Como Avaliar o Paciente Antes do Banho?

avaliação antes do banho

O banho no leito pode se tornar um momento de instabilidade clínica quando a condição do paciente não é avaliada antes do início. A mobilização, a mudança de posição e a exposição ao ambiente podem aumentar o desconforto e exigir esforço respiratório ou cardiovascular. Por isso, antes de separar os materiais, verifique se o paciente tem condições de tolerar o banho naquele momento. A avaliação deve considerar o estado clínico atual, não apenas a rotina prevista.

O que precisa ser verificado?

Antes do banho no leito, devem ser avaliados o nível de consciência, a capacidade de colaborar, a dor, a mobilidade e a condição da pele. Também devem ser observados os sinais vitais e, nos pacientes críticos, a saturação, o ritmo cardíaco, o suporte ventilatório e os dispositivos em uso. Quando houver instabilidade clínica, o banho deve ser reavaliado e, se necessário, adiado até que seja seguro realizá-lo.

Em um paciente internado na UTI, por exemplo, uma queda recente da pressão arterial ou o aumento da necessidade de oxigênio deve ser considerado antes de iniciar a mobilização. Mesmo que o banho esteja previsto para aquele horário, a equipe precisa avaliar se o procedimento poderá ser realizado sem agravar o quadro. Durante o cuidado, os parâmetros clínicos devem continuar sendo monitorados.

Segundo uma revisão sistemática, houve estudos em que a saturação venosa mista de oxigênio declinou consideravelmente durante o banho, restabelecendo-se cerca de 30 minutos depois, o que reforça a importância de monitorar o paciente antes, durante e após o procedimento.

A pele também precisa ser examinada

A avaliação deve incluir vermelhidão persistente, lesões, hematomas, edema, umidade excessiva e áreas dolorosas, especialmente nas regiões de pressão, como sacro, calcanhares e quadris. Se forem identificadas alterações, elas devem ser registradas e os cuidados preventivos ajustados. A mobilidade reduzida e a incapacidade de mudar de posição aumentam o risco de lesão por pressão.

Durante a avaliação de um paciente dependente para higiene, uma área avermelhada no sacro pode ser percebida antes mesmo de o banho começar. Esse achado deve ser comunicado e acompanhado, evitando fricção intensa e adotando medidas de alívio da pressão conforme o plano de cuidados.

Cuidados de enfermagem

Explique o procedimento e preserve a privacidade do paciente. Antes de mobilizá-lo, confirme se há dor, restrições de movimento, cateteres, drenos ou outros dispositivos que precisem ser protegidos. Organize os materiais, solicite ajuda quando necessária e interrompa o banho se houver piora clínica, desconforto importante ou alteração dos parâmetros monitorados.

O banho deve ser planejado conforme as condições do paciente naquele momento, e não apenas pela rotina do setor.

Resumo para salvar

Como Avaliar o Paciente Antes do Banho

  • Avalie estabilidade clínica e sinais vitais
  • Verifique consciência, dor e mobilidade
  • Observe a pele e as áreas de pressão
  • Proteja dispositivos e interrompa se houver piora clínica

Referências:

  1. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Pressure ulcers: prevention and management. London: NICE, 2014. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg179/chapter/Recommendations.
  2. LIMA, D. V. M.; LACERDA, R. A. Repercussões oxi-hemodinâmicas do banho no paciente em estado crítico adulto hospitalizado: revisão sistemática. Acta Paulista de Enfermagem, v. 23, n. 2, p. 278-285, 2010. Disponível em: SciELO.

Honorários de Enfermagem: Conheça Seus Direitos

Honorários de Enfermagem

Enfermeiros que prestam serviços de forma autônoma podem estabelecer honorários profissionais, respeitando as competências legais, as normas éticas e os critérios aplicáveis à atividade. Para orientar essa remuneração, o Conselho Federal de Enfermagem publicou a Resolução Cofen nº 673/2021, que estabeleceu uma referência nacional para honorários de serviços de enfermagem. A aplicação dos valores deve ser conferida conforme as normas vigentes e a situação profissional.

Quando a enfermagem pode cobrar honorários?

Imagine um enfermeiro que realiza atendimento domiciliar particular. Antes de iniciar, é importante que sejam combinados o serviço prestado, o valor, a duração prevista e as condições de pagamento. Essa definição evita dúvidas posteriores e permite que o paciente saiba exatamente pelo que está pagando.

Honorários não são a mesma coisa que salário

O salário é a remuneração vinculada a uma relação de emprego, enquanto os honorários correspondem ao pagamento por serviços profissionais prestados conforme um contrato ou acordo aplicável. Por isso, um profissional contratado por um hospital não deve presumir que cada procedimento realizado gere um pagamento adicional: isso depende do vínculo, das regras contratuais e da legislação pertinente. O piso salarial da categoria é outro tema e está previsto na Lei nº 7.498/1986, com alterações posteriores.

Em um atendimento particular, por exemplo, o profissional pode precisar retornar para uma nova avaliação ou realizar outro serviço previamente combinado. As condições de cobrança devem estar claras desde o início, com registro do que foi acordado, sem cobranças inesperadas ou serviços fora das competências profissionais.

Tabela de referência de honorários de enfermagem

A tabela abaixo reúne exemplos de procedimentos e suas unidades de referência, conforme a tabela de procedimentos reproduzida pelo Coren-BA no Parecer Técnico nº 04/2024. Os valores estão em URTE, não em reais, e devem ser conferidos com a norma vigente e as regras aplicáveis à região.

Procedimento de enfermagem Referência
Banho no leito 8 URTE
Banho no leito — paciente intensivo 10 URTE
Higiene oral 2 URTE
Aspiração de vias aéreas superiores 5 URTE
Aspiração por TOT ou traqueostomia 8 URTE
Instalação de monitor cardíaco 3 URTE
Realização de eletrocardiograma (ECG) 8 URTE
Verificação de sinais vitais não invasivos 5 URTE
Verificação de glicemia capilar 5 URTE
Avaliação do nível de consciência 5 URTE
Balanço hídrico de 6 horas 3 URTE
Balanço hídrico de 12 horas 6 URTE
Balanço hídrico de 24 horas 9 URTE
Curativo de pequeno porte 7 URTE
Curativo de médio porte 9 URTE
Curativo de grande porte 12 URTE
Consulta de enfermagem individual 15 URTE
Atendimento domiciliar 10 URTE
Assistência semi-intensiva 8 URTE/hora
Assistência intensiva 10 URTE/hora

Fonte: tabela de procedimentos reproduzida no Parecer Técnico nº 04/2024 do Coren-BA. Os valores acima são referências em URTE, não preços finais em reais. A aplicação a técnicos e auxiliares e eventuais atualizações regionais precisam ser verificadas.

Como calcular o valor em reais?

A Resolução Cofen nº 673/2021 estabeleceu inicialmente a URTE em R$ 10,00, com previsão de reajuste anual pelo INPC. Portanto, não é adequado multiplicar automaticamente a quantidade de URTE por R$ 10,00 e apresentar o resultado como valor atualizado para 2026. Consulte a Resolução Cofen nº 673/2021 e seus anexos e verifique se o Coren da sua região publicou atualização complementar.

Cuidados de enfermagem e orientação profissional

Antes de oferecer serviços particulares, verifique se a atividade está dentro das suas atribuições, mantenha o registro profissional regular e formalize os valores e as condições de atendimento. Em caso de dúvida sobre a tabela de honorários, sua aplicação ou os direitos relacionados ao vínculo de trabalho, consulte o Coren da sua região e, quando necessário, procure orientação jurídica.

Conhecer seus direitos também significa saber distinguir honorários, salário e piso profissional. Essa diferença ajuda a negociar com transparência e a evitar interpretações equivocadas sobre a remuneração na enfermagem.

Resumo para salvar

Honorários de Enfermagem: Conheça Seus Direitos

  • Honorários remuneram serviços profissionais conforme o acordo aplicável
  • Salário e honorários são conceitos diferentes
  • A Resolução Cofen nº 673/2021 traz parâmetros de referência
  • Consulte o Coren para esclarecer dúvidas sobre a aplicação das regras

Referências

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução Cofen nº 673/2021. Estabelece a Unidade de Referência de Trabalho de Enfermagem e parâmetros para honorários de serviços de enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2021. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-673-2021/.
  2. BRASIL. Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da enfermagem e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7498.htm.
  3. BRASIL. Lei nº 14.434, de 4 de agosto de 2022. Altera a Lei nº 7.498/1986 para instituir o piso salarial nacional dos profissionais de enfermagem. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: https://cofen.gov.br/lei-no-14-434-de-4-de-agosto-de-2022/.

Várias Demandas no Plantão: Por Onde Começar?

Várias demandas do plantão

Diante de várias solicitações, faça uma varredura rápida dos pacientes e procure sinais de alerta: dificuldade respiratória, alteração súbita da consciência, dor torácica, sangramento importante ou instabilidade dos sinais vitais. Se houver suspeita de deterioração clínica, a avaliação e o acionamento da equipe de resposta rápida devem ser priorizados, conforme o protocolo institucional.

Primeiro, identifique quem corre mais risco

Imagine um plantão em que um paciente solicita ajuda para ir ao banheiro, outro relata dor intensa e um terceiro apresenta queda da saturação. A sequência não deve ser definida pela ordem dos chamados: o paciente com dessaturação precisa ser avaliado imediatamente, enquanto as outras demandas devem ser comunicadas e reorganizadas de acordo com a segurança clínica.

Reorganize as tarefas sem perder o controle

Depois de identificar as urgências, agrupe as atividades por prioridade e horário, considerando medicamentos com horários críticos, procedimentos programados e cuidados que podem ser delegados a profissionais habilitados. Se uma nova intercorrência surgir, a programação deve ser revista. A comunicação objetiva com a equipe evita que uma tarefa importante fique sem responsável.

Em outra situação comum, durante o preparo de medicamentos, um colega solicita ajuda para reposicionar um paciente e o telefone toca com uma nova demanda. Antes de abandonar uma medicação já preparada ou interromper uma etapa que exija atenção, é necessário garantir que o processo esteja seguro, comunicar a necessidade de apoio e definir quem assumirá cada atividade. Interrupções devem ser administradas para reduzir o risco de erros.

Cuidados de enfermagem

Reavalie os pacientes conforme a gravidade, comunique alterações sem demora e registre as intervenções realizadas. Ao delegar tarefas, confirme se o profissional tem competência para executá-las e se compreendeu o que precisa ser feito. Se a carga de trabalho comprometer a segurança, solicite apoio à liderança.

Priorizar não significa fazer tudo ao mesmo tempo. Significa reconhecer o que não pode esperar, agir com segurança e reavaliar as prioridades continuamente.

Resumo para salvar

Várias Demandas no Plantão: Por Onde Começar?

  • Avalie primeiro quem apresenta maior risco clínico
  • Reconheça sinais de deterioração e acione ajuda
  • Reorganize tarefas e delegue com segurança
  • Reavalie prioridades e registre as intervenções

Referências:

  1. AGENCY FOR HEALTHCARE RESEARCH AND QUALITY (AHRQ). TeamSTEPPS: Team Strategies and Tools to Enhance Performance and Patient Safety. Rockville, MD: AHRQ. Disponível em: https://www.ahrq.gov/teamstepps/index.html.
  2. RESUSCITATION COUNCIL UK. The ABCDE Approach. London: Resuscitation Council UK. Disponível em: https://www.resus.org.uk/library/2021-resuscitation-guidelines/acute-care. 

Dois Pacientes com Nomes Semelhantes

Nomes de pacientes semelhantes

Quando dois pacientes têm nomes semelhantes, uma conferência feita às pressas pode favorecer a troca de medicamentos, exames ou procedimentos. Por isso, a identificação segura deve ser realizada com pelo menos dois identificadores, como nome completo e data de nascimento, comparando as informações com a pulseira e o registro do paciente. O número do leito ou o reconhecimento visual não devem ser usados isoladamente para confirmar a identidade.

O risco está na identificação incompleta

Imagine que dois pacientes internados na mesma unidade tenham nomes parecidos e recebam medicamentos em horários próximos. Antes de administrar a dose, o profissional deve pedir que o paciente informe o próprio nome completo e a data de nascimento, sempre que possível, e conferir esses dados com a pulseira e a prescrição. Se houver qualquer divergência, a administração deve ser suspensa até que a identificação seja esclarecida.

O risco também aparece na coleta de exames. Uma etiqueta impressa para um paciente pode acabar sendo colocada em uma amostra de outro, especialmente quando várias coletas são realizadas em sequência. Por isso, a identificação deve ser confirmada junto ao paciente antes da coleta, e a amostra deve ser identificada conforme o protocolo institucional, sem depender apenas da memória ou de etiquetas preparadas antecipadamente.

Cuidados de enfermagem

Antes de administrar medicamentos, coletar exames, realizar procedimentos ou instalar hemocomponentes, confirme dois identificadores e compare-os com os registros correspondentes. Oriente o paciente e o acompanhante a alertar a equipe quando perceberem alguma divergência. Se os dados não coincidirem, interrompa a etapa do cuidado, esclareça a identificação e comunique a ocorrência conforme as normas do serviço.

Nomes parecidos exigem atenção redobrada, não atalhos. A confirmação ativa deve ser repetida antes de cada cuidado, mesmo quando o paciente já é conhecido pela equipe.

Resumo para salvar

Dois Pacientes com Nomes Semelhantes

  • Confirme pelo menos dois identificadores
  • Compare os dados com a pulseira e a prescrição
  • Identifique amostras conforme o protocolo
  • Interrompa o cuidado diante de qualquer divergência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde; AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA; FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Protocolo de identificação do paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bibliotecadigital.anvisa.gov.br/jspui/handle/anvisa/1778.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de identificação do paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/seguranca-do-paciente/publicacoes/protocolos-de-seguranca-do-paciente/protocolo-de-identificacao-do-paciente/view. 

Rebaixamento do Nível de Consciência: O Que Avaliar?

Rebaixamento de nível de consciência

A primeira avaliação é decisiva

Quando o nível de consciência é reduzido, a prioridade deve ser identificar riscos imediatos e reconhecer mudanças em relação ao estado habitual do paciente. A avaliação inicial deve seguir o ABCDE, com atenção à permeabilidade das vias aéreas, respiração, circulação e resposta neurológica. A glicemia capilar também deve ser verificada precocemente, pois a hipoglicemia pode provocar alteração da consciência e precisa ser reconhecida rapidamente.

O que precisa ser observado?

A Escala de Coma de Glasgow permite avaliar abertura ocular, resposta verbal e resposta motora. Os componentes devem ser registrados separadamente, junto à pontuação total, para que mudanças sejam identificadas durante a assistência. Também devem ser avaliadas as pupilas, a simetria dos movimentos, a fala, a orientação e a capacidade de obedecer a comandos.

Durante um plantão, por exemplo, um paciente que antes respondia espontaneamente pode começar a responder apenas quando chamado repetidamente. Essa mudança deve ser comunicada e investigada, mesmo que a pressão arterial ainda esteja dentro dos valores habituais. A comparação com avaliações anteriores pode ajudar a identificar uma deterioração que passaria despercebida se apenas os sinais vitais fossem considerados.

Investigue possíveis causas

O rebaixamento pode estar associado a hipoxemia, hipoglicemia, alterações metabólicas, infecções, acidente vascular cerebral, traumatismo craniano ou efeitos de medicamentos sedativos e opioides. Por isso, devem ser observados o padrão respiratório, a saturação, a pressão arterial, a temperatura, os medicamentos administrados e o momento em que a alteração começou.

Se um paciente fica progressivamente sonolento após receber um opioide, por exemplo, a frequência respiratória e a ventilação precisam ser avaliadas imediatamente. A alteração não deve ser atribuída automaticamente à medicação, pois outras causas graves podem coexistir. Diante de deterioração súbita, convulsão, déficit neurológico focal ou dificuldade para manter a via aérea, deve ser acionada a equipe de resposta rápida ou emergência, conforme o protocolo local.

Cuidados de enfermagem

Mantenha a segurança do paciente, avalie e sustente vias aéreas e respiração conforme a necessidade, monitore os sinais vitais e a glicemia e registre a Glasgow com seus componentes. A evolução neurológica deve ser acompanhada em intervalos definidos pela condição clínica e pelo protocolo institucional. A piora precisa ser comunicada sem demora, com horário de início, achados observados e medidas realizadas.

No rebaixamento do nível de consciência, a tendência da avaliação é tão importante quanto o valor encontrado naquele momento.

Resumo para salvar

Rebaixamento do Nível de Consciência

  • Avalie ABCDE e glicemia capilar precocemente
  • Registre Glasgow por resposta ocular verbal e motora
  • Observe pupilas e alterações neurológicas
  • Comunique imediatamente qualquer deterioração clínica

Referências:

  1. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Head injury: assessment and early management. London: NICE, 2023. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng232/chapter/recommendations.

Medicamento Precipitou: O Que Fazer?

Seringa com medicamento turvo e cristais, ilustrando precipitação em solução intravenosa

Identifique o problema antes de administrar

A precipitação pode aparecer como cristais, partículas, turvação ou alteração inesperada do aspecto da solução. Isso pode acontecer por incompatibilidade entre medicamentos, escolha inadequada do diluente, concentração incorreta ou condições de preparo e conservação. Em medicamentos injetáveis, especialmente intravenosos, essas alterações exigem atenção imediata.

O ISMP relata casos em que produtos com precipitado visível chegaram a ser administrados a pacientes e classifica essa prática como insegura. A administração de medicamentos incompatíveis é considerada um erro de medicação evitável, com potencial de causar dano ao paciente.

Em um estudo em UTI adulta de hospital universitário brasileiro, 68 de 100 prescrições analisadas apresentavam ao menos uma incompatibilidade entre medicamentos intravenosos, o que reforça a importância de conferir a compatibilidade antes de preparar e administrar.

O que fazer na hora?

Se o precipitado for identificado antes da administração, não administre a solução. Se a infusão já estiver em andamento, interrompa-a e avalie o paciente conforme o protocolo institucional. Não tente dissolver os cristais agitando a solução, aquecendo-a ou acrescentando diluente por conta própria. Separe o preparo, identifique o ocorrido e comunique o enfermeiro responsável e a farmácia clínica para investigação.

Imagine uma situação comum no preparo de medicamentos intravenosos: após a reconstituição, a solução inicialmente límpida fica turva ao ser transferida para a bolsa de infusão. A conduta segura é suspender o preparo e verificar o medicamento, o diluente, a concentração e a compatibilidade, em vez de presumir que a alteração seja normal. A orientação do ISMP é não administrar soluções nas quais se observe precipitação.

Se o medicamento já começou a correr, não basta trocar a bolsa sem avaliar o que aconteceu. É necessário verificar quanto foi administrado, observar o paciente e comunicar a equipe responsável. Em uma situação ilustrativa de plantão, a presença de partículas no equipo durante uma infusão deve levar à interrupção e à avaliação do sistema, pois o problema pode estar na solução ou em uma incompatibilidade ocorrida durante a administração. O descarte e a substituição do material devem seguir o protocolo institucional.

Cuidados de enfermagem

Antes de preparar medicamentos injetáveis, confira a diluição recomendada pelo fabricante e consulte uma fonte confiável de compatibilidade. Observe o aspecto da solução antes e durante a administração, respeite o tempo de estabilidade após o preparo e não misture medicamentos na mesma seringa ou bolsa sem confirmação de compatibilidade. Se houver suspeita de reação ou complicação, monitore o paciente, registre a ocorrência e siga o fluxo institucional de notificação.

Resumo para salvar

Medicamento Precipitou: O Que Fazer

  • Não administre solução com precipitado inesperado
  • Interrompa a infusão se a alteração surgir durante a administração
  • Confira diluente, concentração e compatibilidade
  • Comunique a equipe, avalie o paciente e registre a ocorrência

A regra é simples: diante de precipitação inesperada, não improvise. Interromper o processo e investigar a causa é uma medida de segurança do paciente.

Referências:

  1. INSTITUTE FOR SAFE MEDICATION PRACTICES (ISMP). Two unsafe practices: Administration of a product with a precipitate and reuse of a saline flush syringe. ISMP Nurse Advise-ERR, Horsham, v. 15, n. 5, maio 2017. Disponível em: ISMP: Nurse Advise-ERR, maio 2017.
  2. MARSILIO, Naiane Roveda; SILVA, Daiandy da; BUENO, Denise. Incompatibilidades medicamentosas em centro de tratamento intensivo adulto de um hospital universitário. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 28, n. 2, p. 147-153, abr./jun. 2016. DOI: 10.5935/0103-507X.20160029. Disponível em: SciELO: Incompatibilidades medicamentosas em UTI adulto.

Paciente Retirou o Acesso Sozinho: E Agora?

Sacou AVP

Um acesso retirado pelo próprio paciente pode parecer uma ocorrência pequena no meio do plantão, até você perceber que junto com o cateter pode ter sido interrompida uma infusão, uma medicação importante ou até uma terapia contínua. A resposta precisa começar pela avaliação, não pela reposição imediata do acesso.

Primeiro, olhe para o paciente

Ao perceber que o paciente retirou o acesso venoso, avalie o local da punção, presença de sangramento, hematoma, edema, dor ou outras alterações. Faça compressão conforme necessário e observe também a condição clínica do paciente, principalmente se havia uma infusão em andamento.

A avaliação do sítio de inserção faz parte da segurança da terapia intravenosa, incluindo a observação de sinais como dor, eritema, edema e secreção. Em pacientes críticos, a inspeção precisa ser ainda mais frequente.

Em uma situação comum de plantão, o paciente retira o acesso enquanto está recebendo uma solução intravenosa e o equipo fica sobre o leito. Antes de simplesmente instalar outro cateter, é importante verificar se houve sangramento significativo, se a infusão foi interrompida e qual medicamento ou solução estava sendo administrado naquele momento.

O que estava correndo naquele acesso?

Essa é uma das perguntas mais importantes. Uma coisa é o paciente retirar um acesso que estava sem uso; outra é interromper uma infusão contínua, um antibiótico, uma droga vasoativa ou outro medicamento cuja interrupção possa trazer repercussões clínicas.

Se havia medicação em infusão, confira o horário, a solução, a dose ou velocidade programada e quanto tempo a administração ficou interrompida. A partir daí, comunique o enfermeiro e a equipe responsável para definir a necessidade de novo acesso e eventual ajuste da terapia. A Anvisa orienta que intercorrências relacionadas à terapia intravenosa sejam comunicadas e registradas adequadamente.

Em um paciente confuso ou agitado, por exemplo, pode acontecer de o acesso ser retirado durante uma tentativa de levantar do leito. Ao chegar ao quarto, a equipe encontra sangue no lençol e a bomba de infusão em alarme. Nesse momento, além de controlar o sangramento, é preciso avaliar o motivo da retirada e verificar se existe risco de nova tentativa de retirada de dispositivos.

A ocorrência também pede investigação

Se o paciente retirou o acesso por confusão, agitação, dor, desconforto ou dificuldade para compreender a finalidade do dispositivo, vale investigar o que favoreceu o evento. Um acesso bem fixado pode continuar sendo retirado se o paciente estiver desorientado ou tentando sair do leito.

A prevenção passa por identificar pacientes com maior risco de manipular dispositivos, manter comunicação adequada, posicionar linhas de maneira segura e seguir as medidas institucionais para prevenção de quedas e eventos relacionados a dispositivos. A literatura destaca que avaliação contínua e capacitação da equipe são importantes para reduzir complicações relacionadas aos cateteres.

Cuidados de enfermagem

Após a retirada acidental ou voluntária do acesso, a enfermagem deve:

  • Avaliar o local e controlar eventual sangramento.
  • Verificar se há dor, edema, hematoma ou outras alterações.
  • Identificar o que estava sendo infundido.
  • Avaliar a repercussão da interrupção da terapia.
  • Comunicar o enfermeiro e a equipe responsável conforme a situação.
  • Avaliar a necessidade de um novo acesso.
  • Investigar fatores que favoreceram a retirada.
  • Registrar a ocorrência e as condutas realizadas.

Também é importante evitar simplesmente escrever “paciente retirou acesso” e encerrar o registro. A anotação deve permitir entender o que aconteceu, quais condições foram encontradas e quais medidas foram tomadas. A documentação adequada contribui para a continuidade da assistência e para o rastreamento de eventos relacionados à terapia intravenosa.

Resumo para salvar

Paciente Retirou o Acesso Sozinho

  • Avalie o local e controle o sangramento
  • Confira qual terapia foi interrompida
  • Investigue por que o paciente retirou o acesso
  • Registre a ocorrência e as condutas realizadas

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. RDC nº 45, de 12 de março de 2003: regulamento técnico de boas práticas de utilização das soluções parenterais. Brasília, DF: Anvisa, 2003. Disponível em: Anvisa.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Cateteres periféricos: novas recomendações da Anvisa garantem segurança na assistência. Brasília, DF: Cofen. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen.
  3. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Summary of Recommendations: Intravascular Catheter-Related Infection. Atlanta: CDC. Disponível em: CDC.
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Conhecimentos da enfermagem sobre Peripherally Inserted Central Catheters: complicações, medidas preventivas e indicações de retirada. Brasília, DF: Cofen, 2023. Disponível em: Biblioteca Virtual de Enfermagem – Cofen. 

Rebaixamento do Nível de Consciência: O Que Avaliar?

rebaixamento de nvel de consciencia

Um paciente que ficou sonolento de repente pode estar apresentando uma alteração neurológica importante, mas também pode estar diante de uma causa simples e reversível. Por isso, o primeiro erro é olhar apenas para a pontuação da Escala de Coma de Glasgow e esquecer de avaliar o paciente como um todo.

Comece pelo que pode matar primeiro

Diante de um rebaixamento agudo do nível de consciência, a avaliação inicial deve priorizar via aérea, respiração e circulação. Observe se o paciente mantém a via aérea protegida, apresenta padrão respiratório adequado, alteração de saturação, instabilidade hemodinâmica ou sinais de má perfusão. A glicemia capilar também merece atenção imediata, porque a hipoglicemia pode provocar alteração importante da consciência e é uma causa potencialmente reversível.

Em uma situação típica de plantão, um paciente que estava conversando normalmente passa a responder apenas quando chamado com insistência. Antes de concluir que houve uma piora neurológica, a equipe verifica sinais vitais e glicemia e encontra uma alteração importante da glicose. Esse tipo de checagem rápida pode mudar completamente a conduta inicial.

Glasgow ajuda, mas não conta toda a história

A Escala de Coma de Glasgow avalia abertura ocular, resposta verbal e resposta motora, permitindo acompanhar alterações do nível de consciência de maneira padronizada. O mais importante é registrar a resposta de cada componente, e não apenas escrever “Glasgow 10”, porque a composição da pontuação ajuda a identificar mudanças ao longo do tempo.

Além da Glasgow, observe pupilas, simetria e reatividade, força e movimentação dos membros, presença de convulsões, fala, comportamento e resposta a estímulos. Uma mudança súbita, principalmente quando acompanhada de déficit focal, alteração pupilar ou convulsão, exige avaliação imediata.

Procure a causa enquanto monitora

Medicamentos sedativos, opioides, alterações metabólicas, hipoxemia, hipercapnia, infecções, distúrbios eletrolíticos, intoxicações e eventos neurológicos estão entre as possibilidades que precisam ser consideradas. O contexto ajuda muito: um paciente que recebeu opioide recentemente será investigado de forma diferente daquele que apresentou alteração neurológica súbita sem explicação aparente.

Uma cena que acontece com frequência em ambiente hospitalar é o paciente ficar excessivamente sonolento após receber uma medicação e apresentar respiração mais lenta. Nesse momento, registrar apenas “paciente sonolento” não descreve adequadamente a situação. Frequência respiratória, saturação, nível de consciência, horário e medicamento administrado ajudam a equipe a reconhecer uma possível relação medicamentosa e agir rapidamente.

Mudança do padrão é um sinal importante

Nem sempre o que chama atenção é uma pontuação muito baixa. Uma redução progressiva da resposta, uma nova confusão, dificuldade para despertar ou mudança em relação ao estado neurológico habitual já merece investigação. Comparar o paciente com sua avaliação anterior é essencial, principalmente em UTI e em pacientes que já apresentam algum grau de alteração neurológica.

Se houver deterioração, mantenha monitorização, reavalie ABC, glicemia e parâmetros neurológicos, comunique imediatamente a equipe responsável e prepare o paciente para as medidas diagnósticas ou terapêuticas indicadas.

Cuidados de enfermagem

Na prática, diante de um rebaixamento do nível de consciência, a enfermagem deve avaliar:

  • nível de consciência e Glasgow, registrando seus componentes;
  • pupilas, resposta motora e alterações neurológicas novas;
  • via aérea, padrão respiratório e saturação;
  • pressão arterial, frequência cardíaca e perfusão;
  • glicemia capilar;
  • medicamentos administrados recentemente;
  • evolução em comparação com avaliações anteriores.

Mantenha a segurança do paciente, reduza o risco de queda e aspiração, mantenha monitorização adequada e comunique rapidamente qualquer deterioração. O registro deve ser objetivo e permitir comparar a evolução neurológica ao longo do tempo.

Resumo para salvar

Rebaixamento do Nível de Consciência

  • Avalie primeiro via aérea respiração e circulação
  • Verifique glicemia e sinais vitais
  • Avalie Glasgow pupilas e resposta motora
  • Compare com o estado neurológico anterior

Referências:

  1. MERCK MANUALS. Abordagem ao paciente com alteração da consciência. Disponível em: Manuais MSD.
  2. TEASDALE, Graham; MAAS, Andrew; LECKY, Fiona; MANLEY, Geoffrey; STOCCHETTI, Nino; MURRAY, Gordon. The Glasgow Coma Scale at 40 years: standing the test of time. The Lancet Neurology, v. 13, n. 8, p. 844-854, ago. 2014. DOI: 10.1016/S1474-4422(14)70120-6. Disponível em: PubMed: Glasgow Coma Scale at 40 years.
  3. PATTI, Laryssa; GUPTA, Mohit. Change in Mental Status. In: StatPearls (Internet). Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: NCBI Bookshelf: Change in Mental Status.
  4. AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. Committee on Trauma. Advanced Trauma Life Support (ATLS): Student Course Manual. 10. ed. Chicago: American College of Surgeons, 2018. ISBN 978-0-9968262-3-5. Disponível em: American College of Surgeons: ATLS.

Paciente Recusou o Medicamento. E Agora?

paciente recusa

O medicamento está preparado, o horário chegou e o paciente simplesmente diz: “não vou tomar”. O problema não termina na recusa. É justamente nesse momento que começa uma etapa importante da assistência: entender o motivo, orientar e documentar o que aconteceu.

Recusar também precisa ser cuidado

A recusa do paciente deve ser respeitada quando ele possui capacidade para decidir, mas isso não significa apenas retirar o medicamento e seguir para o próximo leito. É necessário conversar, verificar se existe algum motivo específico, explicar de maneira compreensível a finalidade do medicamento e possíveis consequências da não administração, sem pressionar ou ameaçar o paciente.

O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem determina que o paciente seja orientado sobre benefícios, riscos e consequências da assistência, respeitando seu direito de recusa.

Uma situação prática bastante comum acontece quando o paciente recusa um antibiótico porque acredita que “esse remédio está fazendo mal ao estômago”. Em vez de simplesmente registrar “recusou”, a equipe conversa, identifica a queixa e comunica o enfermeiro para que a situação seja avaliada. Às vezes, o motivo da recusa revela um efeito adverso, uma dúvida ou até uma dificuldade que poderia ter passado despercebida.

O que deve ser registrado

A anotação precisa deixar claro que o medicamento não foi administrado porque houve recusa. Sempre que possível, registre o medicamento envolvido, horário, motivo relatado pelo paciente, orientações realizadas, resposta apresentada e profissionais comunicados, conforme rotina institucional.

Um registro como “paciente recusou medicação” pode ser insuficiente para demonstrar como a situação foi conduzida. O Cofen estabelece que as informações relacionadas ao cuidado sejam registradas de forma clara, objetiva, cronológica, completa e legível, contribuindo para a continuidade e segurança da assistência.

E se o paciente continuar recusando?

Se, depois dos esclarecimentos, o paciente mantiver a decisão, a recusa deve ser comunicada ao enfermeiro e aos demais profissionais responsáveis conforme a relevância clínica do medicamento e o protocolo do serviço. Uma dose perdida pode ter consequências diferentes dependendo do fármaco, da indicação e das condições do paciente.

Imagine, por exemplo, um paciente que recusa repetidamente uma medicação essencial e começa a apresentar alteração clínica. Nesse cenário, não basta continuar registrando as recusas: é necessário comunicar a equipe responsável e acompanhar a repercussão clínica. A recusa faz parte da história daquele cuidado e pode interferir diretamente na tomada de decisão.

Cuidados de enfermagem

Diante da recusa, a enfermagem deve:

  • Confirmar qual medicamento foi recusado.
  • Perguntar o motivo e esclarecer dúvidas.
  • Orientar sobre finalidade, benefícios e possíveis consequências da não administração.
  • Respeitar a decisão do paciente, quando aplicável.
  • Comunicar o enfermeiro e a equipe responsável conforme a situação.
  • Registrar a recusa e as condutas realizadas no prontuário.
  • Observar possíveis repercussões clínicas.

O mais importante é não administrar o medicamento contra a vontade do paciente simplesmente para conseguir cumprir a prescrição. A administração segura envolve também comunicação, autonomia, avaliação clínica e documentação adequada.

Resumo para salvar

Paciente Recusou o Medicamento

  • Respeite a decisão do paciente
  • Investigue e esclareça o motivo da recusa
  • Comunique a equipe conforme a situação
  • Registre a recusa e as condutas realizadas

Referências:

  1. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564, de 6 de novembro de 2017: aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Disponível em: Cofen.
  2. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024: dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Disponível em: Cofen.
  3. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 801, de 14 de janeiro de 2026. Brasília, DF: Cofen, 2026. Disponível em: Cofen. 

Prescrição Médica: Saiba Interpretar sem Erros

prescrição médica

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Conteúdo Atualizado! Revisado e atualizado em 06/10/2026.

Uma prescrição pode estar completa no papel e ainda exigir atenção antes que qualquer medicamento seja preparado. O ponto mais importante não é apenas “entender a letra”, mas conferir se a ordem permite identificar com segurança quem recebe, qual medicamento, quanto, por qual via, em que momento e em quais condições.

Comece pelos dados do paciente

Antes de olhar para o medicamento, confira a identificação do paciente e compare-a com a pulseira, prontuário e demais identificadores adotados pela instituição. A prescrição também deve permitir identificar o medicamento, dose, apresentação ou forma farmacêutica, via, frequência, horários quando aplicável, duração ou condição de uso e identificação do prescritor conforme o sistema utilizado.

Prescrições ilegíveis, incompletas, ambíguas ou com informações que não possam ser confirmadas não devem ser interpretadas por tentativa. A dúvida precisa ser esclarecida antes da administração. O protocolo nacional de segurança recomenda prescrições legíveis, completas e sem abreviaturas ou símbolos que possam favorecer erros.

Como ler cada item

Na prática, a leitura pode seguir uma sequência simples:

  • Medicamento: confira o nome e a apresentação. Atenção especial a medicamentos com nomes semelhantes.
  • Dose: observe o valor e a unidade. mg, g, mcg, mL e UI não são intercambiáveis.
  • Forma farmacêutica: comprimido, solução, suspensão, ampola, frasco-ampola ou outra apresentação podem mudar completamente o preparo.
  • Via: confirme se está prescrita a via correta e se ela é compatível com a apresentação disponível.
  • Frequência e horário: identifique intervalos, horários programados e condições como “se necessário”, observando também os critérios definidos na própria prescrição.
  • Duração ou condição de uso: verifique quando o medicamento deve começar, terminar ou em quais situações deve ser administrado.

Observações: restrições, diluição, velocidade, concentração ou outras orientações devem ser conferidas na prescrição, protocolo institucional e bula profissional quando necessário.

A bula profissional continua sendo uma fonte importante para esclarecer preparo, administração, advertências e outras informações do medicamento, e o Bulário Eletrônico da Anvisa permite consultar versões atualizadas.

Um detalhe que muda tudo no plantão

Imagine uma prescrição de “dipirona 1 g EV se necessário”. Não basta reconhecer o medicamento e separar uma ampola. É preciso verificar se há indicação ou condição definida para o “se necessário”, se o paciente pode receber naquele momento, se a apresentação disponível corresponde à dose e via prescritas e se existem informações clínicas ou alergias que precisam ser consideradas.

É justamente nessa etapa que uma leitura apressada pode transformar uma prescrição aparentemente simples em um erro de administração.

Prescrição não substitui avaliação

A existência de uma prescrição não elimina a necessidade de conferir o paciente antes do medicamento. A enfermagem deve avaliar informações relevantes para aquela administração, como alergias conhecidas, condição clínica, parâmetros que possam interferir na segurança e possíveis inconsistências entre a prescrição e o que está disponível.

Se algo não fizer sentido, a conduta segura é interromper o processo e esclarecer a dúvida. Não é função da enfermagem “adivinhar” o que o prescritor quis escrever.

Um cenário comum ocorre quando o medicamento disponível tem concentração diferente daquela esperada. Em vez de simplesmente adaptar o volume pela aparência da embalagem, a equipe precisa confirmar concentração, dose prescrita, cálculo e orientação institucional antes do preparo. Esse cuidado evita que uma diferença de apresentação vire uma diferença de dose.

E os “certos” da administração?

Os chamados “certos” continuam sendo úteis como barreiras de segurança, mas não devem ser tratados como uma lista que, sozinha, garante uma administração segura. O mais importante é integrar identificação do paciente, medicamento, dose, via, horário, documentação, resposta clínica e demais verificações previstas pelo serviço.

Além disso, a checagem da prescrição faz parte da documentação da assistência. A Resolução Cofen nº 736/2024 estabelece que técnicos e auxiliares participam da implementação dos cuidados e de sua checagem sob supervisão e orientação do enfermeiro, enquanto a documentação do processo inclui a checagem da prescrição e os registros próprios da enfermagem.

Quando não administrar

Se houver dúvida sobre paciente, medicamento, dose, via, horário, alergia, condição clínica ou qualquer informação essencial, não prossiga até esclarecer a inconsistência.

Em vez de usar termos informais como “bolar o medicamento”, o registro deve descrever objetivamente o que ocorreu e o motivo pelo qual a administração não foi realizada, conforme rotina institucional. Se houver recusa do paciente, indisponibilidade, suspensão da prescrição, alteração clínica ou suspeita de erro, isso deve ser comunicado e documentado de maneira adequada.

A segurança também depende da rastreabilidade: o que foi administrado, não administrado ou identificado como inconsistente precisa permanecer claro para a continuidade do cuidado.

Cuidados de enfermagem

Antes de administrar:

  • confira a identificação do paciente e a prescrição;
  • confirme medicamento, dose, apresentação, via e horário;
  • verifique alergias e condições clínicas relevantes;
  • confira cálculos, concentração e diluição quando necessários;
  • consulte protocolo institucional e bula quando houver dúvida;
  • esclareça prescrições ilegíveis, incompletas ou incompatíveis antes do preparo;
  • realize a checagem e registre a administração ou a ocorrência conforme rotina do serviço.

Em prontuários eletrônicos, o registro também precisa preservar rastreabilidade, segurança e sigilo. O Cofen atualmente regulamenta o uso do prontuário eletrônico e reforça a responsabilidade pelo registro das informações necessárias à continuidade e qualidade da assistência.

Para não errar na prática

Uma boa leitura da prescrição pode ser resumida em uma pergunta: “Tenho informação suficiente para administrar este medicamento com segurança?”

Se a resposta for não, pare e esclareça. A pressa para cumprir um horário não deve transformar uma dúvida em uma administração insegura.

Resumo para salvar

Prescrição Médica: Saiba Interpretar sem Erros

  • Confira primeiro a identificação do paciente
  • Leia medicamento dose forma e via com atenção
  • Esclareça qualquer prescrição incompleta ou duvidosa
  • Registre corretamente a administração e as intercorrências

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Atualizado em 23 mar. 2026. Protocolo do Ministério da Saúde
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos. Brasília, DF: Anvisa. Protocolo de Segurança da Anvisa
  3. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Bulário Eletrônico. Brasília, DF: Anvisa. Atualizado em 15 abr. 2026. Bulário Eletrônico da Anvisa
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Resolução Cofen nº 736/2024
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 754, de 16 de maio de 2024. Normatiza o uso do prontuário eletrônico e plataformas digitais no âmbito da Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2024. Resolução Cofen nº 754/2024