
A Inteligência Artificial (IA) já deixou de ser uma tecnologia distante e passou a fazer parte da realidade dos serviços de saúde, da educação e também da Enfermagem. Sistemas capazes de analisar grandes volumes de dados, reconhecer padrões, produzir textos, auxiliar na organização de informações e gerar alertas podem modificar significativamente a maneira como enfermeiros e técnicos de enfermagem trabalham.
Mas existe uma pergunta importante: até onde a Inteligência Artificial pode chegar na Enfermagem?
A resposta exige equilíbrio. A IA pode ser uma excelente ferramenta de apoio, mas não substitui o conhecimento técnico-científico, o julgamento clínico, a responsabilidade profissional e, principalmente, o cuidado humano.
O próprio Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) vem discutindo o tema e reforça que a tecnologia deve ser utilizada como ferramenta auxiliar. Em publicação de 2025, o Conselho destacou que informações produzidas por IA precisam passar por análise crítica, conferência e adequação à realidade profissional.
Por isso, para o estudante ou profissional de Enfermagem, aprender a utilizar a IA de maneira responsável pode se tornar tão importante quanto saber interpretar um exame, realizar um procedimento ou consultar uma diretriz.
O que é Inteligência Artificial?
De maneira simples, Inteligência Artificial é o conjunto de tecnologias capazes de executar tarefas que normalmente exigiriam determinadas capacidades humanas, como reconhecer padrões, interpretar informações, produzir conteúdo, classificar dados, fazer previsões e auxiliar na tomada de decisões.
Existem diferentes tipos de IA. A IA generativa, por exemplo, consegue produzir textos, imagens, resumos, apresentações e outros conteúdos a partir de comandos fornecidos pelo usuário. Já sistemas preditivos podem analisar grandes quantidades de informações para estimar a probabilidade de determinados acontecimentos, como risco de deterioração clínica ou necessidade de acompanhamento.
Também existem sistemas capazes de analisar imagens, reconhecer alterações, organizar prontuários, transcrever conversas e automatizar determinadas tarefas administrativas. Na saúde, essas possibilidades são particularmente relevantes porque os serviços produzem enormes quantidades de dados diariamente.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial da IA para melhorar diagnóstico, tratamento, pesquisa, desenvolvimento de medicamentos e funções de saúde pública, mas ressalta que sua utilização precisa estar associada à ética, aos direitos humanos, à segurança e à responsabilização.
Onde a Inteligência Artificial pode ser utilizada na Enfermagem?
A utilização da IA na Enfermagem pode ocorrer em diferentes áreas e não está limitada à assistência direta. Na assistência, sistemas inteligentes podem auxiliar na identificação de pacientes com maior risco de deterioração clínica, acompanhar sinais vitais, gerar alertas e organizar informações relevantes para a equipe.
Imagine, por exemplo, uma unidade hospitalar com dezenas de pacientes. Um sistema pode analisar continuamente informações como frequência cardíaca, pressão arterial, saturação de oxigênio, temperatura, resultados laboratoriais e evolução clínica e sinalizar que determinado paciente apresenta um conjunto de alterações que merece atenção.
Isso não significa que a IA “diagnosticou” o paciente. Significa que ela identificou um padrão que pode ajudar o profissional a perceber uma situação que precisa ser investigada. Essa diferença é fundamental.
IA no Processo de Enfermagem
Uma das aplicações mais interessantes está relacionada ao Processo de Enfermagem. Ferramentas digitais podem auxiliar na organização da coleta de dados, identificação de informações relevantes, elaboração de possibilidades de diagnósticos de enfermagem, planejamento de intervenções e acompanhamento de resultados. Entretanto, a ferramenta não deve simplesmente receber os dados e determinar automaticamente aquilo que o enfermeiro deverá fazer.
A avaliação clínica continua sendo responsabilidade do profissional. O Cofen já acompanha iniciativas brasileiras que utilizam IA para apoiar etapas do Processo de Enfermagem e reduzir tarefas burocráticas. Em projeto desenvolvido pela Universidade Federal de Alfenas, por exemplo, uma plataforma foi criada para auxiliar na avaliação, organização das informações, planejamento e acompanhamento de pacientes, sem retirar do enfermeiro a responsabilidade pelo julgamento clínico.
IA na documentação e no prontuário
Outra possibilidade está na documentação. Sistemas podem auxiliar na transcrição de informações, organização de registros, preenchimento de campos, identificação de informações incompletas e estruturação de dados. Isso pode ser especialmente interessante em ambientes onde o profissional passa grande parte do turno realizando atividades burocráticas. O ganho de tempo, entretanto, só representa benefício se o registro continuar sendo conferido pelo profissional.
Uma informação transcrita incorretamente pode gerar consequências importantes. Por isso, “automatizar” não significa “deixar de conferir”.
IA na educação em Enfermagem
Na educação, as possibilidades são ainda maiores. Estudantes podem utilizar ferramentas de IA para:
- compreender conteúdos complexos em linguagem mais simples;
- criar casos clínicos para estudo;
- elaborar questões para revisão;
- comparar conceitos;
- organizar um plano de estudos;
- simular situações clínicas;
- revisar textos;
- identificar pontos que precisam de aprofundamento;
- transformar um assunto extenso em um roteiro de estudo.
O próprio Cofen relatou experiências positivas de professores utilizando IA para criação de casos clínicos, ressaltando, porém, a necessidade de conferir e ajustar o conteúdo produzido. O problema aparece quando o estudante deixa de aprender e passa apenas a copiar. Utilizar IA para explicar um assunto é diferente de pedir que ela faça todo o trabalho acadêmico.
A primeira situação pode favorecer a aprendizagem. A segunda pode prejudicá-la.
IA na pesquisa científica
A Inteligência Artificial também pode ser utilizada na pesquisa. Ela pode auxiliar na organização de referências, identificação de palavras-chave, elaboração de estratégias de busca, tradução, revisão textual, organização de dados e geração de ideias para perguntas de pesquisa.
Mas existe um cuidado indispensável: a IA pode produzir informações falsas, referências inexistentes ou interpretações inadequadas. Por isso, uma referência fornecida por uma ferramenta de IA nunca deve ser considerada verdadeira apenas porque parece convincente. O pesquisador precisa localizar a publicação original, verificar autores, periódico, DOI, ano, metodologia e conteúdo.
O Cofen também já destacou a necessidade de responsabilidade e cuidado com o uso da IA em publicações científicas.
Os principais benefícios da Inteligência Artificial na Enfermagem
Otimização do tempo
Um dos maiores benefícios é a possibilidade de reduzir tarefas repetitivas. Em vez de gastar determinado período organizando informações, o profissional pode utilizar uma ferramenta para realizar uma primeira estruturação e dedicar mais tempo à análise e ao cuidado. O Cofen reconhece justamente esse potencial: a tecnologia pode contribuir para tornar processos de trabalho mais eficientes, desde que seja utilizada como complemento ao trabalho profissional.
Apoio ao raciocínio clínico
A IA pode apresentar possibilidades que talvez não fossem imediatamente percebidas. Isso pode ser útil principalmente para estudantes e profissionais em formação. Mas existe uma diferença importante entre “apoiar o raciocínio clínico” e “tomar a decisão clínica”. A primeira função pode ser extremamente útil e a segunda exige limites rigorosos.
Análise de grandes volumes de dados
Uma pessoa pode ter dificuldade para analisar simultaneamente milhares de informações. Um sistema computacional consegue processar grandes volumes de dados rapidamente. Essa característica pode ser útil em hospitais, unidades de terapia intensiva, atenção primária, vigilância epidemiológica, gestão e pesquisa.
Identificação de riscos
Algoritmos podem ser utilizados para reconhecer padrões associados a determinados riscos. Em determinados contextos, isso pode ajudar a equipe a identificar precocemente situações que merecem avaliação.
Redução de tarefas burocráticas
A automação de atividades administrativas pode liberar tempo para atividades assistenciais. Essa possibilidade é particularmente relevante em uma profissão que frequentemente enfrenta elevada carga de trabalho.
Educação continuada
A IA pode funcionar como uma espécie de “tutor virtual”, ajudando o profissional a revisar conteúdos, esclarecer conceitos e estudar protocolos. Mas a informação deve sempre ser confrontada com fontes confiáveis e atualizadas.
Os contras e riscos da Inteligência Artificial na Enfermagem
A tecnologia também apresenta riscos. E talvez o maior deles seja acreditar que uma resposta produzida por uma máquina necessariamente está correta, e não está.
Alucinações da Inteligência Artificial
Sistemas generativos podem produzir respostas extremamente convincentes e, ao mesmo tempo, incorretas. Isso é particularmente perigoso na saúde. Uma IA pode inventar uma referência científica, atribuir uma recomendação a uma diretriz que não diz aquilo ou apresentar uma conduta clínica inadequada.
Por esse motivo, uma resposta bem escrita não deve ser confundida com uma resposta cientificamente correta. O Cofen enfatiza justamente a necessidade de análise crítica do conteúdo produzido pela IA.
Risco de perda do pensamento crítico
Outro problema é a dependência. Se o estudante consulta a IA para responder absolutamente todas as perguntas, pode deixar de desenvolver habilidades fundamentais. Na Enfermagem, o profissional precisa observar, interpretar, questionar, comparar informações, reconhecer alterações e tomar decisões fundamentadas.
Uma ferramenta que pensa pelo profissional pode, paradoxalmente, enfraquecer o pensamento crítico se for utilizada de maneira inadequada.
Privacidade e proteção dos dados dos pacientes
Esse é um dos pontos mais importantes. Nunca se deve inserir indiscriminadamente em uma ferramenta pública de IA informações que possam identificar um paciente. Nome, CPF, número do prontuário, endereço, telefone, imagens identificáveis, documentos e outros dados pessoais podem envolver informações protegidas.
A ANPD destaca, entre os desafios relacionados à IA, questões como uso de dados pessoais, transparência e possíveis vieses discriminatórios. Na prática, antes de utilizar uma ferramenta, o profissional deve verificar as políticas institucionais, as regras de segurança da informação e as condições de tratamento dos dados.
Viés algorítmico
A IA aprende a partir de dados. Se os dados utilizados para desenvolver determinado sistema forem incompletos ou apresentarem desigualdades, o resultado produzido também poderá reproduzir ou ampliar esses problemas. A Organização Mundial da Saúde alerta para riscos relacionados a vieses e discriminação no uso da IA em saúde. Por isso, um sistema aparentemente “neutro” não é necessariamente livre de vieses.
Responsabilidade profissional
Imagine que um sistema sugira determinada conduta e o profissional siga automaticamente a recomendação. Se a recomendação estiver errada, quem será responsável?
A tecnologia não elimina a responsabilidade profissional. O profissional de Enfermagem continua obrigado a exercer suas atividades de acordo com os conhecimentos técnico-científicos, éticos e legais aplicáveis. O Código de Ética aprovado pela Resolução Cofen nº 564/2017 estabelece princípios relacionados à autonomia, competência profissional e prestação de um cuidado seguro e livre de danos.
A IA pode substituir o enfermeiro ou o técnico de enfermagem?
Não é essa a orientação apresentada pelo Cofen. Em manifestação publicada em 2024, o Conselho afirmou que a IA não substitui o cuidado humano e destacou que empatia, comunicação, toque e relação de confiança permanecem fundamentais na assistência de Enfermagem. A Enfermagem não é apenas um conjunto de procedimentos.
É uma profissão que envolve observação, comunicação, vínculo, educação em saúde, tomada de decisão, gerenciamento, avaliação clínica e cuidado individualizado. Uma máquina pode identificar que a frequência cardíaca aumentou. Mas o profissional precisa compreender o contexto.
O paciente pode estar com dor? Ansioso? Febril? Hipovolêmico? Em uso de determinada medicação? Acabou de realizar um procedimento?
É o raciocínio profissional que transforma o dado em cuidado.
O que o Cofen determina sobre Inteligência Artificial?
Aqui é importante fazer uma distinção para evitar uma informação bastante comum nas redes sociais. Até o momento, não é correto afirmar que existe uma resolução específica do Cofen, já vigente, estabelecendo uma lista geral de “prós e contras da IA na Enfermagem”.
O que existe é um conjunto de posicionamentos, debates, orientações institucionais e propostas normativas relacionadas ao tema. Em 2025, o Cofen publicou conteúdo específico sobre IA na Enfermagem, destacando que ela deve ser compreendida como ferramenta auxiliar ao ser humano e utilizada de acordo com princípios éticos.
Mais recentemente, durante o processo de atualização do Código de Ética, apareceu uma proposta de dispositivo relacionado diretamente à IA. Na consulta pública do Cofen, o texto proposto prevê que o profissional deve referenciar a utilização de ferramentas baseadas em Inteligência Artificial sempre que fizer uso delas no contexto do exercício profissional, além de estimular uma cultura de inovação responsável.
Entretanto, esse ponto precisa ser tratado como proposta de atualização, e não como se já fosse uma obrigação definitiva do Código de Ética vigente. Em março de 2026, a II Conferência Nacional de Ética em Enfermagem aprovou a minuta do novo Código de Ética, que ainda deveria passar pelas etapas posteriores de aprovação e publicação. O próprio Cofen informou que o novo código entraria em vigor posteriormente à sua publicação no Diário Oficial da União, conforme as regras estabelecidas.
Portanto, para uma publicação profissional, a forma mais segura de escrever é:
O Cofen vem discutindo e regulamentando progressivamente o uso responsável da Inteligência Artificial na Enfermagem, enfatizando análise crítica, ética, segurança, inovação responsável e preservação do cuidado humano.
Isso é diferente de afirmar que o Cofen “proíbe” ou “autoriza” genericamente o uso de IA.
Quais são os principais limites para o profissional de Enfermagem?
A IA deve permanecer no papel de ferramenta de apoio. Na prática, isso significa que o profissional deve:
- Conferir a informação. Não utilizar uma resposta de IA como única fonte para uma decisão clínica.
- Consultar fontes confiáveis. Protocolos institucionais, legislação, resoluções do Cofen/Coren, diretrizes científicas, artigos e documentos oficiais devem prevalecer.
- Preservar a confidencialidade. Não inserir dados identificáveis de pacientes em ferramentas sem autorização e segurança adequadas.
- Manter o julgamento clínico. A recomendação da máquina precisa ser analisada dentro do contexto real do paciente.
- Conhecer as limitações da ferramenta. Nem todo sistema possui dados atualizados ou treinamento adequado para determinado cenário.
- Registrar adequadamente quando aplicável. Caso uma instituição estabeleça regras específicas sobre utilização de IA, elas precisam ser seguidas.
- Não delegar à IA aquilo que exige responsabilidade profissional.
Cuidados de Enfermagem diante do uso da Inteligência Artificial
O profissional deve encarar a IA como qualquer outra tecnologia utilizada no cuidado: ela precisa ser segura, adequada e compreendida. Antes de utilizar uma recomendação gerada por IA, é necessário verificar se ela faz sentido diante das condições clínicas do paciente. Também é importante observar sinais e sintomas que contradigam a recomendação apresentada.
Por exemplo, se uma ferramenta sugerir determinado cuidado, mas a avaliação presencial demonstrar deterioração clínica, o achado clínico deve ser valorizado e o paciente deve ser reavaliado. A tecnologia nunca deve impedir o profissional de realizar uma avaliação clínica completa.
Na prática de Enfermagem, alguns cuidados são especialmente importantes:
Avaliar o paciente antes de confiar no algoritmo
O dado produzido pela IA não substitui exame físico, entrevista, avaliação de sinais vitais, histórico clínico e observação direta.
Conferir medicamentos e doses
Ferramentas generativas podem apresentar informações incorretas sobre medicamentos, contraindicações, diluições ou doses. Em situações envolvendo medicamentos, a conferência deve ser feita em fontes farmacológicas e protocolos institucionais confiáveis.
Não compartilhar informações identificáveis
Mesmo quando a intenção é apenas “pedir uma segunda opinião” à IA, dados identificáveis do paciente devem ser protegidos.
Conferir protocolos institucionais
Um protocolo institucional atualizado pode ser mais adequado ao contexto do serviço do que uma resposta genérica produzida por uma IA.
Observar o paciente, e não apenas o monitor
Esse cuidado é particularmente importante em ambientes de alta complexidade. Monitorização automatizada pode ajudar a identificar alterações, mas não substitui a avaliação do paciente.
Documentar corretamente
Registros de Enfermagem precisam refletir o cuidado efetivamente realizado e a avaliação profissional. A IA pode auxiliar na organização do texto, mas não deve fabricar informações ou substituir o registro verdadeiro.
Um exemplo prático
Imagine um paciente internado que apresenta aumento progressivo da frequência cardíaca, queda da pressão arterial e alteração do nível de consciência. Um sistema de IA pode identificar que existe um padrão de deterioração clínica e emitir um alerta.
Isso é útil.
Mas quem precisa avaliar o paciente é a equipe.
O enfermeiro deve verificar os sinais vitais, realizar avaliação clínica, conferir o histórico, medicamentos administrados, perdas, exames, acesso venoso, oxigenação, nível de consciência e demais informações pertinentes.
A IA ajudou a chamar atenção para o problema, mas quem realiza o cuidado é a equipe. Esse é provavelmente o melhor modelo para compreender a relação entre IA e Enfermagem:
“a máquina processa dados; o profissional interpreta o contexto; a equipe decide e executa o cuidado.”
IA na Enfermagem: prós e contras em resumo
| Prós | Contras |
| Otimização do tempo | Possibilidade de informações incorretas |
| Redução de tarefas repetitivas | Dependência tecnológica |
| Apoio ao raciocínio clínico | Risco de reduzir o pensamento crítico |
| Análise de grandes volumes de dados | Vieses algorítmicos |
| Identificação de padrões e riscos | Falta de transparência em alguns sistemas |
| Apoio à educação | Uso inadequado por estudantes |
| Auxílio na pesquisa | Referências ou informações falsas |
| Organização de informações | Riscos à privacidade |
| Automação administrativa | Problemas de segurança cibernética |
| Personalização de algumas estratégias de cuidado | Possível impacto sobre postos de trabalho |
Como o estudante de Enfermagem pode usar a IA de maneira inteligente?
O estudante pode transformar a IA em uma ferramenta de aprendizagem, desde que não permita que ela substitua o estudo. Em vez de perguntar simplesmente “qual é a resposta?”, experimente utilizar a ferramenta para aprofundar o raciocínio.
Por exemplo:
“Explique a diferença entre choque hipovolêmico e distributivo como se eu fosse estudante do terceiro semestre de Enfermagem.”
Depois:
“Crie um caso clínico para eu tentar identificar o tipo de choque.”
Em seguida:
“Agora avalie minha resposta e explique onde errei.”
Esse tipo de utilização transforma a IA em uma ferramenta interativa de aprendizagem. O mesmo princípio pode ser aplicado à farmacologia, anatomia, fisiologia, semiologia, Processo de Enfermagem, cuidados intensivos e outras áreas.
Como o profissional pode utilizar IA sem perder a autonomia?
Uma boa regra é pensar na IA como um segundo par de olhos, e não como o profissional responsável pelo paciente.
- Ela pode ajudar a organizar.
- Pode sugerir.
- Pode comparar.
- Pode resumir.
- Pode identificar padrões.
- Pode levantar hipóteses.
Mas a decisão precisa continuar baseada em avaliação profissional, evidências científicas, protocolos e contexto clínico.
A própria discussão promovida pelo Cofen enfatiza que o problema não está simplesmente na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. O conteúdo produzido pela IA precisa ser analisado criticamente e ajustado à experiência e à realidade profissional.
O futuro da IA na Enfermagem
É muito provável que a presença da IA aumente nos próximos anos. Prontuários mais inteligentes, sistemas preditivos, reconhecimento de voz, análise automatizada de dados, ferramentas de apoio à gestão, educação personalizada e sistemas capazes de auxiliar na identificação precoce de riscos tendem a ganhar espaço.
O próprio Cofen já começou a incorporar a tecnologia em suas atividades. Em 2025, lançou a assistente virtual “Anna”, desenvolvida para modernizar o atendimento e apoiar processos relacionados ao sistema Cofen/Corens. Portanto, a discussão já não deveria ser apenas “vamos usar ou não usar IA?”.
A pergunta mais importante é:
Como utilizar Inteligência Artificial sem comprometer a segurança, a ética, a autonomia e a humanização da Enfermagem?
Esse é o verdadeiro desafio.
Inteligência Artificial não substitui a experiência clínica
Para quem trabalha ou pretende trabalhar na Enfermagem, existe uma mensagem que merece ser reforçada:
- Uma IA pode conhecer milhares de protocolos.
- Pode analisar milhões de informações.
- Pode produzir um texto em poucos segundos.
- Pode organizar uma enorme quantidade de dados.
- Mas ela não substitui a experiência de estar diante de um paciente.
O profissional experiente percebe mudanças sutis no comportamento, na expressão facial, na coloração da pele, na respiração, na comunicação e na interação do paciente. Ele sabe que o mesmo número no monitor pode significar situações completamente diferentes dependendo do contexto. É essa combinação entre conhecimento científico, experiência prática, raciocínio clínico e humanização que torna a Enfermagem insubstituível.
A IA pode ampliar a capacidade do profissional mas não deve apagar o profissional.
A Inteligência Artificial representa uma das maiores transformações tecnológicas que a Enfermagem deverá enfrentar nos próximos anos. Se utilizada corretamente, pode ajudar a reduzir tarefas repetitivas, organizar informações, apoiar a educação, melhorar processos, identificar padrões e auxiliar profissionais na tomada de decisões.
Por outro lado, seu uso inadequado pode trazer riscos importantes, como informações falsas, dependência tecnológica, perda do pensamento crítico, exposição de dados, vieses e decisões inadequadas.
A posição que vem sendo apresentada pelo Cofen é coerente com essa visão equilibrada: a IA pode ser uma ferramenta importante para a Enfermagem, mas deve ser utilizada de maneira ética, responsável e crítica, preservando o cuidado humano.
Para o estudante, isso significa aprender a utilizar a tecnologia sem deixar de aprender Enfermagem, e para o profissional, significa utilizar a IA para potencializar sua capacidade, e não para transferir sua responsabilidade. Já para o paciente, significa garantir que a tecnologia esteja a serviço do cuidado — e não que o cuidado passe a estar a serviço da tecnologia.
Referências:
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Inteligência Artificial na Enfermagem. Brasília, DF, 9 set. 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/inteligencia-artificial-na-enfermagem/.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Inteligência Artificial é essencial à Enfermagem, mas não substitui o cuidado humano. Brasília, DF, 7 jun. 2024. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/inteligencia-artificial-e-essencial-a-enfermagem-mas-nao-substitui-o-cuidado-humano/.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Qual o limite da IA na Enfermagem? Brasília, DF, 10 set. 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/qual-o-limite-da-ia-na-enfermagem/.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 564/2017: aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF, 2017. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017/.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Conferência Nacional aprova minuta do novo Código de Ética de Enfermagem. Brasília, DF, 23 mar. 2026. Disponível em: https://biblioteca.cofen.gov.br/conferencia-nacional-aprova-minuta-do-novo-codigo-de-etica-de-enfermagem/.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Cofen lança inteligência artificial “Anna” para modernizar atendimento à Enfermagem. Brasília, DF, 30 jun. 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/cofen-lanca-inteligencia-artificial-anna-para-modernizar-atendimento-a-enfermagem/.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (WHO). Ethics and governance of artificial intelligence for health: WHO guidance. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240029200.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (WHO). Ethics and governance of artificial intelligence for health: guidance on large multi-modal models. Geneva: World Health Organization, 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240084759.
- AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS (ANPD). Por que Inteligência Artificial? Brasília, DF. Disponível em: https://www.gov.br/anpd/pt-br/sandbox/por-que-inteligencia-artificial
-
CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Inteligência Artificial é a nova aposta para aliviar rotina dos enfermeiros. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/inteligencia-artificial-e-a-nova-aposta-para-aliviar-rotina-dos-enfermeiros/.


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