ser feito para evitá-los, especialmente na formação do estudante de enfermagem.

O que são erros assistenciais na enfermagem?

Erros assistenciais são ações ou omissões que fogem das boas práticas, dos protocolos e da ética profissional, resultando ou podendo resultar em dano ao paciente. Eles podem ocorrer mesmo em ambientes organizados e com profissionais experientes, principalmente quando fatores humanos e institucionais se somam.

Nem todo erro leva à morte, mas alguns têm potencial de desencadear eventos graves como insuficiência respiratória, choque, sepse e parada cardiorrespiratória.

Principais erros da enfermagem associados ao risco de morte

Erros na administração de medicamentos

A administração de medicamentos é uma das atividades mais críticas da enfermagem. Falhas nesse processo estão entre as principais causas de eventos adversos graves.

Erros como dose incorreta, medicamento errado, via errada, diluição inadequada ou administração em velocidade incompatível podem causar intoxicações, reações adversas severas, depressão respiratória, arritmias e colapso cardiovascular.

A não conferência da prescrição, a pressa e a rotina automatizada são fatores frequentemente associados a esse tipo de erro.

Falhas na vigilância clínica e monitorização

Um dos papéis centrais da enfermagem é observar continuamente o paciente. Quando sinais de deterioração clínica não são reconhecidos ou são subestimados, o paciente pode evoluir rapidamente para óbito.

Alterações discretas nos sinais vitais, redução do nível de consciência, queda de saturação ou mudança no padrão respiratório muitas vezes antecedem eventos graves. A demora em comunicar a equipe médica ou iniciar intervenções básicas pode ser decisiva.

Omissão de cuidados fundamentais

Cuidados básicos, quando negligenciados, podem gerar consequências graves. A ausência de mudança de decúbito favorece lesões por pressão, que podem evoluir para infecção e sepse. A falta de cuidados com vias aéreas pode levar à broncoaspiração e insuficiência respiratória. A higiene inadequada aumenta o risco de infecções relacionadas à assistência à saúde.

Esses erros geralmente não acontecem por desconhecimento, mas por sobrecarga de trabalho, falta de pessoal e desvalorização dos cuidados básicos.

Erros em procedimentos técnicos

A realização de procedimentos sem domínio técnico, sem supervisão ou fora da competência profissional é um fator de risco importante.

Punções mal executadas, manejo inadequado de dispositivos invasivos, falhas na técnica asséptica e uso incorreto de sondas e cateteres podem resultar em sangramentos, infecções graves, pneumotórax, sepse e óbito.

Para o estudante de enfermagem, reconhecer limites e buscar apoio é uma atitude de segurança, não de fragilidade.

Falhas na comunicação entre a equipe

A comunicação deficiente é uma das principais causas de eventos adversos fatais nos serviços de saúde. Informações incompletas na passagem de plantão, registros inadequados e falta de comunicação sobre alterações clínicas importantes comprometem a continuidade do cuidado.

A enfermagem, por acompanhar o paciente de forma contínua, tem papel essencial na transmissão clara e objetiva dessas informações.

Negligência, imprudência e abandono de plantão

O abandono de plantão e a negligência configuram infrações éticas e legais. A ausência do profissional ou a assistência realizada com desatenção, uso excessivo de celular e desinteresse colocam o paciente em risco direto.

Essas situações comprometem a administração de medicamentos, a vigilância clínica e a resposta a emergências, podendo resultar em morte evitável.

Principais causas que favorecem os erros na enfermagem

Os erros raramente estão ligados a um único fator. Na maioria das vezes, eles são consequência de um conjunto de causas.

Para entender por que um erro acontece, usamos muito na segurança do paciente o Modelo de James Reason, ou Modelo do Queijo Suíço. Imagine que cada barreira de segurança no hospital (o protocolo, a conferência do médico, a checagem do enfermeiro) é uma fatia de queijo. Todas têm furos (falhas potenciais). O acidente ocorre quando os furos de todas as fatias se alinham perfeitamente, permitindo que o erro chegue ao paciente.

As causas principais que geram esses “furos” são conhecidas:

  • Sobrecarga e Fadiga: Equipe de enfermagem com excesso de pacientes e jornadas duplas têm sua capacidade cognitiva reduzida. O cérebro cansado “pula” etapas automáticas de segurança.
  • Comunicação Ineficaz: Passagens de plantão apressadas, prescrições verbais mal interpretadas e a falta de uso de ferramentas como o SBAR geram lacunas de informação fatais.
  • Cultura Punitiva: Quando o hospital pune severamente quem erra, os profissionais escondem os “quase erros”. Sem discutir o erro, o sistema nunca aprende a evitá-lo.
  • Falta de Educação Continuada: Protocolos mudam. Um profissional que não se atualiza pode estar aplicando técnicas ultrapassadas que hoje são consideradas inseguras.

O que pode ser feito para evitar esses incidentes?

A boa notícia é que a segurança do paciente evoluiu muito. Hoje, sabemos que confiar apenas na memória humana é um erro. Para evitar incidentes, precisamos de barreiras sistêmicas.

A implementação da dupla checagem para medicamentos de alto risco é uma das medidas mais eficazes. Ter um segundo colega conferindo a dose e a ampola antes da aplicação cria uma barreira física ao erro. Além disso, o uso da tecnologia, como a checagem por código de barras à beira do leito, garante que o remédio certo está indo para o paciente certo.

Outro ponto fundamental é o fortalecimento da Cultura de Segurança. Isso significa que a equipe deve se sentir segura para relatar riscos sem medo de retaliação. Se percebemos que um rótulo de soro está confuso, devemos relatar isso como um “incidente sem dano” para que a farmácia altere o padrão antes que alguém se confunda e o dano ocorra.

Cuidados de Enfermagem para a Prática Segura

Para você, que está no campo de estágio ou prestes a se formar, algumas condutas devem ser inegociáveis:

  1. Vigilância Ativa: Não seja um “anotador de sinais vitais”. Seja um analista. Se os dados mudaram em relação ao último controle, investigue o porquê.
  2. Rigor com os “Certos“: Nunca pule as etapas de conferência de medicação. Identificação do paciente, dose, via e hora devem ser checadas verbalmente com o próprio paciente sempre que possível.
  3. Comunicação Assertiva: Ao receber uma ordem verbal em emergências, repita a ordem em voz alta para confirmar se entendeu corretamente antes de executar.
  4. Conheça seus Dispositivos: Antes de infundir qualquer coisa, confirme a procedência do cateter. Dietas nunca devem estar próximas de acessos venosos sem uma identificação visual clara e distinta.

Os erros da enfermagem que podem levar o paciente à morte não são resultado apenas de falhas individuais, mas de um sistema que muitas vezes sobrecarrega e fragiliza o profissional.

Compreender esses erros, reconhecer suas causas e investir em prevenção é essencial para formar profissionais mais seguros, conscientes e preparados. Para o estudante de enfermagem, esse conhecimento é um passo fundamental para uma prática ética, humana e baseada na segurança do paciente.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Assistência Segura: Uma Reflexão Teórica Aplicada à Prática. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/caderno-1-assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Resolução Cofen nº 564/2017. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-5642017_59145.html
  3. REASON, James. Human error: models and management. BMJ, v. 320, n. 7237, p. 768-770, 2000. Disponível em: https://www.bmj.com/content/320/7237/768. Acesso em: 27 dez. 2025.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP). Brasília, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety: global action plan 2021–2030. Geneva: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int
  6. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com

Como abrir ampola de medicamento?

Abrir uma ampola de vidro parece uma tarefa simples para quem vê um profissional experiente fazendo, mas para o estudante de enfermagem que segura aquele frasco pela primeira vez, a sensação costuma ser de insegurança. O medo de o vidro estilhaçar, de cortar os dedos ou de contaminar a medicação é real e muito comum. No entanto, a indústria farmacêutica desenvolveu tecnologias para tornar esse processo quase intuitivo e, acima de tudo, seguro.

Para garantir uma administração de medicamentos impecável, o primeiro passo é conhecer o material que temos em mãos. Hoje, a maioria das ampolas utiliza os sistemas OPC (One Point Cut) ou VIBRAC. Entender a lógica por trás de cada um deles não só facilita o trabalho, como também previne acidentes ocupacionais e garante a segurança do paciente.

Por que é importante conhecer o sistema da ampola?

As ampolas de vidro, quando abertas de forma inadequada, podem provocar cortes nos dedos, exposição ao sangue e risco biológico. Além disso, fragmentos de vidro podem contaminar o medicamento, trazendo risco direto ao paciente.

Os sistemas VIBRAC e OPC foram desenvolvidos justamente para facilitar a abertura da ampola e reduzir acidentes, mas só cumprem esse papel quando utilizados corretamente.

O Sistema OPC: O Ponto de Ruptura Único

O sistema OPC (One Point Cut) é identificado por aquele pequeno ponto colorido (geralmente azul, branco ou vermelho) localizado no pescoço da ampola. Esse ponto não é apenas decorativo; ele indica o local exato onde o vidro foi pré-cortado ou fragilizado por laser.

Para abrir uma ampola OPC corretamente, você deve posicionar o ponto colorido voltado para você. O segredo está na alavanca: ao colocar o polegar sobre o ponto e aplicar uma leve pressão para trás, a ampola se quebra de forma limpa. A lógica é que o ponto de fragilidade “estique” até romper. Se você tentar quebrar para os lados ou sem observar o ponto, as chances de o vidro estilhaçar são muito maiores.

Erros comuns ao abrir ampola OPC

Um erro frequente é tentar quebrar a ampola girando o vidro ou aplicando força excessiva. Outro erro é não posicionar corretamente o ponto colorido, o que aumenta o risco de quebra irregular e acidentes.

O Sistema VIBRAC: O Anel de Ruptura

Diferente do OPC, o sistema VIBRAC é caracterizado por um anel colorido que circula todo o gargalo da ampola. A principal diferença aqui é a versatilidade, pois não há um ponto fixo de pressão. O anel indica que toda aquela circunferência foi tratada para romper sob pressão.

Embora pareça mais fácil, o sistema VIBRAC exige a mesma atenção técnica. O anel garante que a ruptura ocorra naquela linha específica, evitando que o gargalo quebre em pontas irregulares que poderiam cair dentro do líquido ou ferir o profissional. É uma tecnologia muito comum em ampolas de soro, eletrólitos e medicações de uso rotineiro.

Dificuldades comuns no sistema VIBRAC

Por não ter ponto de referência visual, muitos profissionais aplicam força excessiva ou tentam girar o gargalo. Isso aumenta o risco de quebra irregular e cortes.

Passo a Passo para uma Abertura Segura

Antes de qualquer manipulação, o preparo começa com a higienização das mãos e a conferência dos “certos” da medicação. Com a ampola em mãos, o primeiro movimento deve ser garantir que todo o líquido esteja no corpo do frasco. Frequentemente, uma pequena quantidade fica retida na “cabeça” da ampola. Um movimento circular suave com o pulso ou pequenos “petelecos” na parte superior resolvem isso facilmente.

Após garantir o líquido no lugar certo, faça a desinfecção do gargalo com algodão ou gaze embebida em álcool a 70%. Esse passo é vital para evitar que microrganismos da superfície externa entrem em contato com o fármaco no momento da abertura.

Para a abertura propriamente dita, nunca use os dedos diretamente sobre o vidro nu. Utilize uma gaze seca para envolver o gargalo. Além de oferecer uma melhor aderência (o vidro pode estar escorregadio devido ao álcool), a gaze serve como uma barreira física caso o vidro estilhace. Com o ponto do sistema OPC voltado para você, aplique uma pressão firme e constante para trás. O som deve ser um estalo seco e limpo.

Cuidados de enfermagem ao abrir ampolas

Independentemente do sistema utilizado, alguns cuidados são indispensáveis na prática de enfermagem.

  • A higienização das mãos deve ser realizada antes do preparo do medicamento, respeitando os princípios da técnica asséptica.
  • Sempre que possível, utilize gaze, algodão ou dispositivo protetor para envolver o gargalo da ampola, reduzindo o risco de lesões.
  • Nunca abra ampolas direcionando a quebra para o corpo ou para outra pessoa. O movimento deve ser firme, controlado e afastado.
  • Após a abertura, observe se houve formação de fragmentos de vidro. Caso haja suspeita de contaminação, o medicamento deve ser descartado.
  • O descarte da parte superior da ampola deve ser feito imediatamente em coletor de perfurocortantes, nunca no lixo comum.

Além de outros Cuidados:

  •  Uso de Agulhas com Filtro: Sempre que possível, utilize agulhas com filtro para aspirar a medicação de ampolas de vidro. Micropartículas de vidro, invisíveis a olho nu, podem cair no líquido durante a quebra e serem aspiradas para a seringa.
  • Descarte Imediato: Assim que a ampola for aberta e o conteúdo aspirado, as duas partes do vidro (corpo e gargalo) devem ser descartadas imediatamente na caixa de perfurocortantes (Descarpack). Nunca deixe gargalos soltos sobre a bancada.
  • Não Force o Vidro: Se a ampola oferecer resistência excessiva, não force. Pode haver um defeito de fabricação no pré-corte. Tente girar a ampola levemente ou, em último caso, utilize uma serra de ampolas apropriada, embora isso seja cada vez mais raro com os sistemas OPC e VIBRAC.
  • Proteção Ocular: Em ambientes de urgência ou ao manipular drogas quimioterápicas e irritantes, o uso de óculos de proteção é indispensável, prevenindo que respingos atinjam a mucosa ocular.

Conhecer e aplicar corretamente a técnica de abertura de ampolas com sistema VIBRAC e OPC é uma habilidade básica, porém essencial, na rotina da enfermagem. Pequenos detalhes fazem grande diferença na prevenção de acidentes, na segurança do paciente e na qualidade da assistência prestada.

Para o estudante de enfermagem, dominar essa técnica desde cedo contribui para uma prática mais segura, confiante e profissional.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Boas Práticas de Preparo de Medicamentos em Serviços de Saúde. Brasília: Anvisa, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO. Guia de Boas Práticas: Administração de Medicamentos. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br
  5. COREN-SP. Segurança no preparo e administração de medicamentos. São Paulo, 2019. Disponível em:
    https://portal.coren-sp.gov.br
  6. POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com
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