
A posição prona, também conhecida como decúbito ventral, é uma estratégia terapêutica amplamente utilizada na assistência a pacientes com insuficiência respiratória grave, especialmente aqueles em ventilação mecânica invasiva. Embora seja uma prática antiga, seu uso ganhou ainda mais destaque nos últimos anos por demonstrar melhora significativa da oxigenação em pacientes com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA).
Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender a posição prona vai além de saber virar o paciente de barriga para baixo. É necessário entender por que essa manobra funciona, quando deve ser indicada, quais riscos ela apresenta e quais cuidados são indispensáveis para garantir a segurança do paciente.
Por que Virar o Paciente? A Fisiologia da Melhora
Para entender o benefício da prona, precisamos visualizar os pulmões dentro da caixa torácica. Quando um paciente está em decúbito dorsal (de costas), o peso do coração, do mediastino e o conteúdo abdominal exercem uma pressão considerável sobre as áreas dorsais (posteriores) do pulmão.
Como a gravidade também puxa o sangue para essas regiões, temos um fenômeno onde as áreas mais irrigadas de sangue são justamente as menos ventiladas, pois os alvéolos estão colapsados pelo peso.
Ao pronar o paciente, invertemos essa lógica. A pressão do coração sobre os pulmões é aliviada, e as áreas dorsais, que costumam ser as mais afetadas por edemas e secreções, conseguem finalmente se expandir. Isso melhora drasticamente a relação ventilação-perfusão (V/Q). Além disso, a posição prona ajuda a drenar secreções das vias aéreas distais para as proximais, facilitando a aspiração e a limpeza do sistema respiratório.
O critério clássico para indicar essa manobra é quando a relação entre a pressão arterial de oxigênio e a fração inspirada de oxigênio (PaO2/FiO2) é inferior a 150 mmHg.
Outras indicações da posição prona
- Pacientes com pneumonia grave, incluindo pneumonia viral e bacteriana;
- Pacientes com SDRA associada à sepse;
- Casos de insuficiência respiratória refratária à oxigenoterapia convencional;
A decisão de iniciar a pronação deve ser multiprofissional, baseada em critérios clínicos, gasometria arterial e estabilidade hemodinâmica do paciente.
Contraindicações e precauções
Embora seja uma técnica eficaz, a posição prona não é isenta de riscos. Algumas situações exigem cautela ou contraindicam sua realização, como instabilidade hemodinâmica grave, fraturas de coluna, aumento da pressão intracraniana, cirurgias abdominais recentes e gestação avançada.
Pacientes obesos, com múltiplos dispositivos invasivos ou com feridas extensas também requerem planejamento rigoroso antes da manobra.
Tempo de permanência em posição prona
De acordo com protocolos clínicos, o paciente pode permanecer em posição prona por períodos prolongados, geralmente entre 12 e 20 horas consecutivas, dependendo da resposta clínica e da tolerância. Após esse tempo, é realizada a despronação (retorno ao decúbito dorsal) para reavaliação da oxigenação.
A repetição da pronação pode ser indicada diariamente enquanto houver benefício clínico comprovado.
A Manobra do Envelope e a Segurança da Equipe
Colocar um paciente crítico em prona é uma operação logística. Não se faz isso sozinho. Geralmente, a equipe é composta por pelo menos cinco ou seis profissionais: um médico ou enfermeiro na cabeceira (responsável por segurar o tubo endotraqueal), dois profissionais em cada lateral do leito e, por vezes, um auxiliar para gerenciar os fios e cateteres.
A técnica mais utilizada é a do “envelope”, onde o paciente é envolvido por lençóis para que possa ser rotacionado com segurança. O ponto crítico aqui é a proteção dos dispositivos. Antes de iniciar a manobra, o enfermeiro deve garantir que todas as extensões de cateteres venosos centrais, linhas arteriais e sondas tenham folga suficiente para não serem tracionadas. Um erro comum é esquecer de esvaziar a bolsa coletora de urina ou de interromper a dieta enteral, o que pode causar acidentes biológicos ou broncoaspiração durante o giro.
Cuidados de enfermagem antes da pronação
O preparo adequado é essencial para evitar complicações. A enfermagem deve garantir:
- Avaliação completa do paciente, incluindo sinais vitais, ventilação, sedação e estabilidade hemodinâmica;
- Fixação segura do tubo orotraqueal, cateteres venosos, sondas e drenos;
- Proteção ocular com lubrificação adequada e fechamento das pálpebras;
- Retirada de objetos que possam causar pressão excessiva;
- Organização da equipe, geralmente com no mínimo quatro a cinco profissionais para realizar a manobra com segurança.
O alinhamento corporal deve ser planejado, utilizando coxins ou travesseiros para proteger proeminências ósseas como joelhos, cristas ilíacas, ombros e face.
Diferente do decúbito dorsal, a prona coloca pressão em áreas atípicas e sensíveis: o rosto (zigomáticos), o tórax, os joelhos e as cristas ilíacas.
A Posição do Nadador é a estratégia padrão para mitigar esses riscos. Nela, alternamos o braço que fica elevado e a direção da face do paciente a cada duas ou três horas. Isso evita lesões por pressão nas orelhas e no rosto, além de prevenir lesões no plexo braquial — um conjunto de nervos que, se esticado demais por muito tempo, pode causar paralisia permanente do braço.
O cuidado com os olhos é outra prioridade absoluta. Pacientes sedados e em prona perdem o reflexo de piscar e podem sofrer dessecação da córnea ou edema conjuntival severo (quemose). A enfermagem deve garantir que os olhos estejam bem fechados, lubrificados com colírios ou pomadas prescritas e protegidos com curativos oclusivos que não exerçam pressão direta sobre o globo ocular.
Cuidados de enfermagem durante a posição prona
Durante a permanência em posição prona, a vigilância deve ser contínua. É necessário monitorar:
- Saturação de oxigênio e parâmetros ventilatórios;
- Pressão arterial, frequência cardíaca e perfusão periférica;
- Integridade da pele, principalmente em face, tórax, joelhos e genitais;
- Posicionamento do tubo orotraqueal e permeabilidade das vias aéreas;
- Presença de secreções respiratórias e necessidade de aspiração.
Mudanças sutis na posição da cabeça e dos membros devem ser realizadas periodicamente para prevenir lesões por pressão e neuropatias compressivas.
Cuidados de enfermagem após a despronação
Ao retornar o paciente para decúbito dorsal, é fundamental reavaliar a oxigenação, o padrão respiratório e a estabilidade hemodinâmica. A enfermagem deve observar possíveis edemas faciais, alterações na pele e desconforto respiratório.
A documentação adequada do procedimento é parte essencial da assistência, incluindo horário de início e término da pronação, resposta clínica e intercorrências.
Monitorização e Nutrição em Prona
Muitos estudantes se perguntam se é possível alimentar um paciente de barriga para baixo. A resposta é sim, mas com cautela. A nutrição enteral costuma ser mantida, porém com volumes menores e monitorização constante do resíduo gástrico. A cabeceira do leito deve ser mantida em Trendelenburg reverso (cabeça mais alta que os pés) em cerca de 15º a 30º graus para reduzir o risco de refluxo e edema facial.
No que diz respeito à monitorização hemodinâmica, a posição dos eletrodos do ECG precisa ser adaptada para o dorso do paciente. É vital lembrar que, caso ocorra uma parada cardiorrespiratória em prona, as manobras de compressão torácica podem ser iniciadas no dorso enquanto a equipe se prepara para retornar o paciente à posição supina, conforme as diretrizes mais recentes de suporte avançado de vida.
Principais complicações associadas à posição prona
Apesar dos benefícios, algumas complicações podem ocorrer, como lesões por pressão, deslocamento acidental de tubos e cateteres, edema facial, lesões oculares, broncoaspiração e alterações hemodinâmicas.
Esses riscos reforçam a importância de protocolos institucionais bem definidos e da atuação cuidadosa da equipe de enfermagem.
Importância da posição prona na prática da enfermagem
A posição prona representa uma intervenção que exige conhecimento técnico, trabalho em equipe e vigilância constante. Para a enfermagem, trata-se de um cuidado altamente especializado, que integra aspectos fisiológicos, mecânicos e humanos do cuidado intensivo.
Quando aplicada corretamente, essa estratégia pode reduzir mortalidade, melhorar a oxigenação e contribuir para uma evolução clínica mais favorável do paciente crítico.
A posição prona é uma técnica essencial no manejo da insuficiência respiratória grave, especialmente em pacientes com SDRA. Seu sucesso depende do entendimento dos seus fundamentos fisiológicos, da correta indicação e, principalmente, da qualidade dos cuidados de enfermagem prestados antes, durante e após a manobra.
O conhecimento sobre essa prática fortalece a segurança do paciente e valoriza o papel da enfermagem como protagonista no cuidado intensivo.
Referências:
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